Pó compacto (Bia Bernardi)

Ser mulher não é fácil.

Não que ser homem tenha muito mais vantagens, mas é que mulher é um bicho esquisito, e o pior é que dá muito trabalho ser um bicho esquisito.

É fato que o mundo é um lugar machista e sou capaz de compreender que todo o conceito de sexo-frágil, contra o qual os tantos movimentos feministas lutam hoje, foi construído ao longo de séculos por diversas tribos, grupos e sociedades pelo planeta afora e infiltrou-se nos princípios sociais, éticos e morais da atualidade.

Direito a opinião, voto, salários iguais, revolta do sutiã, morte na fogueira… Quantos não foram os ícones femininos que trouxeram à tona questões de igualdade e que foram capazes de instaurar e popularizar que há força – e muita! – nas unhas e bocas pintadas.

Há quem diga que isso tudo é bobagem, que a mulher só sabe é pensar em shopping, maquiagem e dieta. Uma vez presenciei a seguinte discussão entre marido e mulher:

Pra quê depilação?? A mulher foi feita com pêlos, não foi? É assim que ela deve permanecer!

– É? Então tá bom, a partir de hoje já não depilo mais axila…

Óbvio que a conversa parou por aí, porque o marido percebeu que não era simplesmente um capricho feminino, mas também uma questão de higiene. Além disso, teve que que assumir que preferia uma esposa bem-cuidada ou, como dizem, mais bonita.

A busca pela beleza é algo inerente à mulher e não digo isso somente da visão de beleza física, não! Vejam, no ano de 2000, a então prefeita Marta Suplicy iniciou na cidade de São Paulo o que pudemos apelidar de Projeto Belezura, que procurava resgatar a beleza da cidade, agindo sobre o excesso de outdoorse implantando novas praças, por exemplo. Já em 2006, uma pesquisa do IBGE provou que as mulheres que trabalham em construção civil são mais econômicas e organizadas, além de serem mais qualificadas nos quesitos acabamento, arremate e pintura.

Eu não sou lá uma boa representante de classe, mas é só porque não milito ativamente em causas políticas a favor da igualdade; penso que a mulher não pode de ser taxada de fútil apenas porque chora em filmes românticos, mas também não deve ser posta na posição de heroína inabalável que não precisa de carinho. Nem tanto ao mar, nem tanto ao céu!

Acho que a mulher precisa demonstrar sua verdadeira força, até porque uma de suas funções biológicas é a de ser mãe. E bonito mesmo é ver que muitas trabalham, estudam, cuidam dos filhos, passeiam, plantam árvores, dirigem ônibus, brincam com cachorro, pulam de paraquedas… E ainda por cima se cuidam!

E como se não bastassem os dias de sapos-goela-abaixo, as cantadas toscas e todas as limitações sociais patéticas, aperece uma pequena de sete anos que olha para a minha cara, no meio de um casamento, depois de uma luta séria pela produção de cabelo, roupa, sapato, bolsa e maquiagem, e diz:

– Tia, você tá laranja!

Acho que preciso trocar meu pó compacto…

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