Arquivo do mês: abril 2014

Ah, Lupita…

lupita

O mundo parou para discutir o ato de racismo sofrido pelo jogador do Barcelona Daniel Alves no último domingo e mais ou menos de maneira concomitante os EUA receberam com choque a notícia de que o proprietário de um time da NBA, Donald Sterling, fizera declarações de cunho preconceituoso e orientara sua namorada a não convidar negros para os jogos de seu time.

O racismo no esporte é o tema da semana e, ainda que adornado por boa dose de oportunismo, como a tal campanha que nos chama de símios demonstra, é bom que o seja. O esporte é contumaz vitrine para a engrenagem de mudanças necessárias no seio da sociedade.  Não que essas mudanças, vagarosas e geracionais, vão acontecer na esteira do irônico e, por que não, gesto de classe de Daniel Alves.

Mas é importante que um assunto importante tome a pauta nacional em um momento em que o frisson pela desimportância das coisas urge em nossos calcanhares.

Na semana passada, por exemplo, houve um grande conchavo nas redes sociais pela eleição de Lupita Nyong´o pela revista People como a mulher mais bonita do mundo. Lupita Nyong´o não é a mulher mais bonita do mundo. Não está nem mesmo entre as 100 mais bonitas, assim como Juliana Paes, eleita pela terceira vez em 2013 a mais sexy do mundo pelos leitores da revista Vip aqui no Brasil, também não o é. A subjetividade perde-se em meio a tantas lamúrias. Diferentemente da eleição da Vip, Lupita foi uma escolha editorial da People. Pode-se questionar as razões que levaram à escolha da atriz nascida no Quênia, criada no México, e que carrega exotismo já no nome. Lupita foi um furacão na última temporada de premiações, é festejada por algumas das marcas e grifes mais solenes do mundo empresarial e é, sim, negra. A People quis fazer um pronunciamento com essa escolha. Poderia ter sido Halle Berry ou outra personalidade negra qualquer, há muitas lindas por aí (Beyoncé, Rihanna e Kerry Washington, para ficar nos exemplos óbvios). Mas Lupita é de verdade. Raízes africanas orgulhosamente combinadas com uma personalidade própria, altiva e que encanta.

Daniel Alves que nos desculpe, mas a primazia é de Lupita!


Confissão

mônica

A terapeuta diz que minha implicância é ciúme, mas tenho o tempo a meu favor: sempre detestei meninas mimimi. Menina mimimi é aquela que é toda risadinha, que é uma delicadeza só, que criança não jogava bola pra não mostrar a calcinha, fica vermelha se ouve palavrão e é incapaz de pensar por si mesma. É uma fraude. E como faz sucesso.

Chega até a me dar urticária. A última crise foi tamanha que até me submeti a um teste, desses de revista, para aferir o meu grau de feminilidade. A pontuação ia de zero a 300. Aqueles com perfil masculino deveriam marcar até 150. De 180 em diante, estavam as legítimas filhas de Eva. Soma daqui, revisa dali, meu resultado foi 155.

Veja que cento e cinqüenta e cinco não é código pra traveco. E se fosse, não creio que eu causasse maiores fenômenos.  Diz o tal do teste que a zona cinzenta entre 151 e 179 indica quem tem a mente equilibrada entre os dois tipos de raciocínio, feminino e masculino. Ainda sob os efeitos da pressão mimimi, quase aceitei um tratamento de choque: pintaria meu quarto de rosa, iria trabalhar sempre de saia e saltinho, cortaria franjinha e passaria a ler Sidney Sheldon.

A menção a Sheldon foi absolutamente técnica, como minha mente racional e quase absolutamente masculina exige. Lembro de ter visto na internet uma pesquisa que dizia que mulheres que lêem romances românticos batem de longe as que preferem outros tipos de leitura no quesito relacionamentos – a rivalidade, afinal, também consiste nisso.

Eu tentei. Fui lá na livraria e peguei um título qualquer com uma mocinha em um vestido de época na capa. A reação do meu organismo foi violenta: quase o deixei cair no chão. As páginas transbordavam – acho que só uma desintoxicação poderosa pra me livrar da má influência – de coisas como “crepúsculo”, “lágrimas que rolavam pelo rosto”, e “ela sorriu lentamente”.

Combater o mimimi é de família. Ainda criança, minha avó, pessoa da maior seriedade, interrompia a leitura do evangelho para me lembrar que “muito riso, pouco siso”. Não preciso tomar juízo graças a ela e, talvez por isso, sinto falta de autenticidade na mimimi. Tem uma frase do poeta Vladimir Maiakovski perfeita: “Amar não é aceitar tudo; aliás, onde tudo é aceito, desconfio que há falta de amor”. Gente que não peida e que não tem opinião, desculpa, mas, não tem vez comigo.

 

Crônica originalmente publicada em: http://cronicasdas12.blogspot.com.br/

Ps. Peço desculpas aos leitores por não trazer um texto inédito hoje: eu precisava fugir do leão, rsrsrs


Quimeras

CABEÇA-DE-BORBOLETA

Minha cabeça fervilha de ideias. Mirabolantes umas, geniais outras, doloridas quase todas mas maravilhosamente cheias de potência humana. Tendo a amar o ser humano como nunca, por ser assim, figura tão poliédrica, construtora individual e conjunta de milhões de teorias, teoremas, teimosias… É gênero, é religião, é amor, é sexo, tudo se mistura numa junção tal que bebo e bebo da poção, mais cheia a cada gole e menos saciada a cada vez, tentando verter, glutona, todo e qualquer acento de saber. Quero entender, quero pensar, quero explanar o que me causa cada “A”. E assim, no sono do fim do dia, penso e repenso, o caldo entornando no travesseiro explodo em milhares de pontos brilhantes que permanecem no sonho, a girar a engrenagem da minha imaginação.


Dicas para como escrever mal

Escrever mal não é tão fácil quanto se aparenta ser. É preciso muita disposição para conseguir, uma vez que são tantas as regras a serem quebradas, que a primeira dificuldade é escolher por onde começar.

Mas não se desespere!, posso lhe dar algumas sugestões e a primeira é: comece pelo comum, e assim você garante que erros básicos não passem despercebidos. Ou seja: comece pela ortografia.

Cuide para trocar gês e jotas, cês, esses e zês, esqueça os acentos 0 principalmente o circunflexo. Aproveite o gancho dos detalhes e capriche na pontuação. Em suma, deixe de lado ponto-e-vírgula, parêntese, aspa e travessão, finja que eles não existem!, que uma hora isso se tornará natural para você. Use a vírgula sem medo, bote onde quiser e tire de onde quiser, dê liberdade de expressão a ela; achou que vai?, bota lá; achou que não vai?, tira de lá.

Em seguida, dê especial atenção aos verbos. Conjugue-os sem se certificar do tempo verbal em que deveriam estar, ignore particípios e imperativos, calibre nos erros de concordância verbal e deixe de lado toda e qualquer preposição. Feito isso, passe para o tesouro do texto mal-escrito: a concordância nominal. A dica mais preciosa que há para ser dada é: gênero, número e grau devem ser trocados sempre que possível, aplicados por vezes de maneira bem grosseira.

Por último, como a cereja do bolo, escreva sem se preocupar com o sentido da frase; injete informações sem medo de ser feliz, engate um assunto no outro e não lembre de finalizá-los. Crie uma linha de raciocínio e vá desfazendo-a aos poucos; figuras de linguagem poderão facilitar a sua vida. Fale muito, mas não fale nada, esse é o segredo.

Seguindo essas valiosas dicas não há como escrever um bom texto, coeso e interessantes. E se ainda assim estiver com dificuldades, não hesite em apelar: inversa a ordem dos elementos das frases – sujeito, verbo, objeto e adjuntos. Então tenha certeza absoluta: um erro sempre sairá por ali.


Aquela música do Chico

Ele está com aquela música do Chico na cabeça. E ainda sussurrou nos meus ouvidos: “Te dei meus olhos pra tomares conta”. Acho lindo. Mas também acho que é responsabilidade demais tomar conta dos olhos de alguém. Falo isso, mas ele diz que é besteira. E continua cantando pra mim, exagerando o chiado nos S para imitar o sotaque do Chico. Eu rio.

A gente espera um ônibus que não aparece, certamente porque hoje é feriado. Eu preferia estar viajando, de preferência para o litoral, para uma praia maravilhosa como as de Natal. Aquele lugar faz muito bem para a minha pele. Mas nem sempre a gente consegue viajar, ainda mais para a praia, que é tão longe daqui de Brasília. Então a gente se contenta em ir para a Esplanada curtir o aniversário da cidade.

E enquanto o ônibus não vem a gente fica namorando. Eu fico meio sem jeito, porque está cheio de pessoas em volta olhando para nós. Tenho certeza que aquelas duas mulheres estão falando da gente. Mas ele não liga, beijinho no ombro pra elas. Eu rio.

*

Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios. Acho que essa música do Chico é a nossa música. Eu canto cada verso nos ouvidos dela e sei que ela gosta. Verdade que ela ainda tem alguns pudores, às vezes sinto que não se entrega como eu. Então eu faço piada para desarmá-la.

Mas ela está longe e começa a falar sobre a praia. Diz que preferia passar o feriado viajando. Eu me aborreço, porque não gosto de praia e porque sinto que essa conversa não contribui em nada para nos aproximar. Acho que praia tem gente demais, tem sol demais. Também é isso que nos aguarda na Esplanada, reconheço. Mas algum programa a gente precisa fazer.

Se bem que, por mim, a gente podia passar o dia aqui na parada se beijando e falando coisas no ouvido. Só que ela não ia gostar muito, já está se incomodando com o pessoal olhando. Eu quero mais é que olhem mesmo. Estamos fazendo algo errado, por acaso? Deixe que olhem, que comentem, que invejem. Beijinho no ombro, eu digo. E ela ri.


Para não dizer que não falei de flores…

flor

Outro dia escrevi aqui sobre falta de tempo e a falta de tempo quase me obriga a deixar de publicar hoje aqui. Mas ainda não foi dessa vez. Teimosia ou capricho, resolvi falar de flores. De verdade. Deparei-me, no entanto, com minha total falta de conhecimento sobre flores. Quem escreve sobre cultura não costuma admitir ignorância, por mais discreta e ínfima que esta seja. Minha ignorância em matéria de flores , no entanto, não impede ou diminui minha capacidade de admirá-las.

Na ditadura da falta de tempo, a rotina opressiva exaure e mina a criatividade, decidi falar de flores. Sei tanto delas como sabiam os jornalistas que publicavam receitas de bolo durante o regime militar.

Mas elas me parecem mais poéticas do que farinha e ovo neste protesto meu para comigo mesmo. Para os outros, afinal são apenas flores…


Assuntos aleatórios compondo ideias avulsas

zzz1

Andando rápido chuta a lata que esbarra no cão… O lixo ficou em cima da pia por descer… A árvore da esquina precisa mesmo de poda e o aspirador de pó enguiçou, talvez de tanto pelo!? Ração está no final, o chuveiro precisa ser trocado mas e o mar do carnaval… ahhhh! Quarta feira e para o final de semana faltam ainda 8 meses… Um filho levaria nove para vir ao mundo e dizem que as fraldas para tais novas vidas andam pela hora da morte!! Falta cera de ardósia e pano de pia. Wifi com problema e cortinas, tão desbotadas… Bem que podia chover, viu! Aulas vão começar… Pintura rupestre é um bom tema para estudar.? O livro da biblioteca pública está atrasado ainda bem que a multa é baratinha daí dá para tomar café com pão de queijo da lanchonete do lado que é além de bom muito baratinho também… Salário, esse podia bem aumentar em uns 200%!! Tanto lugar no mundo para visitar… Na Tailândia, dizem, elefantes com a tromba para baixo dão azar… Olha o prédio aí. É hora de estagnar.