A felicidade do fotógrafo

Por falar em fotografia, era exatamente isso o que ele mais gostava de fazer. Mas não se saberá nunca até que ponto isso foi um desejo natural ou apenas um meio de evitar que ele próprio aparecesse nos retratos. De fato, era sempre ele quem pegava a máquina durante as festinhas e eventos sociais de que participava. No começo não tinha nenhuma habilidade especial: apenas mirava e disparava, sem se preocupar com o cenário que havia ao redor. Mas depois começou a fazer uns cursos, a ler uns livros, e descobriu com Roland Barthes o que era punctum (não confundir com plâncton). Trata-se de um detalhe não previsto inicialmente na foto mas capaz de impactar quem a vê (nem sempre o mesmo detalhe). Passou então a prestar mais atenção na composição da imagem e a desprezar as fotos meramente posadas.

Só que é muito difícil tirar fotos que não sejam posadas. Precisa pegar a pessoa desprevenida, não pode avisar que vai tirar a foto, e sempre existe o risco de que a pessoa não queira ser fotografada e venha reclamar. Ele andava muito pelas ruas tirando foto, mas sempre disfarçando. Preferia os grandes eventos, onde todo mundo acha muito natural que alguém tire fotos. Como um casamento, por exemplo. Como o casamento de uma amiga com quem ele próprio um dia desejou casar.

A vida tem dessas ironias. Ele realmente não queria perder esse dia, mas nunca imaginou que estaria do outro lado, fotografando a noiva e… e esse sujeito que ela escolheu passar o resto da vida. Precisava captar as expressões de maior felicidade do casal, expressões que naquele momento saiam tão naturais, mesmo nas fotos mais posadas. Tirou muitas fotografias, mas tinha certeza de que ninguém iria compartilhar do seu punctum. O seu abatimento naquela noite não transpareceu em nenhuma imagem. Todo mundo enxergaria apenas os flagrantes de alegria que conseguiu registrar. E ele achou que era justo que assim fosse. Quem, afinal, está preocupado com a felicidade do fotógrafo?

Pode ser, tanto faz, prefiro não

Recentemente conclui a leitura de “Bartleby, o escrevente”, uma novela mais ou menos famosa de Herman Melville. Digo mais ou menos porque a desconhecia até então, enquanto outros lhe atribuem fama. Na minha opinião, livros famosos são a Bíblia e Dom Quixote, ficando o resto a depender do referencial adotado. O próprio Melville sucumbe em matéria de fama para a sua cria, a Moby Dick. Mas falemos do escrevente.

Bartleby prefere não. E prefere não o tempo todo. Ele seria a personificação do cúmulo da insignificância não fosse sua obstinação implacável em preferir não. A coisa é grave: não há absolutamente nada que ele prefira fazer, dizer, escolher… Aliás, ele escolhe preferir não. “Bartleby, suma daqui! Você está despedido!”, grita o patrão. “Prefiro, não”, declina o escrevente, impassível. E quando soa mais gentil, ao menos na língua portuguesa, diz: “preferiria não”.

Este personagem me fez lembrar Mersault, o protagonista de “O estrangeiro”, de Albert Camus. Neste caso, o bordão é “tanto faz”. Sim, a maioria das coisas lhe é indiferente e lhe estampa no semblante um ar blasé. “Você quer casar comigo?”, pergunta a namorada. “Tanto faz”, responde Mersault, exibindo uma placidez que não é deste mundo. Imaginem vocês: a decisão mais grave na vida de um homem ser tomada com um tanto faz!

O que há de interessante entre os dois, tirante a teimosia verbal, é a capacidade que têm de perturbar a aparente tranquilidade do meio que os cerca. A pasmaceira geral costuma ser a nota marcante em redor desses personagens. Foi então que elaborei a questão: já convivi com alguém semelhante na vida real?, ou esses tipos são apenas frutos da criatividade artística?

Espremi a memória e me lembrei de um guri que fez parte da minha infância. Com frequência, ele dizia: “pode ser”. Assim sendo, ele dificilmente contestava, embora também não assentisse com ênfase. Era capaz de não se indispor com os que queriam futebol e nem com os que queriam bolinha de gude. Se ele estivesse morto de fome, e na casa de um amiguinho lhe oferecessem pão com patê, diria “pode ser” igualmente como se experimentasse o maior dos fastios. Talvez participasse de muitas brincadeiras sem se divertir plenamente, permanecendo nelas até que não restasse mais ninguém para responder “pode ser, vamos continuar brincando”. Mas ao contrário dos tipos da ficção, não costumava causar confusões. No máximo um pedido reiterado para que se decidisse, por exemplo, entre suco de uva ou laranja, posto que houvesse respondido “pode ser” quando perguntado qual deles preferia. Hoje, ao fazer uma análise retrospectiva do comportamento do menino, concluo que se tratava simplesmente de um tímido – nada de extraordinário que merecesse uma novela como Bartleby e Mersault.

Era eu aquele guri? Pode ser.

Um novo paradigma para Dilma

Foto (Último Segundo)
Foto (Último Segundo)

Acabou! Acabou? Dilma se reelegeu como esperado, mas com uma margem bem inferior ao antecipado. Marina, no final das contas, conseguiu transferir considerável fatia de seus votos para Aécio Neves. Apesar da cada vez mais assombrosa taxa de abstenção o espírito mudancista fez vista grossa para uma candidatura recheada de problemas e retalhada por estratégias defeituosas e controvertidas como a do PSDB. É um sinal atordoante esse que emerge das urnas para o PT.  Há doze anos no Poder, o desgaste, a despeito das reiteradas e nem sempre comprovadas denúncias de corrupção e mal feitos com a coisa pública, é natural e o PT sabe disso. Sabe, também, que continua no Poder pela expressiva votação que recebeu no Nordeste, a despeito das vis e cretinas manifestações de preconceito que sempre insurgem na esteira dos resultados eleitorais. Sul e Centro-Oeste e a grande maioria do Sudeste votaram pela oposição. Já havia sido assim no 1º turno.

A real compreensão desse cenário explica a nova fase “paz e amor” ensejada por Dilma Rousseff. Um aceno ao mercado aqui, um cafuné na oposição ali e muita disposição ao diálogo, como frisou nas quatro entrevistas que concedeu à TV após reeleita presidente. A derrota imposta à presidente pelo PMDB no Congresso, no entanto, explicita que a paz e o amor não serão diurna e noturnamente acatados pelos aliados.  Dilma sai fragilizada das urnas. Talvez menos do que o PT, derrotado em estados que governa até o fim do ano e com menor atuação na nova legislatura.

Se Dilma levar adiante, ainda que com as inevitáveis concessões que terá que fazer, a proposta de reforma política, poderá não só dar sua contribuição decisiva para a história da democracia do país, como reequilibrar as forças políticas em seu governo. É algo para o primeiro ano do 2º mandato.  Se não avançar nesta matéria, Dilma corre o risco de tornar-se refém da agenda nefasta das forças de oposição e dos interesses escusos de sua base aliada. Não acabou! Na verdade, ainda vai começar…

O André da Marlene

Imagem: https://www.flickr.com/photos/delhaye/
Imagem: https://www.flickr.com/photos/delhaye/

 

Embora todos o conheçam e convivam com ele há longo tempo, ninguém sabe se é casado. A ignorância geral irritou Marlene, que vira naquele homem uma oportunidade imperdível de concretizar seus sonhos de casamento. Era incrível a sorte dela de as demais colegas não atinarem para o charme e o potencial do André da contabilidade.

Ela o viu no elevador no primeiro dia como efetiva na nova empresa. Ele vestia um colete em padrão Oxford e usava uma boina que lhe dava um ar boêmio. A barba parecia ter sido escolhida para compor o visual, ou a roupa é que fora escolhida para combinar com a barba? Fosse como fosse, aquela combinação ficaria bem melhor se ele estivesse de braços dados com ela.

Para ele ficar ainda mais perfeito, faltavam só umas gotas daquele perfume que o Lucas costumava usar… O cheiro era a única boa lembrança que Marlene guardava do ex. De tanto que ela falou na época das virtudes sensuais da fragrância, as amigas pediam que ela explicasse como era. Nessas ocasiões, a mulher se limitava a poucas palavras: “ah, é sexy e máscula, cheiro bem de homem”.

Fora do ambiente de trabalho, o homem também era um mistério. Não tinha amigos conhecidos nem perfil em redes sociais. Mesmo assim, como não amá-lo, questionava-se Marlene, ele era tão… tão … singular.

Mas, a quem interessar possa, Marlene fez que fez até que fisgou o André. Ele se revelou um homem de algumas posses, tal como convém a um contador digno do nome. E, inclusive, não se negou a usar o tal perfume irresistível.  Era ele daquele tipo que para todos os quereres da mulher, dizia amém. E foi só.  Embora Marlene fosse sua mulher, o conhecesse e tenha convivido com ele por muitos e longos anos, ela, como os outros, não podia dizer nada mais do sujeito com quem dividia o teto e tinha filhos.

André era um homem de princípios e, por isso, manteve sua vida interior secreta até o túmulo.

Sobrevivemos

imagem da internet

Pode parecer estranho, mas sobrevivemos ao processo eleitoral que se encerrou ontem. Morte mesmo, pelo menos que tenho notícia, infelizmente, aconteceu num Palmeiras e Corinthians no sábado. Um cardíaco, palmeirense, sucumbiu à emoção de ver o Verdão ganhando do rival. Não sei, e não fui atrás para saber, se ele ficou sabendo que o time do Parque São Jorge arrancou o empate no final do jogo.

Voltemos ao processo eleitoral. Foram três meses de um pega pra capar há muito tempo não visto nas terras tupiniquins. O clima foi tão intenso e tenso, que o segundo turno deflorou de vez como uma nova eleição dentro da mesma eleição. O que se anunciava no primeiro turno como uma campanha muito baixa, na pior concepção da expressão, deu provas no segundo tempo que era mesmo a demonstração explícita da baixaria. Mas sobrevivemos ao primeiro turno e elegemos dois gladiadores para o turno seguinte.

Os combatentes foram para o ringue e se utilizaram de suas armas. Claro que discordo da maioria delas, o jogo político não deveria ser visto como vale-tudo. Mas em tempos de MMA, UFC, na tv aberta, em qualquer horário, quem vai observar isso? Tem muito gente incentivada a querer e outras querendo mesmo é ver sangue. Felizmente, sobrevivemos, e até onde sei não houve sangue, mas muitas lágrimas.

Sobrevivemos ao processo eleitoral que há de transformar o país. Sobre vencedores e vencidos ficou um legado enorme de compromissos e comprometimentos de realmente fazer dessa nação uma nação melhor. O comprometimento e compromisso recaem não apenas aos candidatos, mas a todos que manifestaram nas ruas, nas praças, nos carros e, sobretudo, na tão elogiada rede social. Sim, estão todos convocados a cobrarem dos vencedores a execução das promessas e dos vencidos o controle das ações. Como vivemos numa democracia representativa, essa atitude de acompanhamento e envolvimento passa por manter seu representante eleito ativo, participativo, atuante nos temas que foram pautados durante o processo eleitoral. Saíremos realmente fortalecidos, engrandecidos e com o gigante acordado, ser durante o próximo mandato, a ser iniciado hoje, exigirmos e acompanharmos as decisões daqueles que lutamos ao lado.

As aberrações declaradas contra quem, alguém, fulano, sicrano, bertano, são idiotices do fervor do momento. Se perdurarem são passíveis de punições exemplares. Sem parecer e nem querendo ser ingênuo, não acredito na divisão da nação pelo resultado das eleições. Até porque ficou demonstrado que quem acreditou nisso não esperou o jogo acabar. Não leu os números e foi para rua ou internet esbravejar sua mágoa. O que ficou realmente dividido foi o nosso compromisso real e intransferível para com o Brasil.

Hoje começa um novo dia, um novo ano, do novo tempo do nosso país. Mesmo que alguns abandonem a causa maior e resolvam morar em outras fronteiras, a maioria, eleitor ou não dos vencedores, não terá como sair ou motivos par ir. Esses, por vontade própria ou pela imposição do destino, serão os “filhos que não fogem a luta”. Se alguém for, que possamos mostrar que o que realmente esse nosso Brasil tem de melhor é coragem.

Sobrevivemos e haveremos de sobreviver aos novos tempos. Não acabou, estamos apenas começando. É isso.

imagem da internet

Calma Karma

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Quando a alma aperta o peito e a lágrima pensa em descer, o sorriso suspende a agonia de viver assim, sem saber direito pra quê. A apreensão continua, aflita, a buscar respostas mas o coração, sábio conhecedor do amanhã, acalma a mente… Bons ventos sempre vêm apagar a tormenta da incerteza. Como o sol do novo dia a esperança reacende. A vida pulsa para podermos morrer e renascer. A todo momento.

Pó compacto (Bia Bernardi)

Ser mulher não é fácil.

Não que ser homem tenha muito mais vantagens, mas é que mulher é um bicho esquisito, e o pior é que dá muito trabalho ser um bicho esquisito.

É fato que o mundo é um lugar machista e sou capaz de compreender que todo o conceito de sexo-frágil, contra o qual os tantos movimentos feministas lutam hoje, foi construído ao longo de séculos por diversas tribos, grupos e sociedades pelo planeta afora e infiltrou-se nos princípios sociais, éticos e morais da atualidade.

Direito a opinião, voto, salários iguais, revolta do sutiã, morte na fogueira… Quantos não foram os ícones femininos que trouxeram à tona questões de igualdade e que foram capazes de instaurar e popularizar que há força – e muita! – nas unhas e bocas pintadas.

Há quem diga que isso tudo é bobagem, que a mulher só sabe é pensar em shopping, maquiagem e dieta. Uma vez presenciei a seguinte discussão entre marido e mulher:

Pra quê depilação?? A mulher foi feita com pêlos, não foi? É assim que ela deve permanecer!

– É? Então tá bom, a partir de hoje já não depilo mais axila…

Óbvio que a conversa parou por aí, porque o marido percebeu que não era simplesmente um capricho feminino, mas também uma questão de higiene. Além disso, teve que que assumir que preferia uma esposa bem-cuidada ou, como dizem, mais bonita.

A busca pela beleza é algo inerente à mulher e não digo isso somente da visão de beleza física, não! Vejam, no ano de 2000, a então prefeita Marta Suplicy iniciou na cidade de São Paulo o que pudemos apelidar de Projeto Belezura, que procurava resgatar a beleza da cidade, agindo sobre o excesso de outdoorse implantando novas praças, por exemplo. Já em 2006, uma pesquisa do IBGE provou que as mulheres que trabalham em construção civil são mais econômicas e organizadas, além de serem mais qualificadas nos quesitos acabamento, arremate e pintura.

Eu não sou lá uma boa representante de classe, mas é só porque não milito ativamente em causas políticas a favor da igualdade; penso que a mulher não pode de ser taxada de fútil apenas porque chora em filmes românticos, mas também não deve ser posta na posição de heroína inabalável que não precisa de carinho. Nem tanto ao mar, nem tanto ao céu!

Acho que a mulher precisa demonstrar sua verdadeira força, até porque uma de suas funções biológicas é a de ser mãe. E bonito mesmo é ver que muitas trabalham, estudam, cuidam dos filhos, passeiam, plantam árvores, dirigem ônibus, brincam com cachorro, pulam de paraquedas… E ainda por cima se cuidam!

E como se não bastassem os dias de sapos-goela-abaixo, as cantadas toscas e todas as limitações sociais patéticas, aperece uma pequena de sete anos que olha para a minha cara, no meio de um casamento, depois de uma luta séria pela produção de cabelo, roupa, sapato, bolsa e maquiagem, e diz:

– Tia, você tá laranja!

Acho que preciso trocar meu pó compacto…

Neném na caixa de papelão

Chama-se Aurora, como poderia se chamar Vitória, ou outro nome bastante simbólico que costuma ser dado nestas ocasiões. Aurora pesa pouco mais de três quilos e mede 47 centímetros – cabe perfeitamente dentro de uma caixa de papelão. Coberta por um pano, ninguém imagina que está lá dentro. Quem sabe seja um gatinho, pensa o estudante que passa pela rua e encontra a caixa. Mas um braço se deixa mostrar – é o bracinho de Aurora. E o estudante descobre um bebê, um recém-nascido ainda com cordão umbilical.

Ora, o estudante é apenas um estudante de 20 anos, não tem os próprios filhos, não tem experiência de vida, e por isso não sabe exatamente o que fazer com aquela criança que ele pensou que fosse um gatinho. Mas há por perto uma mulher, uma mãe, alguém que leva Aurora para casa, coloca roupinhas novas nela e em seguida acompanha o estudante até uma delegacia. De lá parte uma viatura dos bombeiros e a recém-nascida é levada de volta para um hospital, onde é submetida a uma série de exames e recebe o seu nome de batismo.

Que, deixe-se claro, não é o mesmo escolhido pelo estudante. Para ele, a menina se chamaria Karen – o estudante queria fazer algum tipo de homenagem ao pai, que é de origem austríaca (o estudante não sabe que Karen é de origem escandinava). Mas Karen não é um nome que se dê a um neném encontrado em uma caixa de papelão, por mais que signifique “pura” ou “casta” – é muito mais adequado chamá-lo de Aurora. E, também, o estudante foi apenas a pessoa que encontrou a menina, não pode sair batizando assim quem bem entender. Que faça a homenagem em sua própria filha, parece dizer o hospital.

Não é todo dia que se encontra um recém-nascido, e por isso o estudante nem sabe o que dizer quando perguntam como se sente. Tem apenas uma convicção: a de que é preciso manter contato com Aurora depois de tudo isso. No abandono daquela criança, não desejada, não programada, um rapazinho descobriu os seus próprios desejos de pai.

Às vésperas das eleições

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Na crônica passada confessei que pouco entendo de política. Sei o básico do básico, como diferenciar, superficialmente, a direita da esquerda. Pois, dias atrás, conversei com um amigo que está bastante determinado em quem não votar: em alguém. Ele abraçou o número 00 ou coisa que o valha. Comentei, mais por reflexo do que por convicção, que lamentava tal decisão, sobretudo em se tratando da disputa presidencial. Foi o meu fim. Escutei, resumidamente, o seguinte sermão:

“Dizem que é um voto perdido, mas discordo. Decerto é para aqueles que, por uma atrapalhação qualquer, digitam e confirmam um número que representa um candidato diferente daquele que haviam escolhido. No entanto, para quem carrega no peito sentimentos de desilusão e protesto, não há o mínimo espaço para considerar um extravio. Além do mais, como tudo o que é considerado inútil na vida, ainda lhe resta o fim estatístico.

Para quem escolhe ninguém, dizem também que lhe é vedado o direito de cobrar do Presidente eleito suas promessas de campanha. Ledo equívoco. Pago os impostos em dia e presto contas anualmente ao FISCO, de modo que, por mais patética que seja a realidade da relação do povo para com os seus representantes, não só me sinto bem à vontade para cobrar, como me considero patrão de todos os políticos, bancando seus salários e, como se não bastasse, suas regalias.

Dizem ainda que devo ponderar um voto estratégico, um voto não necessariamente para eleger, mas para eliminar. Entendo, respeito e não critico quem opta por estratagemas; afinal, política é guerra, suja mas é guerra. Acontece que, por questões de princípios, não vejo sentido em votar num candidato que, no cômputo geral, me inspira a mesma iniquidade do seu adversário.

E mais, dizem que, em último caso, devo cascavilhar a matéria até descobrir quem é o candidato ‘menos pior’. Pois bem, cascavilhei a vida privada e pública dos candidatos e a trajetória recente de seus partidos, e, no fim das minhas contas, encontrei-me deparado entre a manutenção da ruindade e o retrocesso à ruindade – ambos em pé de rigorosa igualdade em termos de inferioridade.”

Pensei, então, em aconselhá-lo a viajar neste fim de semana, aproveitar em alguma praia do litoral norte a onda infernal de calor em plena primavera. Mas me calei. Imaginem se ele resolve dissertar sobre a importância do comparecimento às urnas para o voto de protesto? Optei pela prudência: comentei se tratar de uma boa tese sobre a nulidade e fui embora. Bem decidido em quem votar, eu segui pela calçada pensando nas palavras do meu amigo… Quando dobrei a primeira esquina já estava indeciso.

Perdem todos

Ainda não são as eleições das redes sociais, como profetizam pleito após pleito no Brasil. Neste país tão desigual e desnorteado, persegue-se ainda algo que se cristalizou nos EUA na eleição de Obama em 2008, mas que em 2014 provou-se muito distante da nossa realidade.

As redes sociais no Brasil se firmam como verdadeiras trincheiras eleitorais e promovem o destempero alucinado de militâncias desgovernadas e descomprometidas com um projeto de país melhor.

Enquanto essa “brasilidade” no jeito de se fazer política na internet persistir, qualquer outro recorte envolvendo política e internet se faz desnecessário e utópico. Espaço democrático ímpar, a internet foi apropriada em seu pior prisma pelos arautos da infâmia e da desconstrução a todo custo.

Indubitavelmente o grande legado dessa eleição é o quanto o brasileiro, da maneira mais genérica que esse tipo de constatação permite, está despreparado para o debate político em seu viés concreto e em suas proposições mais abstratas.

A política se desloca do eixo central do debate que se perde na politicagem suja e rasteira da clandestinidade. Não foi a campanha mais virulenta e suja como os candidatos e parcela da opinião pública faz crer. Talvez tenha sido mais suja e virulenta do que se imaginava em face da tragédia sem precedentes que marcou essa campanha com a morte de Eduardo Campos. Mas a virulência e agressividade, em termos absolutos, nada mais são do que reflexo desmesurado do comportamento assumido pelos brasileiros “engajados” nas redes sociais. Esse engajamento deturpado, ele mesmo reflexo de tempos obscuros, em parte responde pela inexistência de uma campanha eleitoral propositiva. Seja no âmbito federal, seja no âmbito estadual.

Se um governante é o espelho do seu povo, um candidato reflete sua militância.

No cemitério

33Outro dia vi uma cena em frente a um cemitério que me deixou intrigado. Quem por ventura vir a ler esse texto pode condenar esse que vos escreve sem medo de ser processado. Sim, estou ciente de que pensamentos nada corretos politicamente passaram pela minha cabeça. Como o juízo da gente é mais cruel do que a justiça dos homens, em determinado momento estive a beira de me por algemas e ver minha cara exposta na “globo” ou na internet. Feitas as ressalvas, vamos aos fatos.

Passava eu de carro, numa via expressa, na frente de um cemitério. A velocidade de 60km permitida no local, por isso não tive tempo de contar quantos eram. Na entrada da “última morada” tem uma imagem de santo, o qual desconhece o nome. Alguns vão pensar: oras deve ser o nome do cemitério! Não, não é! O local leva o nome da via expressa. Pois bem, ao pé dessa imagem tem uma mureta e nela estavam sentados, acredito, cerca de 10 homens. Outros dois estavam próximos, mas sentados à sombra. Eles vestiam calças, sou péssimo para definir cor, ocre e camisetas brancas. Aquelas roupas típicas de presidiários.

Sei que há muito “reeducandos”, politicamente correto, que integram programas de trabalho fora das penitenciárias. Eles saem para trabalhar e ganham redução na pena e uns trocados para ser enviado à família. Mas, nos cerca de cinco quilômetros que ainda percorri da via, fiquei pensando o que poderia passar na cabeça daqueles homens sentados à frente do cemitério. Que crimes cometeram? Será que alguma vítima estaria sepultada ali? Será que refletiam sobre o fato de estarem ali? Será que não passava apenas de um será da minha cabeça?

Segui meu caminho. Muitas outras perguntas passaram pela minha mente, mas essas contemplam e dão significado ao que expressava minha reflexão. Para cada tipo de crime que associava a um daqueles homens, mas imaginava era injusta a situação. Não faço a mínima ideia de quantas pessoas repousam na eternidade naquele cemitério. É certo, que dezenas sepultadas ali tiveram suas vidas ceifas por uma ação criminosa. Famílias derramaram muitas lágrimas naquelas salas de velório sobre corpos de jovens e pais de família. Mas, que culpa tinha aqueles homens sobre isso?

Vivo o caos das grandes cidades. Essa pressão nos faz condenar pessoas e situações sem antes parar para pensar. Não fugi ao roteiro da sociedade que antes condena e depois de arrepende. Tenho conflitos com o que realmente significa direitos humanos. Conflitos esses ampliados após ser vítima de uma ação criminosa. Por outro lado, nada disso me dá o direito em julgar aqueles que o Estado diz reeducar. Há humanos, como o criminoso preso em Goiás, acusado de dezenas de crimes bárbaros, que não merecem viver em sociedade. Mesmo assim não podemos viver no olho por olho dente por dente.

Ao retornar para casa fiz o mesmo caminho. Ao passar em frente o cemitério os presos já não estavam mais lá. Não havia ninguém sentado ao pé da estátua, apenas jovens estudantes num ponto de ônibus perto. Daí me encorajei, e passei a pensar no profeta Gentileza. José Datrino, nome de batismo do profeta, nós deixou o grande ensinamento: “Gentileza gera gentileza”. E, como dizia um professor José Antonio, que conheci em Guarulhos, “não devemos jogar o bebê com a água do banho”. Até!

Concepção

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Da janela ela contemplava o novo mundo, calma harmonia, dentro e fora. Verde, brilho e luz transformavam seu jardim num pequeno éden perdido, a salvo de todo o caos que reinava na cidade de onde fugiu. Fugiram, para dar ao novo ser um jeito mais digno do que o humano de viver. Ela olhou para a barriga e na confusão de sensações e incertezas sentiu-se, de certa forma, feliz. Os sonhos de outrora se renderam ao calor do lar e ao peito do outro, que lia embalado pela rede. Ela sorriu. Ele sentiu e retornou o sorriso, emoldurado pelos olhos honestos que a fizeram deixar o avião da ambição partir. Ele se levantou, beijou seu ventre e ali se deixou ficar, protegido como nunca esteve, no colo daquela que aceitou sua paz. Ela afagava seu cabelo e pensava em paisagens, risos fáceis, estradas infindas… A chaleira apitou clareando o devaneio. Ele apertou sua mão e silencioso foi buscar o chá. Antes que voltasse, ela limpou do rosto uma lágrima sentida. O paraíso tinha um preço. E amorosamente pelo resto da vida, ela se dispôs a pagar.

Esperança de auditório (Bia Bernardi)

Quem nunca aqui assistiu aqueles programas de auditório, que trazem família, mãe, gato, cachorro e marido perdido?

Jogando limpo: ao mesmo tempo que é engraçado, é triste e é também esquisito. Engraçado porque mostram situações inusitadas e que a gente até desacredita que possa ser possível. Triste porque é aqui que notamos até onde o ser humano é capaz de chegar por tão pouco, por mixarias. Esquisito porque… Ah, porque é oras!

Por mais que mudemos de um canal para o outro, tudo parece muito igual e às vezes até um tanto quanto forçado – e se a gente prestar atenção começa a achar detalhes e mais detalhes que usaremos para provar nossa teoria. É família que briga, gente que ganha reforma da casa, do visual, que viaja, que perde, que acha, que vende, que doa, que pede, que é rica, que é pobre…

De uns tempos para cá passei a não mais dar nenhuma bola para isso e nesse ponto incluo, com muito orgulho, obrigada!, o famigerado BBB e todas as suas decadentes gerações. Eu pensava com meus botões: isso não me acrescenta nada! E então ia cuidar da minha vida ignorando a massa de manifestações televisivas.

Porém, essa semana fui surpreendida.

Não é costume das pessoas acreditarem e sentirem a importância de algo sem que tenham passado pela experiência. Assumo que não sou diferente disso e como disse. Até ver que alguém participa de um programa de televisão e ganha um banho de loja e de beleza, é comum, supérfluo e não tem a menor importância na minha vida. Agora, quando o tal programa vai atrás do pai que esse mesmo alguém nunca conheceu… Acho que é bem diferente. Não pelo programa em si, mas pelo tão esperado feliz abraço entre pai e filha.

E mais que disso, é incrível ver a reação de quem tramou o encontro: meu primo, aquele garotinho todo na dele, magrelinho por fora, feito ponto de exclamação, mas esquisitinho por dentro, feito interrogação. Lembra dele? Pois é, o próprio.

E digo o porquê me surpreendi: porque senti que ainda dá para fazer coisas boas até mesmo com o que parece ser ruim, que depende de nós chegar ao topo e que, já dizia meu filósofo predileto, pra querer, é preciso querer forte. E talvez também dê para dizer que – guardando as devidas proporções da comparação, é claro -, os fins justificam seus meios!

Sabe, é aí que a coisa toda começa a fazer sentido e mostra que ainda há um fio de esperança, com a ponta perdida no mundo. Vale a pena procurar? Um poeta já disse que se a alma não for pequena, tudo vale.

Bia Bernardi

Você não sabe o que está perdendo

Você não sabe o que está perdendo até o dia em que deixa de repetir o passado – até o dia em que as suas escolhas são feitas mais por consciência do que por tradição. Quando acredita que não é por alguma coisa ter dado certo um dia que ela precisará ser reproduzida até o fim dos tempos. E já não teme fazer opções diferentes e pouco populares.

Você não sabe o que está perdendo até o dia em que deixa de ser radical – até o dia em que admite ter se equivocado em muitas das suas opiniões mais fortes. Quando não usa mais a sua personalidade como justificativa para continuar pensando do mesmo jeito por toda a vida. E descobre que teria sido melhor pensar diferente desde o início.

Você não sabe o que está perdendo até o dia em que faz algo pela primeira vez – até o dia em que resolve se arriscar e fazer coisas que não combinam com você. Quando reconhece que estava cheio de manias, regras, preconceitos e achismos que não correspondiam à realidade. E se dá conta de como pode ser enriquecedor mudar de opinião.

Você não sabe o que está perdendo até o dia em que deixa de viver com medo – até o dia em que não apenas viaja de avião como senta à janela e olha para baixo. Quando toma consciência de tudo aquilo que já deixou passar simplesmente porque havia risco de não dar certo. E então se abre às novas possibilidades que a vida lhe oferece.

Você não sabe o que está perdendo até o dia em que começa a achar possível – até o dia em que não enxerga mais as circunstâncias como limite para o que acredita. Quando percebe que aquelas frases clichês de otimismo escondem verdades que só são aprendidas pela experiência. E passa a considerar a possibilidade de retomar velhos objetivos.

Você não sabe o que está perdendo até o dia em que se senta em outra cadeira, toma café em outra xícara, inverte a ordem de colocar comida no prato, sai do conforto e da rotina – até o dia em que deixa de ver as coisas da maneira que sempre viu.