Eu, cronista?

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Sou poeta, contista e romancista. Medíocre, mas sou, isso tudo. Crônicas eu leio, não costumo escrever. Para ser exato, contei em meus arquivos quatro delas, o que me concede, beirando os quarentas anos, a desprezível média de uma crônica a cada dez anos. E o que me faz concluir, com o coração na mão, que escrever uma por semana seja uma temeridade.

Por que uma produção tão exígua de crônicas para quem começou a escrever ainda guri, lá pelos seus dez anos? Há quem defenda que crônica não é literatura, e seguindo por este conceito, encontraremos, em grande parte, minha dificuldade.

Na ficção me disfarço nos personagens, quase sempre me diluindo em vários deles, de modo que nem os meus chegados são capazes de me identificar por inteiro num enredo. E para dissimular e confundir ainda mais, também lanço mão de imposturas. Explico: eu gostaria de fumar, porém as substâncias tóxicas contidas no cigarro abreviarão minha jornada e eu pretendo viver muito e bem. O que faço? Crio circunstâncias irresistíveis e descrevo tragadas espetaculares, ponho meus personagens para fumar, e vou além, fumo junto com eles em primeira pessoa. Assim, no mundo real, há muitas ações que considero prudente evitá-las, mas que me contento em praticá-las na ficção. Paremos no exemplo do cigarro.

Na Certidão de Nascimento deste blog, datada de 08/07/2011, há um convite para que o cronista se revele, que escancare sua vida escondida a sete chaves. Medo. Como confessarei meu encanto causado por uma moça que, sentada diante de mim no café, piscou-me seus lindos olhos verdes, sendo eu um homem casado? Certo, se eu quisesse muito, mas muito mesmo publicar crônicas inspiradas no jogo das mulheres belas e interessantes que me envolvem, a solução seria, ainda que drástica, o divórcio.

Pior. Eis que para secar ainda mais meu manancial de motes cotidianos, o sigilo médico, na minha profissão, é algo sagrado. E não estou disposto, numa solução ainda mais drástica que a anterior, a mudar de ofício. Venhamos e convenhamos: um jornalista solteiro leva uma boa vantagem sobre mim.

Mas nem tudo está perdido. Eu poderia construir uma carreira opinando sobre temas genéricos. Política, por exemplo, que eu pouco entendo. Ou futebol, que não acompanho há tempos. Religião, que talvez seja melhor não debater. E…

Até quinta-feira que vem.

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6 respostas para “Eu, cronista?

  • William Pires

    Oliveira Neto, que a nova e árdua empreitada, além de satisfatória como este belo início, seja tão edificante para você como pessoa e autor como é para nós, os leitores.

  • Henrique Fendrich

    Sou um jornalista solteiro, de modo que estou em grande vantagem! =). Mas no fim acaba que esse “se expor” sempre tem muitos filtros nossos. O que você fez nesse texto já é se expor. No fim da contas, você vai ver que o negócio é até divertido!

  • Bia Bernardi

    Sabe, sempre me questionei também se eu podia me autodenominar escritora… Até o dia em que precisei achar um texto e, puxa… rolei a barra por um bom tempo, demorei mais na releitura de algumas crônicas e com a satisfação de tê-las escrito do que propriamente na atividade que eu precisava com o texto que buscava. Aí pensei: bem, se eu escrevo, devo ser mesmo escritora! Então seja bem-vindo, Oliveira! A casa é nossa!!

  • Oliveira Neto

    Verdade, Henrique. Mas antes de me divertir, ainda preciso me preocupar em manter o alto nível do blog.

    William e Bia, muito obrigado pelos votos.

  • José Borges

    Ainda que esteja na condição de primo e por conta disso já tendendo a ser um “puxa-saco”,não posso deixar de escrever meus elogios pela tua coragem e também pela alta qualidade do texto.
    Eu, como amador na literatura, que se resume a poucos textos amadores e nunca publicado fora dos círculos familiares, já acho que até a ficção deixa muitas impressões e quebra a privacidade de nossos pensamentos e ponto de vistas que nem sempre queremos expor.
    Boa sorte na nova empreitada!

  • Andrea Borges

    Sim! Você cronista!!! 🙂
    Você poeta, romancista, contista… Você escritor!

    E são só algumas das muitas habilidades e dons que tens.

    E como tudo que fazes é bem feito tenho certeza que suas crônicas serão sempre excelentes!

    Também sei que opinião de esposa coruja é bastante suspeita… Mas quem me conhece sabe que acima de tudo sou sincera!

    Boa sorte nesse novo desafio, meu amor! Te amo muito e tenho muito orgulho de você!!!

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