De sempre ir indo

big-cat-small-cat-whiskas-5

Eu queria sempre um consolo e essas coisas tendem a sumir com o tempo. Parece que quanto mais idade, mais experiência de mundo, menos você precisa de colo, de ombro, de palavras de incentivo. Quanto mais desbravador a gente se mostra menos importante fazemos parecer as decepções. Todo mundo olha com tanta certeza da recuperação certa que ninguém procura mais estender a mão. Consolar alguém assim, tão a frente, tão independente, seria uma confissão de que afinal não há muita esperança de que tudo possa ir sempre bem. Os fortes sobrevivem, a custa de falsos suportes para se manterem de pé. E na fragilidade da vida ninguém quer acreditar. Não fomos ensinados a tal, afinal.
Há que um dia haver colos por telefone, como daqueles números de prevenção ao suicídio que os candidatos a suicidas podem ligar. Anonimato claro, de quem fala e de quem ouve para que a vida continue sem perturbar a ilusão de força que os grandes exercem sobre os pequenos.

…e tá aqui o meu cartão! (Bia Bernardi)

Quando me apresentavam uma pessoa, sempre prestava atenção no jeito de conversar, de olhar ao redor, de falar sobre o que a interessava ou não, mas eu observava, principalmente, os cartões de visita que carregava consigo. Não era nada fácil levantar informações, porque nem todo mundo abre a carteira descaradamente na hora de efetuar um pagamento e meus olhos não poderia ser tão diretos para que não pensassem mal de mim.

Era pelos cartões que eu sabia do que a pessoa gostava, onde frequentava, que religião, time, profissão e até preferência sexual. E assim me relacionava, estabelecendo proximidade ou não dependendo diretamente daquilo que eu observava.

Sempre preferi evitar ir adiante num relacionamento com mulheres que carregassem o cartão do psicólogo na bolsa. Na maioria das vezes, eram deprimidas e deprimentes, porque choravam, gritavam e por tudo e qualquer coisa ligavam pro bendito médico para marcar uma consulta de emergência. Uma até ameaçou suicídio e aí quem teve que ligar pro cara fui eu.

O mesmo era para possíveis parceiros de trabalho. Preferia os que tinham cartões de repórteres ou engenheiros, porque eles sempre estavam atentos ao mercado e às oportunidades de negócios. Passei a evitar os que carregavam cartões de associações de futebol ou escola de samba porque na segunda-feira sempre havia uma desculpa e davam cano no serviço.

Para os amigos a coisa era um pouco menos seletiva. Gostava de quando via cartão de tarólogo, massoterapeuta e afins porque sempre tirava um atendimento gratuito pra mim. Os amigos de cartões de buffet, restaurantes e rotisseries eram sempre muito bem-vindos, e costumava priorizar minha agenda para acompanhá-los em testes de cardápio de casamento. Os que tinham cartões de agência de viagens, então, eram os meus preferidos: o desconto no pacote era garantido!

Daqueles que tinham muitos cartões de médicos e drogarias, eu mantinha uma relação amena, nem muito próxima,mas também não muito distante. Era preciso estar por perto na hora da necessidade da indicação de um especialista que fosse bom, mas longe nas crises de hipocondria.

Uma vez fui apresentado a uma moça e me apaixonei de imediato, assim que vi sua carteira vazia, sem nem mesmo conter cartão de banco ou convênio médico. Era como se ela estivesse interessada em conhecer o mundo inteiro, adoraria museus, estádios, cemitérios e shows de ópera. Nem agnóstica, nem carola, a conversa seria consistente e descontraída, levada por horas e horas. Essa era a mulher ideal, não havia dúvidas e…

– Vou deixar meu cartão contigo, Olimpia, e aí quando precisar é só ligar.

– Ah, não precisa… eu te acho no facebook depois, não gosto de cartões de visita, soam superficiais, não acha?

E foi uma pena ver Olimpia ser desintegrada naquele mesmo minuto, apagada instantaneamente da minha memória após dizer aquela frase fatídica. Ela tinha tanto futuro, pobrezinha…

Bia Bernardi

Pés e chinelos

Por que não é permitido aos homens ir ao trabalho de chinelo? – joguei a pergunta no ar. E não tanto porque desejasse andar de havaianas em horário comercial, mas por simples curiosidade mesmo. Tenho visto muitas mulheres irem trabalhar dessa maneira e me ocorreu que isso nunca acontecia com os homens – ao contrário, eles estão sempre com os pés bem escondidos. Joguei então a pergunta no ar: por que não é permitido aos homens ir ao trabalho de chinelo?

“Porque é feio”, responderam – um homem, evidentemente. De fato, o pé, e sobretudo o pé de um homem, não é exatamente o tipo de coisa que me agrada olhar, e se me pedissem para escolher quais pés devem ser exibidos durante o expediente, é bastante provável que eu votasse nos pés femininos mesmo. Outra opinião – a de uma mulher – foi a de que eu devia fazer por merecer exibir os meus pezinhos por aí. Porque, segundo ela, não é apenas vestir um chinelinho e pronto: antes, é preciso sacrificar alguns sábados cuidando deles. Há um preço a ser pago – e eu, na minha ingenuidade, acreditava que bastava ao chinelo ser mais confortável que o sapato.

Agora já me parece claro que apenas o pé bonito tem direito de ser mostrado. Mas as pessoas estão partindo da premissa de que meus pés são naturalmente feios. E, ao que me consta, ninguém até hoje se deteve sobre eles para avaliar se estão mesmo fora de qualquer padrão de beleza. É até possível que os meus pés sejam lindíssimos e eu não esteja sabendo, já que não é dado aos outros a oportunidade de contemplá-los. Se os visse, era até capaz do José de Alencar fazer uma nova versão para “A pata da gazela” – há de tudo neste mundo. Jamais saberei, condenado que estou a suportar os intermináveis verões de Brasília em calçados pouco confortáveis.

O chinelo é mais uma das boas invenções que sacrificamos para resguardar a nossa aparência – ou, o que é pior, a aparência de uma empresa. Bem aventurados são os apresentadores de telejornais, que nunca são vistos da cintura para baixo.

Em tempos de ciclovias

http://www.santos.sp.gov.br/conheca-santos/ciclovias-da-cidade
fonte: http://www.santos.sp.gov.br/conheca-santos/ciclovias-da-cidade

A prefeitura de Santos está investindo em ciclovias. Uma parte das principais avenidas da cidade já conta com faixas dedicadas exclusivamente às magrelas. Houve até campanha e publicidade. Slogan: “Santos – a cidade amiga das bicicletas”, e os piadistas complementam: “e inimiga dos pedestres”. Curiosa essa relação de amor e ódio que nasce no trânsito. Amigo dos carros, inimigo das motos. Amigo das bicicletas, inimigo dos pedestres. Se minha bicicleta está quebrada, e me torno amigo dos pedestres, as bicicletas dos outros – não a minha – serão minhas inimigas. E por aí vai, na mais pura realidade.

Um dos objetivos da ciclovia é estimular as pessoas a trocarem, em determinadas situações, seus automóveis pelas bicicletas – fenômeno que ainda não testemunhei em Santos, nem mesmo no Dia Mundial Sem Carro, idealizado na França. Se esperarmos o exemplo dos políticos, que criam as ciclovias e incentivam a população a utilizá-las, não largaremos os carros jamais. Eu, particularmente, só encontrei quem abraçasse a ideia em matéria de telejornal.

É verdade que nas avenidas onde há ciclovia, as bicicletas aliviam sobremaneira as faixas de rolamento. No entanto, como tenho o hábito de caminhar a pé, constatei que na prática houve apenas um deslocamento dos ciclistas, posto que o comportamento quase não se alterou. Embora haja semáforos nas ciclovias, para que os pedestres atravessem a rua, a sinalização é sumariamente ignorada pela maioria dos ciclistas. Já presenciei muitos sinistros nas ciclovias, como choques frontais, traseiros e laterais entre bicicletas, além de atropelamentos de pedestres. Se você caminha na orla, de quando em quando escutará da boca dos ciclistas os mesmos xingamentos dos motoristas. O estresse está no veículo ou no espírito da coisa?

Tive a oportunidade de caminhar alguns dias em Viena, a cidade mais “ciclilizada” que conheci. Sofri um choque tremendo. No último dia ainda não havia me acostumado, reclamando constantemente das regalias conferidas aos ciclistas. Se um pedestre é atropelado na ciclovia, ele sentirá no corpo e no bolso as dores da imprudência – a multa é impiedosa. Sempre alerta, fui um verdadeiro escoteiro em Viena, livrando inúmeros turistas do infortúnio. Impossível não lembrar a figura cômica do velhinho japonês: estático no meio da ciclovia e erguendo um mapa que lhe tapava a visão. Sem a mínima delicadeza, arranquei-o do perigo. Foi por um tris. Os ciclistas buzinam, jogam luzes e desaceleram, mas não param. Quando julguei que deixaria Viena com uma sensação inédita de revolta contra as bicicletas, a Áustria me provou que é um país justo. Estava eu flanando num boulevard quando uma bicicleta assoma abruptamente de uma esquina e vem na minha direção. Como num filme, um guarda, com um ar de serena autoridade, estica o braço e breca o ciclista com a mão espalmada no seu peito. Aplicou-se a multa e fui embora de Viena curtindo uma estranha vingança.

Da minha parte, desloco-me bastante a pé. Mas quando a distância é grande, nada posso fazer em relação à campanha em prol das ciclovias. Por problemas de coluna, tenho contraindicação médica para bicicletas. E quando meu carro está na oficina, vou de táxi.

Exumação de si mesmo

Hoje eu publicaria um texto sobre o imbróglio vivido no rap americano causado pelo sucesso da rapper Iggy Azalea. Publicaria. Mas o futuro do pretérito calça bem um texto enrijecido, ensimesmado e fruto de um olhar fixo para um juntado de ossos.  Hoje, e rompo alguns limites impostos sobre exposição com essa confissão, exumei os ossos de minha mãe. Não seria o caso de chamar restos mortais? Creio que não. Eram ossos em estágio intermediário de decomposição. O motivo para a exumação é que eles serão transportados para um jazigo familiar. Essa aquisição tão estranha quanto a vida em si.

Não é a primeira vez que escrevo sobre ossos aqui. Não pretendia essa segunda inflexão. Ela apenas veio. Mas voltando aos ossos da vez, o coveiro a quem assistia cavar e cavar com gentileza respeitosa ao buscar os ossos em meio a terra e baratas, me filosofou: “É… do pó viemos e ao pó voltemos (SIC)”.

Não intenciono fazer uma reflexão sobre a vida, ou mesmo a morte, pelo tom que esse texto vai assumindo; mas apenas narrar essa singela cena que comigo permanecerá por muitos e muitos anos. Não há nada de notável nela e talvez eu pudesse adensá-la com alguma emoção ou sentimento. Não que a comoção não tenha me visitado. Mas a sobriedade ganha um peso mais dramático, desesperançoso e insignificante quando se fixa os ossos de sua mãe nove anos e meio após a morte dela. Questões existenciais de toda sorte se inferiorizam diante da verdade em frente aos seus olhos. Ela é apenas uma, irrevogável e inexorável.

Burocratas sem lei

Imagem:  Riccardo Romano (https://www.flickr.com/photos/pixx0ne/)
Imagem: Riccardo Romano (https://www.flickr.com/photos/pixx0ne/)

Está escrito, moça! É meu direito. É lei.

Mas aqui é outra lei. Quem rege a gente é outra agência: a Artesp.

Mas está no Código do Consumidor!

Só que a compra foi feita pela internet, então, não podemos trocar sua passagem, não senhora.

É nessa hora que lembro que a carteira de identidade ficou em casa. Guardada num envelope numa gaveta de acessórios eletrônicos que não têm mais serventia.

A razão, que era minha, estava refém. Ganhasse eu a batalha, viria outra: como viajar sem apresentar o documento. Quem garantiria que aquela brigona com o voucher na mão era a mesma cidadã que comprou a passagem? Mea culpa. Ou não.

In dubio pro reu, certo? Não nessa estória. A verdade é que os burocratas todos são inimputáveis. Pense que na véspera do ocorrido, outra pessoa, um servidor público, colocou todos os documentos a minha revelia em um envelope pardo. Pessoa esta que exigiu a apresentação dos originais da certidão de nascimento a de óbito , apenas para que ela mesma tirasse cópias – numa amostra perfeita do rigor insondável dos processos à brasileira. Disso, o caos se produziu até chocar-se com o pé de boi seguinte.

Pessoas como eu não têm toque. Têm é a cabeça cheia de coisas outras. Mais ou menos importantes, não importa, apenas conste que são outras. Estratégia, strateegia, strategi, stratégie, senhores; estão anotando? Tudo deve ser reposto no seu lugar. Sempre. Identidade na carteira. CPF e título de eleitor na mesma capinha plástica. Diploma original mantido em segurança em lugar confidencial – em trânsito apenas cópias. Bilhete único no bolso direito da mochila. Note o equilíbrio sutil.

Na mochila, nem um documento com foto.  E os burocratas do outro lado do balcão confundindo internet com Velho Oeste. Comprou na internet, não pode trocar a passagem alegavam.  Respirei fundo. Vou procurar o Procon, prometi.  Respiraram eles também: aquela não embarcava sem pagar. E iria incomodar em outros níveis, se é que iria.

De um burocrata ao outro. O fundo do poço.

EsQuadro

revolto

Ela ouviu o vento gritar do alto do rochedo, sob nuvens negras. O mar, enlouquecido, lambia a pedra com fúria, tentando apagar a dor pela dor. Ao longe os raios iluminavam os destroços que o fogo deixou. Suas tranças claras e suas lágrimas frias se uniam para adiar a entrega do corpo sem vida.
Seu escudo não parou o tempo, sua espada não feriu a chuva. A armadura foi como vidro, partido pelas mãos do destino. Os olhos, na agonia da despedida, vidrados na morte que sorria, com medo e espanto ao pressentir que se fechavam prometeram voltar do outro mundo para lhe dar o abraço de adeus.
Ela ouviu o vento gritar do alto do rochedo, sob nuvens negras. Soltou o corpo frágil e deixou-se cair no mar, enlouquecido, que afinal se calou.

Quem vai pra panela? (Bia Bernardi)

Escolher feijão é uma das atitudes mais preconceituosas que eu já pude presenciar.

Quem já o fez sabe do que estou falando e entenderá meu levante. Donas de casa, manifestem-se!, e todos saberão que o que digo é a mais pura demonstração de ataque ao bem estar social de um dos grandes protagonistas da cozinha.

Quando o saco de feijão é aberto e os grãos espalhados pela mesa, entramos numa espécie de túnel do tempo, passando por praticamente todos os momentos históricos de discriminação, sejam eles declarados ou não, tanto do Brasil como do mundo.

A primeira coisa que se vê é o reich alemão na ativa, dividindo a população dicotiledônica em dois tipos: aqueles que são considerados, por uma instância superior, como bons ou ruins. Os que são julgados como bons são levados à panela, local honroso, de elite, de merecido respeito; já os que são considerados ruins, vão para os campos de concentração, isto é, para o lixo mesmo, sem dó nem piedade, como quando levavam os judeus para a camara de gás.

Depois vemos claramente a ação de apartheid: só fica quem é carioquinha. Se for fradinho, de corda, preto, bolinha, branco, jalo, tá fora! E tem quem justifique o separatismo dizendo que altera o sabor. Já vi até quem usasse a desculpa de que dá azar, que estraga rápido, que não cozinha, que engasga… Um blablablá atrás do outro.

E a coisa vai tão longe, que mesmo com aqueles que poderiam bem “dar um caldo”, com o perdão do trocadilho, são excluídos, rechaçados, estigmatizados pelo pré-conceito de invalidez: os quebrados, os tortinhos, amassados, os pequenos demais, os grandes demais, os finos, os furados… Isso sem falar nos estragadinhos, esses é que não tem vez mesmo!

Claro que, se voltarmos a pensar que são apenas feijões e que a nossa saúde depende da qualidade deles, os estragados são os únicos que realmente deveriam ficar de fora, mas apenas por uma questão sanitária. Os demais, não. Jogar fora alimento que está em condições de ser ingerido não é a melhor política. Nem dentro nem fora da cozinha.

Metáforas à parte, ao menos uma vantagem e uma reflexão importante nós podemos tirar dessa pequena crônica sócio-gastronômica: é nas pequenas atitudes do dia-a-dia, muitas vezes despercebidas por nós, que se escondem ações de grandes impacto. Às vezes positivo, às vezes negativo. Mas aí já é um outro assunto.

Bia Bernardi

Lá das alturas

Ainda estamos no chão, mas em movimento, vivendo aqueles demorados instantes em que o avião se dirige à pista de decolagem. Distraímos-nos assistindo a televisão, pois também aqui elas já chegaram, e já não há muito lugar onde uma pessoa se obrigue a pensar na própria vida. O comandante avisa que a decolagem foi autorizada e nós aceleramos loucamente. Sinto o exato momento em que deixamos o solo. Hesito, mas por fim olho para fora e vejo a cidade se afastar. Súbito, o piloto faz uma curva, coloca o avião na direção correta. Não é nada agradável voar inclinado e, para compensar o desconforto, eu inclino o meu próprio corpo para o lado oposto, manobra que exige certo cuidado, pois não me agradaria cair em cima do meu vizinho de poltrona.

Há um canal na TV que mostra o mapa de vôo. Os números assustam: 800 km/h, 11 km de altura. Vejo uma cidade lá embaixo e tento identificá-la, mas é tudo pequeno demais. Quando aparece algo realmente grande, eu nem preciso olhar no mapa para saber que é São Paulo. Ali de cima essa grandeza é tão insignificante que eu fiquei a imaginar qual é a visão que Deus tem de nós lá do céu. Como somos minúsculos! Vivemos correndo para lá e para cá, cheios de problemas fundamentais, sedentos por competição, ansiosos para que as nossas vontades triunfem, e no fim das contas não passamos de um rastro lá embaixo, que Deus só consegue enxergar porque realmente é Deus. E no meio dessa insignificância toda, no irrisório quadradinho que nos coube viver, em uma pequena e rara porção de terra, ousamos reivindicar coisas a este Deus, apresentar nossas complicadas questões, e por vezes, oh glória, chegamos até a ser atendidos.

Muita coisa boa eu não entendo. Não sei como esse negócio voa (tinha tudo para não voar). Isso daqui é loucura, é muita pretensão para ser humano e, no entanto, na imensa maioria das vezes, dá certo! Tenho sempre a sensação de milagre – a condescendência, a tolerância divina, que permite uma experiência tão inusitada como voar.

Reforma no calendário dos feriados

Hoje é feriado oficial na cidade de Santos e em aproximadamente um sexto dos municípios brasileiros. E como em todo feriado o povo dedica o tempo livre que lhe é imposto para refletir e debater sobre determinada causa, hoje é o dia em que os santistas irão se voltar – ainda que abra sol e dê praia -, à importante questão da raça negra em nosso país.

O “Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra” não consta nem como ponto facultativo no calendário oficial da União. No entanto, a partir de 2015, fatalmente teremos uma novidade. O projeto de lei que transforma o dia 20 de novembro em feriado nacional foi aprovado semana passada pela Comissão de Cultura da Câmara, e, como tramita em caráter conclusivo, não há obrigatoriedade de aprovação em plenário.

O cronista que vos escreve é a favor deste projeto de lei, o que certamente desencadeará críticas mordazes daqueles que não suportam mais a grande quantidade de feriados – nacionais, estaduais e municipais – que brecam a nação e contribuem para diminuir o PIB e o superávit primário.

E mais, dependesse de mim, o “Dia do Índio” também seria feriado nacional. O índio, juntamente com o negro, detém crucial importância na formação da cultura e da identidade do Brasil – assim como todos os povos que emigraram voluntariamente. Sabemos que seria inviável o “Dia do Alemão”, “Dia do Japonês”, “Dia do Armênio”, “Dia do Lituano”, “Dia do Árabe”, etc., por isso sou favorável ao “Dia do Imigrante”, o que nos concederia o tempo de mais um dia para nos dedicarmos ao entendimento das complexas raízes de uma pátria tão heterogênea.

Em contrapartida – ainda que numa linha de raciocínio polêmica, mas lógica -, sou a favor da extinção de todos os feriados cristãos e dos santos padroeiros. Não sou suspeito porque sou um cristão praticante. Mas o Estado é laico, e, vale saber, por mais incrível que pareça nem todas as doutrinas cristãs partilham, por exemplo, da comemoração do Natal. No meu projeto, todos esses feriados seriam concentrados no “Dia Nacional da Religiosidade”, tempo dedicado não ao consumismo, mas ao mergulho nos conceitos de fé, espiritualidade e tolerância. O objetivo da ousada ideia é não segregar, mas agregar todas as crenças – inclusive os descrentes, que, segundo alguns estudiosos, têm o seu modo particular de religião.

Quanto ao destino que eu daria aos demais feriados, nenhuma importância há para esta crônica. De nada valeria comentar a abolição do “7 de setembro” e do “Dia de Finados”, a manutenção do “Dia da Proclamação da República” e “Tiradentes”, e muito menos o deslocamento do “Carnaval” para a primeira terça-feira do ano. O essencial já foi dito e engana-se quem pensa que o desejo do cronista é polemizar. O leitor arguto já deve ter percebido que, no fundo, a reforma dos feriados é algo meramente secundário.

O último paradoxo de “Two and a half men”

Two and a half

Confesso que já não assisto “Two and a half men” há um bom tempo. Mesmo antes da litigiosa e barulhenta saída de Charlie Sheen do show eu já o havia abandonado. Mas confesso, também, que como órfão de “Friends” assisti frenética e copiosamente o programa em seus primeiros anos. Surgia uma sitcom, essa espécie em franca extinção, radicalmente distinta de “Friends”, mas com o mesmo frescor e vocação para o riso bem provocado. Não era essa a série que Sheen deixou para Ashton Kutcher em meio a todo àquele imbróglio que dispensa (re) apresentações.

Flagro-me aqui considerando assistir, ainda que ocasionalmente, essa 12ª e última temporada do programa. Não por um acesso de nostalgia, mas instigado por uma reviravolta improvável para um programa que já protagonizou considerável cota de reviravoltas improváveis (como trocar o protagonista e manter-se no ar por mais quatro temporadas).

“Two and a half men”, para quem não sabe, viu crescer ano após ano a escalada de piadas sujas, preconceituosas, misóginas e de toda a sorte de conotação sexual. Uma das marcas do programa, que persistiu mesmo após a saída de Sheen, é seu machismo convicto. É um programa, afinal, para heterossexuais bem resolvidos. Ou mal resolvidos, dependendo do lado da semântica e da correção política que se pretende ficar.

Acontece que depois de inserir uma personagem “extremamente lésbica”, nas palavras do produtor Chuck Lorre, para substituir Jake (Angus T. Jones) – outro dos protagonistas a deixar a série, “Two and a half men” tem como mote neste seu ano final a união entre Walden (Kutcher) e Alan (Jon Cryer). Explica-se. Eles que já moram juntos e são relativamente fracassados no que tange à conquista de mulheres, resolvem se casar para que Walden possa realizar o sonho de ter um filho. É que casado, ainda que com uma pessoa do mesmo sexo, a adoção torna-se mais palpável do que para um homem solteiro.

Fãs têm se mostrado desapontados com essa nova e inesperada guinada da série. O último ano se focará justamente sobre essa plataforma LGBT, o que para uma série que se consolidou com piadas machistas, misóginas e de todo tipo de preconceito é algo realmente notável. Mas não é uma reinvenção inédita. Lorre foi esperto ao promover um interesse, por meio desse choque de conceitos, no último ano da série. Não deixa de ser uma despedida significativa para um show com reputação tão contestável a incumbência assumida de pregar a tolerância. Além do mais, colocar dois heterossexuais para fingirem ser um casal gay em busca de adoção é um aceno a um cenário pós-gay, já que no mundo de hoje, por mais socialmente avançado que esteja, isso ainda é algo difícil de acontecer.

Além do mais, há o fator do mea-culpa. É como se “Two and a half men” abraçasse o paradoxo como se dele precisasse para transcender em significado. Há de se respeitar uma série que nem sempre foi boa, mas soube se colocar como pauta. No concorrido mundo do show business, muitas vezes isso é tudo o que importa.

Dias difíceis

Quase sempre me pergunto: quando é mais fácil escreve, nos momentos ruins ou nos bons momentos? Já fizeram essa pergunta algumas vezes. Por vezes respondi as mesmas coisas, algo tão vago quanto a pergunta. “Olhas às vezes é mais fácil escrever quando as coisas estão complicadas, mas quando estão fáceis também é bom”. Nunca me preocupei em saber do meu interlocutor se aquilo o convencia ou não. De nada valeria sua resposta, pois eu jamais acreditaria numa afirmação da qual provinha de uma tese confusa.

Pois bem. Paro defronte essa máquina e me faço essa pergunta. Oras, hoje está um dia difícil, dentro de um mês difícil, que é agraciado com horas difíceis e não está fácil para discorrer sobre um tema, por quê? Esse pergunta me induz ao veredito de que os dias difíceis são mais complicados para se escrever.

Não deveria ser. Pois tudo o que nos angustia também nos faz refletir sobre os caminhos que devemos tomar. Essa afirmação parte de alguém que tenta ser otimista por mais que a situação indique ao pessimismo completo. Tudo pode parecer um auto-ajuda de feira religiosa em rodoviária, mas se olharmos par ao mundo não será difícil buscar esse tipo de auto-pé-na-bunda para dar um passo à frente.

Hoje, logo pela manhã, visito os sites de notícias e vejo novas manifestações pedindo a anulação das eleições. Essas teorias golpistas tendem a ganhar força ao término dos processos eleitorais, sempre alimentadas pelos derrotados. Já ofereci banquetes em outros tempos. E, me parece, que quanto mais tempo e maior o número de derrotas de um grupo político, mais a sua incapacidade de admitir a derrota. Porém, além “chororo derrotista”, vemos nas ruas pessoas levantando faixas pedindo uma nova intervenção militar no Brasil para que ocorra a derrubada do Governo democrático. Pior que as faixas, são os discursos e as declarações em redes sociais das pessoas que fazem a defesa dessas medidas.

São tempos difíceis. Eu que achava que a geração que está no meio da formação do ensino médio, ou aqueles que somam a massa do ensino fundamental, seriam os integrantes do que chamo de “geração perdido” do ensino escolar, vejo nos defensores do regime militar pessoas das gerações anteriores. Como pode? Quem são esses professores que deixaram de falar das barbáries ocorridas no período militar? Ou será que as essas pessoas, ensandecidas pelo ódio da derrota, buscam uma virada de mesa a dar inveja à CBF?

Não queria enveredar por essa possibilidade da crônica. Meu senso de humor deve estar de folga. Também não pretendo estender sobre esse assunto, pois quanto mais se falar dele, mas os “i-responsáveis” que organizam vão contar vitória da mobilização que ganha corpo, e forma, e conteúdo, e espaço nas ruas como proposta de mudança e conscientização. Não, não quero isso! Pois não estamos enfrentando o debate, estamos enfrentando a cegueira. No pior estilo da Revolução dos Bichos, de George Orwell.

Dias ruins não são bons para crônicas. Nosso fígado falar mais alto e perturba a organização do conteúdo. Pelo menos para mim. Pretendo retornar ao bom da vida nas próximas semanas. Sei que há coisas para compartilhar que nos remete a reflexão e que serve de combustível. É por isso que vou atrás dessa fórmula. No melhor estilo me auto-ajudo. É isso!

Do bem (ou mal) de ser dona do próprio nariz

countingstars

 – Não precisa não menino, deixa que eu carrego sozinha!
– Gente, mas nem venha me buscar não, descubro onde é, chego já!
– Já fiz, dei meu jeito, mas agradeço assim mesmo, viu?
– Homem, dê isso aqui, eu conserto para você!
– Eu? Não sei não, amanhã já devo estar em outro lugar, nem precisa preocupar que sei andar sozinha tem tempo…
– Ah, sim, mas resolvi ontem mesmo, estava lá, meio que a toa, daí eu fui e fiz!

***

– Menina, mas tem alguma coisa que eu posso fazer por você? Nunca vi independência tamanha, será que eu tenho utilidade? Ele pergunta, meio que em tom de brincadeira…

***

Daí ela pára e pensa… toma um puxão de orelha da delicadeza feminina e olhando aquele rosto sincero e iluminado começa a sentir o comichão do desejo de parar de andar sempre em frente e se deter, ainda que por pouco tempo…
– Pode sim! – diz sorrindo – Senta aqui do meu lado e me ajuda a contar estrelas… Não consigo fazer isso só, não!

A gente se acostuma… (Bia Bernardi)

O ser humano é mesmo um bicho bem esquisito… Às vezes me pego pensando em quão maravilhosas são as nossas interferência no mundo: aviões, prédios, celulares, pontes, vacinas, aparelhos eletrônicos… Logo depois, vejo quão desastrosas elas se tornaram. Nós somos tão inteligentes que fomos capazes de desenvolver tecnologias avançadíssimas dentro do meio nuclear, por exemplo, que seriam capazes de devastar cidades inteiras e explodir o mundo inteiro num só clique, mas ao mesmo tempo não somos capazes de simplesmente entrar em acordo com nossos próximos, pra que nunca fosse realmente necessário utilizar essa tecnologia para fins de guerra. Seria tão mais simples! Um mundo mais tranquilo, menos arrogante e pretensioso! Mas a gente já está tão acostumado a viver numa constante briga de valores e interesses que mal se dá conta disso.

Nós também passamos a provocar terremotos, tsunamis em lugares que nunca antes haviam sofrido com esse tipo de catástrofe, mudamos a temperatura do planeta a ponto de derreter as enormes geleiras, destruimos a nossa camada natural de proteção – o ozônio –, transformamos as fontes renováveis em escassas e tudo isso para quê? Para que finalmente aprendessemos a cuidar da natureza como uma fonte limitada de recursos, reciclando as toneladas de lixo que produzimos diariamente, ensinando nossos filhos a pensar conscientemente em suas atitudes e para que pudessemos corrigir os estragos feitos até então. Ah, se a ganância tivesse sido menor! Um planeta mais limpo, mais saudável… Mas a gente ainda acaba se acostumando a utilizar as sacolas retornáveis no mercado e, hora mais, hora menos, vamos decorar as cores de cada lata de coleta reciclável.

Mas, veja só, nós, aqui, os brasileiros, nós começamos até que bem: em quinhentos anos, passamos por invasões de toda a sorte de europeu – e expulsamos cada um deles -, decretamos independência, quebramos com o regime de escravidão, instalamos a república, vivemos um golpe de estado que movimentou toda a nação em prol do próprio país e inclusive já reformamos a nossa constituição! Quem vê até pensa que sabemos lidar com essas coisas da política. Mas tudo isso é mesmo só pra inglês ver, porque brasileiro, na verdade, já se acostumou a ver um país que é tão novo, tão criança em sua parca democracia, com uma longa história de corrupção nas costas. É tanto escândalo que não temos mais idéia de nome para dar a eles: dos precatórios, da cueca, do mensalinho, mensalão… E não tem quem escape: é político, é empresário, professor, bicheiro, pastor, artista e até o zé-ninguém consegue seus minutos de fama e seus milhões na conta bancária. E brasileiro já está tão acostumado a ver toda essa maracutaia, que passou a achar que é assim mesmo que tem que ser e não se preocupa mais em quem vota ou em quem deixa de votar. E o pior: nem imagina a relação que isso tem com a fome que ele mesmo passa.

O problema, na real, é que nos acostumamos a nos acostumar e aí até o mais absurdo parece ser normal. Acostumamos a ser preconceituosos, acostumamos a ser falsos moralistas, acostumamos a passar fome, a sermos roubados, enganados e ludibriados; acostumamos a roubar, enganar e ludibriar e também acostumamos que isso é normal. E enquanto as pessoas assim pensarem e agirem, nada vai mudar: ninguém vai mudar de vida, ninguém vai ter educação de qualidade e nem ter um sistema de saúde decente.

Mas, ah… tudo bem, a gente acaba se acostumando com isso também, não é?

Bia Bernardi