Caminho pelo cemitério

Que o túmulo de Maria Bueno esteja rodeado por placas de agradecimento é coisa que eu já esperava. Acontece em muitas cidades: uma jovem é morta na flor da idade e desde então milagres começam a ser atribuídos a ela. Maria Bueno é a santinha de Curitiba, assim como Olga Tavares é a de Taubaté, ou Julieta Chaves é a de Sorocaba. Ergue-se uma capela no túmulo e o local passa a receber a visita de peregrinos. Entre os que recebem uma graça, alguns se lembram de agradecer. E mandam fazer uma placa, para que o milagre não seja esquecido.

Tudo isso eu já esperava quando visitei (turista estranho que sou) o cemitério de Curitiba. O que realmente me espantou estava a algumas fileiras de distância, no túmulo do Barão do Serro Azul. Ora, antes de ser uma rua, o Barão do Serro Azul foi um importante político e empresário paranaense, tido como o maior produtor de erva-mate do mundo. Morreu executado, em meio às estripulias da Revolução Federalista. Curiosamente, seus restos não estão no túmulo a ele dedicado. Mas lá está uma plaquinha, em agradecimento por uma graça concedida.

Enquanto caminho pelo cemitério, dou-me conta do motivo para que ele seja objeto de visitação turística: evidentemente, houve em tempos passados uma competição para ver quem passava a eternidade melhor acomodado. O resultado são jazigos enormes e suntuosos, verdadeiros monumentos nos quais só falta uma cascata artificial com filhote de jacaré. Se Lázaro estivesse enterrado ali, Jesus diria “removam a pedra” – e os homens levariam dias.

No túmulo de um faraó, encontro homens retocando a pintura da enorme pirâmide que lhe serve de torre. Ouvem rádio, cantam e assobiam – Memento mori, eu lhes diria. No resto do cemitério só se ouve o vento – o vento e o sinistro balançar dos puxadores de gaveta em cada túmulo. Aproveito a sombra de um grande mausoléu para descansar. Mexo no celular e descubro que existe sinal wi-fi no meio do cemitério. Morto sim; desconectado, jamais.

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2 respostas para “Caminho pelo cemitério

  • Oliveira Neto

    No cemitério Santa Isabel, em Belém, há muitos tumúlos onde esses santos são cultuados. São tantos que o fenômeno já foi motivo de tese acadêmica.

  • Reinaldo Glioche

    O mundo dentro do cemitério é sempre um foco de interesse. Mas o seu olhar sobre este em especial torna tudo mais premente. A atenção ao sinal Wi-fi fecha o texto com a devida perspicácia.
    Abs

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