Por faixas mais inclusivas

calçada

O mundo não para. Quer dizer, apenas o Brasil está parado: ainda estamos discutindo a implantação de ciclovias como alternativa de transporte em São Paulo, com um fla-flu digno de discussão sobre a pena capital. Enquanto em países mais civilizados já há faixas específicas até para pedestres que insistem em falar ao celular enquanto andam.

Pense numa calçada. Uma calçada de verdade. Coisa bem superior aos nossos minguados noventa centímetros, quiçá um metro e dez. Vendo pela foto que divulgaram, eu chutaria bem uns dois metros e meios de calçada. Pense: isso dá quase uma faixa de carro. Com nossos 500 anos de descobrimento, só nos resta segurar o queixo diante de tamanho luxo.

É só pensar, quem nunca deu uma trombada em alguém quando ouvia aquela lista interminável de tarefas do chefe ou ouvia aquele babado forte pelo telefone? Eu já quase beijei um poste e por pouco não fui atropelada por andar distraída, mas a culpa não foi de nenhuma conversa imperdível e sim do meu vício em leitura. “Guerra dos tronos”, certamente, Antônio Prata e, admito, até Dan Brown já me desviaram por aí.

Uma faixa para leitores e não leitores certamente não daria conta do problema por que, nesse caso, onde iria o povo do celular? Não dá pra eu me concentrar com a fofoca no último volume! Nós, leitores de calçada, somos uma minoria legítima. Observe hoje, na volta pra casa, quantos leitores você não vê nos ônibus e nos cafés por aí – todos eles são, em potencial, leitores caminhantes. Público esse que merece calçadas planas, com sinalização tátil para desníveis e sonora para farol fechado.

Isso de andar olhando pro chão, como sempre pediu minha mãe, nunca me interessou de verdade. A gente logo decora o caminho. E o nariz avisa dos presentes caninos. Já nos livros, a gente nunca sabe exatamente onde vai meter os pés. A coisa é tão boa, que a gente até diminui o passo quando ainda tem história pela frente. Quer que eu ligue pra te contar a última?

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos. Ver todos os artigos de Aline Viana

Uma resposta para “Por faixas mais inclusivas

  • Reinaldo Glioche

    Que texto saboroso! Além de dar o devido tamanho à polêmica que mobiliza paulistas. Um prazer voltar a lê-la por aqui!
    bjs

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