A guerra de luzes

Lá na minha terra a gente também usa a palavra “foco” para se referir ao que, em toda parte, se conhece como “lâmpada”. Desconheço as origens e a motivação para o termo, mas não deixo de achá-lo muito acertado: o que é “focar” senão, qual uma lâmpada, lançar luz sobre alguma coisa? Quando se lança luz sobre alguma coisa, fatalmente estamos deixando de iluminar a outras – um foco só é um foco em oposição à escuridão ao redor. As coisas que não são iluminadas por um foco nem por isso deixam de existir – elas foram esquecidas momentaneamente, mas voltarão a ser lembradas tão logo alguém lance, também sobre elas, um pouco de luz.

Tenho feito as reflexões acima enquanto assisto à propaganda eleitoral na TV. É um exercício interessante observar a guerra de luzes que se trava em embates dessa natureza. Os candidatos que representam o governo e, portanto, aqueles que já estão no poder, se concentram em iluminar, unicamente, aquilo que de bom fizeram durante o seu mandato. É preciso ser assim, do contrário não convencerão o eleitor de que devem continuar. Tão incisivos são os argumentos que o eleitor pode acreditar que não existe nada além daquilo que está sendo iluminado. E, no entanto, em qualquer governo, sabe-se que muita coisa não saiu como o esperado (ou o prometido).

São exatamente essas as coisas que serão focadas pelos partidos de oposição. A eles não é permitido colocar em evidência qualquer mérito de quem governa, sob pena de perder a eleição. Quanto mais catastrófica for a realidade que conseguirem iluminar, maior será a chance de convencer o eleitor. É quando os partidos se dividem e cada um escolhe o que focar – a economia, o meio ambiente, a família, o capitalismo. E tentarão convencer o eleitor de que não há nada mais importante a ser iluminado.

O curioso é que, governo ou oposição, todos parecem dispostos a provar de forma racional a superioridade da luz que conseguiram lançar. Mas a menos que um mesmo foco consiga dar conta de toda a realidade, complexa e pluralista, o que parece ser realmente decisivo na escolha de um candidato é a fé que se deposita nele. Há muitas coisas a serem iluminadas e algumas nos afetam mais do que outras, mas ainda não é possível admitir que exista uma grande teoria capaz de abarcar todas elas. Então, quando se escolhe um candidato, estamos também escolhendo o que deve ser focado.

Não significa que o outro candidato – aquele que escolheu iluminar outra coisa – esteja errado em tudo o que disser. E, não fôssemos nós tão passionais, seria até possível que aprendêssemos alguma coisa com ele.

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