Amado

14	Carybé	Mulher na Rede

Balança na rede, corpo tom de areia, nua e solta de trejeitos. Sorri com facilidade e canta com doçura enquanto enrola os dedos no cabelo preto. “Oh mar azul, mar revolto, mar saudoso, traz pra mim o barco onde está o meu amor…”. E cai a tarde enquanto ela pensa sentir o cheiro salgado do peito em que vai dormir.

#VomitoMuitoTudoIsso

Que o mundo é machista, nós já nos demos conta. E então vemos muitas pessoas que brigam para mudar, e fazem e acontecem contra uma série de posturas e princípios que nos mantém nessa condição. Mas o pior não está aí.

A grande questão, à qual me deparo quase todos os dias ao observar meus pares, é: até quando vamos tomar as mesmas atitudes, acreditar no mesmo “certo-errado”, nos guiar pelos mesmos conceitos machistas?

E quando eu falo de machismo, não falo em feminismo, na luta da força da mulher, nada – e longe – disso! Falo do foco na diferenciação dos sexos, da não-igualdade em detrimento de uma moral falida; falo de pensamentos guiados pelo “ele-pode-porque-é-homem” ou pelo “é-feio-pra-uma-mulher”, ou ainda pelo “homem-tem-instinto” ou “mulher-que-se-dá-ao-respeito”.

Na minha cabeça surgem as perguntas: e porque mulher não pode?, porque não é feio pro homem também?, e o instinto da mulher? e o respeito aos homens? Para mim, é triste sentir que cada vez mais estamos tendenciosos à diferenciação, aos benefícios individuais que delimitarão a sociedade em apenas regras e pré-conceitos. E mais uma vez tentaremos tapar o sol com a peneira, e tudo ficará “muito-bem-obrigado”.

NÃO!

Não ficará nada bem! Agindo assim estamos destruindo nossa chance de um futuro melhor. Hoje somos obrigados a nos privar de nossa liberdade pelo medo de apanhar na rua, pelo medo de assaltos, estupros, acidentes. Delimitamos o nosso direito de ir e vir porque aceitamos que o mundo é assim. Assim como? Assim, meio machista… meio corrupto demais… meio preconceituoso… meio poluído, mesmo… meio perdido, já… meio sem-jeito e ponto.

E achando que o mundo é meio sem-jeito é que a gente desiste do coletivo e passa a viver olhando para o próprio umbigo, e aí é que nada muda mesmo!, que só piora, porque nenhuma atitude será tomada no seu profundo para mudar algo, viveremos de cobrir um santo descobrindo outro, cortando os galhos de uma árvore podre por dentro com esperanças de que ela ainda dê frutos. Viveremos de paliativos que virarão definitivos e que, no final da história, só darão mais forma para o problema.

Acha exagero? Então pense mais uma vez. E repense. Repense sobre os vagões “só para mulheres”, que apesar de “proteger” as moças direitas, inconscientemente afirmam que o instinto masculino não pode ser controlado, que é assim e ponto. Repense no motivo pelo qual a mulher não pode usar minissaia, miniblusa, decote pela mesma razão dos vagões. Repense no rótulo de “mãe-é-mãe” e questione porque não existe o rótulo de “pai-é-pai”. Repense e questione o motivo pelo qual no dia da mulher todos parabenizam suas queridas por serem capazes de cuidar de tudo – casa, filhos, mercado, trabalho, marido, familia… – e no dia dos homens nada disso vem à tona. E repense em todas as outras situações bizarras que caracterizam a mulher como sexo frágil, homem como “touro-reprodutor-grosso-mulherengo”. Será mesmo que não existe o contrário?

O nosso mundo é machista, é preconceituoso também, é passivo e reativo, ainda por cima. Mas não é por isso que vou ficar quieta, aceitando aquilo que me enfiam goela abaixo no argumento “come-que-tá-gostoso”, “come-que-é-bom-pra-saúde”.

Chega! 

Eu vomito tudo isso, porque eu sei que tá tudo estragado.

Aula de Filosofia

Ajunto um pedaço de folha de caderno que encontro no chão. Aparentemente, é uma aula de Filosofia para o Ensino Médio. São algumas questões que os alunos deveriam responder depois de ter copiado a matéria. A primeira delas: “Por que existe o pensar?”. Não é uma pergunta das mais simples, mas tudo leva a crer que o aluno estava bastante confiante, porque deixou apenas duas linhas para responder. Em seguida vinha outra: “Como funciona o pensar?”. Dessa vez a pergunta exigia mais, seria preciso explicar alguns processos bem complicados da nossa mente, e por conta disso o aluno resolveu aumentar o espaço da resposta para três linhas. Ou tinha um poder de síntese assombroso ou não queria pensar sobre o pensar.

Esse pedaço de folha de caderno me lembrou das minhas próprias aulas de Filosofia na escola – e não pelas discussões, mas porque era durante essas aulas que aconteciam as melhores guerras de bola de papel. Não me lembro de um único ensinamento dessa época, mas nunca me esqueci da bolinha que consegui acertar na testa de um amigo sentado no outro lado da sala.

Mas hoje em dia posso dizer que me interesso pelo assunto. E se a Filosofia não tivesse suprimido o poder sobrenatural como explicação para o que acontece na Terra, eu diria até que foram os seus deuses que me levaram até esse pedaço de papel. Porque eu havia acabado de comprar, justamente, “O Livro da Filosofia”, embora o meu desejo inicial fosse “O Livro da Política”. Havia naquele dia, claramente, um campo energético me atraindo para a Filosofia. Logo eu, que tanto desdenhei dela, que tentei ler Platão e Kierkegaard sem entender nada.

A verdade é que estou mesmo meio filosófico. Ando enchendo os meus amigos de questionamentos sobre a evolução do homem. Marina volta do trabalho super cansada e eu quero saber dela se o nazismo é um exemplo de que a evolução da sociedade pode ser um argumento para legitimar também a barbárie. “Fale leviandades”, ela responde. Taquei uma bolinha nela.

O que eu vou fazer com essa tal liberdade…

Ele olhava o sol distante. Esfregava as mãos com ansiedade e então parava. Voltava a fitar o sol distante e olhava o corredor silencioso e sombreado. O estômago apertava e o intestino reclamava. O coração batia com tanta força que comprometia o pulmão. Seu corpo se revoltava contra ele e o cérebro, meio sem jeito, pedia paciência.

Ele imaginava o que estaria acontecendo do outro lado. As mãos já queimavam de tanta esfregação. Levantou. Sentou. Levantou de novo. Fez gargarejo. Cerrou os olhos com força. Respirou. Sentou novamente e tornou a esfregar as mãos. O intestino anunciava uma rebelião daquelas inevitáveis e o cérebro, ainda sem jeito, tentava selar uma pacificação no organismo em revolta.

Quando o cérebro parecia entregar os pontos, veio aquele guarda mal encarado, que já era sabido seria sua última recordação daquele lugar, e disse: “vem que eu vou te levar até as suas coisas”.

Intestino e estômago aquietaram-se. O pulmão, no entanto, não teve o que fazer quando o coração simplesmente parou.

Sorte de ex-diva

NaufragosAlberdi

Perdidos no meio do oceano, os  náufragos do navio pareciam rezavam por um milagre. Houve quem se sentisse atendido quando uma tora de madeira passou mais perto de si, tendo assim a vítima melhorado suas perspectivas de resistir. Mas, todos os quinze que ali estavam agarrados a destroços ou boiando à deriva mentalizam algo maior, ainda que não tivessem consciência de que suas preces juntas ganhavam uma força imprevista.

Essa energia foi canalizada por uma mente absolutamente aberta, ainda que não muito confiável. A mente era a de uma cantora meio decadente, mas que ainda conseguia atrair alguma cota de atenção. Fazia ela sua viagem astral costumeira quando se deparou com aquele chamado, impresso em letras de neon no plano astral.

Quando acordou, a mulher achou que havia caprichado demais no drinque. Estabelecer contato com o além requeria um corpo limpo, tantas vezes seu guru hollywoodiano havia lhe alertado. Por maior que fosse os dons dela, eles escorriam goela abaixo com vodca, limão e gelo.

E agora aquele chamado! Ela não saberia explicar como havia sido… a memória estava tão borrada que ela quase duvidava de tudo, não fosse aquela sensação persistente de que ela sabia onde estavam os sobreviventes. Sobreviventes! O navio havia simplesmente evaporado do oceano, com todas as dezenas de turistas e mais a tripulação os jornais martelavam já fazia bem uns dez dias…

E ela que não sabia de nada daquilo de sumiço e de naufrágio porque simplesmente não acompanhava a imprensa desde aquele incidente. Aquele que todos sabem, até quem nunca ouviu nem uma canção sequer dela, sobre ela ter transado todos os clientes de uma boate no Brooklin. Todos sem exceção e com registro em foto e vídeo, fato que fez os céticos a acusarem de fazer absolutamente qualquer negócio por um traço de audiência.

Não sabia dizer quantos, mas ela ainda sentia algo vindo deles. Só de pensar, a coisa já a arrepiava. Mas e se fosse verdade? E se todos estivessem vagando naquele mar todo só dependendo dela pra sobreviver? Tomou coragem e foi investigar. Tinha mesmo um navio desaparecido. Com centenas de pessoas sumidas. O que ela podia fazer?

Vasculhou no Google Earth por dois dias e duas noites até achar algumas imagens suspeitas e divulgou para os jornais. Louca varrida foi a coisa mais leve que ouviu. Mas, dias depois, eles foram encontrados, quase mortos, mas vivos. E, embora não nenhum membro da equipe de resgate admitisse, foi a pista daquela cantora bêbada – que um aprendiz resolveu checar só pra poder dar umas risadas e por incrível que pareça percebeu que havia mesmo algo que valia a pena investigar – que levou ao final feliz.

Tarefa

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Minha vista se amarrota. Aperto os olhos mas pouco ou nada estica. É um espaço caótico de linhas tortas sobrepostas. Aliso, aliso mas a rugosidade não cede, sólida. Ferro não é mais coisa de mulher. Papel e pena, e tenho toda a lisura que preciso…

Consequência inevitável

Não gosto mais de bolachas recheadas. E também já não tenho mais a mesma disposição para assistir desenhos animais, nem mesmo ler revistas em quadrinhos. Na terceira rodada de pega-pega já estou bufando de cansaço. Prefiro dormir a andar de bicicleta, a empinar pipa ou mesmo a jogar um jogo de tabuleiro. Gosto mais de risoto do que de cachorro quente. Prefiro gatos a cachorros. Video-game não me apetece tanto quanto um livro.

Acho que envelheci.

Pessoas que sentem prazer

Ele não podia aceitar a ideia de que a sua namorada, idealizada nos melhores conceitos de pureza e retidão de caráter, pudesse um dia sentir prazer. Na sua concepção, isso a tornaria infiel e vulgar, como todas as outras que conhecia e desprezava. Era como se o mundo fosse dividido entre pessoas boas e pessoas que sentem prazer – e apenas ele podia circular entre ambos os mundos. Ela, tímida e recatada, por algum motivo também não conseguia separar a ideia de que o prazer está sempre relacionado a algo doloroso e profundamente mal. De modo que foi até natural que um dia eles se conhecessem e se interessassem um pelo outro.

Mas havia momentos em que tudo o que ele queria era colocar à prova a retidão de sua mulher. No fundo desejava que ela caísse na sua tentação e cedesse a um desejo impuro, porque assim teria motivos para acusá-la. Ela se mantinha firme e enrubescia diante da menor possibilidade de fazer o que não devia. Até o dia em que concordou em fazer aquilo que só os casados tinham o direito de fazer. Fez isso seguramente por amor, pois acima de tudo tinha medo. Não seria de se admirar se no auge daquela noite o homem dissesse coisas como “eu já sabia” ou “eu bem que desconfiava” – sua mulher, enfim, também podia sentir prazer.

Depois disso passou a se sentir mais homem, sabendo-se capaz de satisfazer uma mulher pura. Só que agora ele vive desconfiado. Imagina que ela pode querer sentir a mesma coisa com qualquer um. Julga assim porque é exatamente dessa maneira que ele próprio se comporta em relação às outras mulheres. Agora se sente como se tivesse perdido o controle da situação, e talvez até se arrependa do que diz ter proporcionado à mulher. Ela ignora tudo isso. Ama realmente o seu homem, com uma candura admirável, com uma impressionante dedicação – especialmente quando se sabe que não é merecido. No fundo, até que ele é um bom sujeito. Eu realmente sentiria muito se ele descobrisse que estou saindo com sua mulher.

Breve Método para se Conectar à Realidade

“Você mesma faz as suas unhas?”, relampeja a colega, a incredulidade escorrendo de olhos arregalados, surpreendida em me ver substituindo a hora do almoço pela fome de cutículas. Confirmo com um sorriso de gato de Alice ao ponto de interrogação surpreendido, e continuo limpando os cantinhos do anular com acetona, a tinta insistindo em permanecer, eu cutucando o palito ali, o algodão já quase seco por ter realizado o mesmo trajeto mão dupla na unha vizinha.

Um personagem sartriano já dizia que, para se manter em contato com a realidade, o trabalhador intelectual devia adotar um ofício manual, e o ritual de reduzir o tamanho M das unhas para um quase PP, extinguir pa-ci-en-te-men-te as cutículas, preparar a superfície para receber a base, depois o esmalte sempre em cores vivas, o óleo de orquídea para proteger e dar brilho, por fim o palito mergulhado no removedor de esmalte para passear unha a unha, era meu cordão umbilical com o mundo que a gente enxerga com as mãos.

O ofício eu trazia de flashbacks de infância, adolescência, vida adulta, minha mãe cedendo ao ritual uma vez por semana, duas horas de lenta peregrinação atrás de fiapos de cutículas, lixas novas para lapidar as unhas do seu jeito, camadas alternadas de esmalte cinza claro e de prateado suave – que é assim a mão de minha mãe desde que me conheço por gente. Ourives incansável, ela ainda pragueja alto a cada borrão, imprevisibilidade típica que gera altas doses de irritação tanto em quem faz do ofício seu ganha-pão, quanto em praticantes amadoras da modalidade.

Nesses momentos em que abraço a realidade com fé de tia-solteirona-carola-católica-ferverosa, o pensamento faz jogging até ingressar na máquina do tempo. Minha vida de filha distante com contas a pagar é colocada de lado, e cada pincelada de esmalte extrai memórias diversas, uma manhã em Florianópolis perseguindo o endereço onde eu encontraria amigas queridas, a tarde de infância em que meus irmãos e eu brincávamos de família feliz com Playmobils de sorrisos permanentes, a janela descascada do quarto onde minha avó convalescia e que seria sua última visão do mundo, um primeiro dia de emprego feito de expectativas e um pé quase quebrado, a análise minuciosa da copa das árvores feita por mim e um namorado, os dois deitados sobre grama e folhas e vontade de conquistar o mundo juntos.

Quando a força gravitacional das memórias atraía minha consciência e o manejar de palito, acetona e algodão se tornava tão mecânico quanto um desses touros feitos de carcaça, pistão hidráulico e engrenagens, é que eu percebia o quanto meu breve método de se conectar à realidade – esse, que aprendi com mãe e aperfeiçoei sozinha – se transformava em cachorro, raça guaipeca, e se espojava no cheiro pegajoso do fracasso. Fracasso sim, porque não cumpria sua função de me conectar à matéria fosca de pele, corpo, membros, essa crosta sensível que dá a medida do real, liberando minha mente para se lambuzar de densidade rarefeita, trafegar entre camadas desconexas de passado, imaginação, sentimento e toda existência etérea da qual eu descendia desde os mais perdidos tempos.

Imagem:  robbies2wheels

Um nome para não chamar de meu

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Você gosta do seu nome? De verdade? Saiba que há muita gente que desgosta de seus nomes. Dos próprios, dos de família, dos abreviados, dos compostos e de toda a trupe. Felipe Nadal gostava de seu nome, mas passou a ter uma relação ambígua com o mesmo depois do advento de Rafael Nadal. Veja você como as coisas se complicam com a facilidade com que se recita o alfabeto. Felipe é um tenista frustrado e é um fã ardoroso de Roger Federer, o tenista suíço que é o maior tenista de todos os tempos, embora não esteja jogando no momento exatamente como se supõe que o melhor tenista de todos os tempos jogue. Federer, se você ainda está comigo, surgiu para o mundo do tênis antes de Nadal e já foi cativando o nosso Nadal. Tão logo Nadal, o Rafael, surgiu, uma rivalidade daquelas foi se construindo. Coisa de Ali e Frazer, Pelé e Maradona, Burger King e McDonald´s, Pepsi e Coca Cola, Renner e C&A e é melhor a gente parar por aqui.

Nosso Nadal foi aos poucos desgostando de seu nome. Começou sublimando das apresentações. Mas Nadal era Nadal. Não tinha um terceiro nome para disfarçar. Não dava para se apresentar apenas como Felipe. Se fosse jogador de futebol, talvez, mas não era o caso. Ele era Nadal para os colegas, ainda que seu coração fosse todo Federer. Era uma dualidade curiosa essa que nosso Nadal vivia.

Além do Nadal, tinha o Josias. O Josias tinha como sobrenome Silva. Ele era o Silva. Josias não tinha particularmente nada contra o Silva, mas à medida que as pessoas começaram a chama-lo de Silva (“Ô Silva, vem aqui”, “Silva, cadê o relatório”, “Ah, não faz assim não Silva…”), o Josias foi entrando em crise. O nome era Josias, porra. Gritava para dentro. Mas ninguém podia ouvir.

Josias e Nadal não se encontraram no cartório, ainda que tenham ido trocar de nome do mesmo dia. Nadal saiu Silva e Silva saiu Nadal. Só não me perguntem como!

Mercadoterapia

mercado

O louco no mercado debulhava os alhos obsessivamente.

Vez por outra, olhava de um jeito furtivo sobre o ombro, como para se certificar de que não seria interrompido. Mas até os loucos se cansam de debulhar alhos, então aquele resolveu que era hora de comprar pão. Dirigiu-se para o balcão e ficou à espera do atendente. Ninguém à vista, então, ele batia o pé, e se debruçava para tentar ver se algum padeiro se escondia na cozinha.

Quando cheguei, me contou indignado o que acontecia. Sugeri que tocasse a campainha e ele achou que não deveria se rebaixar a tanto. Saiu resmugando algo incompreensível e se dirigiu para o corredor dos molhos e massas. Toquei a campainha e pouco depois um mocinho lá estava.

Outro dia, um homem aparentemente normal cumpria com visível esforço a tarefa de colocar todas as latas de Pepsi da loja em sua sacola plástica. A custo, consegui surrupiar uma latinha da versão light. Quando pensei que talvez fosse bom levar duas, já era tarde: o homem seguia pelo corredor esquadrinhando cada prateleira em busca de algum exemplar perdido.

A senhora do caixa, então, me contou que isso é bastante comum. Seres obcecados vagam pelas fileiras de produtos. Há o louco das batatas, o do molho de tomate e por aí vai. Se nós, normais, vez por outra abrimos a geladeira para pensar na vida, os loucos talvez precisem de um horizonte um pouco mais amplo.

Acalento

acalento

Sabe de uma coisa, eu não ligo para suas opiniões políticas e acho que você desperdiça seu tempo tentando mostrar que existe uma esquerda e uma direita. Já te disse, as coisas devem andar pelo meio. Também não me interessa qual posto de gasolina vende mais barato. Falo de novo, você devia começar a andar mais a pé, até porque é para isso que servem suas pernas. Se a cerveja está quente, se o trânsito está pior a cada dia ou se você não ganha o tanto que gostaria, é tudo problema seu. E não, eu não quero assistir esse filme porque ele é estupidamente comercial demais e a gente não precisa se enganar dessa forma. Olha pra mim. Presta atenção. Deixa eu falar agora. O que eu quero mesmo saber é qual é o seu maior sonho impossível, porquê sempre antes de comer você gira o garfo no ar, qual o motivo para você preferir o branco ao invés de todas as outras cores, desde quando você acredita em fim do mundo, como você imagina uma vida dentro de uma caverna nas montanhas, quais são suas vontades que nunca são satisfeitas, porquê o seu beijo tem sempre gosto de menta mesmo se você não escovar os dentes, qual foi sua maior alegria infantil, o que você pensa logo que abre os olhos de manhã… Sabe, me conta isso.  Me mostra o que tem aí dentro. E larga esse mundo cinza pra lá. Vem?

Últimos degraus da dignidade

Perdi toda a dignidade. Tudo o que uma pessoa jamais deve fazer, todas as humilhações às quais pessoa alguma deve se submeter, eu me submeti. Isso porque eu sou obcecada por ele. Eu ainda tinha 17 anos quando me apaixonei. Ele tinha 43 e era casado com uma amiga da minha mãe. Na época eu não namorava, não saia, não tinha vida social. Era extremamente tímida. Mas eu me apaixonei por ele e isso dura até hoje, o que torna tudo ainda mais sórdido.

Porque ele me trata muito mal. Ele me engravidou e convenceu todo mundo que eu era a louca que tinha inventado a história. O pior é você ouvir o sujeito falar que o pai pode ser qualquer um menos ele, precisar de teste de DNA pra reconhecer a filha e ainda assim viver obcecada por ele. É que apesar de tudo o que ele faz, ele às vezes se aproxima de mim e diz que me ama, que só age daquele jeito porque precisa. E isso pra mim basta. Caramba, como alguém pode fazer de conta que aceita algo assim? Isso pra mim é sordidez e eu perdi a dignidade.

Mas eu tive minha filha mesmo assim, mesmo com ele fazendo todo tipo de chantagem pra eu abortar. Eu não dei ouvidos, por mais obcecada que eu estivesse. Eu nunca conseguiria carregar a culpa de um aborto. Eu morava com os meus avós e eles me expulsaram assim que souberam que eu estava grávida. Fiquei vários meses morando na casa de uma amiga. Até que eles viram que já tinha muita gente contra mim e ficaram com pena. Porque eu virei a piada da cidadezinha de sete mil habitantes. Só aí eles me chamaram de volta.

No começo a minha mãe também ficou com muita raiva de mim. Mas ela ficou do meu lado quando a mulher do sujeito tentou passar com o carro por cima de mim. (Eu estou parecendo muito dramática? Não quero parecer). Ela tentou passar com o carro por cima de mim. Fiquei em choque, meu leite secou, minha filha nem foi amamentada por conta disso. E depois de tudo eu continuo atrás dele? Não, eu realmente desci os últimos degraus da dignidade.

Exorkismós

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O lamento aos poucos bateu em meus ouvidos. Desconversei a audição e foquei na TV. Como o pub da esquina transforma a rua em caudaloso rio de bêbados assim que a madrugada se instala, me convenci de que devia ser ”mais um cachaceiro saindo do bar e singrando para casa”. No entanto, o lamento persistia, agora em tom primitivo. A curiosidade venceu a preguiça e discretamente me intrometi na sacada.

No início parecia a tentativa de apaziguar uma briga. Dois rapazes, braços e pernas de um aprisionando braços e pernas do outro, que estava deitado na calçada. A dupla sofria intervenções de três meninas de origem nipônica, 18, 20 anos, em pijamas, o que contribuía para a atmosfera onírica que se configurava.

O impacto da cena mística me aprisiona. Mesmo tendo um cemitério como vizinho durante boa parte da minha vida, e a adolescência guiada por livros de Stephen King, HQs de Conan, o Bárbaro, filmes de Simbad, o Marujo – narrativas embaladas, laço e fita bem vistosos, com aqueles mistérios entre o céu e a terra sugeridos por Shakespeare – era a primeira vez que me via na condição de voyeur de uma sessão de exorcismo.

O aprisionado, desnudo da cintura para cima no frio antártico que visitava São Paulo, costurava uma coleção de impropérios. O acento gutural de cada palavrão remetia aos vídeos do Youtube que retratam a possessão de corpos pelo demônio: sim, não era uma briga, era o chifrudo que dirigia a ação. Enquanto isso, o pseudoexorcista enxotava a figura do mal que habitava o corpo do amigo. Cuspe, tapas na cara, ameaças verbais, tudo era usado para desentocar o coisa ruim, que respondia com urros seculares.

As meninas esbaforiam-se, uma delas volta e meia corria até a esquina e desaparecia rua abaixo, retornando em seguida. Talvez quisesse buscar o socorro tradicional, bombeiro, polícia, ambulância, e desistisse no meio do caminho – afinal, quem acreditaria no sobrenatural quando ele está apenas do outro lado da linha, e não olho no olho vermelho sanguinolento? As outras duas japas esquizofrenavam ao redor dos corpos que mediam força entre si, ora mãos na cabeça, ora pedindo que o exorcista maneirasse nos métodos utilizados para extrair o mal. Certamente não esperavam o ocorrido, os pijamas denunciando uma possível xícara de leite com Nescau congelando na pia ou cobertor de franjas dormindo sozinho no sofá, as pernas aquecidas enquanto se assistia a um filme agora um momento congelado no passado, programação deixada de lado com as excentricidades da vida.

Eu acompanhava o embate na meia luz da sacada. Sentia-me nessas peças de teatro cuja plateia, em determinado momento, é convidada a se juntar à trama. Confesso que às vezes me passava uma vontade de me juntar ao acontecido, mas muito mais no papel de vizinha incomodada com o volume dos embates do que empossada na condição de assistente de desentoca-demônio. Nesses momentos eu acorrentava minha vontade, e me curvava à observação que em nada colabora, mas tudo registra e sente.

Já havia passado mais de meia hora de súplicas e luta corporal quando desisti de acompanhar os acontecimentos. Mesmo uma sessão dessa natureza se torna enfadonha quando não assistimos cenas à la O Exorcista, com cabeças girando sobre pescoço e jorros de vômito verde. Voltei para a TV, os gritos abafados pelas portas de vidro e cortinas agora fechadas, o mundo externo um milagre do qual eu não queria mais tomar parte.

O sono já embalava meus movimentos, a cama ancorando o onírico real, este que me pertencia, quando escutei a trupe deslocando-se em direção à esquina. Já era quase três da manhã. O empossado ainda entoava sons animais, mas o cansaço parecia roubar as funções do demônio e encarregava-se de dominar seu físico, a voz pastosa denunciando o esgotamento do corpo.

Num último lampejo de consciência, antes de navegar rumo ao inconsciente do sono, me dei conta de que não havia presenciado um simples exorcismo, havia mais. Havia o inusitado destes momentos com que a realidade nos atinge, vez ou outra, e que geralmente aprendemos a delegar à ficção. Havia o prazer do momento compartilhado, ainda que às escondidas, um retorno à infância de olhares furtivos através da fechadura. Havia a certeza de que o sobrenatural, essa joia de valor minimizado e raramente desejada, não se restringe a círculos determinados ou experientes iniciados, mas sobrevive, calada, viscosa e paciente dentro de cada cada um de nós, réptil milenar cujo exorcismo algum é suficiente para nos proteger e salvar.

Imagem: Jack of Nothing