Arquivo do mês: maio 2014

E é assim que caminha a humanidade?

… porque quanto mais eu conheço as pessoas ao meu redor, juro: penso seriamente se terei mesmo um filho/a. Acontece que é crueldade demais botar mais um nesse mundo, que ficará indignado com certas coisas, que ficará abismado com tantas outras e que vai querer mudar tuuuudo o que estiver errado, que vai querer transformar e será mais um que vai se decepcionar. Se eu já não quero isso pra quem já está por aqui, quiçá para o meu próprio filho. Eu pensava, antes, como o meu pai: é a chance de um mundo melhor!, é  o jeito de multiplicarmos a nossa sã consciência e fazer florir um jardim decente! Mas será mesmo, coitado do meu rebento!, que ele merece essa carga, essa responsabilidade, esse destino? Não acredito que seja justo com o/a pobre. Sem contar que até ele/a poder assumir essa posição de “salvador/a”, terá se passado muito tempo e, provavelmente, as coisas estarão bem piores até lá, o que complica ainda mais a “tarefa” a ser cumprida e piora a minha culpa e remorso. Eu talvez abriria mão do sonho que mais almejo na vida em prol dele mesmo; abriria mão da minha felicidade em prol da felicidade do sonho que nunca virá – pois quem sabe essa seja a maior felicidade dele também, a melhor escolha: não vir ao mundo. Mas eu também sou hipócrita ao meu modo, também olho só para o meu próprio umbigo e também não faço tudo exatamente como eu digo e penso. Bem capaz de nos próximos anos eu estar relembrando esse post, e dizendo: “é… eu deveria ter me escutado, não é filho?”

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Acreditava no amor à distância

Era como se eu visse a mim mesmo dez anos atrás. Também era um adolescente e não tinha ideia do que fazer com a sua vida. Carregava apenas o nome de uma mulher – uma mulher do nosso tempo, ou seja, uma que se conhece pela Internet e mora longe. E foi precisamente por isso que me procurou, pois sabia que eu próprio já havia vivido alguma coisa parecida. De início me mostrou uma carta que havia recebido no dia anterior – coisa curiosa: podiam se falar em tempo real, mas ainda trocavam cartas. E era uma carta igual a todas que escrevem os adolescentes que amam, com o agravante que aqueles nunca haviam se visto.

Estavam separados por nove horas de distância e dois motivos que impediam o encontro: um de ordem financeira, pois era apenas um adolescente que não trabalhava e nem ganhava mesada, e outro de ordem familiar, pois o pai dela era contra qualquer encontro com pessoas conhecidas pela Internet. Confessou-me que as próprias cartas que trocavam eram uma atividade proibida – ele as endereçava para uma amiga dela, que então tratava de entregá-las pessoalmente. Fora isso, conversavam diariamente pelo computador e pelo celular. Assim passaram os últimos meses, na esperança de que um dia as circunstâncias mudassem e eles, enfim, pudessem viver o amor que acumulavam.

Esse era o estágio das coisas quando ele me perguntou se eu acreditava no amor à distância. Refiz, mentalmente, a minha própria trajetória nesta matéria. Mas a verdade é que eu já tinha a resposta na ponta da língua: por tudo que vivi, eu não acreditava mais. Só que não disse imediatamente, e fiquei pensando se não era o caso de evocar aquela terrível exortação do Braga, que eu já conhecia à época, mas me esforcei para ignorar (“Não ameis à distância, não ameis!”). Pensei ainda em citar o caso do Neymar e da Bruna Marquezine. Mas acabei dizendo apenas: “Não muito”.

Porque eu sabia que, por mais que eu dissesse, ele ainda iria preferir descobrir por conta própria.


Superstição em francês, sacanagem em holandês e a letra do samba brasileiro na Copa

Zidane vem ao Brasil só como turista

Zidane vem ao Brasil só como turista

Que o Brasil foi campeão mundial duas vezes nos últimos 20 anos, quase todo brasileiro sabe. Que perdeu outras três copas aqueles bons de matemática e ligeiramente inteirados das coisas do futebol também ostentam conhecimento.

O que parece estar enterrado no fosso das coincidências canhestras do futebol é que Holanda e França ocupam parte mais fundamental nessa história toda do que crê nossa vã filosofia, ou atenta à esparsa memória.

França e Holanda, de um jeito ou de outro, marcaram o caminho do Brasil nas últimas Copas. Apenas em 2002 não houve um encontro entre os países. Em 1994, ano do tetra, o Brasil fez aquele épico confronto com a Holanda. Do gol do Branco com a “desviadinha” do Romário, do gesto do Bebeto… Em 1998, o ano do trauma, houve Holanda e França. Vencemos, sem merecer, os holandeses nas semifinais, e encaramos os anfitriões na final. E Zidane não falo. Desculpem meu francês. Fato é que depois de uma folga em 2002, quando fomos penta, holandeses e franceses voltaram a mostrar os dentes em copas.

Em 2006, e Zidane não falo, um certo craque francês fez a melhor exibição individual de um jogador que vi até hoje com os olhos que a Terra há de comer um dia. Mas o bode expiatório foi Roberto Carlos, que como bode expiatório é o craque que nunca foi nos gramados.

Em 2010, os holandeses se encarregaram de serem nossos carrascos, já que de Zidane – infelizmente – a África do Sul não pôde se embevecer.

É isso. França e Holanda, para o bem ou para o vaticinante mal, estão no caminho do Brasil em 2014. Os holandeses, com alta probabilidade, podem nos encontrar já nas oitavas de final, quando o bicho começa a pegar mesmo. Os franceses, se confirmarem a 1ª posição do complicado grupo E podem ser nossos adversários nas semifinais.

A letra do samba é a seguinte: superstição é bobagem, mas estejam todos avisados…


Haicai Saudoso

 

nuvens

Sob as nuvens
e o oceano
partir. Em um ano.


Mina de fé

Dizem que sou otimista. Alguns até me acusam de boba, inocente. Já escutei que tenho alma de criança.

Mas o que eu tenho mesmo é fé. E acho engraçado que as outras pessoas não a tenham. Muitos a professam tão fortemente, clamam a um ser (independente do seu nome) e acreditam nele como a coisa mais certa do mundo. Porém, quando o olhar muda e se volta para a vida real, ao cotidiano, essa fé morre, se transforma em conformismo e toda a beleza se acaba.

Então eu penso que, das duas, uma: ou se tem fé em tudo, ou não se tem fé em nada.

E quando não se tem fé em nada, eu chamo de desespero.

Muitos dirão que não é bem assim, que não se pode gastar saliva a quem não quer ouvir, que não se joga pérolas aos porcos e eu digo que sim!, que um certo dia esse alguém ouvirá, que uma hora o porco fará para si um belo colar. E aí veremos que valeu esperar, que valeu tentar.

Porque o poeta está certo – porque todos os poetas estão sempre certos: tudo valerá a pena quando a alma não for pequena. E talvez seja isso, minha alma talvez seja enorme, como de um gigante, e aí tudo vale a pena, tudo faz sentido.

E então eu fico bem feliz por descobrir que minha fé é verdadeira. Mas imagino quão triste foi, para muita gente, descobrir que aquelo que chamava de fé, era, na verdade, apenas desespero.


Como todo suicida

Acreditava na vida após a morte – como todo suicida. E de vez em quando, no fim da tarde, levava seus ombros caídos para vagar entre os andares de um shopping center. Não qualquer um, mas aquele em que mais de dez pessoas já haviam se atirado do último andar desde a inauguração. Elas subiam até a praça de alimentação e de lá se jogavam bem na área central do shopping. Só depois de muito tempo é que se decidiu colocar um vidro impedindo que pulassem. Descobriu-se então uma área externa, também no último andar, que poderia muito bem servir para esses propósitos. Mas ali apenas um senhor teve êxito, porque logo o shopping tratou de envidraçar a saída. Desde então mais nenhum caso foi registrado. Se fosse antes de botarem vidro em tudo, é provável que também tivesse pulado. Acabaram com os meios para se matar, mas não com os motivos – foi o que pensou.

Subia a escada rolante em direção ao primeiro andar. Nele não havia vidro nenhum, porque quem pulasse dali, embora se machucasse tremendamente, ainda continuaria vivinho. Olhava para as pessoas que encontrava, prestava atenção na expressão delas e se espantava porque em nenhuma identificava a mesma dor que sentia. Será possível que ninguém mais sofre? Será que ninguém mais pensou em pular daqui? Também se admirava que ninguém percebesse a sua própria expressão, carregada de angústia e desespero. Se estivesse pensando em pular, ninguém daria pela coisa senão quando fosse tarde demais. E, no entanto, não era difícil adivinhar o desejo em seu rosto.

Sentou-se próximo a um vaso de flor. Ao seu lado, uma mulher falava ao celular. Esperou que olhasse na sua direção. Queria que ela visse o seu estado, percebesse que não estava bem. Quem sabe ela até resolvesse ajudar. Aceitaria a ajuda dela. Mas muito tempo se passou e a mulher, distraída, nem por um momento olhou para quem estava logo ao lado.

Desanimado, levantou-se e caminhou até a praça de alimentação. Ainda queria se matar, mas agora lentamente.


A Copa é nossa, mas…

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A Copa do Mundo está aí e eu queria falar de Copa, mas sem falar de futebol. Chato, né? Eu sei. Mas é possível, principalmente se pensarmos que falar em Copa é, essencialmente, falar do Brasil de 2014. E o Brasil de 2014 pouco inspira à celebração, mas nos enche de comiseração.

Uma dessas más impressões diz respeito a nossa falta de urbanidade.  É relativamente notória a fama de o brasileiro ser amistoso, receptivo e caloroso com estrangeiros. Mas não são os estrangeiros que pagam nossas contas. Por mais que o turismo represente fatia substancial do capital econômico do País.

É questão de concurso público. Funcionários públicos devem tratar e serem tratados com urbanidade. Mas a teoria na prática é outra. E como é!

Pedestres que não atravessam na faixa; Motoristas que estacionam seus carros sem qualquer preocupação se ocupam uma ou duas vagas; Prefeituras que cobram Zona Azul sem investimentos compatíveis no espaço urbano; pessoas que não dão “bom dia” quando entram em um recinto; sem contar aquelas que sabotam as boas tardes…

A questão que se coloca não é apenas a falta de urbanidade, mas a falta de disposição em correr atrás do tempo perdido. Faça um laboratório em uma fila de banco. Ou em uma loja varejista popular. O brasileiro não alimenta a cortesia. Parece se ressentir dela. É lógico que não posso ser mais uma vítima da generalização, mas é uma chaga mais abrangente do que a correção política pode me cercear.

A Copa das Copas revelará essa nossa deficiência? Improvável. Mas enquanto há vida, há esperança.  Ainda que esta também seja vítima de nossa falta de urbanidade.