Arquivo do mês: março 2014

Amado

14	Carybé	Mulher na Rede

Balança na rede, corpo tom de areia, nua e solta de trejeitos. Sorri com facilidade e canta com doçura enquanto enrola os dedos no cabelo preto. “Oh mar azul, mar revolto, mar saudoso, traz pra mim o barco onde está o meu amor…”. E cai a tarde enquanto ela pensa sentir o cheiro salgado do peito em que vai dormir.


#VomitoMuitoTudoIsso

Que o mundo é machista, nós já nos demos conta. E então vemos muitas pessoas que brigam para mudar, e fazem e acontecem contra uma série de posturas e princípios que nos mantém nessa condição. Mas o pior não está aí.

A grande questão, à qual me deparo quase todos os dias ao observar meus pares, é: até quando vamos tomar as mesmas atitudes, acreditar no mesmo “certo-errado”, nos guiar pelos mesmos conceitos machistas?

E quando eu falo de machismo, não falo em feminismo, na luta da força da mulher, nada – e longe – disso! Falo do foco na diferenciação dos sexos, da não-igualdade em detrimento de uma moral falida; falo de pensamentos guiados pelo “ele-pode-porque-é-homem” ou pelo “é-feio-pra-uma-mulher”, ou ainda pelo “homem-tem-instinto” ou “mulher-que-se-dá-ao-respeito”.

Na minha cabeça surgem as perguntas: e porque mulher não pode?, porque não é feio pro homem também?, e o instinto da mulher? e o respeito aos homens? Para mim, é triste sentir que cada vez mais estamos tendenciosos à diferenciação, aos benefícios individuais que delimitarão a sociedade em apenas regras e pré-conceitos. E mais uma vez tentaremos tapar o sol com a peneira, e tudo ficará “muito-bem-obrigado”.

NÃO!

Não ficará nada bem! Agindo assim estamos destruindo nossa chance de um futuro melhor. Hoje somos obrigados a nos privar de nossa liberdade pelo medo de apanhar na rua, pelo medo de assaltos, estupros, acidentes. Delimitamos o nosso direito de ir e vir porque aceitamos que o mundo é assim. Assim como? Assim, meio machista… meio corrupto demais… meio preconceituoso… meio poluído, mesmo… meio perdido, já… meio sem-jeito e ponto.

E achando que o mundo é meio sem-jeito é que a gente desiste do coletivo e passa a viver olhando para o próprio umbigo, e aí é que nada muda mesmo!, que só piora, porque nenhuma atitude será tomada no seu profundo para mudar algo, viveremos de cobrir um santo descobrindo outro, cortando os galhos de uma árvore podre por dentro com esperanças de que ela ainda dê frutos. Viveremos de paliativos que virarão definitivos e que, no final da história, só darão mais forma para o problema.

Acha exagero? Então pense mais uma vez. E repense. Repense sobre os vagões “só para mulheres”, que apesar de “proteger” as moças direitas, inconscientemente afirmam que o instinto masculino não pode ser controlado, que é assim e ponto. Repense no motivo pelo qual a mulher não pode usar minissaia, miniblusa, decote pela mesma razão dos vagões. Repense no rótulo de “mãe-é-mãe” e questione porque não existe o rótulo de “pai-é-pai”. Repense e questione o motivo pelo qual no dia da mulher todos parabenizam suas queridas por serem capazes de cuidar de tudo – casa, filhos, mercado, trabalho, marido, familia… – e no dia dos homens nada disso vem à tona. E repense em todas as outras situações bizarras que caracterizam a mulher como sexo frágil, homem como “touro-reprodutor-grosso-mulherengo”. Será mesmo que não existe o contrário?

O nosso mundo é machista, é preconceituoso também, é passivo e reativo, ainda por cima. Mas não é por isso que vou ficar quieta, aceitando aquilo que me enfiam goela abaixo no argumento “come-que-tá-gostoso”, “come-que-é-bom-pra-saúde”.

Chega! 

Eu vomito tudo isso, porque eu sei que tá tudo estragado.


Aula de Filosofia

Ajunto um pedaço de folha de caderno que encontro no chão. Aparentemente, é uma aula de Filosofia para o Ensino Médio. São algumas questões que os alunos deveriam responder depois de ter copiado a matéria. A primeira delas: “Por que existe o pensar?”. Não é uma pergunta das mais simples, mas tudo leva a crer que o aluno estava bastante confiante, porque deixou apenas duas linhas para responder. Em seguida vinha outra: “Como funciona o pensar?”. Dessa vez a pergunta exigia mais, seria preciso explicar alguns processos bem complicados da nossa mente, e por conta disso o aluno resolveu aumentar o espaço da resposta para três linhas. Ou tinha um poder de síntese assombroso ou não queria pensar sobre o pensar.

Esse pedaço de folha de caderno me lembrou das minhas próprias aulas de Filosofia na escola – e não pelas discussões, mas porque era durante essas aulas que aconteciam as melhores guerras de bola de papel. Não me lembro de um único ensinamento dessa época, mas nunca me esqueci da bolinha que consegui acertar na testa de um amigo sentado no outro lado da sala.

Mas hoje em dia posso dizer que me interesso pelo assunto. E se a Filosofia não tivesse suprimido o poder sobrenatural como explicação para o que acontece na Terra, eu diria até que foram os seus deuses que me levaram até esse pedaço de papel. Porque eu havia acabado de comprar, justamente, “O Livro da Filosofia”, embora o meu desejo inicial fosse “O Livro da Política”. Havia naquele dia, claramente, um campo energético me atraindo para a Filosofia. Logo eu, que tanto desdenhei dela, que tentei ler Platão e Kierkegaard sem entender nada.

A verdade é que estou mesmo meio filosófico. Ando enchendo os meus amigos de questionamentos sobre a evolução do homem. Marina volta do trabalho super cansada e eu quero saber dela se o nazismo é um exemplo de que a evolução da sociedade pode ser um argumento para legitimar também a barbárie. “Fale leviandades”, ela responde. Taquei uma bolinha nela.


O que eu vou fazer com essa tal liberdade…

Ele olhava o sol distante. Esfregava as mãos com ansiedade e então parava. Voltava a fitar o sol distante e olhava o corredor silencioso e sombreado. O estômago apertava e o intestino reclamava. O coração batia com tanta força que comprometia o pulmão. Seu corpo se revoltava contra ele e o cérebro, meio sem jeito, pedia paciência.

Ele imaginava o que estaria acontecendo do outro lado. As mãos já queimavam de tanta esfregação. Levantou. Sentou. Levantou de novo. Fez gargarejo. Cerrou os olhos com força. Respirou. Sentou novamente e tornou a esfregar as mãos. O intestino anunciava uma rebelião daquelas inevitáveis e o cérebro, ainda sem jeito, tentava selar uma pacificação no organismo em revolta.

Quando o cérebro parecia entregar os pontos, veio aquele guarda mal encarado, que já era sabido seria sua última recordação daquele lugar, e disse: “vem que eu vou te levar até as suas coisas”.

Intestino e estômago aquietaram-se. O pulmão, no entanto, não teve o que fazer quando o coração simplesmente parou.


Sorte de ex-diva

NaufragosAlberdi

Perdidos no meio do oceano, os  náufragos do navio pareciam rezavam por um milagre. Houve quem se sentisse atendido quando uma tora de madeira passou mais perto de si, tendo assim a vítima melhorado suas perspectivas de resistir. Mas, todos os quinze que ali estavam agarrados a destroços ou boiando à deriva mentalizam algo maior, ainda que não tivessem consciência de que suas preces juntas ganhavam uma força imprevista.

Essa energia foi canalizada por uma mente absolutamente aberta, ainda que não muito confiável. A mente era a de uma cantora meio decadente, mas que ainda conseguia atrair alguma cota de atenção. Fazia ela sua viagem astral costumeira quando se deparou com aquele chamado, impresso em letras de neon no plano astral.

Quando acordou, a mulher achou que havia caprichado demais no drinque. Estabelecer contato com o além requeria um corpo limpo, tantas vezes seu guru hollywoodiano havia lhe alertado. Por maior que fosse os dons dela, eles escorriam goela abaixo com vodca, limão e gelo.

E agora aquele chamado! Ela não saberia explicar como havia sido… a memória estava tão borrada que ela quase duvidava de tudo, não fosse aquela sensação persistente de que ela sabia onde estavam os sobreviventes. Sobreviventes! O navio havia simplesmente evaporado do oceano, com todas as dezenas de turistas e mais a tripulação os jornais martelavam já fazia bem uns dez dias…

E ela que não sabia de nada daquilo de sumiço e de naufrágio porque simplesmente não acompanhava a imprensa desde aquele incidente. Aquele que todos sabem, até quem nunca ouviu nem uma canção sequer dela, sobre ela ter transado todos os clientes de uma boate no Brooklin. Todos sem exceção e com registro em foto e vídeo, fato que fez os céticos a acusarem de fazer absolutamente qualquer negócio por um traço de audiência.

Não sabia dizer quantos, mas ela ainda sentia algo vindo deles. Só de pensar, a coisa já a arrepiava. Mas e se fosse verdade? E se todos estivessem vagando naquele mar todo só dependendo dela pra sobreviver? Tomou coragem e foi investigar. Tinha mesmo um navio desaparecido. Com centenas de pessoas sumidas. O que ela podia fazer?

Vasculhou no Google Earth por dois dias e duas noites até achar algumas imagens suspeitas e divulgou para os jornais. Louca varrida foi a coisa mais leve que ouviu. Mas, dias depois, eles foram encontrados, quase mortos, mas vivos. E, embora não nenhum membro da equipe de resgate admitisse, foi a pista daquela cantora bêbada – que um aprendiz resolveu checar só pra poder dar umas risadas e por incrível que pareça percebeu que havia mesmo algo que valia a pena investigar – que levou ao final feliz.


Tarefa

young_girl_crumpled_paper

Minha vista se amarrota. Aperto os olhos mas pouco ou nada estica. É um espaço caótico de linhas tortas sobrepostas. Aliso, aliso mas a rugosidade não cede, sólida. Ferro não é mais coisa de mulher. Papel e pena, e tenho toda a lisura que preciso…


Consequência inevitável

Não gosto mais de bolachas recheadas. E também já não tenho mais a mesma disposição para assistir desenhos animais, nem mesmo ler revistas em quadrinhos. Na terceira rodada de pega-pega já estou bufando de cansaço. Prefiro dormir a andar de bicicleta, a empinar pipa ou mesmo a jogar um jogo de tabuleiro. Gosto mais de risoto do que de cachorro quente. Prefiro gatos a cachorros. Video-game não me apetece tanto quanto um livro.

Acho que envelheci.