Não chove mais no molhado

Imagem: https://www.flickr.com/photos/ucirvine/

Dormir de dia exige uma certa adaptação e o uso de táticas que a gente antes consideraria risíveis. Logo, é melhor assumir que dei pra dormir ao som de um vídeo que toca o som da chuva. Começa fraquinha, vai engrossando e logo vira temporal. Até outro dia,  eu diria que isso é  coisa de psicólogo new age. Mas hoje, atesto, como aquelas senhoras que falam dos benefícios do cogumelo do sol em rede nacional, que funciona. Não nego: sou paulistana.

Aqui não chove, chuva mesmo, daquelas de deixar o cheiro na terra, há não sei quanto tempo. Não lembro.  Em pequena, nessa época do ano, em muitos fins de tarde, as primeiras precipitações me pegavam no caminho entre a escola e minha casa. Danava eu a correr assim que descia do ônibus, a evitar o limo no meio-fio, equilibrando-me entre segurar o guarda-chuva e o trabalho de evitar as poças.  Será que meus filhos vão saber o que é beijar na chuva?

Periga esse ser o primeiro ano, daqueles que os velhos se lembrarão no futuro, em que o planalto virou sertão. Porque se tem algo que não vai acontecer por esses cantos é a lagoa não secar.  Não sei para quem hei de contar essa história, se é que serei eu, mas eu preferia não.  Preferia não ter tido essa oportunidade porque já falhei. Falhamos todos e nem tem duas semanas.

Isso porque dia sim e dia também as manchetes anunciavam a seca. O governo negou e negou, mas agora, reeleito, perdeu a vergonha e já assumiu o racionamento. Tem quem não tenha água pra beber há dois dias. E não sabe quando terá. O nosso Cantareira, jacaré, já secou.  Mas, isso acontece desde Adão e Eva, dirão os descrentes. Só que lá no sertão, não foi nenhum homem que fez.

Mas só porque eu falei, o tempo resolveu fazer oposição e já está fechando. Não sei quantas gotas irão cair, mas parece que dessa vez, esse pouco que vier, será de verdade. Talvez, a tempestade seja tanta que eu dispense a minha intempérie musical. Ainda vou lembrar dessa chuva.  Bom seria, não me ter que precipitar na lembrança. Deixando fluir o que tivesse que vir.

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