De boca vazia

Essa semana eu fiquei indignada.

E poderia ter sido pelas palhaçadas constantes que tem acontecido dentro da política, mas não foi. Poderia ter sido pelas tragédias provocadas nos acidentes que mataram tantas pessoas, mas não foi. É por coisa muito mais simples. Mas simples só a primeira vista.

Indignei-me por que li algo que chamaram erroneamente de crítica num jornal de grande – e massiva – circulação. E se digo que “chamaram” é porque aquele texto, absolutamente parcial e infundado, não pode ser considerado crítica. Explicando: Josimar Melo publicou na última quarta-feira, dia 27, um texto sobre a “dieta” vegana e tirou suas conclusões.

Os erros já começam por aí: primeiro que veganismo não é uma dieta, e segundo que em crítica literária não se tira conclusões. E para piorar o moço se deu o direito de contrariar a história e a biologia dizendo que o homem é carnívoro por essência e que a “limitada” seleção de alimentos empobrece o paladar e a cozinha.

Aqui nasceu minha indignação. E não é por ele ter falado besteira, não. Minha indignação se deu quando pensei: como é que um veículo que tem como objetivo transmitir informação ao povo deixa passar uma falha imensa de conteúdo, lógica e noção como essa? Não é possível que a preocupação com a qualidade do que se repassa ao público não exista mais e aí eu me pergunto se isso ainda seria um resquício da liberdade de expressão advinda com o fim do regime ditatorial em 1984 – liberdade essa que, mediante o exemplo citado acima, eu chamaria de libertinagem, por que o conceito fica mais adequado.

Então começo a ver como as peças se encaixam perfeitamente: informação errada, povo desinformado; povo desinformado, governo corrupto; governo corrupto, país de ninguém. Ah, agora tudo faz sentido e posso entender o motivo pelo qual tantas cabeças estão, ao mesmo tempo, cheias e vazias: estão cheias de coisa errada e vazias do que realmente importa.

Tá certo, acho que o peixe fora d’água sou eu mesmo, que penso demais numa geração em que se quer que pense de menos.

Feliz Black Friday

Diz a Revista Forbes – a fonte preferida dos jornalistas sem pauta – que a tradição do Black Friday é tão estranha aos brasileiros quanto a lua. Discordo, discordo da comparação – não é porque um país fincou uma bandeira em cima da lua que ela passou a ser mais íntima dos seus habitantes. Além do mais, é como diz o Campos de Carvalho: para a lua tanto faz ser Londres ou São Bento do Sapucaí.

Mas concordo com o mérito, evidentemente. É certamente sintomático de alguma coisa que no Brasil se parta para o consumo adoidado do Black Friday sem passar antes pela Ação de Graças. Também ao contrário dos americanos, nós não passamos a madrugada na fila esperando as lojas abrirem, por vezes perdendo o dia de trabalho – por aí se vê que talvez seja até bom ser estranho às tradições americanas. Mas é justamente em defesa desse tipo de comportamento que a Forbes se posiciona. Parece que há uma maneira correta de passar o dia gastando e que não veio importada junto – a própria economia dos preços parece não ter vindo.

Na origem do dia, está a inauguração da temporada de compras do Natal – pois não é de se imaginar, tanto nos Estados Unidos como aqui, que alguém consiga passar um Natal sem fazer compras de Natal. Mas essa justificativa é desnecessária: o que se comemora no Black Friday é o próprio Natal. Ele é o Natal sem máscaras do comércio, sem aquela necessidade de encaixar Jesus ou sentimentos cristãos em meio aos anúncios. Finalmente, assume-se que aquilo que se celebra é unicamente o nascimento da sociedade de consumo. Satisfazem-se plenamente, em bonita concordância, os desejos de vender e de consumir, sem os quais não existe Natal. E tudo isso sem precisar de reuniões familiares, de preparativos desgastantes, ou de obrigações religiosas. Tiremos os presentes, a ceia e todas as compras que fazem o nosso Natal e observemos se os nossos olhos brilham com a mesma excitação de quem descobre uma oferta imperdível durante o Black Friday.

Boas festas!

O Lulu dos políticos

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Henrique Eduardo Alves, presidente da Câmara dos Deputados, range os dentes: ele seria um dos campeões do Lulu dos políticos

Uma das grandes sensações da internet nesses últimos dias, pelo menos em terra brasilis, foi a popularização de um aplicativo denominado Lulu. O app, que só pode ser usado por mulheres, consiste basicamente nelas atribuírem notas e outras formas de avaliação (como hashtags temáticas) a homens com perfis no Facebook. Eu acho a ideia ótima. A criação, que é do ano passado, é de uma londrina que sentia falta de “googuy” (flexão de “Google” e “cara” em inglês, que seria uma ferramenta  para que mulheres pudessem pesquisar sobre paqueras e pretendentes).

O app tem sido lido pela mídia como uma maneira de mulheres objetificarem os homens. Vingarem-se, portanto, de uma cultura machista milenar. É atribuir importância demais a mais um sintoma de uma febre sem sinais de esgotamento que é essa dos aplicativos. A ideia é bacana e é mais uma estratificação do que a internet tem de melhor a nos oferecer: ferramentas para perdermos tempo.

Mas a provocação é a seguinte: e se perdêssemos tempo com algo pedagógico? Que tal um app, com a mesma pegada do Lulu, para avaliar políticos? Será que viraria febre? Dificilmente. O propósito de perder tempo e sentir-se vingado seria plenamente preenchido, entretanto. As avaliações não produziriam efeitos na prática e seria maravilhoso pautar a mídia se debruçando sobre os perfils eriçados a partir das análises postadas no Lulu dos políticos.

Seria mais uma forma de encararmos a fanfarronice de nossa vida política. O melhor é que se a ideia desse errado, ou seja, se os brasileiros criassem algum ranço de consciência política e o app tivesse alguma repercussão em termos eleitorais, seria o fracasso mais bem sucedido da história deste país.  Se desse certo, quem quer que o tivesse desenvolvido teria seus 15 minutos de fama e algum dinheiro no bolso.

Sinal vermelho

Imagem: Jeff Laitila - http://www.flickr.com/photos/sushicam/
Imagem: Jeff Laitila – http://www.flickr.com/photos/sushicam/

O japonês parecia saído de uma caixa de japoneses. A camisa azul desbotada, tendia para o verde. A calça jeans velha e larga se segurava a duras penas ao cinto. Naquele dia nublado, os carros achavam que não deviam dar vez a ninguém, nem mesmo a um japonês que queria seguir seu caminho, portando uma pasta na qual levava a própria vida.

E a vida dele parecia leve, mas com uma importância tamanha que era preciso ser contraída com toda força das duas mãos junto ao peito. Ali talvez ele pudesse senti-la vibrar. Ou auscultar o bater das preocupações que lhe bombeavam o sangue.

O semáforo parecia torcer pelos carros, pois não se dignava a dar sinal verde ao japonês surrado à margem na calçada. A menina de calça de zebra que quase trombou no homem, enquanto conversava com uma amiga de cabelos cor de palha, não se sensibilizou com aquele drama pedestre porque ela mesma seguiria sem interrupções pela calçada. Apenas avaliou, como num segundo plano da mente, que a passagem ficaria mais livre sem o estorvo do homem parado ali.

Não sei quanto tempo levou para que o semáforo finalmente se cansasse da própria parcialidade. Aquele adversário não dava mostras de que pudesse desistir, como muitos que iam avançando pela pista, ou outros que seguiam pela calçada como se assim pudessem adiantar a posição que deveriam ter no outro lado. Nem a chuva que rugia sua intenção de despencar naquele mesmo instante afastava o nipônico de seu ponto junto à faixa preta e branca.

O farol não podia compreender que seu estratagema seria sempre inócuo contra aquele samurai, armado de pasta de couro. Via-se que aquele homem, ao contrário de tantas vítimas do humor negro daquele sinal, sabia quais lutas escolher e que o caminho estaria à sua espera pelo tempo que fosse necessário.

Mãos à palmatória

Há alguns meses escrevi uma crônica falando do meu pouco conhecimento em futebol. Por ter pouca habilidade ao falar da modalidade acabo por ser um bola-murcha nas análises futebolísticas. Por conta disso, no mesmo texto eu dei uma bola fora dizendo que o São Paulo Futebol Clube, até aquele momento muito mal das pernas e na zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro, seria um dos times a enfrentam a Série B em 2014.

Temos apenas cinco equipes que, desde quando foi iniciada a disputa por pontos corridos, não foram rebaixadas. No caso o São Paulo, o Internacional, o Flamengo, o Santos e o Cruzeiro (campeão de 2013). Para mim, diante da campanha do tricolor paulista, só ficariam quatro equipes a visitarem a Série B.

Não sei se foram as minhas palavras ou outra situação do destino, mas, após o meu texto o São Paulo deu uma disparada impressionante no campeonato, a fazer inveja na grande campanha do Fluminense, há alguns anos, que se salvou na última rodada. O São Paulo se recuperou como time grande e, para recuperar o ano ruim, está na final da Copa Sulamericana. É, ainda bem que não estou dependendo dos meus comentários e projeções sobre futebol para por o feijão na mesa.

Mas, quero esclarecer as mãos à palmatória. Deixo-as a todos os torcedores da outras equipes, que como eu queriam ver o São Paulo na Segundona. Estou aguardando as saraivadas de críticas e vaias, até outras injúrias, pois, se eu ficasse com as mãos fechadas, o São Paulo hoje estaria fazendo planos de colocar o Expressinho para rodar os menos valorizados estádios da Série B. Falei cedo demais. Eles ouviram minhas palavras e na preleção alguém deve ter citado a mim e outros tantos que falaram da queda do São Paulo, pois acredito não estar sozinho nessa. Tenho plena certeza que outros comentaristas foram para precipitados.

Pois bem, feitas as considerações. Quero finalizar deixando a todos saudações alvi-verdes. O glorioso Palmeiras, maior campeão do futebol brasileiro nesses 500 anos de Brasil, é bi-campeão da Série B. Sendo assim, cravo mais uma profecia. O Palmeiras derruba um dos últimos cinco times que ainda não trilharam os campinhos da Segundona. Dessa vez tenho plena convicção da minha previsão. Nem precisa esperar para ver, são favas contadas. É isso!

Você não precisa namorar (ou noivar, ou casar ou qualquer coisa assim)?

Essa crônica foi motivada por este post aqui ó, que gerou uma discussãozinha na minha timeline e que está, ultimamente, muito em voga nas mesas de bares da minha vida…

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Pois é, Baldizinho querido! Fica fácil e poético escrito assim né. Mas e você? Tá solteiro? Com o coração bem resolvido, seja junto ou sozinho? Ahhhh, eu não acredito não. Sabe porquê? Porque o inferno não é você! São os outros…

Resumindo, o problema todo se divide em, necessariamente, 3 aspectos com seus respectivos subs:
a) Enfiar isso na cabeça das pessoas de forma que elas entendam que as suas conexões neurológicas são embasadas nos próprios sentimentos raciocinados e não no simples fato, vulgo recalque, de que no final das contas elas se casaram e você (ainda) não! Se prepara, que a cara para o discurso de “Eu sou solteira e feliz” é sempre a de “Ah vá…”
b) Mostrar pro mundo que a frase antes só do que mal acompanhado é potencialmente muito mais livre e ampla do que parece: sozinho você aprende a se virar e edificar para que nos intervalos com uma eventual má companhia hajam bons momentos, justamente pela condição dela e você serem más ( ou traduzindo, “aquele que foge dos padrões tradicionalmente aceitos”).
c) Viver em sociedade significa se sujeitar a aceitar fases na vida. Como eu não conheço muitos ermitões por aí, temos o resultado da aceitação: você VAI ser infeliz em algum ou muitos aspectos, ponto. Resultado da negação: você VAI ser de certa forma excluído e se sentir incapaz, terminando infeliz em algum ou muitos aspectos. Ou nas palavras de Margareth Mead, ganhará o eufêmico rótulo de “inadequado”.

Se é para apontar responsáveis, na minha opinião, os culpados são 3:
a) Walt Disney: com sua infeliz (para não dizer maldita) ideia de amor romântico para infantes. Se deus existe, hoje você está queimando no inferno eterno (a rixa aqui é pessoal, confesso);
b) Seus pais: cientes da m* que é a adequação do ser social te prepararam para cumprir um papel ridículo num teatro inevitável e não te prestaram um auxílio decente  por medo de você ser o tão temido “revoltado”.
c) Seus avós: que deveriam ter mandado a tia velha trabalhar e conhecer o mundo ao invés de buscar um marido come, dorme e reclama, futuramente dependente de viagra como se isso resolvesse a vida vazia dela.

A solução também são 3 (porque se dois é bom…):
a) Leia, leia, leia!!!!! Regina Lins, Simone de Beauvior, Durkheim. Tanto para os meninos quanto para as meninas. Esclarecimento e conscientização da própria situação é a única coisa que pode livrar as pessoas das amarras sociais sem autolamentação ou culpa. Dane-se quem acha que você deveria casar se você acha que não. Mas até chegar a esse nível de desprendimento da opinião alheia… haja terapia.
b) Responda com a boca cheia para amigos alienados, parentes condicionados e afins: “Na boa, QUE-RI-D@, vai cuidar da sua vida, que por sinal é horrorosa ou você não se preocupava com a minha!” Se as pessoas fossem mais francas ao invés de mais falsas a medida que o tempo passa, as coisas estariam espinhentas mas muito melhores, emocionalmente falando.
c) Se cerque de gente que está mais preocupada em conhecer o mundo e outras culturas milhares e saia do convencionalismo da sua estagnação atual. Isso vai significar levantar (e muito) do sofá além de romper laços com pessoas que você acreditava únicas. Já dizia papai, para finalizar: o cemitério, minha filha, está cheio de insubstituíveis. E cuidado com os canalhas…

Justiça, pra que te quero?

Fico encantada com a capacidade que os serviços públicos tem de, por princípio, funcionar às avessas. E pior: fazer parte de algum órgão ou serviço público – ou ainda somente participar de determinadas situações regulamentadas e gerenciadas por eles – nos permite enxergar o quão defasada é a sanidade mental desses órgãos regulamentadores.

E digo isso por experiência própria, pois há alguns anos que sou convocada para compor a banca de juri popular no Tribunal de Justiça da Capital. Ou seja, vou lá, fico à disposição pra dar pitacos na vida alheia, sem nem mesmo ter noções de direito penal, e tudo isso pra dizer que sou instrumento da justiça nesse país.

E que me perdoem os envolvidos, mas a situação é simplesmente patética.

Vejam vocês que sou obrigada a comparecer, passiva de pena de multa em caso de ausência injustificada, e eu pergunto: pra quê? Mas também respondo: pra ficar mofando na cadeira, esperando por mais de duas horas a boa vontade do juiz – e às vezes é só e tão somente a oficial de justiça – de nos avisar que o julgamento será cancelado.

O motivo? Bem, já passei por vário, posso listá-los:

– A vítima não foi comunicada;

– As testemunhas não foram ouvidas;

– O promotor ainda está em um caso que se estendeu;

– O réu não apareceu.

Um consolo é que, neste último caso, o tratante teve a prisão preventiva decretada e passou a ser tratado como foragido da polícia.

Ha. Ha. Ha.

Parece piada, de tão patético. É um descaso sem tamanho com as pessoas envolvidas no processo, que já sofrem por terem perdido entes (por que juri popular, meu caros, é coisa “leve”, “sussa”, só homicídio e tentativa de homicídio), conosco, que nos dispomos a colaborar como parte da sociedade que decide por si mesma seu futuro e de seus integrantes.

Mas é aí que a gente se dá conta de que não há nada pior do que depender de um sistema falido; que não há nada pior do que não ser capaz de mudar uma vírgula desse próprio sistema; nada pior do que fazer parte do sistema que deveria fazer justiça e quem, em vez disso, apenas enrola, enrola, enrola…

Triste saber que esse relato foi escrito quando o julgamento já estava com atraso de mais de hora.

Como tudo começou a dar errado

Mendigos, bêbados e drogados do Setor Comercial Sul, que durante o horário de almoço são vistos deitados, jogados, esparramados no meio das calçadas, como se estivessem mortos, e quem sabe estejam mesmo, vocês que de vez em quando até recebem um olhar curioso, mas não mais do que isso, vocês que já não despertam mais a menor compaixão, e que são o motivo das pessoas reclamarem por mais segurança, a vocês eu peço que tirem essa dúvida que me assalta sempre que os observo: como foi que tudo começou a dar errado?

Isto é, alguma coisa deve ter acontecido. Não me venham dizer que sempre foi assim, que já nasceram neste estado e que este é o karma de suas vidas. Eu até admito que vocês não tenham sido bebês planejados, que muitos não tenham tido um pai e que vários não tenham tido sequer uma mãe, mas digam lá: não houve ao menos uma pessoa que se abaixasse diante do berço em que vocês dormiam e dissesse aquelas coisas engraçadinhas que se diz para todos os bebês? Será que nunca disseram a vocês “que bebê mais bonitinho”? Por Deus, como era a vida de um bebê mendigo, bêbado e drogado? Com que tipo de coisas vocês brincavam? Ou será que é como as pessoas dizem, e vocês já nasceram bandidos, ou no mínimo maldosos?

Eu acredito que vocês também foram crianças e que falavam uma porção de frases inocentes, capazes de divertir e encantar os adultos. Também imagino que aquilo que pôs tudo a perder, e que eu não sei o que foi, aconteceu muito cedo. Mas também sei que não aconteceu de imediato: sem dúvida foi um longo processo até vocês chegarem a estar jogados como mortos na calçada por onde passo. E eu apenas queria saber o que foi que desencadeou tudo isso, qual a escolha, qual a dor, qual a carência, qual a dificuldade que não foi resolvida no tempo certo e por isso cresceu, cresceu tanto que hoje ninguém mais sabe como resolver.

Mendigos, bêbados e drogados do Setor Comercial Sul: como foi, meu Deus, que tudo começou a dar errado?

Discursos políticos

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Marcos Paulo estava inquieto. Naquela tarde, ele havia recebido um elogio inusitado, cuja ambiguidade incomodava-o profundamente. Do nada, seu amigo Joel, que já havia sido seu chefe e seu subordinado e Marcos Paulo cria ser um dos poucos que bem lhe conhecia, exclamou: “você nasceu para redigir discursos políticos”. Não fora para fazer ou mesmo para criticá-los, mas para redigi-los. Aliás, por que discursos políticos? Por que não discursos de paz? Ou roteiros de cinema? Havia algo de insuspeito naquele elogio que o tornava suspeitíssimo.

Enquanto saboreava um vinho chileno de 30 anos, que prometera a si mesmo só abrir em uma ocasião especial, Marcos Paulo rememorava os contatos que tivera com Joel antes daquela fatídica tarde. Não conseguia encontrar nada que justificasse aquele elogio meio absurdo. O que, afinal, o credenciaria a escrever discursos políticos? Certamente não seriam suas habilidades políticas. Se as tivesse, ainda estaria casado com Lucélia, sua segunda mulher, conseguido aquela promoção no escritório e descontos na mensalidade do estacionamento. Não eram essas as suas habilidades. Seria a capacidade de agir nos bastidores? Mas quando foi que ele havia mesmo agido nos bastidores? À medida que mais investigava as possíveis raízes do elogio, mais se certificava de que se tratava de uma ironia, de um exercício de cinismo disfarçado ou, até mesmo, de um afronte velado.

E o vinho estava chegando ao fim.

O raciocínio já não era mais o mesmo. A paciência também não.

Seria a falta de carisma? Sim, porque políticos precisam de carisma, mas quem os municia verbalmente não necessariamente. Talvez fosse isso. Mas “nascido para…” essa construção ainda precisava de contexto.

Foi quando esvaziou a garrafa de vinho que Marcos Paulo chegou à conclusão do que Joel realmente disse. Havia, de fato, sido um elogio. Mas elogio ressentido. Como quando você dá um presente muito caro a alguém e nem sequer vai a festa.

Joel reconhecera, naquela frase, a inteligência de Marcos Paulo. Sua incrível capacidade de articular ideias e propô-las com requinte e assertividade. Admirava também a capacidade de cálculo do amigo. Aquela frieza bem condicionada por uma atividade cerebral intensa e bem cultivada. No entanto, dizia também que Marcos Paulo era insípido. Sujeito sem grandes atrativos físicos, emocionais, sociais que o valham. Era uma figura propensa a brilhar pelos outros. Para os outros. Por isso, discursos políticos e não roteiros de cinema.

O vinho, afinal, havia servido a uma ocasião especial. Assim como a bala que foi encontrada ao lado da garrafa e de um bilhete que, talvez, fosse ainda mais irônico do que qualquer coisa que Joel tivesse pensado. “Saio da vida, mas não entrarei na história”.

A queda do rabo do foguete

Imagem: http://www.flickr.com/photos/ciamabue/
Imagem: http://www.flickr.com/photos/ciamabue/

― “ ‘É a possibilidade mais plausível’, diz astronauta brasileiro sobre esfera”, sinceramente – reclamou Rufus – não tinha nenhuma outra frase para inserir na boca deste astronauta?

― Ah, e pra quê? A mim parece que ele ficou bastante satisfeito em dar essa declaração.

― Porque isso já está dando na cara! Toda vez que a gente precisa encobrir algum experimento você reprograma algum humano para dizer essa papagaiada.

― Você se preocupa demais, Rufus.

― Os seres humanos evoluem, Plinius. Não demora nada algum descobre a verdade, como aconteceu com o “déjà vu”.

― Rufus, e daí se alguém descobrir? Eles mesmos se encarregarão de resolver o problema: haverá quem diga que a tese carece de embasamento científico, que é teoria da conspiração, literatura, ou que o seu ser super evoluído ficou tantã.

― Essa sua arrogância, Plinius, ainda vai arruinar a nossa missão!

― Rufus, pelos sóis desse universo, criatura! Ninguém da Terra jamais vai conseguir provar nada. Eu camuflei perfeitamente o artefato para ficar igualzinho o lixo espacial deles. Aliás, “lixo” define toda a tecnologia desse povo atrasado. Enfim, se algum dia esse seu ser evoluir, já estaremos longe. “É a possibilidade mais plausível”.

Queijo, Bola e Cachaça

triCréditos da imagem: 
Jornal Estado de Minas 
http://www.em.com.br - 14/11/2013

Sendo eu mineira, de coração e nascimento, abro mão da minha constante deriva sublimada de sentimentos para falar do futebol mineiro, em voga e destaque neste campeonato brasileiro. Aliás, minhas palavras hoje dirigem-se à e para a torcida azul celeste do Cruzeiro. Substancialmente, na verdade, quero fazer uma análise da comemoração do título antecipado de tri campeão brasileiro. Vamos falar de como e porquê.

Que galo e raposa não se bicam (com o perdão do pobre trocadilho) todos já sabem ou tem uma noção (aos que não, bom, não muda tanto a vida assim, fique tranquilo e volte a Saramago). Mas o que temos notado nos últimos tempos é um aumento nesta rivalidade que ultrapassa o dito nível saudável esportivo.  Com a vitória do Clube Atlético Mineiro pela Libertadores da América, uma comemoração de grandes proporções tomou conta de Belo Horizonte há alguns meses atrás. E com a vitória do Cruzeiro Futebol Clube a quatro rodadas do final do campeonato brasileiro, a celebração da torcida azul não foi diferente. O fato é: em quanto contribuiu a festa alvinegra para que a azul e branca se fizesse tão barulhenta, tão duradoura e em alguns casos, tão violenta?

O futebol saiu do estádio e ganhou as ruas na forma de gritos, canções de vitória e ofensivas, depredação. Note-se, tudo regado a muita cerveja e otras cositas más. Quebrar o letreiro da loja do time rival é um tipo de comemoração que eu, torcedora contida, não consigo entender em que acrescenta. Insultar torcedores do time outro (que, note-se, não era nem mesmo o rival em campo) também não me mostra um grande sentido para ser.

O estado que brilhou nos campos envergonha nas ruas. A briga entre as torcidas chega num paralelo tal que pessoas menos exaltadas temem o que acontecerá caso nosso time mineiro ganhe o mundial. Ou pior, caso perca.

Estou sendo extrema? Claro! Há aqueles cuja felicidade é honestamente pelo simples fato da vitória! Mas infelizmente, o que sobressai é o rastro de destruição. Muitos preferem ver o circo queimar. Especialmente o alheio.

Minha terra tem montanhas que nos escondem do mar. Minha Minas tem cheiro de casa de mãe, temperos de cozinha de vó e causos de família ao redor da mesa farta. Mineiro é acolhedor, Belo é o Horizonte que recebe todos bem. Desde que não estejam com uma camisa azul. Ou preta e branca. Porque aí o pacato mineiro se transforma em um ser ensandecido de razão desprovido.  Pergunto: vale o preço?

Da incrível arte de se ter um gato

Não é para qualquer um.

Porque antes de mais nada é preciso muito amor – e amor, hoje em dia, é um artigo raro.

Depois, um bocado de disposição, paciência e dengo. Aliás, muito dengo. Bem, na verdade, bota dengo nisso. Gatos requerem atenção e é por esse motivo que subirão na sua cabeça, lamberão sua orelha, e brincarão com seus pertences, como brincos, correntes e pulseiras. Eles passearão pela casa, pelo computador, pela cama, guarda-roupa como um grande explorador fazia. Mas serão companheiros, sobretudo: esperarão ansiosos na frente da porta até que você volte, acompanharão as noites em claro, os programas de índio aos finais de semana, as gripes intermináveis.

Por isso é que não se pode ficar bravo quando nos arranharem, quando usarem os cadarços de nossos tênis como brinquedinhos, quando ocuparem o melhor cantinho do sofá enquanto se lambem, ou quando afiarem suas unhas no lugar errado. Porque tudo isso é apenas um modo de dizer que estão cuidando da gente. E todas as marcas de arranhões que ficarão para sempre nos lembrarão não só da dor, mas também das ronronadas ao pé do ouvido no meio da noite, dos amassa-pão em nossa barriga, das cochiladas em nosso colo.

Ah, e saiba: a casa não será mais sua.

Guerra com as baratas

Estou em guerra com as baratas. Devo dizer que só cheguei a esse ponto depois que todas as tratativas de paz fracassaram. Elas simplesmente não consideraram os meus insistentes apelos para que deixassem de caminhar feito baratas tontas pela minha casa. Foi quando decidi promover aquilo que governo americano chamaria de intervenção militar. Primeiro, utilizei os métodos naturais: folhas de louro, por exemplo. As baratas adoraram. Roeram pedaços e levaram para os seus esconderijos, onde provavelmente prepararam um chazinho para aliviar a digestão.

Decidi então descumprir todas as resoluções da ONU e partir para o único tipo de ataque realmente eficaz: as armas químicas. Existe uma especialmente letal para elas chamada ácido bórico. Não há barata que sobreviva, e caso existisse ela provavelmente se suicidaria ao olhar ao redor e ver o genocídio provocado pelo produto. Saí então para comprar o veneno. Entrei numa farmácia e fui avisado que o ácido bórico estava proibido pela Anvisa. Acho graça. A Anvisa deixa vender pinga, cigarro e refrigerante, que matam pessoas, mas não deixam vender um ácido que mata baratas. Senti-me naquela piada: – Isso aqui é bom pra barata? – Não, isso as mata.

Preparei então um banquete mais modesto: açúcar + bicarbonato de sódio. Minha expectativa era que as baratas cedessem às tentações da carne e se embriagassem nos pecados da gula. Foi o que aconteceu. As baratas decretaram feriado e se esbaldaram de comer. Mas sobreviveram, o que me fez voltar à busca pelo ácido bórico. Acabei encontrando numa casa de química. Tive que assinar muitos papéis e jurar pela minha mãe, com a mão na Bíblia, que eu não iria misturar o ácido à cocaína. Espalhei-o em tampinhas com açúcar e deixei pela casa. Nos dias seguintes eu encontrei baratas rastejando pela casa. Mal conseguiam se mexer. Pediam misericórdia e clemência. Morreram. Conclui então que a única coisa capaz de sobreviver a uma guerra nuclear é o ácido bórico.

Falta de Adeus

Não tão brancas as árvores que nascem das asas do acaso, nem tão branda a insanidade que jorra dos olhos do escárnio.E o vento sopra, sopra inamorável. Um cacto cresce calado no quarto degrau da escada. Até amo a falta de adeus, confessa o inseto que carrega a paisagem – o tempo é de fuga, não de sussurros. A indiferença caminha por estradas de desatenção, feliz. Por instantes, detido, contemplei o abraço de dois uivos, forjei reflexos, apenas, constatou o devaneio. Se eu não ressuscitasse toda manhã, hesitou algumas horas um simpático narcisista, depois desenhou um circulo muito aquém do perfeito. A noite anêmica e aos trapos, a mente anêmica e aos trapos, o tempo anêmico e aos trapos, disputavam um imaginário pincel.