Saltando do Corcovado

Ainda às voltas com uma reportagem especial para os 100 anos de Dorival Caymmi, comecei uma busca por imagens antigas que pudessem ilustrar aquilo que escrevi a seu respeito. E não demorei a encontrar uma ótima, com Caymmi ao lado de Carmen Miranda, eles que tiveram suas carreiras impulsionadas pela gravação de “O que é que a baiana tem?”. Mas, curiosamente, havia nesta foto um terceiro personagem cujo nome não aparecia na legenda – por mais que ele fosse o único a olhar diretamente para a lente. Embaixo da foto vinha escrito apenas “Dorival Caymmi e Carmen Miranda”, como se aquele outro homem nem existisse.

Voltei a encontrar a foto em outros lugares e às vezes ela estava inclusive cortada para que só Caymmi e Carmen aparecessem nela. Depois que descobri quem era o homem e fui pesquisar a seu respeito, isso se tornou bastante irônico. Porque Assis Valente – assim se chamava – era compositor e fez várias músicas gravadas por Carmen. Mas não superou a mudança dela para os Estados Unidos e o fim da parceria. Ainda fez uma música especialmente para ela, mas Carmen não aceitou gravar. Separados ficaram na vida, e hoje em dia nas fotos.

Assis Valente vinha de uma história confusa, não se sabe ao certo nem onde nasceu, foi tirado de seus pais e viveu uma vida meio errante, companheiro da pobreza e da solidão. A música havia lhe dado uma nova vida, e talvez por isso mesmo não aceitasse voltar ao que era antes. Foi ficando esquecido, mergulhou em dramas conjugais e financeiros, e tudo isso fez com que tentasse o suicídio três vezes – uma delas espetacularmente, saltando do Corcovado e sendo amortecido pelas árvores. Na terceira vez conseguiu, sentado em um banco de rua, tomando guaraná com formicida. Deixou um bilhete pedindo a Ary Barroso que pagasse os aluguéis que devia.

Anos depois até houve regravações de suas músicas, mas não se pode dizer que hoje em dia ele seja popular. Eu nem mesmo posso garantir que não lhe cortem na minha matéria.

Saudades que não são minhas

Há três anos Jucélia recebia a correspondência de Analice Mendes Moreira. Mas apenas a correspondência enviada pelo tal de Bruno Bonfim de Bons Tempos. Nome intrigante no mínimo. Nos primeiros seis meses, em um esforço que só os bem intencionados, e resolvidos, são capazes de articular, Jucélia tentou remeter as cartas a Analice. Mas nem a corretora que conduziu a negociação pelo apartamento hoje de Jucélia, nem os Correios (ah, aqueles comerciais irritantemente eficientes em destacar a eficiência dos Correios) foram de qualquer presteza.

Em certo momento, Jucélia convenceu-se de que era melhor abrir uma carta qualquer. Bons Tempos merecia essa atenção. Quem ainda escrevia cartas nesses tempos? Deveria ser uma história de amor! Era uma história de amor. Para entusiasmo inicial de Jucélia que não viu nenhum mal em abrir outras cartas. Na primeira carta que leu, a última enviada, o tom era de alarde, mas a abordagem poética.

 

“Sem notícias tuas, divago com minha hesitação em continuar te escrevendo. Mas a memória de nossa paixão, tão intuitiva quanto fortuita, ilumina minhas dúvidas com a precisão dos cálculos de Einstein. Complexos em um primeiro momento, óbvios na revisão. Me alucina a saudade do teu cheiro. Do teu balançar na rede à tarde enquanto me fitava nos afazeres da rotina. Não vou desistir. Enquanto o coração bombear este corpo, e dobrar a razão, te escreverei. Mesmo que escreva para o passado”.

 

Jucélia se comoveu. Era um amor maior que a vida aquele trazido pela carta. Não foi ao serviço naquele dia. Pôs-se a ler, demoradamente, as cartas de Bons Tempos para Analice.

                                                                ——-

 As cartas chegavam com uma periodicidade que assustava Jucélia. Em média, duas por mês. Era um amor ainda em carne viva, por mais que distância e tempo o desabonasse.

Jucélia tentou, em vão, localizar Analice. Chegou a contratar um detetive particular, mas as informações eram escassas; o ponto de partido, muito especulativo. Agonizou-se. Precisava patrocinar, de alguma maneira, o encontro desses dois.

Com o tempo, Jucélia passou a questionar se Analice nutria por Bons Tempos o mesmo amor, na mesma intensidade e adornamento.  Enquanto a dúvida lhe visitava cada vez mais imperiosa, a ansiedade pelas novas cartas de Bons Tempos se tornara uma companheira teimosa e barulhenta.

Jucélia conseguia pensar em poucas coisas que não naquele amor visceral, esplendido e pronto para ser acolhido e cultivado. Ensimesmou-se de receber aquelas cartas em seu endereço e não ser, no entanto, o objeto de tão deslavada paixão.

A ansiedade foi evoluindo para uma tristeza fortuita que primeiro se estabelecia às noites. Depois foi ficando pelas manhãs e, finalmente, ficou.

Jucélia convenceu-se de que era o terceiro elemento de uma história profundamente triste.

Decidiu não abrir mais as cartas de Bons Tempos. Ele e ela, quiçá Analice, sofreriam em silêncio dali em diante. 

Pretinha e pretinho

Se eu voltasse a ser criança agora, rsrs
Eu, se voltasse a ser criança bem agora, rsrs

Eu não lembro a primeira vez que sofri preconceito por ser negra. Isso pode surpreender, afinal o leitor deve imaginar que o preconceito seja algo avassalador e que destrói algo dentro da vítima de uma maneira irremediável. Tudo isso confere, admito, mas é um pouco diferente: é mais como um pressentimento ou uma sensação, algo meio difuso e meio intermitente também.

Minha mãe me conta que eu cheguei da escolinha certo dia triste porque não poderia ser a noivinha da quadrilha porque eu não era loira. Tenho certeza absoluta de que ninguém me colocou a situação assim tintim por tintim, mas o que consigo me recordar é que eu achava que a noivinha sempre era a mais bonita das meninas. Sendo assim, só podia ser uma loirinha. Daí que a minha mãe foi lá e conversou com a diretora. A noivinha daquele ano adivinhem quem foi? Eu!

Mas chega a idade em que a gente não conta mais os nossos sofrimentos para as mães e tenta se virar sozinho no mundo. Lá pelo fim do ensino fundamental, eu sabia que não arrumaria namoradinho porque eu era negra. Todo mundo querendo beijar e eu não era sequer considerada pelos meninos bonitos – o gato do Edu Rosa, por exemplo – pela cor da minha pele. Eu e a Érica, as duas pretinhas, éramos, simplesmente, cartas fora do baralho romântico da 8ª série do nosso colégio municipal.

Claro, que o mundo não é quadrado e eu tinha meus namoricos com a turma da Igreja, de gente mais velha e menos preconceituosa. E no colegial conheci uma turma mais nerd e esclarecida para quem a cor da pele não era determinante para os romances.

Hoje, lido melhor com a questão, embora ainda me magoe com o grau de ignorância de quem tem esse raciocínio. O incrível é que embora cada vez pareçam ser em menor número, eles ainda conseguem transmitir seu legado às novas gerações. Um garotinho de cinco anos, mestiço como o Brasil, viu nascer seu irmão caçulinha branco e comentou que queria ser bonito como ele, branquinho. Provável que esse menino também não consiga, como eu ainda criança, articular como desenvolveu essa ideia, mas ela já está lá. Causando estrago.

Trem do futuro

train-station-couple-1280x800Sempre tive uma crise com o apito do trem. Em momento algum de minha lembrança houve ou ouvi apito, mas sim uma grande buzinada do trem. O apito e a buzina colocam o trem em lados opostos. Um é poesia. Adoniram, Milton Nascimento, Carlos Gomes, Raul Seixas. Outro é crise. Lotação, desconforto, entrave, descaso. Matéria do Fantástico e nenhum culpado. 

Êta trem bão! Diria o radialista Admilson Fernandes com sotaque carregado do norte de minas. Lá nos seus montes claros e lembranças de outros tempos, o Canela ficaria com o trem da poesia. Que o apito embalou suas noites nas ondas dos rádios. Dentro do estúdio e no pé da orelha. Pobre mineiro. Nem tão caipira. Mas eterno saudosista.
Que seja. É tão bom pensar o grande estado de Minas Gerais sendo cortado por uma grande serpente. Um serpentear e a espalhar poetas e cantadores. Uma máquina de ferro a amolecer a dureza da vida. Mesmo quando carrega riquezas, carrega sonhos. Que corta paisagens. Um trem que leve a vida a brilhar.
Nas grandes cidades. Nas aglomerações de pessoas. Prontas e a se estressar e serem estressadas. Surge uma serpente de ferro. Dura como a vida e concreto. Que deve ter pressa e fazer a vida passar ligeira. Na casa não há tempo para poesia. Crise? Quem para a ver a crise não ganha dinheiro. Não vive. Pegue o trem e se fique esperto com a próxima parada. Não há sonhos. Não, não, não!
O trem que agora passa em minha cidade atrapalha o trânsito. Não carrega ninguém. Só o condutor. Nem é maquinista. Quando o trem era a lenha, o maquinista parecia um capitão de navio. Agora, não tem o mesmo glamour. Ele coordena o buzinaço da serpente de ferro que carrega riqueza que não chega à mesa. Aqui, não há montanhas. Ele parece não surgir de lugar algum. O trem precisa voltar a ser poesia para servir a transportar.

Fuga

mask

A cada nova manhã ela percorre lugares diversos, criando diferentes versões do ontem para que seja outra vez a única a saber de suas próprias verdades doentias. Seu modo de omitir, sua dissimulação, sua falsidade no dizer e sua mesquinha demonstração de individualismo são facetas por demais exibidas ao próximos mas que podem ser maquiadas para conquistas recentes. Em contrapartida, a cada nova manhã ela precisa mostrar mais uma vez seu lado honesto e vívido, sua inteligência sutil aliada à perspicácia divertida e ácida de quem muito já viu e aceita quase tudo, independente da posição política. Sabe que não é fácil chegar perto para mostrar o som do riso. Por outro lado é bom não ter que sempre abaixar os olhos tentando esconder a lembrança de um choro. Ela olha para os rostos ao redor, mutantes conforme a estação e percebe neles a mesma sensação de pânico conhecida, de quem omite o que tem de pior para tentar transparecer apenas o que satisfaz… Assim atuam todos nesse palco de convívio onde impuseram ao não um papel asqueroso demais para ser admitido. Se de perto ninguém é normal, a certa distância todos são insípidos demais. Temperados com um pouco da colônia da moda, para tentar parecerem iguais.

Lei da física

Dia desses me peguei pensando nas consequências das nossas ações e cheguei à conclusão de que elas são um fator inevitável, do qual não se pode fugir ou desviar, apenas mudar ou redirecioná-las.
Mas é incrível como cada vez mais pessoas se importam cada vez menos com isso, e pior: cuidam cada vez menos das suas atitudes e acham ruim por não receberem o que queriam. Basta reparar no que acontece na natureza, já que da semente da uva brota uma parreira, da semente da maçã brota uma macieira!
Então o que mais se pode esperar como consequência para alguém que vai contra a lei? O que mais pode querer aquele que mente, engana ou sacaneia? Que resultado terá o que nada fizer?
Absurdo?
Absurdo para mim é quando a bananeira der manga, a vaca parir um urubu ou o sol nascer quadrado.
O resto é consequência.

Paulistinhas

Caminhava à noite pela Rua Augusta, que até então eu só conhecia pelo Banco Imobiliário. Voltávamos de uma espécie de barzinho, eu e duas amigas, e caminhávamos na direção da Praça da República. As amigas, mais paulistas que o Mário de Andrade, me explicavam o que era cada coisa na rua, e eu me admirava que tanta coisa diversa pudesse conviver no mesmo espaço. Parece que o número de boates têm diminuído, mas ainda assim achei que eram muitas, e aqui e ali eu percebia uma prostituta buscando clientela. Quase tomei como uma delas a mulher bem produzida que vinha na direção contrária e nos parou. Disse que não era dali e estava achando aquela rua meio esquisita e queria saber se as casas de shows ali eram seguras. Minhas amigas disseram algo que a tranquilizou. E hoje eu posso dizer que, andando pela Augusta, faço parte das pessoas consideradas normais e que podem ser paradas por quem precisa de uma informação qualquer.

*

Eu disse que nada havia acontecido no meu coração quando cruzei a Ipiranga com a São João, mas então Paula me explicou: eu havia feito tudo errado. Sem perceber, eu havia cruzado a São João com a Ipiranga. Era o contrário.

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Nas torneiras dos banheiros do Terminal Rodoviário do Tietê quase não pinga água. Cada um tem direito a meia dúzia de gotas – mas ainda é grátis.

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Em plena manhã de um domingo de sol, o Museu da Caixa Econômica está naturalmente vazio. No sexto andar há apenas um segurança à janela, de onde consegue enxergar a catedral em que o quase-papa Dom Odilo ministra uma missa. Mas a atenção do segurança não está voltada para lá, e sim para o forró tocado na Praça da Sé. O ritmo lhe agrada e em pouco tempo ele está cantando animadamente. Pego em flagrante, justifica-se: “Se não eu morro de tédio aqui em cima”.

*

Ninguém acreditou muito quando falei que havia achado São Paulo uma cidade provinciana. “Curitiba crescidinha”, acrescentei. Não permita Deus, nem ao Oswald nem a mim, que morramos sem voltar a São Paulo.

Jurada de amor

Paula olhou pelo retrovisor do carro e se deparou com aqueles olhos fixos. Eram verdes? Eram azuis? Eram intensos. Desviou o olhar e pôs-se a procurar algo em sua bolsa. Um rímel, um espelho, um pedaço de papel. Qualquer coisa que desviasse o pensamento daquele olhar fulminante. Fitou o retrovisor novamente e lá estava ele. Tenro. Sedutor. Dominador. Paula sentiu um calor que por pouco não a desesperou.

O sinal abriu. A ansiedade era juvenil. Ela buscava aquele olhar em meio às frenéticas motos, aos carros com insulfilm, e a percepção de que tudo aquilo era, no fundo, muito ridículo.

Passaram-se quatro, cinco sinais e justamente quando Paula embicou o carro para entrar no estacionamento, lá estava aquele par de olhos novamente. Era como se esperasse por ela. O homem se aproximou dela, fez um gesto para que abaixasse o vidro e anunciou o assalto. Ela ficou sem ação. Ele não.

Viagem a Resende

nota de milVontade não me falta, mas sinto informar que não estou a passeio no Rio de Janeiro. Diga-se, em plena semana de mais um aniversário de um dos estados mais bonitos do Brasil, estou curtindo o forte calor numa prazerosa pequena cidade do interior paulista. Vou contar a história da viagem até essa cidade e, ao longo do texto, espero explicar o título.

Apesar dos maus tratos às sogras, devo confessar que não tenho problemas com a minha. E, para acompanhar minha esposa, fui passar alguns na casa dela. Não pude ir no mesmo dia, por conta disso tive que rumar de ônibus. Uma boa saga. Três intermunicipais, até o destino. No percurso mais curto, foram cerca de cinco minutos de ônibus. O segundo que poderia ser curto, e o motorista me anunciou que o direto acabara de sair, acabei por conhecer vários bairros da cidade vizinha. Nem sabia que era tão grande. Por fim, o terceiro ônibus e o deleito de viajar com motorista. O mesmo caminho se torna outro quando você tem apenas que curtir o passeio.

Para distrair nos momentos de espera ou de tédio, resolvi pegar um livro para acompanhar. Alguns livros estão na estante há anos. Alguns já estão classificados para serem lidos no futuro. Outros cada vez que chego perto parecem apelar para que sejam escolhidos. Parecem saber que precisamos degustá-lo e naquele momento da vida. E foi assim que escolhi Bom dia para nascer, de Otto Lara Resende. Sempre achei que fosse um romance. Para minha surpresa é uma coletânea de crônicas publicadas na Folha de S.Paulo. Fui assinante da Folha. E leitor assíduo do Otto Lara Resende. Um cronista que, na minha opinião, tem uma forma simples e direta de escrever, mas com uma profundidade estonteante.

Eu estava em busca de orientações para ajudar nessa minha participação semanal do Vida em Sete Chaves. Por força da ordem maior da vida o livro de Otto salta da estante às minhas mãos. Já na viagem. Entre os muitos caminhos percorridos pelos ônibus que tomei, passei a viajar nas crônicas de Otto. Agora já íntimo. Logo depois de ler a crônica, O escambo de volta,  em que ele falava de uma garota comprando pão e pagando com balas que havia recebido de troco na mesma padaria, encontro uma nota de mil cruzeiros marcando as páginas seguintes.

Fiquei curioso de como esse livro veio parar em minhas mãos. Acho que o comprei num sebo. Folhei e não tem preço marcado. Geralmente os sebos marcam os preços a lápis e eu os mantenho como curiosidade. Para minha surpresa ele tem um carimbo da Biblioteca Carlos Drummond de Andrade. A central de livros fica na escola que estudei por onze anos. Fiquei na dúvida se eu havia pegado por empréstimo e não devolvera. Ele foi doado em 1995. Ufa! Fiquei nessa escola até 1989. Mas como veio parar em minhas mãos? Vou carregar esse mistério por muitos anos. O certo é que continuarei minha viagem por Resende. E, na volta, vou deixar ao deleite de outros leitores na biblioteca da escola.

Trocas

river

Beijou o marido que sorriu para o filho e carinhosamente afagou a mulher. Pegou a bolsa sobre a mesa da sala apertada e saiu. Ao fechar a porta sua máscara de mãe feliz caiu e surgiu a apreensão da dúvida. Entrou em um ônibus, olhando ao redor, ele não a seguiu. Foi para uma parte nobre da cidade, que pouco ou nada tinha a ver com seu barracão alugado e sua tv parcelada. Ao chegar frente a um alto portão de ferro escuro, esse se abriu e deu passagem ao infante levado pela mãe. Na porta, uma empregada pediu que aguardasse. E da escada desceu emocionada uma loira platinada, de fácil sorriso falso. Olhou condoída para a menina, pois não passava disso a pobre, a pegou pela mão e a sentou com receio no sofá. Fez algumas perguntas poucas, escutou resposta nenhuma e finalmente ergueu os braços para pegar o pequenino. Com certo asco tirou de sua face aquela fraldinha encardida. A mãozinha a esfregar o olho a fez enternecer-se e esquecer que o dinheiro cruelmente dividia e determinava aqueles dois mundos. Ela, então, entregou à menina uma pequena e preciosa valise preta. E com um abraço distante a colocou para fora da sala, fechando sem cerimônias a porta pesada. Ainda a olhar a campainha, resignou-se a sair, a mãe menina, mulher dividida, sentindo uma perda esquisita nos braços mas segurando firme nas mãos seus antigos novos sonhos. Deixaria para trás os velhos vestidos remendados, as dívidas muitas e o marido, que pobre como ela, de valor só possuía o coração. Era díficil não sentir culpa mas sempre sonhara com outros ares, outros amantes, histórias de riqueza despreocupada de frente pro mar. Em troca daquele filho impensado, teria o que merecia. Sorriu uma leveza amarga. Algo faltava mas ela não entendia essa ausência. A chutar pedras, incerta, encontrou no caminho uma ponte. Olhou para baixou e viu um rio, sujo como se sentia. Algo que se lembrava ter lido um dia,  sem maior importância, rodopiou em sua mente e tomou forma… Ela subiu, respirou e se atirou. Horas depois, notas de 100 desciam a correnteza. O pescador, que acreditava em milagre, não viu o corpo preso nos arbustos logo acima. Atirou-se sôfrego e em êxtase no rio a imaginar o banquete que faria para a família faminta.

Borboletas

Já ouviram o ditado que diz que “quanto mais alto se sobe, maior a queda”?

Ele é comumente ouvido por pessoas que buscam o sucesso a todo custo, querem chegar ao topo custe-o-que-custar. Até mesmo música já foi feita pra dizer a mesma coisa de outra forma, mais bonitinha, talvez. Por outro lado, também existe a expressão que afirma que “quanto mais alto, mais bonita a vista”. Há quem diga que prefere este, os otimistas de plantão a preferem, com certeza.

Mas entre um e outro há um grande abismo, grande e perigoso abismo. Pena que são poucos os que o notam e evitam, e muito os que caem. Esse abismo se chama expectativa.

Ah, mas que chaaaato esse post com cara de psicólogo, cheio de lição de moral, teorias emocionais, blablabla!

Engano fatal. Não se trata beeeem de psicologia, pois é quase uma questão de condição humana de sobrevivência. Só que é uma bosta, né?, vamos combinar: parece que só porque criamos expectativa sobre algo, esse algo cisma de dar errado, de sair completamente o oposto do que imaginávamos. Já reparei que em algumas vezes sai melhor do que o previsto, mas nas outras… Para alguém de escorpião, como eu, é meio que impossível não ficar imaginando cenas, criando possibilidades, esperando por um resultado x. Então, como a consequência é inevitável, preparemo-nos para o banho de água fria! Ou não…

Ou comecemos a criar borboletas, em vez de expectativas! Elas são mais bonitas, independentes e têm, de fato, alguma justificativa de existirem.

Minha crônica do dia

Há alguns meses me propus a missão de escrever uma crônica por dia, custe o que custar. É o tipo de coisa que só poderia ser proposta por um alemão, único tipo com disciplina e teimosia suficientes para continuar depois dos primeiros dias. Mas mesmo um alemão precisa considerar que nessa missão existem problemas tão difíceis de se resolver quanto a falta de inspiração. Acontecem muitas coisas imprevisíveis durante o dia que adiam ou até mesmo ameaçam o momento de escrever. Tanto mais para mim, que sou brasileiro e tenho no máximo uma genealogia germânica.

Hoje, por exemplo, eu tirei o dia para visitar a minha avó, que mora a duas hora de ônibus daqui. Voltei no fim da tarde e, pelos meus cálculos, daria pra chegar em casa pelas nove da noite e escrever uma crônica que eu já tinha mais ou menos estruturada na cabeça. Só que eu não contava com o imprevisível. No meio da viagem, o motorista avisou que um farol se apagara e era arriscado continuar sem ele. Disse que outro ônibus chegaria para nos levar dali a meia hora, uma hora – com sorte.

Foi ele fazer o anúncio e começaram a pipocar por todo o ônibus protestos de quem não poderia chegar atrasado na rodoviária, pois já tinha passagem comprada para outro lugar. Gente que exigia um táxi imediatamente. Juntei-me a esses e expliquei o motivo do meu desespero: “Eu preciso chegar em casa antes da meia-noite porque ainda não escrevi a minha crônica do dia!”. Por algum motivo eu não consegui a aprovação geral que imaginava e tampouco me deram um voucher para ir de táxi.

Miseravelmente, eu estava sem papel e caneta por perto, do contrário teria escrito ali mesmo – e provavelmente seria uma crônica de impropérios à empresa que me levava. Já cheguei a escrever textos inteiros no celular mas, para o cúmulo do azar, ele estava sem bateria àquela hora. Passei momentos de agonia enquanto esperava. Até que cheguei em casa e despejei tudo isso no papel.

E ainda faltam 20 minutos para a meia-noite.

Cansado de fudê

Assim, do nada, Roberto ensimesmou-se. Descolou seu corpo de Juliana e disse em português coloquial. Estou cansado de foder.  Ela, gozando com ele, retrucou: mas foder com “u” ou com “o”? Ele gargalhou. Laçou o pescoço dela com sua mão grande e voluntariosa e disse perto ao ouvido. Com você. O charme e sensualidade do gesto, da fala, contrastavam com o sentido por Roberto construído.

Ela afastou o olhar. Seu corpo continuava junto ao dele, mas o pensamento retraiu. Era como se, por um instante, tivesse recobrado a sobriedade. Ele ascendeu um cigarro. Ela não gostava daquela marca. Preferiu não repetir isso. Ele levantou-se e foi até a janela.

Vai trabalhar hoje? Perguntou ele fingindo interesse. Não, devolveu ela encenando indiferença enquanto vestia a calcinha.

Trocaram mais meia dúzia de bobagens, mas não trocaram mais um olhar sequer. Ele beijou a nuca dela antes de sair e ela fungou sua essência gasta da noite passada quando ele cruzou a porta. Ele estava cansado de foder e ela, de ser fodida.

Cuidar da vida alheia é um dever do cidadão

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Demorei para reconhecer a realidade de que todo mundo cuida da vida dos outros. Não sei quem cuida da minha, mas me parece que sou exceção. Todos sabem quem cuida da vida deles. Além dessa ignorância toda, imagino que eu esteja a desequilibrar o sistema, já que, até agora, não vinha cuidando da vida de mais ninguém.

Por ser um assunto de domínio público, poderia o colega leitor me ajudar com toda problemática que o tema me provoca? Por exemplo, como é que se pega a vida de alguém pra cuidar? Vale qualquer uma? Há pré-inscrição ou sorteio para ficar com aquelas mais interessantes? E como o sistema distribui aquelas vidas que realmente não têm como alguém querer cuidar?

Sim, porque eu não imagino quem possa se interessar pela vidinha besta do meu chefe: sempre do trabalho para casa, onde, para fugir da esposa, se atola em mais trabalho. Ou a da esposa dele, que se resume a limpar fradas e redigir relatórios. Provável que um não cuide da vida do outro. Quem terão escolhido? E quem será que cuida da vida deles? Pelo (mau) desempenho, certamente que ambos deveriam ter direito a indenização ou, no mínimo, a cuidadores mais competentes.

A mulher no trem reclama de quem cuida da vida dela. Quem quer que seja esse cidadão, já que ela enfatiza não saber quem é, andou espalhando no escritório que ela está procurando novo emprego e até já teria feito umas boas entrevistas. Tudo inverdades. Ela garante que adora a porcaria de emprego atual para a pessoa do outro lado da linha. Mas, gostaria assim, só por curiosidade mesmo, de saber onde foram essas entrevistas que ela tem feito. Vai que rola de poder fazer de novo?

Eu também gostaria de me comunicar com quem cuida da minha vida. Estando sempre fora da situação é capaz que ele possa me oferecer uma análise detalhada dos fatos que me dizem respeito. Se for alguém realmente legal, após ler essa crônica, poderá me mandar um feedback em tempo real ou, ao menos, no timing das coberturas de internet: já ajudaria bastante a melhorar a minha experiência de vida. Pouparia anos de reflexão, trauma e terapia.

Talvez seja um problema tão grande não ter a vida cuidada por alguém que pessoas absolutamente carentes desse serviço de utilidade pública se inscrevam nos realities shows. Assim, basta passar na peneira dos produtores de tv para que o país inteiro possa cuidar da vida deles. E ainda pode-se ganhar uma dinheirama. Não precisa a gente refletir muito para ver a maravilha que isso é. Como não, você não percebeu que é um jogo de ganha-ganha? Depois de participar de um programa desses sempre vai ter alguém cuidando da vida da pessoa. Nem que seja a própria mãe do cidadão.

Será que é assistindo a um desses programas que vou encontrar um jeito de recompensar a sociedade por todos esses anos em que só cuidei da minha vida? É difícil saber, mas na falta de informação mais precisa, não me custa tentar.