Arquivo do mês: setembro 2014

Em busca de justiça

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Minhas brigas com o meu irmão eram sempre intermediadas pela minha mãe, que mesmo querendo ser imparcial, ao meu ver, sempre dava uma colher de chá para o caçula. Se quebrasse os meus brinquedos, ele tomava bronca, coisa que entrava por um ouvido e saía pelo outro, mas que salvava, pelo menos, as aparências.

Casos graves, que envolvessem risco de alguém se machucar, valiam castigo. Coisa de ficar pensando no canto da parede por alguns intermináveis minutos ou até ajoelhado nos grãos de feijão. Ninguém gostava, mas era parte do jogo.

Quando a coisa era gravíssima, casos em que alguém realmente se machucasse ou desrespeitasse um adulto, aí sim, vinham as lambadas na bunda. O jeito era não se deixar capturar, correr até a garagem e ficar lá até a mãe esfriar a cabeça. Ou espernar muito para que a mãe ficasse com dó e aliviasse a surra.

Até o dia em que o meu irmão roubou os meus papéis de carta e os vendeu pelas amiguinhas da vizinhança. Colecionar papéis de carta era o equivalente das garotas para o álbum de figurinhas. E nada me dava mais orgulho naquela época do que a minha pasta de papel de carta: com peças presenteadas por uma prima mais velha lindíssimas e raras e uma coleção quase completa de papéis da “Fantasia”, uma marca com figuras super fofas.

Com quase nove anos, eu já tinha chegado a uma forma definitiva de arrumação da minha pasta e só voltava a ela quando queria trocar alguma peça ou exibir a coleção para as amigas. Pense qual foi o meu susto ao ver uma das minhas raridades na pasta de uma das minhas arqui-inimigas?  E depois outra na pasta da Claudinha e por aí em diante?

Respirei fundo e perguntei onde elas tinham comprado – vai que havia chegado uma leva na papelaria do seu Manoel e eu poderia garimpar algumas preciosidades também? Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que o fornecedor era justo o meu irmãozinho…

Fui correndo checar a minha pasta e pude ver que minha arrumação tinha sido alterada. Não havia nenhuma “janela”, mas boa parte do meu acervo de 150 peças simplesmente havia sumido. Justamente as peças  que as amigas se orgulhavam de ter adquirido do maninho.

Em busca de justiça, denunciei o caso à minha mãe. Que aplicou a infalível bronca – pena que considerei inacreditavelmente branda para o caso. Protestei, mas a sentença estava dada. Inconformada, decidi recorrer a instâncias superiores, ou seja, meu pai, que chegava altas horas da noite do batente na metalúrgica.

Minha estratégia foi , depois do jantar, deitar na cama dos meus pais, do lado do meu pai, para garantir que conseguiria apresentar a minha queixa. Era isso ou ele dormiria no sofá.  Quando ele chegou, me acordou para eu ir para a minha cama e eu, na hora, desfiei todo o caso e cobrei medidas mais duras. Onde já se viu o “ladrãozinho” escapar só com uma bronca?! Resultado: o caçula tomou umas palmadas, ficou uns dias sem videogame e ainda teve que me indenizar o valor das peças. Até hoje não sei como o sucesso completo da minha causa não me fez cursar direito ou ser líder sindical.

Fiquei pensando nessa história a propósito da reação com as últimas manifestações e greves em São Paulo. O clamor por justiça e a luta de classes começam muito antes de a gente sequer imaginar que existem esses termos – como que a gente esquece tudo quando cresce? Ou vai ver que quando crescemos passamos a crer que protestos só valem os nossos?  Nos últimos dias,  motoristas e cobradores estraram em greve em São Paulo, policiais militares cruzaram os braços na Bahia, sem teto protestaram por moradia em alguma cidade ou rodovia por aí. Estão certíssimos de buscar a ocasião e o local que lhe darão melhores resultados, seja a marginal Pinheiros, a rodovia dos Bandeirantes ou a avenida Paulista.

Causa-me espanto que formadores de opinião venham a público para dizer que só vale protestar diante da casa do prefeito, em frente à prefeitura ou da sede do governo do Estado. Que fechar a via pública não faz parte da regra do jogo porque prejudica a população. Ora, tem que protestar de forma democrática onde der mais resultado mesmo. Onde incomodar mais. É esse o propósito, se não, era só continuar com infinitas rodadas de negociação (muitas vezes tão pouco eficazes quanto as broncas da dona Zilma). Protestar na casa do prefeito, vai incomodar os vizinhos, mas quem mais vai ficar sabendo? Quem mais vai se solidarizar pela causa? Ou indignar-se? Discuti-la?

Não sei se o gigante acordou. Mas quem quiser se fazer ouvir, que tome a rua para si.

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Memória curta

Papirus

Em busca de um número de telefone, encontrei um velho caderno de anotações. Lá estavam números de telefones que poucas vezes consultei, pois os mais utilizados estavam em minha memória. Daí me ocorreu um pensamento. Quando eu não sabia o tamanho da minha memória lembrava de vários números de telefone, nomes de ruas, datas de aniversário, número da conta do banco e tinha apenas uma senha. Fase boa mesmo era quando nem tinha senha.

Alguém deve estar se perguntando, se alguém estiver lendo, como sei o tamanho da minha memória. Basta somar os kbites do celular, mais o SD Card, o HD externo, mais o Memory Card da máquina fotográfica e a capacidade do computador que consigo o tamanho dela. Somei e descobri que não cheguei a um tera ainda. Não sei se isso é bom ou ruim, mas as imagens recentes e antigas, os amigos recentes e antigos, os números de telefone necessários ou não estão todos arquivados nesses locais. Menos um. Em buscas rápidas, quando estão organizados, consigo encontrá-los.

Uma amiga certa vez me disse que não sabia números de telefones, pois vivia nas nuvens. Não a encontro há tempos, e nem tenho o número de seu telefone nas minhas memórias, mas tenho certeza que é mais feliz, pois hoje tudo vai para as “nuvens digitais”. Sim, podemos guardar nossas memórias em nuvens. Cabe alertar, que como as nuvens nas ventanias dos dias secos de outonos, essas informações tendem a se dissipar com um vírus ou a queda do sistema. Já não dá mais para guardar segredos em nuvens, mas dá para viver nelas.

Seguindo na linha dos amigos que não memorizei o contato. Certa vez um deles me disse que o grande impasse para a informática é conseguir uma saída para a forma binária de programação. Nem me atrevo a tentar explicar o que é isso, mas seria com dizer que tudo o que temos de avanço na tecnologia está preso a sua pré-história. É o passado construindo o presente. Confesso que isso não me assusta. O que me assusta foi saber que os cientistas estão prestes a conseguir colocar num único chip, muito pequeno, tudo o que se produziu de conhecimento ao longo humanidade. Não joguem os livros fora, ainda, vai que alguém esquece de fazer uma cópia ou backup!


Estamos a passos largos para que os arquivos digitais sejam transferidos para o DNA. Dizem que esse espaço será muito maior do que a capacidade dos celulares e computadores pessoais, juntos. Espero que essa nova tecnologia retorne para dentro a minha capacidade de memória. Aí não terei mais a preocupação de ficar sem bateria e nem pane no equipamento. Até que isso aconteça, o número do telefone de casa ficará gravado num papel dentro da carteira. Para as emergências, é claro!


Sirshasana

asana                                            Créditos da imagem:  Jonas Peterson

Mariana está de ponta a cabeça, concentrada em manter suas pernas retas no ar. Nesse exercício antigravidade, esquece do armário vazio, do xingo do chefe e do corte da luz. Pensa apenas em manter-se assim, firme como uma palmeira que o vento oscila mas não derruba. Reparando nos dedos dos pés, o pensamento escapa para a manicure, que também foi cortada… mas é contido pela lembrança de que caminhar por conta própria é um prazer impagável. A vida do discípulo desperto é assim: percebe que quando o mundo tira, a vida revela o que realmente importa e sempre esteve lá.


Por que a galinha atravessou a rua?

Aécio Neves: Quando fui governador, Minas se tornou referência na travessia de galinhas. Conseguimos isso com método e premiando as galinhas que conseguiam melhores resultados. Quero levar isso para todo o Brasil. Vamos resgatar a confiança das galinhas em chegar ao outro lado.

Dilma Rousseff: No que se refere à galinha que atravessou a rua, é mais uma conquista desse grande ciclo de mudanças que vem desde o governo Lula. Cada vez mais brasileiros têm acesso às universidades, andam de avião e atravessam as ruas. O Brasil precisa continuar avançando.

Eduardo Jorge: Não podemos abandonar essas galinhas que todo o ano, por algum motivo, decidem atravessar a rua. O PV não nega que atravessar a rua seja uma atividade traumática, mas você não pode criminalizar uma galinha apenas por conta disso. Defendemos a legalização da travessia.

Eymael: Brasileiros, a pátria corre perigo. É preciso que os homens de bem estejam vigilantes para que a Constituição não seja violentada. Na Constituinte, fui autor da emenda que estendeu às galinhas o direito de ir e vir. No meu governo, a Constituição será cumprida.

Levy Fidélix: A galinha atravessou a rua, correndo o risco de ser atropelada, porque ainda não existe o Aerotrem na sua cidade. O Aerotrem é o meio mais econômico para desafogar o trânsito nas principais cidades desse país. Então, minha gente: ou mudar, ou mudar.

Luciana Genro: Tenho como desafio dar voz às demandas de junho de 2013, quando os movimentos populares não apenas saíram às ruas como também passaram a atravessá-las. E se tu não tiveres condições de enfrentar o capital financeiro, as galinhas continuarão atravessando.

Marina Silva: Nós vamos manter os projetos que ajudam as galinhas a atravessar a rua. E sabe por quê? Porque eu nasci lá no Seringal Bagaço e sei o que é querer atravessar a rua e não poder. Quem viveu essa experiência jamais deixará de ajudar. Não é um discurso, é uma vida.

Mauro Iasi: É a mercantilização da vida. Os espaços públicos como a rua são substituídos por templos de consumo que atraem galinhas para lá. Mas a travessia da rua deve ser entendida como direito e, portanto, garantido pelo Estado de maneira pública, universal e gratuita.

Pastor Everaldo: Sou contra a travessia da rua por galinhas. A família brasileira deve ser respeitada. A legislação atual já é mais do que suficiente para os casos excepcionais que levam uma galinha a atravessar a rua. A rua não é competência do Estado e eu vou entregá-la à iniciativa privada.

Rui Costa Pimenta: Sob a aparência de um regime democrático, nosso país vive uma verdadeira ditadura, com galinhas duramente reprimidas pela violência policial enquanto exercem o seu direito de ir ao outro lado da rua. É preciso acabar com todo o aparato repressivo do Estado.

Zé Maria: Vamos reestatizar a rua. Hoje todos os serviços oferecidos a uma galinha na rua são feitos em função dos interesses das empresas privadas, boa parte delas transnacionais. Isso só terá fim com uma sociedade sem patrões, em que a galinha possa ficar do lado de cá.


Que falta a falta de água faz?

Aqueles que não estão em São Paulo devem estar cientes de que o Estado enfrenta grave crise no abastecimento de água. Esse é apenas o mais ruidoso e circunstancial de muitos problemas que o governo do Estado provou-se ineficaz em combater com efetividade e assertividade ao longo de uma gestão marcada pela continuidade e, porque não, pela governabilidade. Preceitos indispensáveis para se assegurar um governo prolífero em benefícios para a população.

Apesar dos pesares, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) lidera a disputa pelo Palácio dos Bandeirantes e flerta com a possibilidade de se reeleger já no 1º turno. A questão que se coloca é até que ponto aspectos como a corrupção, a notável falta de planejamento gerencial e ônus que isso acarreta para população, de fato, influenciam um pleito.

No âmbito federal, por exemplo, a concomitância entre as denúncias de corrupção na Petrobras e o crescimento de Dilma nas pesquisas espanta aquele não familiarizado com o “risco Brasil”. Em São Paulo, muitos falham em explicar por que Alckmin pode se reeleger no 1º turno com uma das maiores crises no abastecimento de água no Estado em curso.

Maluf, que teve o registro de sua candidatura barrado no TSE ontem à noite, é um dos líderes pelo Estado de São Paulo na disputa por uma cadeira na Câmara dos Deputados. José Roberto Arruda, outro corrupto de fina estirpe – daquela que já passou temporada atrás das grades, liderava a disputa pelo governo do Distrito Federal e só não será governador porque a Justiça, com todos os defeitos que o povo aponta, ainda é menos cega do que aqueles que lhe gritam.

Como se vê o “risco Brasil” é uma equação delicada. País de democracia jovem, que ainda não se conscientizou da força magnânima do voto, ainda vai sofrer muito antes de perceber sua condição de mulher de malando.

De qualquer jeito, me responda à pergunta lá de cima: que falta a falta de água faz?


Trejeitos

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Sentada na cama, trabalhando de pijamas, ela olha de relance para ele que está tenso com o problema no computador. Modernidades que vem para criar problemas onde antes não existiam. Em silêncio, ela observa. Quando ele está preocupado, aperta a orelha esquerda. Quando algo não sai como quer, pula de uma vez da cadeira. Parecendo que tudo vai se resolver, abre um sorriso infantil. E num último ato de fé desesperada, une as mãos sobre a testa. Ela se levanta, sorrindo. Vai até a cozinha, prepara um café. Escuta uma obscenidade raivosa entre os dentes e ri divertida. Traz na mão, uma xícara fumegante, um pedaço de bolo de coco e um olhar de ternura. Ele, vendo essa cena, esquece do problema. Não há como resistir àquele pijama desbotado, à mecha revolta sob o olho direito, à boca levemente torcida, sugerindo traquinagem. O mundo ficou no imaginário outra vez. Real, só a paixão daqueles dois, que acontece a cada minuto de atenção.


Dois altares

Por instinto tiro o boné quando adentro na Igreja do Rosário dos Pretos de São Benedito. É uma pequena construção em estilo barroco erguida há quase 60 anos no mesmo local em que escravos ergueram a igreja original em 1737. Tenho a impressão que é justamente nesta primeira igreja que entro, tamanho é o retorno no tempo daqueles que caminham pelo Largo da Ordem, o centro histórico de Curitiba. A arquitetura antiga e a simplicidade da igreja não deixam adivinhar as tecnologias que existem do lado de dentro.

Nos dois lados do altar eu encontro telas grandes que exibem as intenções do dia – aqueles pedidos de uma graça em especial, agradecimentos por uma bênção alcançada, orações pelos parentes falecidos e pelas almas do purgatório. Não é mais necessário que alguém use um microfone e as leia uma por uma, coisa que certamente cansa a todos. Agora basta que ergam a cabeça e leiam, o que deve ter facilitado inclusive para o próprio Deus, que caso perca alguma intenção pode vê-la repetida na tela dali a alguns minutos. Também há um rosário sendo rezado, mas como não há muita gente na igreja atribuo isso a uma gravação. De repente reina um silêncio absoluto, tão inacreditável quanto qualquer outro.

Tento observar alguma característica especial no altar da igreja, mas a verdade é que dificilmente ele me causaria maior comoção do que aqueles que estão praticamente escondidos no Memorial de Curitiba, logo abaixo na mesma rua. São dois altares retábulos feitos de madeira de cedro maciço, construídos em Portugal e que estiveram nas laterais da igreja matriz de Curitiba entre os anos de 1780-1876. A data me impressiona, porque significa que há mais de 200 anos, quando entravam na igreja, os meus antepassados vislumbravam e contemplavam estes mesmos retábulos que hoje eu tenho a oportunidade de vislumbrar e contemplar.

Num mundo que se transforma tão rápido e em que o presente engole tão ferozmente o passado, não deixa de ser uma experiência impressionante.

altares(Foto: Marcelo Elias)