Arquivo do mês: novembro 2014

De sempre ir indo

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Eu queria sempre um consolo e essas coisas tendem a sumir com o tempo. Parece que quanto mais idade, mais experiência de mundo, menos você precisa de colo, de ombro, de palavras de incentivo. Quanto mais desbravador a gente se mostra menos importante fazemos parecer as decepções. Todo mundo olha com tanta certeza da recuperação certa que ninguém procura mais estender a mão. Consolar alguém assim, tão a frente, tão independente, seria uma confissão de que afinal não há muita esperança de que tudo possa ir sempre bem. Os fortes sobrevivem, a custa de falsos suportes para se manterem de pé. E na fragilidade da vida ninguém quer acreditar. Não fomos ensinados a tal, afinal.
Há que um dia haver colos por telefone, como daqueles números de prevenção ao suicídio que os candidatos a suicidas podem ligar. Anonimato claro, de quem fala e de quem ouve para que a vida continue sem perturbar a ilusão de força que os grandes exercem sobre os pequenos.

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…e tá aqui o meu cartão! (Bia Bernardi)

Quando me apresentavam uma pessoa, sempre prestava atenção no jeito de conversar, de olhar ao redor, de falar sobre o que a interessava ou não, mas eu observava, principalmente, os cartões de visita que carregava consigo. Não era nada fácil levantar informações, porque nem todo mundo abre a carteira descaradamente na hora de efetuar um pagamento e meus olhos não poderia ser tão diretos para que não pensassem mal de mim.

Era pelos cartões que eu sabia do que a pessoa gostava, onde frequentava, que religião, time, profissão e até preferência sexual. E assim me relacionava, estabelecendo proximidade ou não dependendo diretamente daquilo que eu observava.

Sempre preferi evitar ir adiante num relacionamento com mulheres que carregassem o cartão do psicólogo na bolsa. Na maioria das vezes, eram deprimidas e deprimentes, porque choravam, gritavam e por tudo e qualquer coisa ligavam pro bendito médico para marcar uma consulta de emergência. Uma até ameaçou suicídio e aí quem teve que ligar pro cara fui eu.

O mesmo era para possíveis parceiros de trabalho. Preferia os que tinham cartões de repórteres ou engenheiros, porque eles sempre estavam atentos ao mercado e às oportunidades de negócios. Passei a evitar os que carregavam cartões de associações de futebol ou escola de samba porque na segunda-feira sempre havia uma desculpa e davam cano no serviço.

Para os amigos a coisa era um pouco menos seletiva. Gostava de quando via cartão de tarólogo, massoterapeuta e afins porque sempre tirava um atendimento gratuito pra mim. Os amigos de cartões de buffet, restaurantes e rotisseries eram sempre muito bem-vindos, e costumava priorizar minha agenda para acompanhá-los em testes de cardápio de casamento. Os que tinham cartões de agência de viagens, então, eram os meus preferidos: o desconto no pacote era garantido!

Daqueles que tinham muitos cartões de médicos e drogarias, eu mantinha uma relação amena, nem muito próxima,mas também não muito distante. Era preciso estar por perto na hora da necessidade da indicação de um especialista que fosse bom, mas longe nas crises de hipocondria.

Uma vez fui apresentado a uma moça e me apaixonei de imediato, assim que vi sua carteira vazia, sem nem mesmo conter cartão de banco ou convênio médico. Era como se ela estivesse interessada em conhecer o mundo inteiro, adoraria museus, estádios, cemitérios e shows de ópera. Nem agnóstica, nem carola, a conversa seria consistente e descontraída, levada por horas e horas. Essa era a mulher ideal, não havia dúvidas e…

– Vou deixar meu cartão contigo, Olimpia, e aí quando precisar é só ligar.

– Ah, não precisa… eu te acho no facebook depois, não gosto de cartões de visita, soam superficiais, não acha?

E foi uma pena ver Olimpia ser desintegrada naquele mesmo minuto, apagada instantaneamente da minha memória após dizer aquela frase fatídica. Ela tinha tanto futuro, pobrezinha…

Bia Bernardi


Pés e chinelos

Por que não é permitido aos homens ir ao trabalho de chinelo? – joguei a pergunta no ar. E não tanto porque desejasse andar de havaianas em horário comercial, mas por simples curiosidade mesmo. Tenho visto muitas mulheres irem trabalhar dessa maneira e me ocorreu que isso nunca acontecia com os homens – ao contrário, eles estão sempre com os pés bem escondidos. Joguei então a pergunta no ar: por que não é permitido aos homens ir ao trabalho de chinelo?

“Porque é feio”, responderam – um homem, evidentemente. De fato, o pé, e sobretudo o pé de um homem, não é exatamente o tipo de coisa que me agrada olhar, e se me pedissem para escolher quais pés devem ser exibidos durante o expediente, é bastante provável que eu votasse nos pés femininos mesmo. Outra opinião – a de uma mulher – foi a de que eu devia fazer por merecer exibir os meus pezinhos por aí. Porque, segundo ela, não é apenas vestir um chinelinho e pronto: antes, é preciso sacrificar alguns sábados cuidando deles. Há um preço a ser pago – e eu, na minha ingenuidade, acreditava que bastava ao chinelo ser mais confortável que o sapato.

Agora já me parece claro que apenas o pé bonito tem direito de ser mostrado. Mas as pessoas estão partindo da premissa de que meus pés são naturalmente feios. E, ao que me consta, ninguém até hoje se deteve sobre eles para avaliar se estão mesmo fora de qualquer padrão de beleza. É até possível que os meus pés sejam lindíssimos e eu não esteja sabendo, já que não é dado aos outros a oportunidade de contemplá-los. Se os visse, era até capaz do José de Alencar fazer uma nova versão para “A pata da gazela” – há de tudo neste mundo. Jamais saberei, condenado que estou a suportar os intermináveis verões de Brasília em calçados pouco confortáveis.

O chinelo é mais uma das boas invenções que sacrificamos para resguardar a nossa aparência – ou, o que é pior, a aparência de uma empresa. Bem aventurados são os apresentadores de telejornais, que nunca são vistos da cintura para baixo.


Em tempos de ciclovias

A prefeitura de Santos está investindo em ciclovias. Uma parte das principais avenidas da cidade já conta com faixas dedicadas exclusivamente às magrelas. Houve até campanha e publicidade. Slogan: “Santos – a cidade amiga das bicicletas”, e os piadistas complementam: “e inimiga dos pedestres”. Curiosa essa relação de amor e ódio que nasce no trânsito. Amigo dos carros, inimigo das motos. Amigo das bicicletas, inimigo dos pedestres. Se minha bicicleta está quebrada, e me torno amigo dos pedestres, as bicicletas dos outros – não a minha – serão minhas inimigas. E por aí vai, na mais pura realidade.

Um dos objetivos da ciclovia é estimular as pessoas a trocarem, em determinadas situações, seus automóveis pelas bicicletas – fenômeno que ainda não testemunhei em Santos, nem mesmo no Dia Mundial Sem Carro, idealizado na França. Se esperarmos o exemplo dos políticos, que criam as ciclovias e incentivam a população a utilizá-las, não largaremos os carros jamais. Eu, particularmente, só encontrei quem abraçasse a ideia em matéria de telejornal.

É verdade que nas avenidas onde há ciclovia, as bicicletas aliviam sobremaneira as faixas de rolamento. No entanto, como tenho o hábito de caminhar a pé, constatei que na prática houve apenas um deslocamento dos ciclistas, posto que o comportamento quase não se alterou. Embora haja semáforos nas ciclovias, para que os pedestres atravessem a rua, a sinalização é sumariamente ignorada pela maioria dos ciclistas. Já presenciei muitos sinistros nas ciclovias, como choques frontais, traseiros e laterais entre bicicletas, além de atropelamentos de pedestres. Se você caminha na orla, de quando em quando escutará da boca dos ciclistas os mesmos xingamentos dos motoristas. O estresse está no veículo ou no espírito da coisa?

Tive a oportunidade de caminhar alguns dias em Viena, a cidade mais “ciclilizada” que conheci. Sofri um choque tremendo. No último dia ainda não havia me acostumado, reclamando constantemente das regalias conferidas aos ciclistas. Se um pedestre é atropelado na ciclovia, ele sentirá no corpo e no bolso as dores da imprudência – a multa é impiedosa. Sempre alerta, fui um verdadeiro escoteiro em Viena, livrando inúmeros turistas do infortúnio. Impossível não lembrar a figura cômica do velhinho japonês: estático no meio da ciclovia e erguendo um mapa que lhe tapava a visão. Sem a mínima delicadeza, arranquei-o do perigo. Foi por um tris. Os ciclistas buzinam, jogam luzes e desaceleram, mas não param. Quando julguei que deixaria Viena com uma sensação inédita de revolta contra as bicicletas, a Áustria me provou que é um país justo. Estava eu flanando num boulevard quando uma bicicleta assoma abruptamente de uma esquina e vem na minha direção. Como num filme, um guarda, com um ar de serena autoridade, estica o braço e breca o ciclista com a mão espalmada no seu peito. Aplicou-se a multa e fui embora de Viena curtindo uma estranha vingança.

Da minha parte, desloco-me bastante a pé. Mas quando a distância é grande, nada posso fazer em relação à campanha em prol das ciclovias. Por problemas de coluna, tenho contraindicação médica para bicicletas. E quando meu carro está na oficina, vou de táxi.


Exumação de si mesmo

Hoje eu publicaria um texto sobre o imbróglio vivido no rap americano causado pelo sucesso da rapper Iggy Azalea. Publicaria. Mas o futuro do pretérito calça bem um texto enrijecido, ensimesmado e fruto de um olhar fixo para um juntado de ossos.  Hoje, e rompo alguns limites impostos sobre exposição com essa confissão, exumei os ossos de minha mãe. Não seria o caso de chamar restos mortais? Creio que não. Eram ossos em estágio intermediário de decomposição. O motivo para a exumação é que eles serão transportados para um jazigo familiar. Essa aquisição tão estranha quanto a vida em si.

Não é a primeira vez que escrevo sobre ossos aqui. Não pretendia essa segunda inflexão. Ela apenas veio. Mas voltando aos ossos da vez, o coveiro a quem assistia cavar e cavar com gentileza respeitosa ao buscar os ossos em meio a terra e baratas, me filosofou: “É… do pó viemos e ao pó voltemos (SIC)”.

Não intenciono fazer uma reflexão sobre a vida, ou mesmo a morte, pelo tom que esse texto vai assumindo; mas apenas narrar essa singela cena que comigo permanecerá por muitos e muitos anos. Não há nada de notável nela e talvez eu pudesse adensá-la com alguma emoção ou sentimento. Não que a comoção não tenha me visitado. Mas a sobriedade ganha um peso mais dramático, desesperançoso e insignificante quando se fixa os ossos de sua mãe nove anos e meio após a morte dela. Questões existenciais de toda sorte se inferiorizam diante da verdade em frente aos seus olhos. Ela é apenas uma, irrevogável e inexorável.


Burocratas sem lei

Imagem:  Riccardo Romano (https://www.flickr.com/photos/pixx0ne/)

Imagem: Riccardo Romano (https://www.flickr.com/photos/pixx0ne/)

Está escrito, moça! É meu direito. É lei.

Mas aqui é outra lei. Quem rege a gente é outra agência: a Artesp.

Mas está no Código do Consumidor!

Só que a compra foi feita pela internet, então, não podemos trocar sua passagem, não senhora.

É nessa hora que lembro que a carteira de identidade ficou em casa. Guardada num envelope numa gaveta de acessórios eletrônicos que não têm mais serventia.

A razão, que era minha, estava refém. Ganhasse eu a batalha, viria outra: como viajar sem apresentar o documento. Quem garantiria que aquela brigona com o voucher na mão era a mesma cidadã que comprou a passagem? Mea culpa. Ou não.

In dubio pro reu, certo? Não nessa estória. A verdade é que os burocratas todos são inimputáveis. Pense que na véspera do ocorrido, outra pessoa, um servidor público, colocou todos os documentos a minha revelia em um envelope pardo. Pessoa esta que exigiu a apresentação dos originais da certidão de nascimento a de óbito , apenas para que ela mesma tirasse cópias – numa amostra perfeita do rigor insondável dos processos à brasileira. Disso, o caos se produziu até chocar-se com o pé de boi seguinte.

Pessoas como eu não têm toque. Têm é a cabeça cheia de coisas outras. Mais ou menos importantes, não importa, apenas conste que são outras. Estratégia, strateegia, strategi, stratégie, senhores; estão anotando? Tudo deve ser reposto no seu lugar. Sempre. Identidade na carteira. CPF e título de eleitor na mesma capinha plástica. Diploma original mantido em segurança em lugar confidencial – em trânsito apenas cópias. Bilhete único no bolso direito da mochila. Note o equilíbrio sutil.

Na mochila, nem um documento com foto.  E os burocratas do outro lado do balcão confundindo internet com Velho Oeste. Comprou na internet, não pode trocar a passagem alegavam.  Respirei fundo. Vou procurar o Procon, prometi.  Respiraram eles também: aquela não embarcava sem pagar. E iria incomodar em outros níveis, se é que iria.

De um burocrata ao outro. O fundo do poço.


EsQuadro

revolto

Ela ouviu o vento gritar do alto do rochedo, sob nuvens negras. O mar, enlouquecido, lambia a pedra com fúria, tentando apagar a dor pela dor. Ao longe os raios iluminavam os destroços que o fogo deixou. Suas tranças claras e suas lágrimas frias se uniam para adiar a entrega do corpo sem vida.
Seu escudo não parou o tempo, sua espada não feriu a chuva. A armadura foi como vidro, partido pelas mãos do destino. Os olhos, na agonia da despedida, vidrados na morte que sorria, com medo e espanto ao pressentir que se fechavam prometeram voltar do outro mundo para lhe dar o abraço de adeus.
Ela ouviu o vento gritar do alto do rochedo, sob nuvens negras. Soltou o corpo frágil e deixou-se cair no mar, enlouquecido, que afinal se calou.