Em busca de justiça

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Minhas brigas com o meu irmão eram sempre intermediadas pela minha mãe, que mesmo querendo ser imparcial, ao meu ver, sempre dava uma colher de chá para o caçula. Se quebrasse os meus brinquedos, ele tomava bronca, coisa que entrava por um ouvido e saía pelo outro, mas que salvava, pelo menos, as aparências.

Casos graves, que envolvessem risco de alguém se machucar, valiam castigo. Coisa de ficar pensando no canto da parede por alguns intermináveis minutos ou até ajoelhado nos grãos de feijão. Ninguém gostava, mas era parte do jogo.

Quando a coisa era gravíssima, casos em que alguém realmente se machucasse ou desrespeitasse um adulto, aí sim, vinham as lambadas na bunda. O jeito era não se deixar capturar, correr até a garagem e ficar lá até a mãe esfriar a cabeça. Ou espernar muito para que a mãe ficasse com dó e aliviasse a surra.

Até o dia em que o meu irmão roubou os meus papéis de carta e os vendeu pelas amiguinhas da vizinhança. Colecionar papéis de carta era o equivalente das garotas para o álbum de figurinhas. E nada me dava mais orgulho naquela época do que a minha pasta de papel de carta: com peças presenteadas por uma prima mais velha lindíssimas e raras e uma coleção quase completa de papéis da “Fantasia”, uma marca com figuras super fofas.

Com quase nove anos, eu já tinha chegado a uma forma definitiva de arrumação da minha pasta e só voltava a ela quando queria trocar alguma peça ou exibir a coleção para as amigas. Pense qual foi o meu susto ao ver uma das minhas raridades na pasta de uma das minhas arqui-inimigas?  E depois outra na pasta da Claudinha e por aí em diante?

Respirei fundo e perguntei onde elas tinham comprado – vai que havia chegado uma leva na papelaria do seu Manoel e eu poderia garimpar algumas preciosidades também? Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que o fornecedor era justo o meu irmãozinho…

Fui correndo checar a minha pasta e pude ver que minha arrumação tinha sido alterada. Não havia nenhuma “janela”, mas boa parte do meu acervo de 150 peças simplesmente havia sumido. Justamente as peças  que as amigas se orgulhavam de ter adquirido do maninho.

Em busca de justiça, denunciei o caso à minha mãe. Que aplicou a infalível bronca – pena que considerei inacreditavelmente branda para o caso. Protestei, mas a sentença estava dada. Inconformada, decidi recorrer a instâncias superiores, ou seja, meu pai, que chegava altas horas da noite do batente na metalúrgica.

Minha estratégia foi , depois do jantar, deitar na cama dos meus pais, do lado do meu pai, para garantir que conseguiria apresentar a minha queixa. Era isso ou ele dormiria no sofá.  Quando ele chegou, me acordou para eu ir para a minha cama e eu, na hora, desfiei todo o caso e cobrei medidas mais duras. Onde já se viu o “ladrãozinho” escapar só com uma bronca?! Resultado: o caçula tomou umas palmadas, ficou uns dias sem videogame e ainda teve que me indenizar o valor das peças. Até hoje não sei como o sucesso completo da minha causa não me fez cursar direito ou ser líder sindical.

Fiquei pensando nessa história a propósito da reação com as últimas manifestações e greves em São Paulo. O clamor por justiça e a luta de classes começam muito antes de a gente sequer imaginar que existem esses termos – como que a gente esquece tudo quando cresce? Ou vai ver que quando crescemos passamos a crer que protestos só valem os nossos?  Nos últimos dias,  motoristas e cobradores estraram em greve em São Paulo, policiais militares cruzaram os braços na Bahia, sem teto protestaram por moradia em alguma cidade ou rodovia por aí. Estão certíssimos de buscar a ocasião e o local que lhe darão melhores resultados, seja a marginal Pinheiros, a rodovia dos Bandeirantes ou a avenida Paulista.

Causa-me espanto que formadores de opinião venham a público para dizer que só vale protestar diante da casa do prefeito, em frente à prefeitura ou da sede do governo do Estado. Que fechar a via pública não faz parte da regra do jogo porque prejudica a população. Ora, tem que protestar de forma democrática onde der mais resultado mesmo. Onde incomodar mais. É esse o propósito, se não, era só continuar com infinitas rodadas de negociação (muitas vezes tão pouco eficazes quanto as broncas da dona Zilma). Protestar na casa do prefeito, vai incomodar os vizinhos, mas quem mais vai ficar sabendo? Quem mais vai se solidarizar pela causa? Ou indignar-se? Discuti-la?

Não sei se o gigante acordou. Mas quem quiser se fazer ouvir, que tome a rua para si.

Memória curta

Papirus

Em busca de um número de telefone, encontrei um velho caderno de anotações. Lá estavam números de telefones que poucas vezes consultei, pois os mais utilizados estavam em minha memória. Daí me ocorreu um pensamento. Quando eu não sabia o tamanho da minha memória lembrava de vários números de telefone, nomes de ruas, datas de aniversário, número da conta do banco e tinha apenas uma senha. Fase boa mesmo era quando nem tinha senha.

Alguém deve estar se perguntando, se alguém estiver lendo, como sei o tamanho da minha memória. Basta somar os kbites do celular, mais o SD Card, o HD externo, mais o Memory Card da máquina fotográfica e a capacidade do computador que consigo o tamanho dela. Somei e descobri que não cheguei a um tera ainda. Não sei se isso é bom ou ruim, mas as imagens recentes e antigas, os amigos recentes e antigos, os números de telefone necessários ou não estão todos arquivados nesses locais. Menos um. Em buscas rápidas, quando estão organizados, consigo encontrá-los.

Uma amiga certa vez me disse que não sabia números de telefones, pois vivia nas nuvens. Não a encontro há tempos, e nem tenho o número de seu telefone nas minhas memórias, mas tenho certeza que é mais feliz, pois hoje tudo vai para as “nuvens digitais”. Sim, podemos guardar nossas memórias em nuvens. Cabe alertar, que como as nuvens nas ventanias dos dias secos de outonos, essas informações tendem a se dissipar com um vírus ou a queda do sistema. Já não dá mais para guardar segredos em nuvens, mas dá para viver nelas.

Seguindo na linha dos amigos que não memorizei o contato. Certa vez um deles me disse que o grande impasse para a informática é conseguir uma saída para a forma binária de programação. Nem me atrevo a tentar explicar o que é isso, mas seria com dizer que tudo o que temos de avanço na tecnologia está preso a sua pré-história. É o passado construindo o presente. Confesso que isso não me assusta. O que me assusta foi saber que os cientistas estão prestes a conseguir colocar num único chip, muito pequeno, tudo o que se produziu de conhecimento ao longo humanidade. Não joguem os livros fora, ainda, vai que alguém esquece de fazer uma cópia ou backup!


Estamos a passos largos para que os arquivos digitais sejam transferidos para o DNA. Dizem que esse espaço será muito maior do que a capacidade dos celulares e computadores pessoais, juntos. Espero que essa nova tecnologia retorne para dentro a minha capacidade de memória. Aí não terei mais a preocupação de ficar sem bateria e nem pane no equipamento. Até que isso aconteça, o número do telefone de casa ficará gravado num papel dentro da carteira. Para as emergências, é claro!

Sirshasana

asana                                            Créditos da imagem:  Jonas Peterson

Mariana está de ponta a cabeça, concentrada em manter suas pernas retas no ar. Nesse exercício antigravidade, esquece do armário vazio, do xingo do chefe e do corte da luz. Pensa apenas em manter-se assim, firme como uma palmeira que o vento oscila mas não derruba. Reparando nos dedos dos pés, o pensamento escapa para a manicure, que também foi cortada… mas é contido pela lembrança de que caminhar por conta própria é um prazer impagável. A vida do discípulo desperto é assim: percebe que quando o mundo tira, a vida revela o que realmente importa e sempre esteve lá.

Por que a galinha atravessou a rua?

Aécio Neves: Quando fui governador, Minas se tornou referência na travessia de galinhas. Conseguimos isso com método e premiando as galinhas que conseguiam melhores resultados. Quero levar isso para todo o Brasil. Vamos resgatar a confiança das galinhas em chegar ao outro lado.

Dilma Rousseff: No que se refere à galinha que atravessou a rua, é mais uma conquista desse grande ciclo de mudanças que vem desde o governo Lula. Cada vez mais brasileiros têm acesso às universidades, andam de avião e atravessam as ruas. O Brasil precisa continuar avançando.

Eduardo Jorge: Não podemos abandonar essas galinhas que todo o ano, por algum motivo, decidem atravessar a rua. O PV não nega que atravessar a rua seja uma atividade traumática, mas você não pode criminalizar uma galinha apenas por conta disso. Defendemos a legalização da travessia.

Eymael: Brasileiros, a pátria corre perigo. É preciso que os homens de bem estejam vigilantes para que a Constituição não seja violentada. Na Constituinte, fui autor da emenda que estendeu às galinhas o direito de ir e vir. No meu governo, a Constituição será cumprida.

Levy Fidélix: A galinha atravessou a rua, correndo o risco de ser atropelada, porque ainda não existe o Aerotrem na sua cidade. O Aerotrem é o meio mais econômico para desafogar o trânsito nas principais cidades desse país. Então, minha gente: ou mudar, ou mudar.

Luciana Genro: Tenho como desafio dar voz às demandas de junho de 2013, quando os movimentos populares não apenas saíram às ruas como também passaram a atravessá-las. E se tu não tiveres condições de enfrentar o capital financeiro, as galinhas continuarão atravessando.

Marina Silva: Nós vamos manter os projetos que ajudam as galinhas a atravessar a rua. E sabe por quê? Porque eu nasci lá no Seringal Bagaço e sei o que é querer atravessar a rua e não poder. Quem viveu essa experiência jamais deixará de ajudar. Não é um discurso, é uma vida.

Mauro Iasi: É a mercantilização da vida. Os espaços públicos como a rua são substituídos por templos de consumo que atraem galinhas para lá. Mas a travessia da rua deve ser entendida como direito e, portanto, garantido pelo Estado de maneira pública, universal e gratuita.

Pastor Everaldo: Sou contra a travessia da rua por galinhas. A família brasileira deve ser respeitada. A legislação atual já é mais do que suficiente para os casos excepcionais que levam uma galinha a atravessar a rua. A rua não é competência do Estado e eu vou entregá-la à iniciativa privada.

Rui Costa Pimenta: Sob a aparência de um regime democrático, nosso país vive uma verdadeira ditadura, com galinhas duramente reprimidas pela violência policial enquanto exercem o seu direito de ir ao outro lado da rua. É preciso acabar com todo o aparato repressivo do Estado.

Zé Maria: Vamos reestatizar a rua. Hoje todos os serviços oferecidos a uma galinha na rua são feitos em função dos interesses das empresas privadas, boa parte delas transnacionais. Isso só terá fim com uma sociedade sem patrões, em que a galinha possa ficar do lado de cá.

Que falta a falta de água faz?

Aqueles que não estão em São Paulo devem estar cientes de que o Estado enfrenta grave crise no abastecimento de água. Esse é apenas o mais ruidoso e circunstancial de muitos problemas que o governo do Estado provou-se ineficaz em combater com efetividade e assertividade ao longo de uma gestão marcada pela continuidade e, porque não, pela governabilidade. Preceitos indispensáveis para se assegurar um governo prolífero em benefícios para a população.

Apesar dos pesares, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) lidera a disputa pelo Palácio dos Bandeirantes e flerta com a possibilidade de se reeleger já no 1º turno. A questão que se coloca é até que ponto aspectos como a corrupção, a notável falta de planejamento gerencial e ônus que isso acarreta para população, de fato, influenciam um pleito.

No âmbito federal, por exemplo, a concomitância entre as denúncias de corrupção na Petrobras e o crescimento de Dilma nas pesquisas espanta aquele não familiarizado com o “risco Brasil”. Em São Paulo, muitos falham em explicar por que Alckmin pode se reeleger no 1º turno com uma das maiores crises no abastecimento de água no Estado em curso.

Maluf, que teve o registro de sua candidatura barrado no TSE ontem à noite, é um dos líderes pelo Estado de São Paulo na disputa por uma cadeira na Câmara dos Deputados. José Roberto Arruda, outro corrupto de fina estirpe – daquela que já passou temporada atrás das grades, liderava a disputa pelo governo do Distrito Federal e só não será governador porque a Justiça, com todos os defeitos que o povo aponta, ainda é menos cega do que aqueles que lhe gritam.

Como se vê o “risco Brasil” é uma equação delicada. País de democracia jovem, que ainda não se conscientizou da força magnânima do voto, ainda vai sofrer muito antes de perceber sua condição de mulher de malando.

De qualquer jeito, me responda à pergunta lá de cima: que falta a falta de água faz?

Trejeitos

coffee

Sentada na cama, trabalhando de pijamas, ela olha de relance para ele que está tenso com o problema no computador. Modernidades que vem para criar problemas onde antes não existiam. Em silêncio, ela observa. Quando ele está preocupado, aperta a orelha esquerda. Quando algo não sai como quer, pula de uma vez da cadeira. Parecendo que tudo vai se resolver, abre um sorriso infantil. E num último ato de fé desesperada, une as mãos sobre a testa. Ela se levanta, sorrindo. Vai até a cozinha, prepara um café. Escuta uma obscenidade raivosa entre os dentes e ri divertida. Traz na mão, uma xícara fumegante, um pedaço de bolo de coco e um olhar de ternura. Ele, vendo essa cena, esquece do problema. Não há como resistir àquele pijama desbotado, à mecha revolta sob o olho direito, à boca levemente torcida, sugerindo traquinagem. O mundo ficou no imaginário outra vez. Real, só a paixão daqueles dois, que acontece a cada minuto de atenção.

Dois altares

Por instinto tiro o boné quando adentro na Igreja do Rosário dos Pretos de São Benedito. É uma pequena construção em estilo barroco erguida há quase 60 anos no mesmo local em que escravos ergueram a igreja original em 1737. Tenho a impressão que é justamente nesta primeira igreja que entro, tamanho é o retorno no tempo daqueles que caminham pelo Largo da Ordem, o centro histórico de Curitiba. A arquitetura antiga e a simplicidade da igreja não deixam adivinhar as tecnologias que existem do lado de dentro.

Nos dois lados do altar eu encontro telas grandes que exibem as intenções do dia – aqueles pedidos de uma graça em especial, agradecimentos por uma bênção alcançada, orações pelos parentes falecidos e pelas almas do purgatório. Não é mais necessário que alguém use um microfone e as leia uma por uma, coisa que certamente cansa a todos. Agora basta que ergam a cabeça e leiam, o que deve ter facilitado inclusive para o próprio Deus, que caso perca alguma intenção pode vê-la repetida na tela dali a alguns minutos. Também há um rosário sendo rezado, mas como não há muita gente na igreja atribuo isso a uma gravação. De repente reina um silêncio absoluto, tão inacreditável quanto qualquer outro.

Tento observar alguma característica especial no altar da igreja, mas a verdade é que dificilmente ele me causaria maior comoção do que aqueles que estão praticamente escondidos no Memorial de Curitiba, logo abaixo na mesma rua. São dois altares retábulos feitos de madeira de cedro maciço, construídos em Portugal e que estiveram nas laterais da igreja matriz de Curitiba entre os anos de 1780-1876. A data me impressiona, porque significa que há mais de 200 anos, quando entravam na igreja, os meus antepassados vislumbravam e contemplavam estes mesmos retábulos que hoje eu tenho a oportunidade de vislumbrar e contemplar.

Num mundo que se transforma tão rápido e em que o presente engole tão ferozmente o passado, não deixa de ser uma experiência impressionante.

altares(Foto: Marcelo Elias) 

A importância de Luciana Genro na disputa eleitoral

Foto: Reprodução/Veja
Foto: Reprodução/Veja

Luciana Genro pode parecer o retrato da frigidez e da absoluta falta de humor e propósito nesta campanha eleitoral. Mas a candidata à Presidência da República pelo PSOL traz mais ao quadro político-eleitoral do que essa percepção superficial sugere.

Luciana Genro gosta de pensar que não tem sujeira debaixo do tapete. Talvez não tenha mesmo. Certamente, ao partir despeitada para o confronto direto como o fez contra Aécio Neves no debate organizado pela CNBB, age como se tal sujeira inexistisse. É muito bom pousar os olhos em um candidato assim. Ainda que o candidato em questão falhe clamorosamente em preceitos básicos da política e, com suas inegáveis boas intenções, devolveria o país à era das trevas.

Luciana Genro é importante porque é uma candidatura plenamente honesta em meio a tantas cobertas por cortina de fumaça. Não somente. É, também, uma candidata que com todas as suas deficiências em fazer política preserva uma esperança genuína na mudança, do contrário não perseguiria à presidência com o afinco e seriedade que emprega na campanha sabidamente fadada ao fracasso. Genro acredita em sua plataforma e na eficácia de suas propostas, a despeito de mais de 90% da população brasileira não comungar com ela.

Luciana Genro, por fim, é a expressão mais bela da plenitude democrática. Tida como xiita em suas convicções políticas, é um lembrete para os candidatos que figuram na disputa de verdade pelo Palácio do Planalto, de que o povo brasileiro está mais consciente das escolhas que está fazendo. Para todos os efeitos, e até mesmo porque vira e mexe lembra-se do fato, Luciana Genro simboliza a voz de junho de 2013 nessas eleições.

Por faixas mais inclusivas

calçada

O mundo não para. Quer dizer, apenas o Brasil está parado: ainda estamos discutindo a implantação de ciclovias como alternativa de transporte em São Paulo, com um fla-flu digno de discussão sobre a pena capital. Enquanto em países mais civilizados já há faixas específicas até para pedestres que insistem em falar ao celular enquanto andam.

Pense numa calçada. Uma calçada de verdade. Coisa bem superior aos nossos minguados noventa centímetros, quiçá um metro e dez. Vendo pela foto que divulgaram, eu chutaria bem uns dois metros e meios de calçada. Pense: isso dá quase uma faixa de carro. Com nossos 500 anos de descobrimento, só nos resta segurar o queixo diante de tamanho luxo.

É só pensar, quem nunca deu uma trombada em alguém quando ouvia aquela lista interminável de tarefas do chefe ou ouvia aquele babado forte pelo telefone? Eu já quase beijei um poste e por pouco não fui atropelada por andar distraída, mas a culpa não foi de nenhuma conversa imperdível e sim do meu vício em leitura. “Guerra dos tronos”, certamente, Antônio Prata e, admito, até Dan Brown já me desviaram por aí.

Uma faixa para leitores e não leitores certamente não daria conta do problema por que, nesse caso, onde iria o povo do celular? Não dá pra eu me concentrar com a fofoca no último volume! Nós, leitores de calçada, somos uma minoria legítima. Observe hoje, na volta pra casa, quantos leitores você não vê nos ônibus e nos cafés por aí – todos eles são, em potencial, leitores caminhantes. Público esse que merece calçadas planas, com sinalização tátil para desníveis e sonora para farol fechado.

Isso de andar olhando pro chão, como sempre pediu minha mãe, nunca me interessou de verdade. A gente logo decora o caminho. E o nariz avisa dos presentes caninos. Já nos livros, a gente nunca sabe exatamente onde vai meter os pés. A coisa é tão boa, que a gente até diminui o passo quando ainda tem história pela frente. Quer que eu ligue pra te contar a última?

Musa

ipan

A solução para o meu dilema, garota morena, é o seu rebolar. Eu sento aqui, velho e sem serviço, só para apreciar o seu caminhar. E quando você vem lá, cabelo despenteado a sorrir, ah  mas eu ganho meu dia, deixo de lado o jornal e a bebida e te aprecio da boca bonita ao calcanhar. Você me dá um tchauzinho, quase uma esmola bondosa e eu tiro humilde o chapéu, para te agradar. E te olho até o virar da esquina, bela, fresca e sozinha, a dançar a música da juventude que uma hora há de passar… Mas até lá, morena, e muito depois eu sei, você fará o sol de Ipanema brilhar!

Eleição para apóstolo

E a gente fica imaginando como seria se, ao invés de realizar aquelas autoritárias nomeações, Jesus tivesse promovido uma eleição para escolher os 12 apóstolos que iriam acompanhá-lo. Veríamos propagandas eleitorais como as que se seguem.

Pedro: Você me conhece, sou pescador no mar da Galileia. Ainda que todos se escandalizem pelo nome de Jesus, eu não me escandalizarei. E, se necessário for, estou disposto a morrer com ele.

Judas: Amigos, estão tentando burlar as leis para me tirar dessa eleição. Reafirmo que não fui condenado em nenhuma instância. Sou Ficha Limpa! Leiam toda a verdade em meu site.

Tomé: Está descrente de todos os messias que andam por aí? Não tem certeza se Jesus é o Cristo? Vote Tomé para apóstolo que eu sentirei as suas chagas e descobrirei se fala a verdade.

Tiago: Sou filho de Zebedeu, um homem honrado que oferece emprego a muitas famílias no mar da Galileia. Tenho no sangue o desejo de servir ao próximo. Junto com Jesus farei ainda mais.

Mateus: Durante anos fui coletor de impostos em Cafarnaum. Conheci de perto a realidade das pessoas mais necessitadas. Agora no time de Jesus, lutarei por um mundo mais justo.

Maria Madalena: Sou Maria, a chamada Madalena, da qual saíram sete demônios. É preciso acabar com o machismo no apostolado. Lutarei pelos direitos da mulher à salvação.

João: Juventude da Galileia! Sou aquele a quem o próprio Jesus chama de discípulo mais amado. Para um apostolado jovem e renovado, não se esqueça, no dia 25 de dezembro, vote João.

E muito outros surgiriam, como o jovem rico, argumentando que desde a mocidade guarda os mandamentos. Jesus ouviria a todos atentamente e concluiria: “Eleição? Só por Deus mesmo”.

Por que o terrorismo eleitoral sempre vence no Brasil?

Dilma ataca Marina que ataca Dilma enquanto Aécio fala sozinho. Poderia ser a manchete do Sensacionalista, mas é a síntese mais eloquente da atual conjuntura na corrida presidencial. 

A interrupção do crescimento de Marina nas pesquisas, ao contrário do que podem pensar alguns, nada tem a ver com a avalanche de inverdades e difamações disparadas pela campanha petista e sim com a alardeada, nesse espaço, fragilidade da candidatura do PSB. Mas o terrorismo eleitoral, elemento impregnado na maneira de se fazer política no País, nebula essa percepção de lado a lado. Neste exato momento, a campanha deixa de ser propositiva e passa a ser reativa. O Brasil perde com essa mudança de tom, esperada, mas profundamente indesejada.

Era esperado, talvez por uma vã esperança de que o respeito à vida humana fosse prevalente no jogo eleitoral, que essa campanha depois do acontecido a Eduardo Campos fosse mais amena, ou menos virulenta, nesse quesito. Essa esperança já morreu.  Não somos inocentes e sabemos que a “tática do medo” é adotada em todo o mundo com diferentes escalas e feições. Mas no Brasil, há a sensação de que esse mecanismo é mais presente, perene e resiliente. Por quê?

Não podemos responsabilizar uma polarização que é falsa. Nos EUA, onde a polarização entre Republicanos e Democratas é real e atenta contra a saúde da economia do país de tempos em tempos, esses ataques são mais circunstanciais e menos estruturais.

Existe, é claro, a questão da alienação do brasileiro, mas ela também existe nos EUA, para nos atermos à base de comparação. Seria o aparelhamento do Estado por pequenos grupos de poder, o responsável? Talvez, mas isso ocorre na Rússia, na França e até mesmo na próspera Alemanha. Falar da Argentina ora refém dos Kirchner, ora refém dos Perón é chover no molhado na matéria. Mas talvez seja a profusão indiscriminada da corrupção e a leniência do Estado para com seus próprios malfeitos? Eis que nos aproximamos da resposta de fato. É isso mesmo. Trata-se do jeitinho brasileiro. O tal. Glorificado por uns, defenestrado por outros. O terrorismo eleitoral é o jeitinho brasileiro de nossos políticos para empurrar o barco com a barriga. É mais fácil acolher-se em Sartre e relegar o inferno aos outros do que enxergar o país sem os filtros ideológicos que tanto tergiversam as reais questões do país.

Nossa única saída para essa armadilha não é pelo aeroporto, como sugeriu Tom Jobim, mas assumindo nossa parcela de culpa pelos representantes que elegemos e exigindo deles propostas e cobrando resultados. Algo que essa geração dos vinte e poucos anos parece pronta para ensejar, mas não poderia estar mais longe da colheita.

(C)Oração

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Independência ou sorte. É pelo que devemos orar enquanto pensamos no que vai estar nas urnas dentro de alguns dias. O Brasil, vendido aos pedaços, tendo suas partes arrancadas e destroçadas por agros, petros, e minérios negócios pede um socorro mudo que só seus filhos, deitados sobre este lábaro manchado, podem dar. Então, nesse dia tão simbólico para a nação faço um conclame para que um poder maior nos guie: o da consciência.

A guerra de luzes

Lá na minha terra a gente também usa a palavra “foco” para se referir ao que, em toda parte, se conhece como “lâmpada”. Desconheço as origens e a motivação para o termo, mas não deixo de achá-lo muito acertado: o que é “focar” senão, qual uma lâmpada, lançar luz sobre alguma coisa? Quando se lança luz sobre alguma coisa, fatalmente estamos deixando de iluminar a outras – um foco só é um foco em oposição à escuridão ao redor. As coisas que não são iluminadas por um foco nem por isso deixam de existir – elas foram esquecidas momentaneamente, mas voltarão a ser lembradas tão logo alguém lance, também sobre elas, um pouco de luz.

Tenho feito as reflexões acima enquanto assisto à propaganda eleitoral na TV. É um exercício interessante observar a guerra de luzes que se trava em embates dessa natureza. Os candidatos que representam o governo e, portanto, aqueles que já estão no poder, se concentram em iluminar, unicamente, aquilo que de bom fizeram durante o seu mandato. É preciso ser assim, do contrário não convencerão o eleitor de que devem continuar. Tão incisivos são os argumentos que o eleitor pode acreditar que não existe nada além daquilo que está sendo iluminado. E, no entanto, em qualquer governo, sabe-se que muita coisa não saiu como o esperado (ou o prometido).

São exatamente essas as coisas que serão focadas pelos partidos de oposição. A eles não é permitido colocar em evidência qualquer mérito de quem governa, sob pena de perder a eleição. Quanto mais catastrófica for a realidade que conseguirem iluminar, maior será a chance de convencer o eleitor. É quando os partidos se dividem e cada um escolhe o que focar – a economia, o meio ambiente, a família, o capitalismo. E tentarão convencer o eleitor de que não há nada mais importante a ser iluminado.

O curioso é que, governo ou oposição, todos parecem dispostos a provar de forma racional a superioridade da luz que conseguiram lançar. Mas a menos que um mesmo foco consiga dar conta de toda a realidade, complexa e pluralista, o que parece ser realmente decisivo na escolha de um candidato é a fé que se deposita nele. Há muitas coisas a serem iluminadas e algumas nos afetam mais do que outras, mas ainda não é possível admitir que exista uma grande teoria capaz de abarcar todas elas. Então, quando se escolhe um candidato, estamos também escolhendo o que deve ser focado.

Não significa que o outro candidato – aquele que escolheu iluminar outra coisa – esteja errado em tudo o que disser. E, não fôssemos nós tão passionais, seria até possível que aprendêssemos alguma coisa com ele.