Arquivo do mês: agosto 2014

Façamos assim…

Outro dia me deparei com uma curtíssima entrevista na Folha de São Paulo com o ex-BBB, empresário e neófito na política Diego Alemão. Quem? Pouco importa. A entrevista foi curta e o entrevistado admitia que não receberia votos por suas propostas. Era esse o recorte editorial. O brasileiro até vota, mas no que concernem eleições legislativas, o valor do voto se corrói em uma espiral de subcelebridades, interesses provincianos e um toma lá dá cá dos mais perniciosos. Pensar alternativas para o país, uma das funções primárias do legislador, não desponta como prioridade do eleitor médio do Brasil.

É um ranço cultural que poderia ser amenizado se as eleições legislativas, compreensivelmente eclipsadas pelos pleitos para o executivo, fossem apartadas desses últimos. A ideia é mais simples do que parece. No ano das olimpíadas, como dizemos, seriam realizadas as eleições legislativas nas esferas municipal, estadual e federal. No ano de Copa, a disputa para chefiar o executivo nos mesmos níveis.

Dessa maneira, a proposição de ideias dos candidatos ao legislativo nas diferentes esferas da federação poderia ganhar o protagonismo que merecem e não se ausentar do noticiário em transe com as eleições majoritárias.

Com tal estrutura, talvez, candidatos como Tiririca, Frank Aguiar e Diego Alemão não prosperassem. Talvez. O brasileiro jamais pode ser subestimado.

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Noites e Noites de Amor e Guerra

galeano

Ontem outra vez encontrei Galeano. Ele fumava, como sempre e divagava como nunca. Dizia que esse tal coração, assim tão independente, não passa de bicho carente que se finge doente para ter atenção. Mais ainda, me ensinava a aparentar dureza para não desvanecer a esperteza de quem diz gostar de solidão. Eu ria, deliciada pela fumaça, pelo hálito de Havana e pela faceirice daqueles olhos velhos, de quem muito mais viu que viveu e muito resistiu a se lançar na frente de um dos inúmeros desgovernados trens carregados de vida. Sei que ao final do sonho, depois de horas de palavras sem pé e com muita cabeça acabei por me despedir sem palavras e ele também não me disse adeus. Foi assim, sem abraços ou hipocrisia, sem até logo ou nunca mais, coisa de quem não precisa de cortesia para se fazer gentil. Ainda me lembro de ouvi-lo ensinar que cumplicidade carece de silêncio mais que de certeza. Nos meus sonhos gosto de ver reinar a ausência sepulcral de voz nenhuma. Porque eco é bicho invejoso de alegria alheia. E falta do que dizer só pode ser sinal certo de infindo pensar.


Ela não queria assistir

Noite de alegria e despreocupação, reunidos estávamos na casa de um dos nossos sem outro propósito que não o de passar algumas horas agradáveis. Não havia dieta ou saúde que nos impedisse de comer deliciosas porcarias, pois é precisamente para ter direito a esses momentos que nos guardamos no restante dos dias. Havia riso por toda parte e nenhum assunto minimamente sério foi posto em discussão enquanto lá estivemos. Alguns se distraiam vendo vídeos na internet, outros escolhiam as melhores músicas para ouvir, um viajava sozinho nos acordes de um violão, e havia aqueles que simplesmente jogavam conversa fora. Até o momento em que resolvemos juntar todo mundo para assistir um filme enquanto comíamos pipoca.

Era um filme comum, desses que a gente assiste sem precisar fazer grandes reflexões. Envolvia, no entanto, uma quantidade considerável de cenas violentas, muitas delas sangrentas mesmo, que é aquilo que se espera de um filme que leva guerra no nome. Não estando especialmente atraído pelo enredo da história, e tendo eu um espírito contemplativo, por vezes virei a cabeça para observar os colegas que assistiam. Em uma dessas ocasiões, reparei nos movimentos de uma mulher que não era exatamente uma conhecida minha.

Acontecia que, a cada cena mais forte, ela tirava os olhos da tela e abaixava a cabeça. Às vezes virava o rosto para o outro lado. E sorria nervosamente sempre que assim agia. Era evidente que não lhe agradava ver toda aquela carnificina. Só tornava a olhar para a televisão quando achava que ela já havia terminado. Nem sempre acertava, e por isso chegou a ver muitas coisas que preferia não ter visto. O curioso é que estas eram justamente as imagens que mais prendiam a atenção dos outros. Até por isso, ninguém mais parecia perceber o seu desconforto, e se percebessem provavelmente não entenderiam. Talvez ela mesma se recriminasse e confessasse que é uma boba que se escandaliza à toa.

Humildemente, nós a teríamos perdoado.


E agora, Marina?

Marina Silva

Que o Datafolha traria o óbvio, nós já sabíamos. O crescimento de Marina Silva nas intenções de voto era daquelas coisas que até cego era capaz de ver. As entrelinhas, porém, são mais nefastas em suas colocações. Diferentemente do que muitos antecipavam, Aécio Neves e Dilma Rousseff não perderam pontos na pesquisa. Mais: a aprovação do governo Dilma aumentou. O que esses números sugerem? Que Marina Silva saiu e retorna à disputa presidencial praticamente estável.  O propalado capital emocional detonado com a trágica morte de Campos é ainda mais limitado do que se supunha. Ela amealhou votos indecisos e brancos que já lhe eram favoráveis em 2010. O quadro em um eventual 2º turno também prescinde dos odores da tragédia. Naturalmente, por questões de motivação política, Marina herdaria considerável fatia do voto de Aécio Neves, sendo que a recíproca não é verdadeira. Uma vez que o eleitor de Marina tende a rejeitar a polarização entre PT e PSDB. Essa migração, ainda que em menor grau, também se verificaria se Campos fosse o candidato.

Como se já não bastasse o fator emocional não ter a preponderância que analistas ansiavam, a candidatura de Marina Silva é frágil. Com forte resistência entre o empresariado, ela terá como base um partido que não necessariamente lhe quer bem. Mais: o PSB é hoje um partido em reconstrução, já que perdeu sua principal liderança política, e em plena corrida presidencial. Ofertando a sua candidata um terreno movediço e sujeito a muitas armadilhas nos bastidores.

Não obstante, falta tempo, planejamento e estrutura político-partidária para fazer uma candidatura, para todos os efeitos improvisada, ter competitividade contra as duas principais forças políticas do país.

Eduardo Campos, ao aliar-se a Marina, buscava otimizar os efeitos que causaria nesta eleição. Estipular-se como a face da terceira via e adotar um jeito de fazer política modernizante. Além de fragilizar ainda mais o PSDB enquanto partido e minar a influência de Lula no Nordeste. Já Marina desejava manter-se ativa no xadrez político eleitoral do país e contra-atacar o PT, que minou sua Rede Sustentabilidade.

Mudou tudo e Marina, predestinada como diriam alguns, tem novamente a chance de chegar à presidência. Será uma campanha mais difícil para ela do que foi em 2010, mas ela tem chances de sair ainda mais fortalecida do que da anterior. Se provar-se conciliadora, característica abandonada na saída do PT, pode emergir da inevitável derrota como uma força política renovada. Cenário que parecia distante quando abrigada sob as asas de Eduardo.


Sob uma sombra

tree

 

Alguém morreu. Estava lendo sossegada sobre a árvore, aproveitando o calorzinho da tarde que começa quando do meu lado sentou-se uma moça bonita. Ela fungava. Eu, quis ser discreta, permaneci como se meu livro fosse de todos o mais interessante, desde a Origem de Darwin. Mas aí ela começou a soluçar. Imóvel, me desesperei. Não sabia mesmo o que fazer, afinal era eu para ela tão desconhecida como para mim ela se mostrava estranha. Os soluços foram aumentando. Olhei de soslaio, despistando. Ela mexia no celular. Abençoado salvador moderno das situações constrangedoras. Ainda assim, o choro não interrompia. E eu paralisada entre a estupidez do calor humano não pedido e a gélida ausência de caridade cristã. Não que a morte tenha me afetado com sua ceifadura próxima. De mais a mais, eu não sabia de quem se tratava. Mas aquela moça sabia. E sentia. E estava ali, tão perto de mim que me fez sentir como se eu fosse a mais ruim de todos os corações gelados da terra. Quando finalmente me resolvi a chegar perto, perguntar se ela estava com alguém, ou no mínimo se precisava de um copo de água, chegou um senhor. A pegou pela mão. Lhe disse que não havia certeza que (disse o nome de uma outra moça) estava no avião. E a levou dali, nos braços. Eu fiquei com um pouco da tristeza dela. Da tristeza de pensar que um dia bonito sobre uma árvore pode ser também a lembrança de uma perda dolorida.

* Depois fui saber que a outra moça era a esposa de Eduardo Campos. 
E essa desconhecida que atravessou minha vida por um acaso desses do
destino, uma amiga do casal. À eles, quem foi e quem fica, toda a paz 
que pode caber nesses momentos de tormenta.

Roteiro para a capital do livro

É sabido que os turistas costumam ter ideias exóticas. Imaginemos que um deles, atraído pelas propagandas da Bienal do Livro que ainda não foram retiradas das ruas de Brasília, resolva comprovar se a cidade é realmente a capital do livro e da leitura. Para onde devemos levar esse turista? Às bibliotecas, evidentemente. Existe uma na própria Esplanada dos Ministérios, e que inclusive faz parte de todos os guias turísticos da cidade. A biblioteca existe há meia dúzia de anos. Recentemente inovou e passou a oferecer serviços como o empréstimo de livros. Até pouco tempo era possível visitá-la à tarde nos fins de semana, mas depois se optou por reservar esse período a quem quiser fazer bagunça na área externa.

É preciso alertar o turista para que, nos dias de semana, não a visite depois das 18h, pois é quando o sol se põe, e então já não há garantia de que conseguirá enxergar os livros nas prateleiras. Recomenda-se levar cada um o seu ventilador. Os elevadores não costumam funcionar, mas a escada de emergência está em ótimas condições, apesar de um tanto escura. Em caso de empréstimo, convém digitar a senha pausadamente e, caso tenha o número 4, apertar a maquininha com um pouco mais de força.

O roteiro na capital da leitura deve contar também com uma visita à tradicional Biblioteca Demonstrativa. Ao chegar lá, o turista poderá contemplar a entrada por onde 700 pessoas costumavam passar diariamente. Verá o nome da biblioteca escrito bem grande no lado de fora e experimentará a mesma sensação de todos os que um dia também o viram. Mais ao lado, enxergará a lixeira onde os frequentadores jogavam as coisas que não queriam mais. O turista não deve se importar por não entrar na biblioteca, afinal ela é “Demonstrativa”. Mas nem por isso deixa de oferecer leitura aos visitantes: por toda a fachada há cartazes protestando contra o fechamento e cobrando providências. Interditada pela Defesa Civil, era a maior biblioteca da cidade.


Bom dia, quinta-feira!

Peço desculpas por invadir a quinta-feira alheia, mas as circunstâncias são extraordinárias. Ontem foi um dia difícil, de muita vulnerabilidade e fragilidade. Como jornalista, foi um dia duro de trabalho e acabei ausente do Vida a Sete Chaves. Foi a primeira vez que aconteceu. Espero atenuar essa ausência com esse post. Planejei e planejei esse primeiro post analítico sobre as eleições 2014. Falaria sobre o declínio dos institutos de pesquisa ou da aspereza de uma campanha intensa como a presidencial? Falaria dos bastidores da aliança para a reeleição de Dilma ou do potencial ainda oculto do Pastor Everaldo? Da disputa eleitoral no Rio ou da dificuldade surpreendente de Eduardo Campos em vencer Dilma em Pernambuco? Eram tantas possibilidades, mas quis o destino que eu não investisse em nenhuma delas.

Esse é um daqueles momentos que não vamos esquecer enquanto sociedade. Criou-se um momento histórico na cronologia política do país. Ainda sem pormenorizar o impacto da partida de Eduardo Campos, e ele será mais benéfico à candidatura de Dilma do que pregam os analistas no momento, é preciso pontuar que perde-se o principal foco de renovação dos quadros políticos brasileiros. Uma liderança política jovem, sedutora, bem articulada e com capacidade de modernizar o jeito de se fazer política no país.

Não dá para dizer que o Brasil perde, mas é possível dizer que se perde uma alternativa de futuro.