Arquivo do mês: junho 2014

Despertos

cielo

E o sol passou outra vez brilhante e morreu como o facho da última estrela cadente que vi antes de dormir enquanto apertava a sua mão na minha Acordei do sonho do sono, você já se tinha ido, esmaecido em brumas e não via mais comigo a abóbada celeste salpicada de pura luz. Amedrontada caí de novo no poço mais fundo, iluminado pelos holofotes de mentira… Mas eu verdadeireço na noite porque aprendi a viver de dia.


Balanços

Minha mãe foi alimentar os peixes do aquário e descobriu que um deles havia morrido. Sem dúvida foi de saudades do meu pai – ele próprio morrera alguns dias antes. Também um dos seus canários repentinamente adoeceu. E até mesmo a sua xícara de café, a única xícara que usava para tomar café, caiu no chão e se partiu. Todas as coisas a que meu pai dedicou algum afeto – até mesmo as inanimadas – estão sentindo a sua falta. Desnecessário falar da minha mãe, que parece querer ruir junto com o casamento de 56 anos. No próximo sábado ela faz aniversário. Já anunciou melancolicamente que este deve ser o último aniversário dela. Todo mundo negou veementemente, mas a verdade é que eu não duvido. Desde a doença do meu pai que ela própria não anda muito bem de saúde. Já tem marcado exame, porque está com algum problema no intestino – e problema no intestino preocupa.

Vou visitá-la todo dia na hora do almoço. Hoje ela me mostrou a quantidade de contas e propagandas que continuam chegando em nome do meu pai. Mas o pior são as ligações – continuam ligando para o meu pai. E minha mãe precisa então repetir aquilo que vem tentando esquecer: “Ele já é falecido”. Contou-me isso e depois silenciou, e eu também não sabia mais o que dizer. Logo ela foi se deitar e eu precisava voltar ao serviço. Mas ainda fiquei lá, caminhando pela casa, que agora me parecia tão grande, vazia.

E silenciosa, porque tudo o que eu ouvia eram os ponteiros de um relógio de parede, presente da minha irmã no dia das Bodas de Prata. Subi até os quartos, aqueles em que todos nós vivíamos antes de nos casar. Fiquei lembrando coisas antigas e depois saí para os fundos da casa, onde ainda existe um balanço do tempo da minha infância. Lembrei de uma foto dessa época, eu e minha irmã sentados ali mesmo – ela séria e eu sorrindo estranho. Foi tirada justamente pelo meu pai. Voltei a sentar ali e fechei os olhos. Deixei-me balançar, mas lentamente – eu desejava que as coisas não balançassem tanto assim.


Que Copa é essa?

Andressa Urach com as cores de Portugal, figura exótica da Copa das Copas... (Foto: AG News)

Andressa Urach com as cores de Portugal, figura exótica da Copa das Copas… (Foto: AG News)

Esperei os jogos dessa quarta-feira  porque embora lidere o bolão na empresa e esteja extremamente satisfeito com a comprovação de que todas, absolutamente todas, as minhas teorias a respeito desta Copa do Mundo estão se confirmando, o torneio tem cota de imponderável. Alô Grécia, o bonde que eu deixei passar (poxa, Costa do Marfim!). A seleção grega, muito aplicada taticamente, mas um pavor em qualquer outro fundamento, avançou à segunda fase conquistando sua segunda vitória em sua história em Copas do Mundo e a segunda sobre africanos (venceram a Nigéria em 2010).

Muitos celebram o fato de que as seleções latino-americanas estão indo bem, mas a grande novidade desta Copa não é esta. É histórico, e o torneio no Brasil assim o ratifica, que os países do continente em que o evento é sediado costumam se destacar. Para colocar mais pimenta nesse molho, nenhum europeu foi campeão em Copa organizada no continente americano. Argentina, Brasil e Uruguai ganharam todas disputadas por aqui. É a Alemanha, como digo desde sempre, a grande desafiante a esta escrita em 2014.

E a Espanha? Brado aqui, e quem acompanha o Vida a Sete Chaves sabe, que o futebol emburrecido e carente de objetivos praticado pela seleção espanhola é um engodo. Dos maiores e foi desmascarado proporcionalmente em um tombo que todos esses comentaristas de um tom só na TV não esperavam.

E o Brasil? Mal. Como era de se esperar. Parreira, em surto de sinceridade, disse que falta criatividade à seleção brasileira. Sério? O que eu venho dizendo aqui e em todos os outros lugares para quem tem a paciência e gentileza de me aturar?

No entanto, quis o destino que o caminho da seleção fosse facilitado até a semifinal. Os confrontos com sul-americanos devem ser acirrados, mas o Brasil deve prevalecer. Mas a possível colisão com a Alemanha na semifinal faz suspirar por mais emoções em uma Copa que, até o momento, prima por elas.

Além das quatro linhas

Gols de joelho, já foram dois

Ala Renato Guadalupe, o gaúcho, teve gol de barriga.

Jogador nocauteado que continuou no ringue e jogador que com bolada saiu fraturado.

Teve mordida também. Virou meme.

Teve musa nas arquibancadas, beijoqueiro nas reportagens e peladões croatas.

Neymaria, fusão de Neymar com Ana Maria, invasão argentina e diva Maitê toda Proença na tv.


Diana

free

Ela abriu os olhos e deu com o azul do céu sem nuvens. Lembrou-se vagarosamente onde estava e porque. Apertou as mãos na grama orvalhada e sentindo ainda a moleza da manhã sorriu, em calmo êxtase. Virou o rosto para ver o verde a perder de vista da liberdade recém conquistada. A paz em sua expressão era sinônimo de decisão acertada. Ainda devagar, ela se levantou e foi até o riacho, próximo. Entrou assim vestida, talvez um resto a minguar da opressão por tanto tempo vivida. Sentiu aos poucos o abraço da água em torno de seu corpo. De olhos fechados ficou a ouvir a própria respiração enquanto o calor do sol recém nascido a enchia de vida. Estava perdida para o mundo agora, e era assim que queria ser vista. Este era apenas o começo de uma caminhada que se propunha sem fim. Onde o rumo a seguir seria definido pela mágica palavra a pouco aprendida: para tudo, diria SIM.


Promoção da Copa!

Mais algumas fatias de pão ainda serão entregues, não fique de fora da fila! Talvez venham com geleia, talvez venham meio secas, duras de engolir. Como acompanhamento, teremos bolotas vermelhas para colocarmos no nariz, maquiagem gratuita para todos, incluindo homens, crianças, adolescentes e idosos. Dica importante: levem água. Vai ser difícil engolir o que virá depois.


Ligações de um homem

Ela devia ter interrompido aquilo ainda no começo. Mas não, deixou que continuasse, que virasse uma rotina, e quando se deu conta já não conseguia voltar atrás. Se pelo menos ele não falasse aquelas coisas todas! Este foi o problema, porque ela não estava acostumada a ouvir aqueles galanteios. Logo na primeira conversa ela já havia se derretido. Foi durante a noite, pouco antes de dormir, que ela atendeu a ligação de um número desconhecido. Era engano, ele se desculpou e ela desligou. Mas já em seguida ele ligou de novo, disse que tinha gostado da voz dela e queria saber se eles não podiam conversar um pouco. Ela achou engraçado aquilo e deu corda na conversa. Primeiro aquelas coisas básicas, o nome, onde mora, onde trabalha, o que gosta de fazer. Depois ele já queria saber se ela tinha namorado – e ela não tinha. Já ele, confessou que tinha, mas ela achou que isso não tinha nada demais, afinal era só um doido que havia discado errado e agora puxava papo com ela.

No outro dia ele ligou de novo. Ela ficou meio ressabiada, mas conversou normalmente – e ainda tinha aqueles galanteios, meu Deus! Não era certo ficar ouvindo aquele tipo de coisa, mas ela realmente estava carente. Tinha 30 anos e sentia que o tempo estava passando rápido demais – dali a pouco estaria velha demais para casar! Estava sozinha há tanto tempo que já havia se esquecido de como era receber o elogio de um homem. Por isso tolerava aquelas ligações a cada noite, ligações de um homem comprometido e aparentemente cafajeste.

Às vezes tomava uma decisão: nunca mais iria atender ligação nenhuma. Resistia um ou dois dias, no terceiro aguardava com ansiedade ao lado do telefone. Pedia a ele que não ligasse mais, mas ele dizia que era besteira e ela acreditava. Quando achou que não resistiria e iria encontrá-lo pessoalmente, teve um gesto intempestivo e quebrou o chip do celular. Tudo teria acabado ali, se ela não tivesse gravado o número dele na cabeça.


Ainda sobre Messi e Neymar…

Gosto não se discute. Todo mundo sabe disso e não estou aqui para atentar à lógica popular. Mas em parte instigado por um debate que tive com o tutor e idealizador deste espaço, o Henrique Fendrich, a quem respeito e admiro, e em parte porque Copa do Mundo é reverberação de botequim, decidi resgatar a discussão sob uma terceira perspectiva. Afinal de contas, estatísticas e fatos não serviriam de nada para demover gostos e convicções. Não me atrevo a ser tão poético na ironia como o Arnaldo Branco nesse texto de arrepiar, mas preciso botar os pingos nos is. Mesmo que para isso me aproprie do brilhantismo alheio, no aceno da trégua da bola, que só os verdadeiros boleiros são capazes de compactuar…

http://fan.football.sony.net/brazil/blog/2014/06/11/hola-messi-que-tal/

 

E que 1ª rodada esperançosa foi essa da Copa para o futebol…