Arquivo do mês: julho 2014

Devaneios sexuais de um escritor compulsivo

Aguinaldo Silva, todo prosa com o sucesso de sua novela das nove, “Império”, disse outro dia que “acha o ato de escrever mais gostoso e compensador do que, por exemplo, fazer sexo”.

Pode ser coisa de escritor, pode ser coisa de quem anda fazendo pouco sexo, mas já parou para pensar se nós fizéssemos sexo como escrevemos? Não no sentido figurado da coisa, mas no bojo da literalidade.

Se soubéssemos de antemão que alguém que escreve bem é um ás do sexo, o que seria da intimidade. Hoje fantasiamos a respeito.  Como o advento da convicção repercutiria? Certamente a desestabilização pública se colocaria. Imagine o leitor quando se deparasse com uma “caza”?  E o professor que  cruzasse com o “secho”? Ah, o futuro desse país. Seríamos todos uns frustrados sexuais! Ou já somos?  Por certo, enquanto nação, escrevemos bem mal. Bem mal?

Confesso que me inquieto com a ponderação de Aguinaldo Silva. Talvez porque seja mais fácil obter reconhecimento escrevendo do que transando. Mas é difícil para dedéu obter reconhecimento escrevendo…

Talvez a ciência um dia descubra que a medição do desempenho sexual se correlaciona com qualidade, intensidade e gosto pela escrita. Talvez não. Essa comparação é bem coisa de escritor mesmo…

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Foco

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Da janela que se espraia sobre o horizonte infindo a moça muito quieta deixa cair os pensamentos em cascata. São tantos e tão borbulhantes que ela mal se lembra de olhar a paisagem a frente. Por vezes, um pássaro preto voa mais baixo e pia bem pertinho do ouvido dela. Aí a moça toma um susto, esfrega os olhos, franze a testa e termina por sorrir para a vida que continua firme e viva ainda que tanto pensar teime em acinzentar o que na realidade brilha feito prisma!


Das três formas de ver o mundo

Escolha ser uma pessoa esperançosa, se você sente que se cada um fizer a sua parte as coisas poderão ser diferentes, se você acredita na mudança e crê que ela está acontecendo aos poucos, dentro das pessoas, e mais forte a cada geração. Escolha a esperança se você vive como se ela fosse mesmo a última a morrer, se as suas ações são tomadas na expectativa de que alguém busque sempre fazer o melhor e se você tem mesmo fé de que tudo vai dar certo.

 

Ou escolha ser uma pessoa realista se tiver a real noção de que muita coisa precisa ser mudada para que alcancemos uma condição de vida de fato decente, justa em comparação ao tanto que se batalha, se você vê uma solução possível, se você entende os impactos que essa solução pode causar, se você percebe quem está contra ou a favor e, sobretudo, se você sente quem quer mesmo, lá no fundo, que as coisas mudem – e pra melhor.

 

Mas você pode escolher ser uma pessoa conformada, que já não vê mais solução para o sofrimento do mundo, que já se acostumou com notícias ruins, que acha que precisamos procurar a situação menos pior (porque não dá mais pra mudar), porque você sente que tudo o que lutar será em vão, que a tendência de tudo é apenas piorar e que as pessoas que acreditam num mundo melhor são sonhadoras natas.

 

Estão lançados os dados, cabe a cada um escolher o que será.

Como criança, quando indagada: “o que você quer ser quando crescer?”.


Vai me deixar com ciúmes

Amor, quer ouvir uma coisa que vai te deixar com ciúmes? Ela disse isso pra mim, mas disse assim, como quem tem uma coisa muito engraçada para contar. O problema é que eu não rio de nenhuma coisa que me deixa com ciúmes. Fiz que não entendi a pergunta e ela repetiu: quer ouvir uma coisa que vai te deixar com ciúmes? Fala logo, respondi – desse jeito, seco mesmo. Ela percebeu que eu já estava com ciúmes antes mesmo de contar e começou a rir. Isso me deixou ainda mais nervoso: vamos, conta aí o que foi que aconteceu. Ela se segurou, mas ainda ria um pouco quando começou a falar.

Você se lembra daquele senhor que a gente encontrou um dia desses na saída do meu trabalho? Sei, eu disse. Ah, patife, pensei comigo, antes mesmo de ouvir o resto. E lembra que teve aquele jantar com o pessoal da empresa e eu acabei não indo? Lembro – eu queria que ela contasse tudo de uma vez. Pois então, hoje eu encontrei ele no almoço e daí ele disse “que pena” que eu não fui no jantar, que eu ia gostar, que ele queria ter me visto lá, e não sei o que mais… – ela me contou isso e começou a rir. Eu não estava vendo graça nenhuma. E continuou: achei bizarro, me cantou na maior cara de pau.

E você dá risada, eu digo, ofendido. Ela ri outra vez e diz que não é para eu ligar: é um velhinho de mais de 50 anos. Ainda não estou convencido e retruco: e se não fosse velho? Se não fosse velho, seria novo – ela faz piada numa hora dessas! Mas depois se emenda: eu não daria bola do mesmo jeito, só ia dizer que não quis ir ao jantar e tal, e depois me despediria dele – foi exatamente o que eu fiz com o velhinho. Ainda estou com a cara amarrada e ela apela: te amo, gatinho… mas foi engraçado – e ri, ri outra vez, eu odeio quando estou sério e ela ri. Até que finalmente ela também fica séria: amor, se acontecer de novo essas coisas, eu te poupo de ouvir, afinal não significa nada para mim mesmo. Solto um grunhido qualquer em resposta. Não é fácil ser de Escorpião.


O melhor da festa…

Ele estava ali. Com uma maça enfiada na boca, as mãos amarradas nas costas, de bruços e inclinado sobre um pequeno monte erigido de almofadas. A bunda estava exposta. Havia cera. Havia um pênis de borracha negro de pelo menos 12 centímetros também. Naquela posição, esperando pelo pior, ele tentou-se lembrar do primeiro momento em que sentiu prazer ao sentir dor.

Lembrou-se de quando caminhava de mãos dadas com sua mãe e sempre passava por uma cerca elétrica de um condomínio vizinho à escola. Ele olhava para aquela cerca com o que depois viria a aprender ser tesão. Olhava demoradamente para os fios e podia sentir a eletricidade em um exercício de ansiedade que entregava seu desejo sórdido pelo choque. Mas ele não sabia se esse era o primeiro momento. Até porque só tocou naquela cerca dois anos depois, quando já não estudava mais naquele colégio. Quando já tinha perdido a inocência, ainda que a virgindade não tivesse de todo se perdido.

Lembrou dos tapas na bunda que sua mãe lhe dava. Sempre com muito zelo. Pegava-o pela orelha, o recostava sobre suas coxas grossas, abaixava sua bermuda, ou se estivesse vestindo calça, desatava o cinto e arriava as calças, e batia com a palma da mão levemente inclinada. Sempre três tapas. Lembrou-se de que a partir de determinada época, passou a empinar a bunda e gemer de leve, em vez de chorar.

Lembrou dos tapas na cara que seu pai lhe deu na puberdade. Do gosto do sangue. Do lábio doído e do prazer que sentia na noite que se seguia à bofetada.

Mel chegou e disse que já ia começar. Ele afastou o pensamento para se concentrar naquele momento. Estava para sentir dor. Prazer. Dor. Prazer. Dor.


Sol do meu dia

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Em agonia, grito. Olho para o infinito e insisto. Nem mesmo o eco me volta. No escuro, o silêncio é sepulcro, onde habito inerte a espera do teu renascer.


Como acionar a torneira

Sempre que sinto o desejo de fazer a minha boa ação do dia mas não consigo imaginar como, dirijo-me até um banheiro de shopping center e fico por alguns minutos ensinando as pessoas a acionar a torneira. Porque não é tão fácil como parece e não basta simplesmente chacoalhar a mão na frente dela para que a água comece a jorrar milagrosamente. Existe toda uma técnica que varia de shopping para shopping e que só pode ser aprendida pelo hábito. Assim, não é raro que eu encontre novatos completamente desorientados diante da torneira, balançando as mãos freneticamente sem conseguir que caia uma mísera gota. É quando eles começam a olhar para os lados, a espera de alguém que mostre a eles como fazer, que eu humildemente entro em cena. “Assim ó” – e bato com a mão duas vezes no encosto da pia. Não em qualquer parte, evidentemente: mais ou menos uns dois dedos à direita de onde está a torneira.

Feito isso, a água costuma cair por aproximadamente dois segundos, o que nos obriga a repetir a operação infinitamente ou desistir e sair com as mãos mal lavadas mesmo. Isto, é claro, se você não tiver muita experiência em banheiro de shopping center. Da minha parte, eu já descobri que existe um lugar específico logo ao lado da torneira que também é capaz de acionar a água e que pode deixá-la correndo ininterruptamente se você colocar um peso em cima. Como muitas vezes sou obrigado a escovar os dentes no shopping, eu estrategicamente posiciono para este lugar o meu tubo de creme dental. Dessa maneira eu consigo passar a perna em todo o sistema hidráulico e ter água disponível pelo tempo que precisar.

São técnicas que procuro passar aos meus colegas de banheiro, normalmente bastante admirados com tanta tecnologia: “Isso aqui é a Europa agora?”. Porque não é só a torneira. A dificuldade com a descarga não é menor. Sem falar no sabonete e na toalha, que hoje em dia é só um ventinho. Dia desses um senhorzinho observou: “Meio fresco esse banheiro, né não?”.