Procura-se quem mastiga gelatina

Ao longo do tempo tenho encontrado mais e mais pessoas que costumo julgar como a semente da salvação do mundo. Você que me lê deve estar imaginando: “São gênios? Intelectuais?”, e eu diria que pelo contrário: nem sempre são pessoas de alto nível intelectual, tampouco social. Aliás, dificilmente essas são pessoas aquela que gozam de poder aquisitivo avantajado – e aqui pratico um pouco do meu preconceito – porque essas costumam endereçar os conceitos e pensamentos de uma maneira um tanto “diferente”.

Em geral, essas pessoas, nas quais eu deposito minha esperança, tendem a ser mais humanas. E essa é sobremaneira a grande característica delas: humanidade. Rotulam menos, compreendem mais. Porque temos a péssima mania de a tudo nomear: os bichos, as crenças, as opções, os estilos… Quando alguém é, seja lá o que for, ninguém nota que a real importância está simplesmente em ser. O rótulo não é importante, as arestas são moldáveis e, portanto, o que vale é o conteúdo.

Quando a gente dá nome a alguma coisa, ela de imediato se limita. O cachorro do vizinho é um poodle toy alemão chamado Totó. Não! Ele é um cachorro, e isso já diz muito sobre ele: que ele é fofo, que gosta de brincar, que tem fome, que dorme, que late. A essência de ser um cachorro não está no nome, e sim no fato dele ser um cachorro. Aquela moça branca é italiana e testemunha de Jeová. Não! Ela é um ser humano!, o que significa que tem dor, que sonha, que tem frio, que pensa, que ama, que escolhe. Sim!, o ser humano não precisa de rótulos…

A minha esperança está em pessoas que mastigam gelatina. Elas são o que eu chamo de “semente da salvação do mundo” por não aceitarem que a gelatina, só porque mole, tenha que ser engolida de uma vez. Não não. Elas saboreiam, sentem a textura, desmancham-na na boca, alterando seu estado de gelatinoso para líquido, até que desça pela garganta completamente transformada.

Essas pessoas, em sua grande maioria, lutam não pelo direito da mulher ou do negro, ou do pobre, ou do evangélico, ou do pedestre. Elas lutam pelos direitos humanos e nao aceitam que “as coisas são assim mesmo”, porque sabem que não são. Elas não engolem a democracia falida do nosso governo, o serviço público defasado, a punição em detrimento da orientação. Elas mastigam cada uma dessas coisas, sentem os caminhos de mudanças e mastigam até que se transformem em algo palatável que o estômago vai gostar de receber.

Aprendi que nem sempre o que falta é bom senso; às vezes é dente que falta. Dente pra mastigar, pra destrinchar em pedaços menores pra que sejam observados no detalhe para que se possa entender de onde aquilo veio, como é formado e para onde está caminhando. Em vez de nomear de direita ou esquerda, de raça assim ou assado, de homo ou hetero, de certo ou errado, vamos mastigar. Vamos mastigar o serviço público, a política, a eduação, a saúde e as nossas próprias justificativas.

Vamos mastigar a vida!

 Engolir gelatina inteira é o que quase todo mundo faz e é por isso engasgam em coisas que teimam em nomear como problema.

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Sobre Bia Bernardi

Bia Bernardi é escritora e gosta de ler livros de temas diversos, adora música, pra dançar ou só ouvir, e gosta de estar com quem gosta. Ver todos os artigos de Bia Bernardi

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