No cemitério

33Outro dia vi uma cena em frente a um cemitério que me deixou intrigado. Quem por ventura vir a ler esse texto pode condenar esse que vos escreve sem medo de ser processado. Sim, estou ciente de que pensamentos nada corretos politicamente passaram pela minha cabeça. Como o juízo da gente é mais cruel do que a justiça dos homens, em determinado momento estive a beira de me por algemas e ver minha cara exposta na “globo” ou na internet. Feitas as ressalvas, vamos aos fatos.

Passava eu de carro, numa via expressa, na frente de um cemitério. A velocidade de 60km permitida no local, por isso não tive tempo de contar quantos eram. Na entrada da “última morada” tem uma imagem de santo, o qual desconhece o nome. Alguns vão pensar: oras deve ser o nome do cemitério! Não, não é! O local leva o nome da via expressa. Pois bem, ao pé dessa imagem tem uma mureta e nela estavam sentados, acredito, cerca de 10 homens. Outros dois estavam próximos, mas sentados à sombra. Eles vestiam calças, sou péssimo para definir cor, ocre e camisetas brancas. Aquelas roupas típicas de presidiários.

Sei que há muito “reeducandos”, politicamente correto, que integram programas de trabalho fora das penitenciárias. Eles saem para trabalhar e ganham redução na pena e uns trocados para ser enviado à família. Mas, nos cerca de cinco quilômetros que ainda percorri da via, fiquei pensando o que poderia passar na cabeça daqueles homens sentados à frente do cemitério. Que crimes cometeram? Será que alguma vítima estaria sepultada ali? Será que refletiam sobre o fato de estarem ali? Será que não passava apenas de um será da minha cabeça?

Segui meu caminho. Muitas outras perguntas passaram pela minha mente, mas essas contemplam e dão significado ao que expressava minha reflexão. Para cada tipo de crime que associava a um daqueles homens, mas imaginava era injusta a situação. Não faço a mínima ideia de quantas pessoas repousam na eternidade naquele cemitério. É certo, que dezenas sepultadas ali tiveram suas vidas ceifas por uma ação criminosa. Famílias derramaram muitas lágrimas naquelas salas de velório sobre corpos de jovens e pais de família. Mas, que culpa tinha aqueles homens sobre isso?

Vivo o caos das grandes cidades. Essa pressão nos faz condenar pessoas e situações sem antes parar para pensar. Não fugi ao roteiro da sociedade que antes condena e depois de arrepende. Tenho conflitos com o que realmente significa direitos humanos. Conflitos esses ampliados após ser vítima de uma ação criminosa. Por outro lado, nada disso me dá o direito em julgar aqueles que o Estado diz reeducar. Há humanos, como o criminoso preso em Goiás, acusado de dezenas de crimes bárbaros, que não merecem viver em sociedade. Mesmo assim não podemos viver no olho por olho dente por dente.

Ao retornar para casa fiz o mesmo caminho. Ao passar em frente o cemitério os presos já não estavam mais lá. Não havia ninguém sentado ao pé da estátua, apenas jovens estudantes num ponto de ônibus perto. Daí me encorajei, e passei a pensar no profeta Gentileza. José Datrino, nome de batismo do profeta, nós deixou o grande ensinamento: “Gentileza gera gentileza”. E, como dizia um professor José Antonio, que conheci em Guarulhos, “não devemos jogar o bebê com a água do banho”. Até!

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Sobre Celso Oliveira

Jornalista e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/ USP. Ver todos os artigos de Celso Oliveira

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