Arquivo do mês: dezembro 2013

Porque é feriado

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O ano começa e a gente corre para ver quais são os feriados: quais emendam, quais não. E o engraçado é que só há um feriado de verdade, daqueles que até em shopping acontecem. E quando digo acontecem, digo acontecer pra valer: com as lojas fechadas e as pessoas tendo que viver a cidade. Quer dizer, vivem alguma cidade, já que quem mora nos  grandes centros inevitavelmente corre para o litoral. Pois acredita que as forças só se renovam ali, com os pés enfiados na farofa de areia e com os olhos marejados. Salgado, apenas o preço da cerveja e os beijos que forem trocados. Sim, nesse feriado, o sal impregna na pele e nos lábios e dá um novo sabor a algo que na cidade teria outro gosto. Não digo gosto ruim, mas de  coisas menos românticas, como o alho da pizza ou do gloss melequento da menina. O sal do mar no outro é quase melhor que o feriado. Quase que justifica o feriado. É tudo o que deveria ser o ano inteiro. E isso ninguém diz,mas todo mundo concorda porque os engarrafamentos escorrem quase mar adentro. Dentro do tráfego, os homens esperam. Esperança de ver os fogos serem molhados pelas ondas. É véspera de ano novo quando escrevo e a cidade já se despede de si e de seus habitantes: está a avisar que amanhã ela mesma não está. Estará de olho no mar e ponto. Pontos. Gotas. Garoa. Afinal, esta é uma crônica de ano novo paulistano. 


Constatação

cadeira de balanço

 

Só para constar… muitas coisas podem vir com o fim do ano… um sequestro, uma gripe, um pneu furado, um funeral. Mas sabe o que invalida todas as frustrações? O sol vai nascer, as festas vão passar mas a vidinha vai estar ali, na mesma cadeira de balanço, tricotando nosso destino e esperando que a gente sorria para ela.


E que comecem as apostas!

Coitado de 2014…

Mal nasceu e está com tanta responsabilidade nas costas. É regime, emprego novo, casa nova, casamento, divórcio, filhos, academias, viagens, até copa do mundo estão prometendo por ele. Desejar que ele tenha paz ninguém deseja, né? Que seja politicamente revolucionário ninguém quer, né? Desejar que seja um ano de atitudes, de coragem, de fazer-e-acontecer, ninguém vai desejar, porque, como sempre, só se quer o bônus!

Tomara que ele não dê nada a ninguém, que seja um ano de muito suor escorrendo pelas testas, de muita compreensão. Que seja um ano de meio: para que todo mundo entenda que é preciso ter um começo e um meio antes de se chegar a um fim.

Boa sorte pra você, 2014.


Amor de rua

Quem conhece a Rodoviária do Plano Piloto em Brasília não se assusta mais com o Terminal Guadalupe em Curitiba. Está devidamente acostumado com os mendigos, os bêbados, as prostitutas, os usuários, as brigas, os ratos, o lixo. E os vendedores ambulantes, que oferecem celulares, laranjas, calcinhas, flores, jogos pra Play 2, bijuterias, agulhas (27 agulhas custam 1 real). Então era com ares de pessoa experimentada que eu me apoiava em uma pilastra enquanto aguardava o ônibus na capital do Paraná.

De onde eu estava não podia enxergar muita coisa da Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, logo ao lado do Terminal. Mas intuía que na rampa de acesso estivesse dormindo algum mendigo, como é de praxe. O pessoal da Paróquia não gosta muito deles. É que não causam uma boa impressão para as caravanas que vão até lá especialmente para ver o padre Reginaldo Manzotti (e eventualmente comprar um Manzotinho na porta do templo). Tenho para mim que o melhor meio de tirá-los da rampa seria convidá-los para entrar na igreja. Mas isso traria muito mau cheiro e sujeira, e o reino, como se sabe, é dos limpos. Ainda é uma excentricidade quando o Papa Francisco resolve convidar mendigos para o seu aniversário.

Eu pensava essas coisas e nem vi quando uma mulher, evidentemente moradora de rua, começou a andar para lá e para cá ao meu redor. Devia ter pouco mais de 20 anos. Não era das mais bonitas, pois se fosse já não estaria mais nas ruas. Estava descalça e tinha os pés sujos. Comecei a achar que estava me observando. Caminhava uns passos, depois voltava, passava à minha frente e às vezes seguia por trás da pilastra – ocasião em que eu lentamente me virava a fim de não ser surpreendido por Deus sabe o quê. Até que estacou diante de mim. Tentei fazer de conta que não era comigo, mas ela veio para cima de mim, com os braços abertos para me abraçar e com a boca aberta para me beijar – de língua. Minha sensibilidade social não chega a tanto: me esquivei e dei o fora.


O vestido

Ela queria se sentir menos sexy. Juliana não aguentava mais ser objetificada por homens de todas as idades, classes sociais e gostos. Era nauseante.

Juliana era loira, devia ter uns 24, no máximo 28 anos. Não tinha seios fartos, mas ninguém lhe sugeriria um implante de silicone. O rosto era liso e corava fácil. A voz era rouca pelas manhãs e docemente aguda todas as tardes. Chovesse ou fizesse sol.

Dalila queria se sentir sexy novamente. E queria se sentir desejada por Arthur. A quem tinha certeza que buscava aventuras sexuais com garotas mais novas do que ela. Dalila, geralmente, era condescendente com o devaneio.

Ela era loira, tinha certamente entre 40 e 50 anos, os seios eram pequenos, o rosto tinha algumas marcas de expressão. A voz era grave, quase masculina.

Estavam as duas na rua Oscar Freire, o principal polo de luxo do comércio paulistano. Elas pareciam pertencer a uma elite ultrapassada, aquela que não migrou para os empreendimentos modernos como os shoppings Cidade Jardim e JK Iguatemi que reverberam entre os abastados. Mas nenhuma das duas se ajustava propriamente a qualquer elite.

Juliana avistou um vestido. Ele era preto. Liso. Sem estampas. Um tecido que aparentava ser relativamente simples. Era mais longo do que os vestidos que ela costumava usar.

Abordou a vendedora. A mesma se espantou com o interesse de Juliana. Disse que havia na loja outras peças que lhe vestiriam melhor. Aquela vestimenta certamente não era suficientemente adornada para aquele corpo invejável. Foram outras as palavras. Juliana bateu o pé. Estava decidida a adquirir aquele vestidinho verdadeiramente básico.

Custava R$ 290. Pagou a vista. A pressa por usar a roupa era tanta, e a vendedora repercutira as possíveis razões com suas colegas pelo resto do dia, que Juliana quis sair vestida com o vestido da loja. Saiu e por pouco não notou Dalila entrando.

Dalila chamou uma vendedora e apontou para o vestido na vitrine que também vestia Juliana.

A vendedora de pronto exclamou que aquele vestido era perfeito para Dalila. Sóbrio, elegante e que permitia que a mulher chamasse atenção e não que fosse chamada atenção. Estratégias de venda a parte, Dalila parecia concordar com a vendedora. Pagou, em cheque, após fazer um demorado cadastro para que seu cheque pudesse ser aceito, e partiu com o vestido embrulhado. Ficou pensando se a escolha havia sido correta.

Naquela noite Juliana saiu para dançar. Ela e mais duas amigas. O vestido preto, sem maquiagem, sem escova no cabelo, sem blush, sem sombra, sem rímel e sem batom. Juliana era uma nova mulher. Uma mulher decidida a ser menos atraente. Que suas amigas fossem objetos.

Dalila não sabia exatamente o quanto de sombra deveria usar para não desequilibrar na comparação com o vestido. O batom era cor de pele. Ela se lembrava dos conselhos da mãe de que as maquiagens deviam ser mais sóbrias com a idade.

O jantar com o Arthur estava marcado para as 21h.

Por mais que tenha se esforçado, Dalila não conseguiu se lembrar da última vez que Arthur foi tão atencioso. A noite havia sido perfeita.

Juliana, por sua vez, só foi notada na balada lá pelas quatro e meia da manhã. Dançou boa parte da noite sozinha. Foi libertador!

O vestido havia funcionado.


Dos anjos de Deus

anjoO diabo passou por mim duas vezes nesses últimos dias e não me viu. Da primeira achei que estivesse distraído, mas da segunda ele passou bem do meu lado e foi como se eu não estivesse ali. Foi só aí que entendi: aquele cabeleireiro, que há exatos oitenta e nove dias tosou os meus fios pra me deixar com cara de rica, era um anjo disfarçado de pirata.

Pense em um Keith Richards paraguaio. Era o meu cabeleireiro. Vestia preto e usava uma bandana vermelha para cobrir a cabeça raspada . Só eu para não ver que um cabeleireiro careca é algo a se evitar. No mínimo, ele está naquele estado por culpa própria, se fosse bom, exibiria o próprio trabalho.

Também não sei bem que cara as ricas têm, quer dizer, ver coluna social nunca foi meu passatempo preferido. Mas, definitivamente, não era a cara que eu saí do salão.

Os fios retos deram lugar a fios de todos os tamanhos, desde que não superiores a 10 cm. Ganhei uma franja de mulher branca. Branca alemoa, ainda por cima. O cabelo crespo aguardava apenas uma gota d’água para se rebelar.

Culpa eu não tive, leitora que me acusa. Colocaram-me em uma cadeira cinco metros distante do espelho. Minha miopia tem crescido a taxas chinesas nos últimos anos.

Se praga de cliente pegar, aquele homem já não está mais entre nós. É uma pena, pois poderia ajudar outras pessoas, talvez menos descrentes do que eu.

Estava na livraria e por duas vezes trombei com o diabo, como lhes falei. Velho conhecido meu, talvez fosse cobrar ou inventar alguma dívida. Mas, ele não me viu. Comprou umas revistas de turismo e se foi. Pensando bem, acho que ele também precisava de um bom corte de cabelo.

Crônica originalmente publicada em Crônicas das 12.

Tempo de renovar

Então chegou o Natal! Muitas pessoas aproveitam esse momento para falarem em solidariedade, mudança, renovação, espiritualidade, renascimento, transformações essas que serão consolidadas no próximo ano, pois agora não dá mais tempo de grandes viradas. Será realmente assim? Acredito que não. Para mudarmos nossa postura, frente a alguma questão, basta apenas um segundo, um minuto, uma hora, uma manhã, um dia. Não precisamos esperar para o próximo ano.

Mas, como é bom saber que a maioria das pessoas pretende ser melhor depois do Natal. Que muitas querem um mundo com pessoas melhores depois do Natal. Essa comemoração, por renovar o nascimento de Cristo, prepara os corações para que possam ser melhores. Como há exceções a regra, ainda precisaremos fortalecer esse sentimento no próximo Natal.

O que espero desse Natal? Considero que 2013 foi um ano de muito aprendizado. Espero que tenha sido para todos, um ano de aprendizado. Pois bem! Que tenhamos aprendido a tirar o respeito das páginas dos dicionários e colocá-lo em prática. Que possamos utilizar da solidariedade no dia-a-dia. Que façamos da humildade uma ação em todos os lugares. E, por fim, sei que minha lista é pequena, saibamos usar a gratidão no sentido amplo da palavra e não como um gesto de educação.

Acredito que intolerância, a violência, o desrespeito em todas as suas variações, a falta de amor, esteja precisando de muito mais gratidão. Estamos esquecendo em ser gratos ao Criador, à natureza, ao próximo, a vida, a nós mesmos. Precisamos, nesse fim de ano, no ano que se inicia, por como meta que precisamos ter um momento do dia para expressar, em verso e prosa, em oração e reza, em contemplação e admiração, em força e foco, nossa gratidão pelo dom do amor. O maior sentimento e aquele que nos transforma e preserva a vida.

Então, é Natal! Tempo de renovar.