Arquivo do mês: outubro 2014

A felicidade do fotógrafo

Por falar em fotografia, era exatamente isso o que ele mais gostava de fazer. Mas não se saberá nunca até que ponto isso foi um desejo natural ou apenas um meio de evitar que ele próprio aparecesse nos retratos. De fato, era sempre ele quem pegava a máquina durante as festinhas e eventos sociais de que participava. No começo não tinha nenhuma habilidade especial: apenas mirava e disparava, sem se preocupar com o cenário que havia ao redor. Mas depois começou a fazer uns cursos, a ler uns livros, e descobriu com Roland Barthes o que era punctum (não confundir com plâncton). Trata-se de um detalhe não previsto inicialmente na foto mas capaz de impactar quem a vê (nem sempre o mesmo detalhe). Passou então a prestar mais atenção na composição da imagem e a desprezar as fotos meramente posadas.

Só que é muito difícil tirar fotos que não sejam posadas. Precisa pegar a pessoa desprevenida, não pode avisar que vai tirar a foto, e sempre existe o risco de que a pessoa não queira ser fotografada e venha reclamar. Ele andava muito pelas ruas tirando foto, mas sempre disfarçando. Preferia os grandes eventos, onde todo mundo acha muito natural que alguém tire fotos. Como um casamento, por exemplo. Como o casamento de uma amiga com quem ele próprio um dia desejou casar.

A vida tem dessas ironias. Ele realmente não queria perder esse dia, mas nunca imaginou que estaria do outro lado, fotografando a noiva e… e esse sujeito que ela escolheu passar o resto da vida. Precisava captar as expressões de maior felicidade do casal, expressões que naquele momento saiam tão naturais, mesmo nas fotos mais posadas. Tirou muitas fotografias, mas tinha certeza de que ninguém iria compartilhar do seu punctum. O seu abatimento naquela noite não transpareceu em nenhuma imagem. Todo mundo enxergaria apenas os flagrantes de alegria que conseguiu registrar. E ele achou que era justo que assim fosse. Quem, afinal, está preocupado com a felicidade do fotógrafo?


Pode ser, tanto faz, prefiro não

Recentemente conclui a leitura de “Bartleby, o escrevente”, uma novela mais ou menos famosa de Herman Melville. Digo mais ou menos porque a desconhecia até então, enquanto outros lhe atribuem fama. Na minha opinião, livros famosos são a Bíblia e Dom Quixote, ficando o resto a depender do referencial adotado. O próprio Melville sucumbe em matéria de fama para a sua cria, a Moby Dick. Mas falemos do escrevente.

Bartleby prefere não. E prefere não o tempo todo. Ele seria a personificação do cúmulo da insignificância não fosse sua obstinação implacável em preferir não. A coisa é grave: não há absolutamente nada que ele prefira fazer, dizer, escolher… Aliás, ele escolhe preferir não. “Bartleby, suma daqui! Você está despedido!”, grita o patrão. “Prefiro, não”, declina o escrevente, impassível. E quando soa mais gentil, ao menos na língua portuguesa, diz: “preferiria não”.

Este personagem me fez lembrar Mersault, o protagonista de “O estrangeiro”, de Albert Camus. Neste caso, o bordão é “tanto faz”. Sim, a maioria das coisas lhe é indiferente e lhe estampa no semblante um ar blasé. “Você quer casar comigo?”, pergunta a namorada. “Tanto faz”, responde Mersault, exibindo uma placidez que não é deste mundo. Imaginem vocês: a decisão mais grave na vida de um homem ser tomada com um tanto faz!

O que há de interessante entre os dois, tirante a teimosia verbal, é a capacidade que têm de perturbar a aparente tranquilidade do meio que os cerca. A pasmaceira geral costuma ser a nota marcante em redor desses personagens. Foi então que elaborei a questão: já convivi com alguém semelhante na vida real?, ou esses tipos são apenas frutos da criatividade artística?

Espremi a memória e me lembrei de um guri que fez parte da minha infância. Com frequência, ele dizia: “pode ser”. Assim sendo, ele dificilmente contestava, embora também não assentisse com ênfase. Era capaz de não se indispor com os que queriam futebol e nem com os que queriam bolinha de gude. Se ele estivesse morto de fome, e na casa de um amiguinho lhe oferecessem pão com patê, diria “pode ser” igualmente como se experimentasse o maior dos fastios. Talvez participasse de muitas brincadeiras sem se divertir plenamente, permanecendo nelas até que não restasse mais ninguém para responder “pode ser, vamos continuar brincando”. Mas ao contrário dos tipos da ficção, não costumava causar confusões. No máximo um pedido reiterado para que se decidisse, por exemplo, entre suco de uva ou laranja, posto que houvesse respondido “pode ser” quando perguntado qual deles preferia. Hoje, ao fazer uma análise retrospectiva do comportamento do menino, concluo que se tratava simplesmente de um tímido – nada de extraordinário que merecesse uma novela como Bartleby e Mersault.

Era eu aquele guri? Pode ser.


Um novo paradigma para Dilma

Foto (Último Segundo)

Foto (Último Segundo)

Acabou! Acabou? Dilma se reelegeu como esperado, mas com uma margem bem inferior ao antecipado. Marina, no final das contas, conseguiu transferir considerável fatia de seus votos para Aécio Neves. Apesar da cada vez mais assombrosa taxa de abstenção o espírito mudancista fez vista grossa para uma candidatura recheada de problemas e retalhada por estratégias defeituosas e controvertidas como a do PSDB. É um sinal atordoante esse que emerge das urnas para o PT.  Há doze anos no Poder, o desgaste, a despeito das reiteradas e nem sempre comprovadas denúncias de corrupção e mal feitos com a coisa pública, é natural e o PT sabe disso. Sabe, também, que continua no Poder pela expressiva votação que recebeu no Nordeste, a despeito das vis e cretinas manifestações de preconceito que sempre insurgem na esteira dos resultados eleitorais. Sul e Centro-Oeste e a grande maioria do Sudeste votaram pela oposição. Já havia sido assim no 1º turno.

A real compreensão desse cenário explica a nova fase “paz e amor” ensejada por Dilma Rousseff. Um aceno ao mercado aqui, um cafuné na oposição ali e muita disposição ao diálogo, como frisou nas quatro entrevistas que concedeu à TV após reeleita presidente. A derrota imposta à presidente pelo PMDB no Congresso, no entanto, explicita que a paz e o amor não serão diurna e noturnamente acatados pelos aliados.  Dilma sai fragilizada das urnas. Talvez menos do que o PT, derrotado em estados que governa até o fim do ano e com menor atuação na nova legislatura.

Se Dilma levar adiante, ainda que com as inevitáveis concessões que terá que fazer, a proposta de reforma política, poderá não só dar sua contribuição decisiva para a história da democracia do país, como reequilibrar as forças políticas em seu governo. É algo para o primeiro ano do 2º mandato.  Se não avançar nesta matéria, Dilma corre o risco de tornar-se refém da agenda nefasta das forças de oposição e dos interesses escusos de sua base aliada. Não acabou! Na verdade, ainda vai começar…


O André da Marlene

 

Embora todos o conheçam e convivam com ele há longo tempo, ninguém sabe se é casado. A ignorância geral irritou Marlene, que vira naquele homem uma oportunidade imperdível de concretizar seus sonhos de casamento. Era incrível a sorte dela de as demais colegas não atinarem para o charme e o potencial do André da contabilidade.

Ela o viu no elevador no primeiro dia como efetiva na nova empresa. Ele vestia um colete em padrão Oxford e usava uma boina que lhe dava um ar boêmio. A barba parecia ter sido escolhida para compor o visual, ou a roupa é que fora escolhida para combinar com a barba? Fosse como fosse, aquela combinação ficaria bem melhor se ele estivesse de braços dados com ela.

Para ele ficar ainda mais perfeito, faltavam só umas gotas daquele perfume que o Lucas costumava usar… O cheiro era a única boa lembrança que Marlene guardava do ex. De tanto que ela falou na época das virtudes sensuais da fragrância, as amigas pediam que ela explicasse como era. Nessas ocasiões, a mulher se limitava a poucas palavras: “ah, é sexy e máscula, cheiro bem de homem”.

Fora do ambiente de trabalho, o homem também era um mistério. Não tinha amigos conhecidos nem perfil em redes sociais. Mesmo assim, como não amá-lo, questionava-se Marlene, ele era tão… tão … singular.

Mas, a quem interessar possa, Marlene fez que fez até que fisgou o André. Ele se revelou um homem de algumas posses, tal como convém a um contador digno do nome. E, inclusive, não se negou a usar o tal perfume irresistível.  Era ele daquele tipo que para todos os quereres da mulher, dizia amém. E foi só.  Embora Marlene fosse sua mulher, o conhecesse e tenha convivido com ele por muitos e longos anos, ela, como os outros, não podia dizer nada mais do sujeito com quem dividia o teto e tinha filhos.

André era um homem de princípios e, por isso, manteve sua vida interior secreta até o túmulo.


Sobrevivemos

imagem da internet

Pode parecer estranho, mas sobrevivemos ao processo eleitoral que se encerrou ontem. Morte mesmo, pelo menos que tenho notícia, infelizmente, aconteceu num Palmeiras e Corinthians no sábado. Um cardíaco, palmeirense, sucumbiu à emoção de ver o Verdão ganhando do rival. Não sei, e não fui atrás para saber, se ele ficou sabendo que o time do Parque São Jorge arrancou o empate no final do jogo.

Voltemos ao processo eleitoral. Foram três meses de um pega pra capar há muito tempo não visto nas terras tupiniquins. O clima foi tão intenso e tenso, que o segundo turno deflorou de vez como uma nova eleição dentro da mesma eleição. O que se anunciava no primeiro turno como uma campanha muito baixa, na pior concepção da expressão, deu provas no segundo tempo que era mesmo a demonstração explícita da baixaria. Mas sobrevivemos ao primeiro turno e elegemos dois gladiadores para o turno seguinte.

Os combatentes foram para o ringue e se utilizaram de suas armas. Claro que discordo da maioria delas, o jogo político não deveria ser visto como vale-tudo. Mas em tempos de MMA, UFC, na tv aberta, em qualquer horário, quem vai observar isso? Tem muito gente incentivada a querer e outras querendo mesmo é ver sangue. Felizmente, sobrevivemos, e até onde sei não houve sangue, mas muitas lágrimas.

Sobrevivemos ao processo eleitoral que há de transformar o país. Sobre vencedores e vencidos ficou um legado enorme de compromissos e comprometimentos de realmente fazer dessa nação uma nação melhor. O comprometimento e compromisso recaem não apenas aos candidatos, mas a todos que manifestaram nas ruas, nas praças, nos carros e, sobretudo, na tão elogiada rede social. Sim, estão todos convocados a cobrarem dos vencedores a execução das promessas e dos vencidos o controle das ações. Como vivemos numa democracia representativa, essa atitude de acompanhamento e envolvimento passa por manter seu representante eleito ativo, participativo, atuante nos temas que foram pautados durante o processo eleitoral. Saíremos realmente fortalecidos, engrandecidos e com o gigante acordado, ser durante o próximo mandato, a ser iniciado hoje, exigirmos e acompanharmos as decisões daqueles que lutamos ao lado.

As aberrações declaradas contra quem, alguém, fulano, sicrano, bertano, são idiotices do fervor do momento. Se perdurarem são passíveis de punições exemplares. Sem parecer e nem querendo ser ingênuo, não acredito na divisão da nação pelo resultado das eleições. Até porque ficou demonstrado que quem acreditou nisso não esperou o jogo acabar. Não leu os números e foi para rua ou internet esbravejar sua mágoa. O que ficou realmente dividido foi o nosso compromisso real e intransferível para com o Brasil.

Hoje começa um novo dia, um novo ano, do novo tempo do nosso país. Mesmo que alguns abandonem a causa maior e resolvam morar em outras fronteiras, a maioria, eleitor ou não dos vencedores, não terá como sair ou motivos par ir. Esses, por vontade própria ou pela imposição do destino, serão os “filhos que não fogem a luta”. Se alguém for, que possamos mostrar que o que realmente esse nosso Brasil tem de melhor é coragem.

Sobrevivemos e haveremos de sobreviver aos novos tempos. Não acabou, estamos apenas começando. É isso.

imagem da internet


Calma Karma

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Quando a alma aperta o peito e a lágrima pensa em descer, o sorriso suspende a agonia de viver assim, sem saber direito pra quê. A apreensão continua, aflita, a buscar respostas mas o coração, sábio conhecedor do amanhã, acalma a mente… Bons ventos sempre vêm apagar a tormenta da incerteza. Como o sol do novo dia a esperança reacende. A vida pulsa para podermos morrer e renascer. A todo momento.


Pó compacto (Bia Bernardi)

Ser mulher não é fácil.

Não que ser homem tenha muito mais vantagens, mas é que mulher é um bicho esquisito, e o pior é que dá muito trabalho ser um bicho esquisito.

É fato que o mundo é um lugar machista e sou capaz de compreender que todo o conceito de sexo-frágil, contra o qual os tantos movimentos feministas lutam hoje, foi construído ao longo de séculos por diversas tribos, grupos e sociedades pelo planeta afora e infiltrou-se nos princípios sociais, éticos e morais da atualidade.

Direito a opinião, voto, salários iguais, revolta do sutiã, morte na fogueira… Quantos não foram os ícones femininos que trouxeram à tona questões de igualdade e que foram capazes de instaurar e popularizar que há força – e muita! – nas unhas e bocas pintadas.

Há quem diga que isso tudo é bobagem, que a mulher só sabe é pensar em shopping, maquiagem e dieta. Uma vez presenciei a seguinte discussão entre marido e mulher:

Pra quê depilação?? A mulher foi feita com pêlos, não foi? É assim que ela deve permanecer!

– É? Então tá bom, a partir de hoje já não depilo mais axila…

Óbvio que a conversa parou por aí, porque o marido percebeu que não era simplesmente um capricho feminino, mas também uma questão de higiene. Além disso, teve que que assumir que preferia uma esposa bem-cuidada ou, como dizem, mais bonita.

A busca pela beleza é algo inerente à mulher e não digo isso somente da visão de beleza física, não! Vejam, no ano de 2000, a então prefeita Marta Suplicy iniciou na cidade de São Paulo o que pudemos apelidar de Projeto Belezura, que procurava resgatar a beleza da cidade, agindo sobre o excesso de outdoorse implantando novas praças, por exemplo. Já em 2006, uma pesquisa do IBGE provou que as mulheres que trabalham em construção civil são mais econômicas e organizadas, além de serem mais qualificadas nos quesitos acabamento, arremate e pintura.

Eu não sou lá uma boa representante de classe, mas é só porque não milito ativamente em causas políticas a favor da igualdade; penso que a mulher não pode de ser taxada de fútil apenas porque chora em filmes românticos, mas também não deve ser posta na posição de heroína inabalável que não precisa de carinho. Nem tanto ao mar, nem tanto ao céu!

Acho que a mulher precisa demonstrar sua verdadeira força, até porque uma de suas funções biológicas é a de ser mãe. E bonito mesmo é ver que muitas trabalham, estudam, cuidam dos filhos, passeiam, plantam árvores, dirigem ônibus, brincam com cachorro, pulam de paraquedas… E ainda por cima se cuidam!

E como se não bastassem os dias de sapos-goela-abaixo, as cantadas toscas e todas as limitações sociais patéticas, aperece uma pequena de sete anos que olha para a minha cara, no meio de um casamento, depois de uma luta séria pela produção de cabelo, roupa, sapato, bolsa e maquiagem, e diz:

– Tia, você tá laranja!

Acho que preciso trocar meu pó compacto…