Arquivo do mês: janeiro 2014

Saltando do Corcovado

Ainda às voltas com uma reportagem especial para os 100 anos de Dorival Caymmi, comecei uma busca por imagens antigas que pudessem ilustrar aquilo que escrevi a seu respeito. E não demorei a encontrar uma ótima, com Caymmi ao lado de Carmen Miranda, eles que tiveram suas carreiras impulsionadas pela gravação de “O que é que a baiana tem?”. Mas, curiosamente, havia nesta foto um terceiro personagem cujo nome não aparecia na legenda – por mais que ele fosse o único a olhar diretamente para a lente. Embaixo da foto vinha escrito apenas “Dorival Caymmi e Carmen Miranda”, como se aquele outro homem nem existisse.

Voltei a encontrar a foto em outros lugares e às vezes ela estava inclusive cortada para que só Caymmi e Carmen aparecessem nela. Depois que descobri quem era o homem e fui pesquisar a seu respeito, isso se tornou bastante irônico. Porque Assis Valente – assim se chamava – era compositor e fez várias músicas gravadas por Carmen. Mas não superou a mudança dela para os Estados Unidos e o fim da parceria. Ainda fez uma música especialmente para ela, mas Carmen não aceitou gravar. Separados ficaram na vida, e hoje em dia nas fotos.

Assis Valente vinha de uma história confusa, não se sabe ao certo nem onde nasceu, foi tirado de seus pais e viveu uma vida meio errante, companheiro da pobreza e da solidão. A música havia lhe dado uma nova vida, e talvez por isso mesmo não aceitasse voltar ao que era antes. Foi ficando esquecido, mergulhou em dramas conjugais e financeiros, e tudo isso fez com que tentasse o suicídio três vezes – uma delas espetacularmente, saltando do Corcovado e sendo amortecido pelas árvores. Na terceira vez conseguiu, sentado em um banco de rua, tomando guaraná com formicida. Deixou um bilhete pedindo a Ary Barroso que pagasse os aluguéis que devia.

Anos depois até houve regravações de suas músicas, mas não se pode dizer que hoje em dia ele seja popular. Eu nem mesmo posso garantir que não lhe cortem na minha matéria.

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Saudades que não são minhas

Há três anos Jucélia recebia a correspondência de Analice Mendes Moreira. Mas apenas a correspondência enviada pelo tal de Bruno Bonfim de Bons Tempos. Nome intrigante no mínimo. Nos primeiros seis meses, em um esforço que só os bem intencionados, e resolvidos, são capazes de articular, Jucélia tentou remeter as cartas a Analice. Mas nem a corretora que conduziu a negociação pelo apartamento hoje de Jucélia, nem os Correios (ah, aqueles comerciais irritantemente eficientes em destacar a eficiência dos Correios) foram de qualquer presteza.

Em certo momento, Jucélia convenceu-se de que era melhor abrir uma carta qualquer. Bons Tempos merecia essa atenção. Quem ainda escrevia cartas nesses tempos? Deveria ser uma história de amor! Era uma história de amor. Para entusiasmo inicial de Jucélia que não viu nenhum mal em abrir outras cartas. Na primeira carta que leu, a última enviada, o tom era de alarde, mas a abordagem poética.

 

“Sem notícias tuas, divago com minha hesitação em continuar te escrevendo. Mas a memória de nossa paixão, tão intuitiva quanto fortuita, ilumina minhas dúvidas com a precisão dos cálculos de Einstein. Complexos em um primeiro momento, óbvios na revisão. Me alucina a saudade do teu cheiro. Do teu balançar na rede à tarde enquanto me fitava nos afazeres da rotina. Não vou desistir. Enquanto o coração bombear este corpo, e dobrar a razão, te escreverei. Mesmo que escreva para o passado”.

 

Jucélia se comoveu. Era um amor maior que a vida aquele trazido pela carta. Não foi ao serviço naquele dia. Pôs-se a ler, demoradamente, as cartas de Bons Tempos para Analice.

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 As cartas chegavam com uma periodicidade que assustava Jucélia. Em média, duas por mês. Era um amor ainda em carne viva, por mais que distância e tempo o desabonasse.

Jucélia tentou, em vão, localizar Analice. Chegou a contratar um detetive particular, mas as informações eram escassas; o ponto de partido, muito especulativo. Agonizou-se. Precisava patrocinar, de alguma maneira, o encontro desses dois.

Com o tempo, Jucélia passou a questionar se Analice nutria por Bons Tempos o mesmo amor, na mesma intensidade e adornamento.  Enquanto a dúvida lhe visitava cada vez mais imperiosa, a ansiedade pelas novas cartas de Bons Tempos se tornara uma companheira teimosa e barulhenta.

Jucélia conseguia pensar em poucas coisas que não naquele amor visceral, esplendido e pronto para ser acolhido e cultivado. Ensimesmou-se de receber aquelas cartas em seu endereço e não ser, no entanto, o objeto de tão deslavada paixão.

A ansiedade foi evoluindo para uma tristeza fortuita que primeiro se estabelecia às noites. Depois foi ficando pelas manhãs e, finalmente, ficou.

Jucélia convenceu-se de que era o terceiro elemento de uma história profundamente triste.

Decidiu não abrir mais as cartas de Bons Tempos. Ele e ela, quiçá Analice, sofreriam em silêncio dali em diante. 


Pretinha e pretinho

Se eu voltasse a ser criança agora, rsrs

Eu, se voltasse a ser criança bem agora, rsrs

Eu não lembro a primeira vez que sofri preconceito por ser negra. Isso pode surpreender, afinal o leitor deve imaginar que o preconceito seja algo avassalador e que destrói algo dentro da vítima de uma maneira irremediável. Tudo isso confere, admito, mas é um pouco diferente: é mais como um pressentimento ou uma sensação, algo meio difuso e meio intermitente também.

Minha mãe me conta que eu cheguei da escolinha certo dia triste porque não poderia ser a noivinha da quadrilha porque eu não era loira. Tenho certeza absoluta de que ninguém me colocou a situação assim tintim por tintim, mas o que consigo me recordar é que eu achava que a noivinha sempre era a mais bonita das meninas. Sendo assim, só podia ser uma loirinha. Daí que a minha mãe foi lá e conversou com a diretora. A noivinha daquele ano adivinhem quem foi? Eu!

Mas chega a idade em que a gente não conta mais os nossos sofrimentos para as mães e tenta se virar sozinho no mundo. Lá pelo fim do ensino fundamental, eu sabia que não arrumaria namoradinho porque eu era negra. Todo mundo querendo beijar e eu não era sequer considerada pelos meninos bonitos – o gato do Edu Rosa, por exemplo – pela cor da minha pele. Eu e a Érica, as duas pretinhas, éramos, simplesmente, cartas fora do baralho romântico da 8ª série do nosso colégio municipal.

Claro, que o mundo não é quadrado e eu tinha meus namoricos com a turma da Igreja, de gente mais velha e menos preconceituosa. E no colegial conheci uma turma mais nerd e esclarecida para quem a cor da pele não era determinante para os romances.

Hoje, lido melhor com a questão, embora ainda me magoe com o grau de ignorância de quem tem esse raciocínio. O incrível é que embora cada vez pareçam ser em menor número, eles ainda conseguem transmitir seu legado às novas gerações. Um garotinho de cinco anos, mestiço como o Brasil, viu nascer seu irmão caçulinha branco e comentou que queria ser bonito como ele, branquinho. Provável que esse menino também não consiga, como eu ainda criança, articular como desenvolveu essa ideia, mas ela já está lá. Causando estrago.


Trem do futuro

train-station-couple-1280x800Sempre tive uma crise com o apito do trem. Em momento algum de minha lembrança houve ou ouvi apito, mas sim uma grande buzinada do trem. O apito e a buzina colocam o trem em lados opostos. Um é poesia. Adoniram, Milton Nascimento, Carlos Gomes, Raul Seixas. Outro é crise. Lotação, desconforto, entrave, descaso. Matéria do Fantástico e nenhum culpado. 

Êta trem bão! Diria o radialista Admilson Fernandes com sotaque carregado do norte de minas. Lá nos seus montes claros e lembranças de outros tempos, o Canela ficaria com o trem da poesia. Que o apito embalou suas noites nas ondas dos rádios. Dentro do estúdio e no pé da orelha. Pobre mineiro. Nem tão caipira. Mas eterno saudosista.
Que seja. É tão bom pensar o grande estado de Minas Gerais sendo cortado por uma grande serpente. Um serpentear e a espalhar poetas e cantadores. Uma máquina de ferro a amolecer a dureza da vida. Mesmo quando carrega riquezas, carrega sonhos. Que corta paisagens. Um trem que leve a vida a brilhar.
Nas grandes cidades. Nas aglomerações de pessoas. Prontas e a se estressar e serem estressadas. Surge uma serpente de ferro. Dura como a vida e concreto. Que deve ter pressa e fazer a vida passar ligeira. Na casa não há tempo para poesia. Crise? Quem para a ver a crise não ganha dinheiro. Não vive. Pegue o trem e se fique esperto com a próxima parada. Não há sonhos. Não, não, não!
O trem que agora passa em minha cidade atrapalha o trânsito. Não carrega ninguém. Só o condutor. Nem é maquinista. Quando o trem era a lenha, o maquinista parecia um capitão de navio. Agora, não tem o mesmo glamour. Ele coordena o buzinaço da serpente de ferro que carrega riqueza que não chega à mesa. Aqui, não há montanhas. Ele parece não surgir de lugar algum. O trem precisa voltar a ser poesia para servir a transportar.


Fuga

mask

A cada nova manhã ela percorre lugares diversos, criando diferentes versões do ontem para que seja outra vez a única a saber de suas próprias verdades doentias. Seu modo de omitir, sua dissimulação, sua falsidade no dizer e sua mesquinha demonstração de individualismo são facetas por demais exibidas ao próximos mas que podem ser maquiadas para conquistas recentes. Em contrapartida, a cada nova manhã ela precisa mostrar mais uma vez seu lado honesto e vívido, sua inteligência sutil aliada à perspicácia divertida e ácida de quem muito já viu e aceita quase tudo, independente da posição política. Sabe que não é fácil chegar perto para mostrar o som do riso. Por outro lado é bom não ter que sempre abaixar os olhos tentando esconder a lembrança de um choro. Ela olha para os rostos ao redor, mutantes conforme a estação e percebe neles a mesma sensação de pânico conhecida, de quem omite o que tem de pior para tentar transparecer apenas o que satisfaz… Assim atuam todos nesse palco de convívio onde impuseram ao não um papel asqueroso demais para ser admitido. Se de perto ninguém é normal, a certa distância todos são insípidos demais. Temperados com um pouco da colônia da moda, para tentar parecerem iguais.


Lei da física

Dia desses me peguei pensando nas consequências das nossas ações e cheguei à conclusão de que elas são um fator inevitável, do qual não se pode fugir ou desviar, apenas mudar ou redirecioná-las.
Mas é incrível como cada vez mais pessoas se importam cada vez menos com isso, e pior: cuidam cada vez menos das suas atitudes e acham ruim por não receberem o que queriam. Basta reparar no que acontece na natureza, já que da semente da uva brota uma parreira, da semente da maçã brota uma macieira!
Então o que mais se pode esperar como consequência para alguém que vai contra a lei? O que mais pode querer aquele que mente, engana ou sacaneia? Que resultado terá o que nada fizer?
Absurdo?
Absurdo para mim é quando a bananeira der manga, a vaca parir um urubu ou o sol nascer quadrado.
O resto é consequência.


Paulistinhas

Caminhava à noite pela Rua Augusta, que até então eu só conhecia pelo Banco Imobiliário. Voltávamos de uma espécie de barzinho, eu e duas amigas, e caminhávamos na direção da Praça da República. As amigas, mais paulistas que o Mário de Andrade, me explicavam o que era cada coisa na rua, e eu me admirava que tanta coisa diversa pudesse conviver no mesmo espaço. Parece que o número de boates têm diminuído, mas ainda assim achei que eram muitas, e aqui e ali eu percebia uma prostituta buscando clientela. Quase tomei como uma delas a mulher bem produzida que vinha na direção contrária e nos parou. Disse que não era dali e estava achando aquela rua meio esquisita e queria saber se as casas de shows ali eram seguras. Minhas amigas disseram algo que a tranquilizou. E hoje eu posso dizer que, andando pela Augusta, faço parte das pessoas consideradas normais e que podem ser paradas por quem precisa de uma informação qualquer.

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Eu disse que nada havia acontecido no meu coração quando cruzei a Ipiranga com a São João, mas então Paula me explicou: eu havia feito tudo errado. Sem perceber, eu havia cruzado a São João com a Ipiranga. Era o contrário.

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Nas torneiras dos banheiros do Terminal Rodoviário do Tietê quase não pinga água. Cada um tem direito a meia dúzia de gotas – mas ainda é grátis.

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Em plena manhã de um domingo de sol, o Museu da Caixa Econômica está naturalmente vazio. No sexto andar há apenas um segurança à janela, de onde consegue enxergar a catedral em que o quase-papa Dom Odilo ministra uma missa. Mas a atenção do segurança não está voltada para lá, e sim para o forró tocado na Praça da Sé. O ritmo lhe agrada e em pouco tempo ele está cantando animadamente. Pego em flagrante, justifica-se: “Se não eu morro de tédio aqui em cima”.

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Ninguém acreditou muito quando falei que havia achado São Paulo uma cidade provinciana. “Curitiba crescidinha”, acrescentei. Não permita Deus, nem ao Oswald nem a mim, que morramos sem voltar a São Paulo.