Pode ser, tanto faz, prefiro não

Recentemente conclui a leitura de “Bartleby, o escrevente”, uma novela mais ou menos famosa de Herman Melville. Digo mais ou menos porque a desconhecia até então, enquanto outros lhe atribuem fama. Na minha opinião, livros famosos são a Bíblia e Dom Quixote, ficando o resto a depender do referencial adotado. O próprio Melville sucumbe em matéria de fama para a sua cria, a Moby Dick. Mas falemos do escrevente.

Bartleby prefere não. E prefere não o tempo todo. Ele seria a personificação do cúmulo da insignificância não fosse sua obstinação implacável em preferir não. A coisa é grave: não há absolutamente nada que ele prefira fazer, dizer, escolher… Aliás, ele escolhe preferir não. “Bartleby, suma daqui! Você está despedido!”, grita o patrão. “Prefiro, não”, declina o escrevente, impassível. E quando soa mais gentil, ao menos na língua portuguesa, diz: “preferiria não”.

Este personagem me fez lembrar Mersault, o protagonista de “O estrangeiro”, de Albert Camus. Neste caso, o bordão é “tanto faz”. Sim, a maioria das coisas lhe é indiferente e lhe estampa no semblante um ar blasé. “Você quer casar comigo?”, pergunta a namorada. “Tanto faz”, responde Mersault, exibindo uma placidez que não é deste mundo. Imaginem vocês: a decisão mais grave na vida de um homem ser tomada com um tanto faz!

O que há de interessante entre os dois, tirante a teimosia verbal, é a capacidade que têm de perturbar a aparente tranquilidade do meio que os cerca. A pasmaceira geral costuma ser a nota marcante em redor desses personagens. Foi então que elaborei a questão: já convivi com alguém semelhante na vida real?, ou esses tipos são apenas frutos da criatividade artística?

Espremi a memória e me lembrei de um guri que fez parte da minha infância. Com frequência, ele dizia: “pode ser”. Assim sendo, ele dificilmente contestava, embora também não assentisse com ênfase. Era capaz de não se indispor com os que queriam futebol e nem com os que queriam bolinha de gude. Se ele estivesse morto de fome, e na casa de um amiguinho lhe oferecessem pão com patê, diria “pode ser” igualmente como se experimentasse o maior dos fastios. Talvez participasse de muitas brincadeiras sem se divertir plenamente, permanecendo nelas até que não restasse mais ninguém para responder “pode ser, vamos continuar brincando”. Mas ao contrário dos tipos da ficção, não costumava causar confusões. No máximo um pedido reiterado para que se decidisse, por exemplo, entre suco de uva ou laranja, posto que houvesse respondido “pode ser” quando perguntado qual deles preferia. Hoje, ao fazer uma análise retrospectiva do comportamento do menino, concluo que se tratava simplesmente de um tímido – nada de extraordinário que merecesse uma novela como Bartleby e Mersault.

Era eu aquele guri? Pode ser.

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5 respostas para “Pode ser, tanto faz, prefiro não

  • Aline Viana

    Pois saiba que em Fortaleza há uma sorveteria que oferece 50 sabores, entre eles o perfeito “qualquer coisa” – fiz questão de provar quando visitei a cidade e era mesmo a minha cara. Pode ser que você também se reconheça nele. rs

  • Henrique Fendrich

    Como bom tímido, também já me peguei muitas vezes falando “pode ser”, simplesmente para não contrariar. Mas tenho me preocupado em mudar esse tipo de postura.

    Dois versos ou coisa parecida do Artur da Távola no seu “Ato leigo de contrição”: “Meu NÃO tem disfarces demais/Meu SIM, quando será integral?”

  • Oliveira Neto

    Pode ser, Aline, pode ser.

    Belo dístico, Henrique.

  • Kamila Uliana

    Que ser humano em sua vida não passou ou passa por uma situação de indecisão ou timidez? Mas a linha que separa essas atitudes não é tênue. Pra mim esse guri parece ser tímido mesmo e não inseguro.

  • Andrea Borges

    Que linda e terna crônica! Me emocionei…

    Meu instinto maternal gritou e tive vontade de colocar aquele guri no colo, afagar-lhe os cabelos enquanto dou alguns conselhos para defendê-lo de todo o mal!

    O guri cresceu. E apesar de agora ter personalidade, continua querendo agradar.

    E…. que sedosos são seus cabelos! Rs rs rs…

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