Arquivo do mês: fevereiro 2014

Uma lei, uma norma, um decreto

Faixa de pedestres, porque senão ninguém vai deixar que atravessem na nossa frente. Semáforo, porque senão todo mundo vai achar que tem preferência no cruzamento. Lombada eletrônica, porque senão ninguém vai diminuir a velocidade. Lei seca, porque senão a gente vai beber e dirigir. Faixa exclusiva para ônibus, porque senão ninguém vai dar espaço para eles. Banco preferencial para idosos, gestantes e deficientes, porque senão deixaremos que viajem em pé. Aviso para aguardar o desembarque, porque senão entraremos antes que qualquer um consiga sair. Vagão exclusivo para mulheres, porque senão aproveitaremos para nos esfregar nelas.

Câmeras de segurança, porque senão estaremos livres para cometer um crime. Aviso para se identificar na portaria, porque senão ninguém terá controle sobre o que fizermos. Detector de metal, porque senão entraremos com uma arma de fogo. Alarme na porta da loja, porque senão sairemos sem pagar. Lei Maria da Penha, porque senão espancaremos nossas mulheres. Lei do Silêncio, porque senão não deixaremos ninguém dormir. Leis trabalhistas, porque senão iremos explorar nossos funcionários. Polícia, porque senão acharemos que tudo é permitido. Cadeia, porque senão nos sentiremos imunes. Inferno, porque senão ninguém achará que precisa fazer o bem.

Patrimônio histórico, unidade de conservação, reserva indígena, quilombo, comunidade ribeirinha – porque senão a gente passa por cima. Grades, cones, cordão de isolamento – porque senão a gente invade. Cotas sociais, étnicas ou de gênero – porque senão a gente não oferece oportunidade. Direitos humanos, autorais, do consumidor, dos animais, das domésticas – porque senão a gente faz o que bem entende. Aviso para não fumar, não estacionar, não buzinar, não usar celular, não jogar lixo, não pisar na grama – porque senão será exatamente isso que vamos fazer. Uma lei, uma norma, um decreto, um mandamento – porque senão ninguém vai fazer o que acha correto fazer.


Três por Dois

Luiz_Eduardo_Morais

Não era possível pensar em outra coisa enquanto percorríamos a grande avenida, seus contornos uma esquálida manequim, casas e árvores plantadas nas margens retilíneas, um trânsito que só piorou com o passar dos anos. É uma das mais extensas da cidade, Avenida São José, seu nome batizando um dos times municipais, o Avenida, o estádio mirrado uma imponente referência para quem se aventurasse por aquela região, fica-perto-do-Avenida, assim se dizia e se diz até hoje.

Era sempre eu e um de meus irmãos, às vezes os dois, e as cinco quadras que separavam nossa casa da banca de revistas, sob a ótica infantil que tudo prolonga ou amplia, eram uma versão reduzida da Muralha da China, principalmente na época do verão, o calor gaúcho dando mostra do quão sofisticada pode ser a natureza ao dar troco pelos maus tratos do Homem, altas temperaturas combinada à umidade transformando cada centímetro da pele em fita pega-moscas, dessas que escrevem a rotina em botecos e armazéns de interior.

No entanto, nada nos fazia desistir – crianças são mais teimosas que representantes da Terceira Idade e, pré-adolescentes que éramos, a característica se elevava ao cubo. Era preciso vivenciar o milagre da transformação: substituir nossas velhas revistinhas em quadrinhos por HQs que jamais haviam sido tocadas por nossos olhos, o escambo uma atraente moeda em tempos de vacas magras. Afinal, não havia dinheiro para ampliar nosso vasto patrimônio de quadrinhos, construído volume a volume por meu pai antes de falecer.

Chegando à banca, não conseguíamos absorver a inundação de HQs que nos aguardava. Centenas de Almanaque do Tio Patinhas e volumes d’O Pato Donald, Cebolinha e Mônica, algumas Conan, O Bárbaro, muitas DC e Marvel Comics, poucas Luluzinha, algumas Chiclete com Banana e Geraldão – essas disputadas a tapa por nós, que a pré-adolescência é a época em que o escracho e o humor negro recrutam seus adeptos – Manuais do Zé Carioca, edições especiais d’Os Irmãos Metralha, Minie, Margarida, Peninha, Ludovico, milhares de enredos, onomatopeias e quadradinhos com a palavra fim gritando para serem escolhidas e levadas para a casa. O banquete para o cérebro reunia cores, cheiros e palavras, a diversidade enfeitiçando nossa fome de ler algo novo, a aventura que surpreenderia nossa curiosidade, um final que eliminava o lugar comum, uma piada reconstruída à la Picasso, cheia de ângulos surpreendentes.

Nessa meia hora em que nos debatíamos com questões existenciais – qual revistinha deixar, qual levar, qual tinha um maior valor para uma troca futura – a infância que ameaçava abandonar nossos corpos acionava o botão pause e quase transformava o processo em uma disputa de MMA. Ah-não-essa-eu-vi-primeiro, não-não-vou-te-devolver-quem-mandou-largar, sai-daqui-para-de-ler-o-que-eu-tô-lendo, o tom áspero obrigando o velho, dono do sebo-banca-de-revista, a intervir antes que rolasse um golpe baixo e suas HQs fossem utilizadas como arma.

Não sei como iniciou o ritual, quem-contou-para-quem-que-contou-para-quem que o paraíso se encontrava tão próximo de nossa casa. Não sei de quem foi a iniciativa de conferir se o paraíso realmente existia, se eu com minha dose nunca satisfeita de leitura, meu irmão de meio com sua busca jamais resolvida por heróis, meu irmão mais novo pelo recém-descoberto prazer de ler. Mas se deixamos de percorrer a extensa Avenida São José não foi porque nos surpreendermos com o fato do velho aumentar seu acervo na invariável mecânica de três gibis nossos por dois dele, mas pela descoberta em si, a aridez da vida adulta impregnada do levar-vantagem-capitalista desfazendo nossa infância de um modo fluído, a inocência se esvaindo sem despedidas,  três-crianças-quase-adolescentes lentamente empurradas para a realidade do que se denomina mundo, esse planeta tão cravejado de miúda ganância e discreta cobiça que nenhum roteiro de HQ consegue superar.

Imagem: Luiz Eduardo Morais


Mal passado ou ao ponto?

Rui é o tipo de homem que tem uma churrasqueira elétrica. Jamais confie em um homem que tem uma churrasqueira elétrica. Principalmente, se vier a seu conhecimento que ele não toma, em hipótese alguma, banho frio. São dois aspectos que dizem muito sobre o tipo de homem que ele não é. Rui não é o tipo de homem que mantém suas convicções bem temperadas. É influenciável por quem quer que apresente a melhor lábia. Essa volatilidade, obviamente, reflete perigosamente em sua vida amorosa. Rui, por exemplo, adora DRs – as famigeradas discussões de relação. Mas raramente prevalece em qualquer uma delas.

Quando vai votar, Rui sempre opta pelo candidato que, segundo as pesquisas, está na ponta. “É mais simples”, exclama orgulhoso entre uma cerveja e outra. Cerveja sem álcool, é bom que fique claro. Mas não pense você que Rui é metrossexual. Na verdade, ele abomina que pensem isso dele. Mauricinho é até tolerável, mas lhe faltaria um carrão e o cabelo engomadinho.  Rui, advoga dona Lúcia – a mãe de nosso herói – é um produto moderno. O típico fruto da antiga classe média – que anda esquecida em tempos de ascensão da classe C. O que nos leva à informação de que Rui ainda mora com dona Lúcia. Isso mesmo. Rui já passou dos 30. Mas quem se importa? Você?  Rui gosta de ver comédias românticas, lê de Sidney Sheldon a Fabrício Carpinejar, gosta de passeios culturais, desde que acompanhado, e tem intolerância a lactose.

Aos sábados, com certa frequência, Rui oferece um churrasco.No início ele se avexava um pouco do fato de ter uma churrasqueira elétrica. Justificava a seus convidados que era mais fácil para manter, mais higiênica e certamente mais sexy e ainda tirava uma onda perguntando a uns e outros: mal passado ou ao ponto?


Já passou a chuva

1963. Chicago, IL

 

 

É dar o primeiro passo que não tem erro: afundarei. Numa poça comprida como aquele país, que vi no mapa mundi da professora e que não lembro o nome. Eu não poderia andar sobre o sulco de monstros sem me molhar.

“Entrada pelos fundos”, diz o letreiro acima da última ilha d’água. Não consigo ler os outros enquanto busco uma saída. Onde parece seco é frio e também me molharia os pés. Chamam a isso de umidade, mas eu não gosto nem do nome. Pode no meu futuro secar?


Passeio

WALKS 0310 JRH 23331

Anda cinza. Com muitas rachaduras e pedaços quebrados em alguns rejuntes. Muitos passam, o que faz com que sua continuidade acabe confusa. Já não sabe mais se vai ou vem. Ocasionalmente, em sua extensão, nascem ervas daninhas. De quando em vez são arrancadas por uma mão mais carinhosa do que calejada. Em outros momentos, fortes pisões deixam inconfundíveis e dolorosas marcas que costumam ser soterradas pelo pó seco do tempo. Atualmente, espera as chuvas de março para lhe darem cara nova. Mas mesmo na quente opressão de setembro, aproveita o céu limpo. Vez ou outra sai para um passeio.


Com o samba, pelo samba, para o samba

Como já disse o saudoso Geraldo Filme, “…quem nunca viu o samba amanhecer, vai no Bixiga pra ver…”

Porque pra ver o samba, hoje, tem que ir atrás, fuçar por debaixo das cobertas, dos tapetes, atrás das portas, subir escadas pra olhar atrás dos muros da cidade e aí, sim!, a gente encontra o que se pode, sem medo, chamar de samba. O que a gente vê por aí, escancarado nas mídias, movendo multidões, e até mesmo guiando a massa, não é samba. Como sol de primavera, que não esquenta, nem esfria. Como carne de soja: que não é carne, nem soja.

O que se vê por aí é uma meleca sonorizada com batuque e óculos escuro. Não é samba.

O que se vê por aí são moedinhas gritando e chorando enlouquecidas por uma corrente de ouro maciço.

Uma pena.

E é uma pena porque toda a história se esvai e o povo paulista – que por natureza tem memória curta – perde sua essência, sua cultura e também seu futuro. Perde o futuro porque perde a referência, os ensinamentos deixam de ter valor pois o que vale mais é o dinheiro. Saber que tem gente apagando as raízes do samba em prol da vendagem de cedê, por status, por fama é extremamente desanimador.

Porque ver o carnaval hoje, pela tevê, não é, de fato, ver carnaval. É ver mídia manipuladora em ação, é pedir para ser vendado, é querer fingir que não se é povo, que tudo vai ficar bem, que está tudo bem. Ver desfile de carnaval pela tevê é quase como ir pra uma boate de striptease, é ter motivo para masturbação instantânea, é ser inundado pelo sexo sem nem ter pedido um vinho antes.

Mas quando desligo a telinha, saio na rua e vejo uma roda de samba relembrando os velhos mestres, exaltando os novos mestres e levando adiante o que o samba é por natureza, ou quando sinto o bumbo bater forte no desfile de rua, arrecadando gente pra folia, pulando  por pular, aí sim!, é estimulante. Sempre dá vontade de sorrir, de cantar aos quatro cantos o que é pagode pra valer, o que faz o coração pulsar, o que é a cultura do povo.

Pode ser no Bixiga, na Brasilândia, na Madalena, Santo Amaro ou no Parque São Lucas. samba se vê na palma da mão, na ponta do pé.

 


11 anos de cadeia

Quinta-feira é dia de visitar o presídio da Cidade Ocidental. E imagine se eu não for! O homem tem um troço! Se bem que não é muito diferente quando eu vou. Ele só sabe chorar. E eu choro junto, é claro, como é que não vou chorar? Ainda mais que o homem é inocente. Ninguém acredita, mas eu sei que é. Minha mãe não pode nem ouvir falar no nome dele. Mas o que eu posso fazer? Ele ainda é o meu marido. E mesmo que não fosse, ele continua sendo o pai do Gustavo. Então eu continuo visitando, toda quinta, mesmo achando aquele lugar horrível. Merecia até que alguém escrevesse a respeito. E pra piorar o homem ainda se mete em confusões lá dentro. Teve um dia que ligaram no meu celular que era pra avisar pro meu marido não abrir o bico. Morri de medo, é lógico. Eu não sei o que ele passa lá nos dias que não tem visita.

Ultimamente ele deu pra ter crise de ciúme. Fica insinuando que eu já devo ter arrumado outro, que isso, que aquilo. Eu digo pra ele, quando é que eu vou ter tempo de arrumar outro? Saio cedo de casa, fico o dia todo trabalhando na casa dos outros, volto super tarde e ainda tenho que cuidar da casa e dos meninos. E fim de semana é a mesma coisa, quase todo domingo eu arrumo serviço. Da onde que eu vou ter cabeça pra arrumar outro? Eu falo isso mas às vezes não adianta, ele diz que quer terminar tudo. Dali a pouco se arrepende, pede perdão, diz que tá fragilizado, e não sei o quê.

Outro dia levei o Gustavo lá. Não costumo levar. Mas é que ele tava doentinho, com a boca toda torta, o médico disse que foi um vírus, tinha que fazer fisioterapia todo dia pra melhorar, e eu achei que se levasse pra ver o pai ele ia se animar um pouco. Mas foi aquela choradeira. O Gustavo perguntou até quando o pai tinha que ficar lá e ele disse que ia demorar um pouco ainda. Falou isso porque não dava pra dizer que ainda tem 11 anos de cadeia pela frente. Deus que me perdoe, mas tem quinta-feira que eu não tenho vontade nenhuma de fazer a visita.