A filha que padece no paraíso

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Há cerca de dois anos fui vítima de um assassino capilar. Levei muito tempo para aceitar o estrago em um visual que levei anos para conquistar. Meus cabelos ondulavam até o ombro e realmente me satisfaziam. Por ser negra, levei anos até encontrar um profissional que soubesse como lidar com os meus cabelos, uma vez que a maioria dos cabeleireiros acredita que só liso é que lindo. Isto posto, pelejei antes de encontrar um bom cabeleireiro e mais ainda até conseguir encontrar outro que desfizesse o estrago do tal assassino dos meus fios crespos. Mas, vi, vivi e venci. Agora, uma pobre menina americana vai ter uma trajetória bem mais penosa que a minha para isso. Ela, mestiça, tem mãe branca e racista.

O caso é o seguinte, um casal de lésbicas nos EUA, ambas brancas, foram a um banco de sêmen e solicitaram uma amostra de um doador alto, loiro e nórdico (eis que o príncipe encantado não ilude só as hetero). Porém, a clínica fecundou a cidadã com o sêmen de um negro; nove meses depois nasce lá no interior branco do país uma criança mulatinha. Justo de uma mãe que só foi ver um negro, assim cara a cara, quando foi à faculdade – de onde se intui o caráter civilizatório da imersão no ensino superior naquele país.

Diz a mãe, que ama a criança, mas além do susto ao saber da troca do esperma, o resultado lhe trouxe inconvenientes que merecem uma reparação por danos morais, psicológicos, etc. Por que, imagine você, leitor, o que é cruzar uma cidade até encontrar um cabeleireiro adequado para fios crespos? Pois é, eu imagino. Eu e meio Brasil e metade dos Estados Unidos também. Aliás, mais que imaginar, nós vivemos isso e, minha senhora, gostaríamos que nos dissesse a quem devemos processar.

Uma gestação envolve uma série de riscos de saúde física e psicológica reais para mãe e filho, e vem uma senhora se queixar é de ter que encontrar um cabeleireiro especializado e de ver sua criança se destacando em meio à ilha branca. Diz a mãe que ao chegar no gueto negro onde fica o tal cabeleireiro, ela sofre um injustificado preconceito dos negos de lá. Posso imaginar a cena, madame.

Aquilo não é uma criança, raciocina a mãe, e sim um problema cabeludo. Pesquisas aos montes comprovam que raras são as mulheres brancas satisfeitas com suas madeixas – índice igual se obtém das negras, nipônicas, indígenas, etc. As brancas buscam embelezar-se a custa de embranquecer-se ainda mais (atingindo um padrão de fios escorridos e “platinadinhos”), se submetendo à escovas progressivas que prometem deixá-las com fios de japonesas, ou à tintura que garante o loiro mais loiro, ou ao corte da estrela de fios lambidos do cinema mas que na pessoa fica igual ao nariz de quem faz, para ficarmos numa linguagem mais próxima da materna, porque requer um cabelo liso que não existe fora do salão.

Durante toda a minha infância, usei  nos cabelos tranças e uns tais ‘coquinhos’ que eu detestava – basicamente porque ninguém “bonita” os usava e, portanto, eu era obrigada a ficar feia quando minha mãe assim me penteava. Mais tarde, entrei numa saga de alisamentos e cortes: dos mais aos menos desastrosos. Não por imposição da minha mãe, graças a Deus, mas pela vontade minha e dela de que eu tivesse cabelos “bonitos”. Hoje, fios naturais estão na moda. Talvez pela primeira vez desde que os negros vieram da África para o Brasil, os fios crespos ganharam o status de descolados, modernos, enfim, desejáveis. Como disse, demorou, mas eu vim, vi e venci.

Que a deusa Lupita Nyong’o ilumine essa cabecinha e permita a ela sobreviver até a vitória.

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos. Ver todos os artigos de Aline Viana

3 respostas para “A filha que padece no paraíso

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