Não é só pelo 7 x1…

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A Alemanha é tetracampeã mundial e, acredite, isso é o melhor que poderia acontecer pelo futebol brasileiro. Mais do que o estilo de futebol alemão, a forma de entender o futebol dos germânicos deve ser emulada pelos novos comandantes do futebol brasileiro. Não só no âmbito da seleção, mas também dos clubes. Nas quatro linhas, a Alemanha deve mandar por um bom tempo. Na verdade, já vinha mandando, mas extraoficialmente. Agora é oficial. O toque de bola eficiente, a variação tática robusta e a versatilidade dos jogadores alemães serão o modelo a ser seguido no mundo. Outro favor que os alemães fizeram ao futebol brasileiro foi esfacelar a noção de que aqui se pratica o futebol moderno. Técnicos ultrapassados e teimosos são tudo o que temos.

A Copa se foi. A final entre Alemanha e Argentina foi menos um jogo com a cara da Copa do Mundo do Brasil e mais com cara de Copa do Mundo. Não foi a Copa das copas na frieza dos números, mas o Mundial do Brasil devolveu a esperança ao futebol. Equipes ofensivas, jogos intensos e emocionantes, fundamentalmente bem jogados em sua maioria, e com o brilho dos meias ofensivos, essa espécie rara no futebol brasileiro.

Se não houve um grande destaque individual, afinal foi a Copa da coletividade, houve grandes exibições de jogadores como James Rodrigues, Messi, Muller, Hummels, Schweinsteiger, Mascherano, Howard e Robben. Esse último, o craque da Copa. Mas a opção por Messi não é, de maneira alguma, descabida; como querem fazer crer seus detratores. Messi não foi divino nos gramados brasileiros, mas foi tão decisivo como Robben e perdeu efetividade no mesmo momento em que Robben também encolheu; nas semifinais.

Fico feliz com a Copa no Brasil não somente por ela confirmar todos os meus prognósticos aventados não só aqui no Vida a Sete Chaves, mas por ela trazer a promessa de tempos melhores para o futebol. Esse esporte tão cativante e abençoado como é maldito e ingrato.

Tortus

 

RidiculousLoveStoryAs pessoas estão com medo de serem ridículas. Essa sensação se entranhou de tal forma que todos não fazem mais do que simular situações, aliciar opiniões e, pior dos piores, analisar opções. “Não” quer dizer “sim” desde que adivinhado e o “sim” nunca sai porque aceitar virou sinônimo de fraqueza. Acatar significa ser vencido. Revelar sentimentos é a morte do ego portanto fruto terminantemente proibido. Todos queremos ser lidos e relidos mente adentro mas sem que a boca se abra. Ainda assim exigimos ter nossos desejos satisfeitos mesmo que nenhuma palavra seja formada. Pedir virou sinônimo de submissão. E a possibilidade de uma recusa então é o passe certeiro para uma vida de rejeição – fato abominável. A solução foi vestir esta brilhante carapaça isolante. Rir de tudo, olhar para tudo, estar em tudo mas efetivamente nada tem graça, o olhar não se fixa e o corpo é presente apenas enquanto a alma vaga a buscar mãos quentes… Que nunca serão encontradas… É o preço a pagar por querer estar a frente da vida. Um caminho vazio se percorrido sozinho. Detalhes bonitos só podem ser vistos por quem tem coragem de entrar em ruas sem saída e dar meia volta, ainda que envergonhado de um ou outro erro de percurso. Algo ridiculamente simples de entender, por mais que seja orgulhosamente difícil de aceitar.

Homem vitorioso

Homem vitorioso, se você assim não se proclamasse, quem haveria de lhe reconhecer? Definitivamente, não era esta a imagem que tínhamos de você no instante que subiu pela porta traseira do ônibus e, um tanto desajeitadamente, começou a abrir espaço para poder chegar até a parte da frente. No momento em que passou por mim, eu não tive dúvida de que se tratava de um pobre bêbado e temi que fizesse alguma coisa inconveniente aos passageiros. Cheguei a essa conclusão muito rapidamente, pois olhei para você e vi um homem negro, velho, barbado, mal vestido, magricela, meio banguela e que mal conseguia falar direito. Assim, quando você chegou à frente do ônibus e se virou para nós eu temi pelo pior.

Homem vitorioso, quando você se apresentou eu achei que não tivesse forças. Porque você ergueu a manga da camisa e mostrou um braço tão mirrado que só se via osso. E de início o seu discurso também parecia o de alguém que só tinha motivos para se lamuriar. Você dizia que as pessoas nem ao menos lhe dirigiam um sorriso e que o homem é sempre avaliado por aquilo que ele tem. Comecei a achar que você era mais forte do que parecia quando disse que nada disso tinha importância. “Deus me ama”, explicou. E falou do amor que esse Deus sente por você com tamanha convicção que deve ter tido cristão no ônibus corando de vergonha.

Homem vitorioso, criatura de aparência repugnante, que precisa pedir dinheiro para sobreviver, da sua boca eu só ouvi louvores. Você se declarou feliz, feliz como nós mesmos nunca fomos, e vitorioso, vitorioso como nós mesmos nunca nos sentimos. Era loucura que você se considerasse assim, mas não está escrito que esse mesmo Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias, as coisas fracas para confundir as fortes, as coisas vis, as desprezíveis e as que “não são” para aniquilar as que “são”? Devidamente confundidos e aniquilados, só nos restou catar moedinhas e lhe entregar, certos de que a sua salvação está bem mais próxima do que a nossa.

Eu avisei…

Julio Cesar desolado: ao lado de David Luiz, o goleiro da seleção foi um dos grandes jogadores do Brasil na Copa
Julio Cesar desolado: ao lado de David Luiz, o goleiro da seleção foi um dos grandes jogadores do Brasil na Copa

Sei que posso ser chato e não me furto ao direito de sê-lo. Aviso logo que invariavelmente flertarei com a arrogância nas próximas linhas. É o deleite de ser um dos poucos certos lá atrás. Não sou como se diz por aí “comentarista de resultado”. Ciente da ruindade do futebol brasileiro refletido em uma seleção mal convocada, mal formada e mal desenhada taticamente. Me regozijo, ainda, de desde 2008,e repetidamente desde 2010, frisar que era a Alemanha a grande seleção do mundo e que seria campeã do mundo em 2014. É lógico que o imponderável pode se manifestar, mas é o que deve acontecer no dia 13 de julho no Maracanã. Seja Holanda ou Argentina o adversário. Eis aí Holanda e Argentina, seleções em que eu apostei e alertei os leitores apresentando boas performances na Copa.

Felipão, ah Felipão, você torna tudo mais óbvio. A derrota do Brasil para a Alemanha fora preconizada por mim desde que o chaveamento foi definido em dezembro de 2013. Mas a goleada, esse vexame histórico que nebula a quarta-feira dos brasileiros, vai na conta do Felipão. Era muito claro o que ele precisava fazer. Mexer no meio de campo e não se tratava nem mesmo de criatividade, a criptonita dessa seleção que eu tanto martelei. Era questão de reforçar o poder de combatitividade do meio de campo da seleção para dificultar o refinado e eficiente toque de bola da seleção alemã. Felipão dispunha, ainda, de outros recursos. Podia jogar com alas abertos. Apostar na velocidade de Willian e Daniel Alves abertos pelas pontas combinada à qualidade do passe de Hernanes e Paulinho, com Luis Gustavo e Fernandinho como volantes mais fixos à marcação.

Ele tinha alternativas. Apostou, mais uma vez, em ganhar no emocional. Não era por aí. Escalou Bernard para ganhar no grito no Mineirão. Perdeu na bola. E que bola jogaram os alemães. Felipão provou de uma vez por todas o quanto é ultrapassado como treinador. Foi bom porque a inevitável derrota brasileira prometia ser mascarada pela ausência de Neymar. A crônica esportiva como um todo já se pautava nesse sentido. O baile alemão impediu esse subterfúgio.

Venceu o futebol. A Alemanha pratica o melhor futebol do mundo. Se vencer a Copa, conforme se imagina, ganha também a Copa do Mundo com a conquista alemã.

Meus próximos textos, invariavelmente, ainda repercutirão os efeitos desta que é mesmo a Copa das Copas.

Mas já alinho algumas provocações:

Os deuses do futebol não pouparam a pobreza do futebol brasileiro e reservaram a quebra do recorde de maior goleador das copas por Klose para a histórica goleada alemã sobre o Brasil.

Se a Argentina for campeã, e sobre essa poderosa Alemanha, não terá volta. No Brasil perderemos outro título imortal. Pelé cederá o trono de melhor de todos os tempos para Lionel Messi.

O pesadelo, senhoras e senhores, ainda não acabou!

Se pelo menos nós tivéssemos brigado

Se pelo menos nós tivéssemos brigado, mas brigado feio mesmo, com direito a palavras duras e ofensas imperdoáveis. Se um de nós tivesse saído com raiva, batendo as portas e gritando que nunca mais na vida queria voltar a ver o outro. Se a gente não conseguisse se suportar mais e concordasse que o melhor a se fazer era cada um seguir o seu caminho separado.

Se a gente tivesse se decepcionado. Se descobríssemos que o outro não era nada daquilo que a gente imaginou. Se tivéssemos nos dado conta de que nossos temperamentos são muito diferentes e que isso não tinha como dar certo mesmo. Se depois de algum tempo a gente tivesse percebido que não era feliz juntos. Se a gente então se arrependesse e quisesse voltar atrás. Se fossem pesadas todas as consequências e a gente decidisse racionalmente que era impossível continuar.

Se depois disso a nossa vida tomasse novos rumos e cada um fosse para um lado diferente. Se tivéssemos encontrado novas pessoas, uma em especial, a quem amaríamos tanto que até nos esqueceríamos do que vivemos antes dela. Se viessem filhos e então a gente descobrisse em nós um amor que nem suspeitávamos. Se tivéssemos, enfim, encontrado a paz, pessoal, emocional, familiar. Se já não houvesse motivo nem ocasião para nos lembrarmos do passado. Se o tempo tivesse passado de tal maneira que nossa história já não despertasse nenhum sentimento extremado. Se até um certo carinho ainda resistisse às lembranças.

Se tudo isso tivesse acontecido. Se a gente tivesse tentado e descobrisse como seria. Se a gente tivesse arriscado um pouco mais. Se a gente não pensasse tanto. Se ainda fosse possível fazer alguma coisa. Se a gente não ficasse eternamente com esse gosto de coisa mal resolvida. Se a gente tivesse certeza do que teria acontecido. Se a gente não ficasse pensando no que poderia ter sido. Se desse para voltar no tempo. Se a gente tivesse mais uma chance.

Então eu acho que sonharia menos com você.

Emoções boleiras

O goleiro americano Tim Howard registrou contra a Bélgica o recorde de defesas em uma mesma partida de Copa do Mundo  (Foto: Getty)
O goleiro americano Tim Howard registrou contra a Bélgica o recorde de defesas em uma mesma partida de Copa do Mundo (Foto: Getty)

Estão definidas as quartas de final da Copa do Mundo do Brasil. Com duas seleções estreantes na fase (Colômbia e Costa Rica), quatro europeias (Bélgica, Holanda, França e Alemanha) e as potências sul-americanas (Brasil e Argentina).

É a primeira vez que as oito melhores seleções da primeira fase avançam às quartas de final. É a primeira Copa em que cinco dos oito confrontos das oitavas são decididos na prorrogação (dois desses confrontos foram às cobranças de penalidades).

Já é a terceira Copa com maior número de gols da história. Tudo leva a crer que será a primeira.

A Copa não é melhor do que se esperava apenas em matéria de organização, mas também dentro de campo. Se o futebol arte não é cultivado por nenhuma seleção, pode-se dizer que um futebol que tempere coletividade com genialidade e muita aplicação tática é o grande vencedor desta Copa, inesperadamente “nivelada por cima”, como se diz por aí.

É lógico que os talentos individuais se destacam, mas seleções como Costa Rica, Alemanha, Holanda, Colômbia e França, que se esmeram no brilhantismo do grupo, são as grandes atrações do torneio. James Rodrigues, Valbuena, Robben e Messi, grandes jogadores que jogam para o time, e têm a responsabilidade de armá-los, são os grandes nomes individuais da Copa até o momento. E é muito bom que seja assim. Depois de um período em que os meias de formação, “os legítimos camisas 10”, andavam renegados, a Copa no Brasil vem devolver o protagonismo a eles. E passar por aí o aumento no número de gols.

Se tudo transcorrer conforme mandam as tradições do futebol teremos Brasil e Alemanha em uma semifinal e Argentina e Holanda em outra. Mas antes disso teremos jogos emocionantes nas quartas de final. A Colômbia, a sensação mais cativante desta Copa, pode vencer o Brasil, mas é um time menos cascudo do que o Uruguai e com deficiências aparentemente irreparáveis nessa altura da competição na marcação. O Brasil deve avançar, mas James Rodrigues tem se provado mais efetivo para seu time do que Neymar para o Brasil e isso pode pesar.

A Costa Rica parece ter chegado a seu limite. Limite este inimaginável há algumas semanas. Mas é bom que a Holanda se cuide. O time de Van Gaal é o mais bem armado e variável taticamente da Copa, mas a Costa Rica representa o imponderável.

França e Alemanha tem tudo para ser o jogaço da Copa. Tratam-se das duas seleções mais ofensivas da competição, ainda que Colômbia e Holanda detenham os ataques mais positivos. Alemães e franceses devem fazer um jogo franco. A França de hoje é a Alemanha de 2010 e essa Alemanha talvez seja a França de 1998. Quem irá prevalecer? O time germânico, mais completo e experiente, é uma aposta mais segura.

Bélgica e Argentina devem fazer o outro grande jogo das quartas. Messi tem sido decisivo. Ao lado de Robben é o mais representativo dos craques badalados, mas precisará fazer mais ante os empolgados belgas. O time treinado por Marc Wilmots vem melhorando a cada jogo e enfrentará pela primeira vez na competição uma seleção que não se fechará e esperará pelo jogo.

Quaisquer que sejam os resultados, querido leitor, serão jogos para a memória.