Arquivo do mês: novembro 2013

De boca vazia

Essa semana eu fiquei indignada.

E poderia ter sido pelas palhaçadas constantes que tem acontecido dentro da política, mas não foi. Poderia ter sido pelas tragédias provocadas nos acidentes que mataram tantas pessoas, mas não foi. É por coisa muito mais simples. Mas simples só a primeira vista.

Indignei-me por que li algo que chamaram erroneamente de crítica num jornal de grande – e massiva – circulação. E se digo que “chamaram” é porque aquele texto, absolutamente parcial e infundado, não pode ser considerado crítica. Explicando: Josimar Melo publicou na última quarta-feira, dia 27, um texto sobre a “dieta” vegana e tirou suas conclusões.

Os erros já começam por aí: primeiro que veganismo não é uma dieta, e segundo que em crítica literária não se tira conclusões. E para piorar o moço se deu o direito de contrariar a história e a biologia dizendo que o homem é carnívoro por essência e que a “limitada” seleção de alimentos empobrece o paladar e a cozinha.

Aqui nasceu minha indignação. E não é por ele ter falado besteira, não. Minha indignação se deu quando pensei: como é que um veículo que tem como objetivo transmitir informação ao povo deixa passar uma falha imensa de conteúdo, lógica e noção como essa? Não é possível que a preocupação com a qualidade do que se repassa ao público não exista mais e aí eu me pergunto se isso ainda seria um resquício da liberdade de expressão advinda com o fim do regime ditatorial em 1984 – liberdade essa que, mediante o exemplo citado acima, eu chamaria de libertinagem, por que o conceito fica mais adequado.

Então começo a ver como as peças se encaixam perfeitamente: informação errada, povo desinformado; povo desinformado, governo corrupto; governo corrupto, país de ninguém. Ah, agora tudo faz sentido e posso entender o motivo pelo qual tantas cabeças estão, ao mesmo tempo, cheias e vazias: estão cheias de coisa errada e vazias do que realmente importa.

Tá certo, acho que o peixe fora d’água sou eu mesmo, que penso demais numa geração em que se quer que pense de menos.


Feliz Black Friday

Diz a Revista Forbes – a fonte preferida dos jornalistas sem pauta – que a tradição do Black Friday é tão estranha aos brasileiros quanto a lua. Discordo, discordo da comparação – não é porque um país fincou uma bandeira em cima da lua que ela passou a ser mais íntima dos seus habitantes. Além do mais, é como diz o Campos de Carvalho: para a lua tanto faz ser Londres ou São Bento do Sapucaí.

Mas concordo com o mérito, evidentemente. É certamente sintomático de alguma coisa que no Brasil se parta para o consumo adoidado do Black Friday sem passar antes pela Ação de Graças. Também ao contrário dos americanos, nós não passamos a madrugada na fila esperando as lojas abrirem, por vezes perdendo o dia de trabalho – por aí se vê que talvez seja até bom ser estranho às tradições americanas. Mas é justamente em defesa desse tipo de comportamento que a Forbes se posiciona. Parece que há uma maneira correta de passar o dia gastando e que não veio importada junto – a própria economia dos preços parece não ter vindo.

Na origem do dia, está a inauguração da temporada de compras do Natal – pois não é de se imaginar, tanto nos Estados Unidos como aqui, que alguém consiga passar um Natal sem fazer compras de Natal. Mas essa justificativa é desnecessária: o que se comemora no Black Friday é o próprio Natal. Ele é o Natal sem máscaras do comércio, sem aquela necessidade de encaixar Jesus ou sentimentos cristãos em meio aos anúncios. Finalmente, assume-se que aquilo que se celebra é unicamente o nascimento da sociedade de consumo. Satisfazem-se plenamente, em bonita concordância, os desejos de vender e de consumir, sem os quais não existe Natal. E tudo isso sem precisar de reuniões familiares, de preparativos desgastantes, ou de obrigações religiosas. Tiremos os presentes, a ceia e todas as compras que fazem o nosso Natal e observemos se os nossos olhos brilham com a mesma excitação de quem descobre uma oferta imperdível durante o Black Friday.

Boas festas!


O Lulu dos políticos

04

Henrique Eduardo Alves, presidente da Câmara dos Deputados, range os dentes: ele seria um dos campeões do Lulu dos políticos

Uma das grandes sensações da internet nesses últimos dias, pelo menos em terra brasilis, foi a popularização de um aplicativo denominado Lulu. O app, que só pode ser usado por mulheres, consiste basicamente nelas atribuírem notas e outras formas de avaliação (como hashtags temáticas) a homens com perfis no Facebook. Eu acho a ideia ótima. A criação, que é do ano passado, é de uma londrina que sentia falta de “googuy” (flexão de “Google” e “cara” em inglês, que seria uma ferramenta  para que mulheres pudessem pesquisar sobre paqueras e pretendentes).

O app tem sido lido pela mídia como uma maneira de mulheres objetificarem os homens. Vingarem-se, portanto, de uma cultura machista milenar. É atribuir importância demais a mais um sintoma de uma febre sem sinais de esgotamento que é essa dos aplicativos. A ideia é bacana e é mais uma estratificação do que a internet tem de melhor a nos oferecer: ferramentas para perdermos tempo.

Mas a provocação é a seguinte: e se perdêssemos tempo com algo pedagógico? Que tal um app, com a mesma pegada do Lulu, para avaliar políticos? Será que viraria febre? Dificilmente. O propósito de perder tempo e sentir-se vingado seria plenamente preenchido, entretanto. As avaliações não produziriam efeitos na prática e seria maravilhoso pautar a mídia se debruçando sobre os perfils eriçados a partir das análises postadas no Lulu dos políticos.

Seria mais uma forma de encararmos a fanfarronice de nossa vida política. O melhor é que se a ideia desse errado, ou seja, se os brasileiros criassem algum ranço de consciência política e o app tivesse alguma repercussão em termos eleitorais, seria o fracasso mais bem sucedido da história deste país.  Se desse certo, quem quer que o tivesse desenvolvido teria seus 15 minutos de fama e algum dinheiro no bolso.


Sinal vermelho

O japonês parecia saído de uma caixa de japoneses. A camisa azul desbotada, tendia para o verde. A calça jeans velha e larga se segurava a duras penas ao cinto. Naquele dia nublado, os carros achavam que não deviam dar vez a ninguém, nem mesmo a um japonês que queria seguir seu caminho, portando uma pasta na qual levava a própria vida.

E a vida dele parecia leve, mas com uma importância tamanha que era preciso ser contraída com toda força das duas mãos junto ao peito. Ali talvez ele pudesse senti-la vibrar. Ou auscultar o bater das preocupações que lhe bombeavam o sangue.

O semáforo parecia torcer pelos carros, pois não se dignava a dar sinal verde ao japonês surrado à margem na calçada. A menina de calça de zebra que quase trombou no homem, enquanto conversava com uma amiga de cabelos cor de palha, não se sensibilizou com aquele drama pedestre porque ela mesma seguiria sem interrupções pela calçada. Apenas avaliou, como num segundo plano da mente, que a passagem ficaria mais livre sem o estorvo do homem parado ali.

Não sei quanto tempo levou para que o semáforo finalmente se cansasse da própria parcialidade. Aquele adversário não dava mostras de que pudesse desistir, como muitos que iam avançando pela pista, ou outros que seguiam pela calçada como se assim pudessem adiantar a posição que deveriam ter no outro lado. Nem a chuva que rugia sua intenção de despencar naquele mesmo instante afastava o nipônico de seu ponto junto à faixa preta e branca.

O farol não podia compreender que seu estratagema seria sempre inócuo contra aquele samurai, armado de pasta de couro. Via-se que aquele homem, ao contrário de tantas vítimas do humor negro daquele sinal, sabia quais lutas escolher e que o caminho estaria à sua espera pelo tempo que fosse necessário.


Mãos à palmatória

Há alguns meses escrevi uma crônica falando do meu pouco conhecimento em futebol. Por ter pouca habilidade ao falar da modalidade acabo por ser um bola-murcha nas análises futebolísticas. Por conta disso, no mesmo texto eu dei uma bola fora dizendo que o São Paulo Futebol Clube, até aquele momento muito mal das pernas e na zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro, seria um dos times a enfrentam a Série B em 2014.

Temos apenas cinco equipes que, desde quando foi iniciada a disputa por pontos corridos, não foram rebaixadas. No caso o São Paulo, o Internacional, o Flamengo, o Santos e o Cruzeiro (campeão de 2013). Para mim, diante da campanha do tricolor paulista, só ficariam quatro equipes a visitarem a Série B.

Não sei se foram as minhas palavras ou outra situação do destino, mas, após o meu texto o São Paulo deu uma disparada impressionante no campeonato, a fazer inveja na grande campanha do Fluminense, há alguns anos, que se salvou na última rodada. O São Paulo se recuperou como time grande e, para recuperar o ano ruim, está na final da Copa Sulamericana. É, ainda bem que não estou dependendo dos meus comentários e projeções sobre futebol para por o feijão na mesa.

Mas, quero esclarecer as mãos à palmatória. Deixo-as a todos os torcedores da outras equipes, que como eu queriam ver o São Paulo na Segundona. Estou aguardando as saraivadas de críticas e vaias, até outras injúrias, pois, se eu ficasse com as mãos fechadas, o São Paulo hoje estaria fazendo planos de colocar o Expressinho para rodar os menos valorizados estádios da Série B. Falei cedo demais. Eles ouviram minhas palavras e na preleção alguém deve ter citado a mim e outros tantos que falaram da queda do São Paulo, pois acredito não estar sozinho nessa. Tenho plena certeza que outros comentaristas foram para precipitados.

Pois bem, feitas as considerações. Quero finalizar deixando a todos saudações alvi-verdes. O glorioso Palmeiras, maior campeão do futebol brasileiro nesses 500 anos de Brasil, é bi-campeão da Série B. Sendo assim, cravo mais uma profecia. O Palmeiras derruba um dos últimos cinco times que ainda não trilharam os campinhos da Segundona. Dessa vez tenho plena convicção da minha previsão. Nem precisa esperar para ver, são favas contadas. É isso!


Você não precisa namorar (ou noivar, ou casar ou qualquer coisa assim)?

Essa crônica foi motivada por este post aqui ó, que gerou uma discussãozinha na minha timeline e que está, ultimamente, muito em voga nas mesas de bares da minha vida…

bride2

Pois é, Baldizinho querido! Fica fácil e poético escrito assim né. Mas e você? Tá solteiro? Com o coração bem resolvido, seja junto ou sozinho? Ahhhh, eu não acredito não. Sabe porquê? Porque o inferno não é você! São os outros…

Resumindo, o problema todo se divide em, necessariamente, 3 aspectos com seus respectivos subs:
a) Enfiar isso na cabeça das pessoas de forma que elas entendam que as suas conexões neurológicas são embasadas nos próprios sentimentos raciocinados e não no simples fato, vulgo recalque, de que no final das contas elas se casaram e você (ainda) não! Se prepara, que a cara para o discurso de “Eu sou solteira e feliz” é sempre a de “Ah vá…”
b) Mostrar pro mundo que a frase antes só do que mal acompanhado é potencialmente muito mais livre e ampla do que parece: sozinho você aprende a se virar e edificar para que nos intervalos com uma eventual má companhia hajam bons momentos, justamente pela condição dela e você serem más ( ou traduzindo, “aquele que foge dos padrões tradicionalmente aceitos”).
c) Viver em sociedade significa se sujeitar a aceitar fases na vida. Como eu não conheço muitos ermitões por aí, temos o resultado da aceitação: você VAI ser infeliz em algum ou muitos aspectos, ponto. Resultado da negação: você VAI ser de certa forma excluído e se sentir incapaz, terminando infeliz em algum ou muitos aspectos. Ou nas palavras de Margareth Mead, ganhará o eufêmico rótulo de “inadequado”.

Se é para apontar responsáveis, na minha opinião, os culpados são 3:
a) Walt Disney: com sua infeliz (para não dizer maldita) ideia de amor romântico para infantes. Se deus existe, hoje você está queimando no inferno eterno (a rixa aqui é pessoal, confesso);
b) Seus pais: cientes da m* que é a adequação do ser social te prepararam para cumprir um papel ridículo num teatro inevitável e não te prestaram um auxílio decente  por medo de você ser o tão temido “revoltado”.
c) Seus avós: que deveriam ter mandado a tia velha trabalhar e conhecer o mundo ao invés de buscar um marido come, dorme e reclama, futuramente dependente de viagra como se isso resolvesse a vida vazia dela.

A solução também são 3 (porque se dois é bom…):
a) Leia, leia, leia!!!!! Regina Lins, Simone de Beauvior, Durkheim. Tanto para os meninos quanto para as meninas. Esclarecimento e conscientização da própria situação é a única coisa que pode livrar as pessoas das amarras sociais sem autolamentação ou culpa. Dane-se quem acha que você deveria casar se você acha que não. Mas até chegar a esse nível de desprendimento da opinião alheia… haja terapia.
b) Responda com a boca cheia para amigos alienados, parentes condicionados e afins: “Na boa, QUE-RI-D@, vai cuidar da sua vida, que por sinal é horrorosa ou você não se preocupava com a minha!” Se as pessoas fossem mais francas ao invés de mais falsas a medida que o tempo passa, as coisas estariam espinhentas mas muito melhores, emocionalmente falando.
c) Se cerque de gente que está mais preocupada em conhecer o mundo e outras culturas milhares e saia do convencionalismo da sua estagnação atual. Isso vai significar levantar (e muito) do sofá além de romper laços com pessoas que você acreditava únicas. Já dizia papai, para finalizar: o cemitério, minha filha, está cheio de insubstituíveis. E cuidado com os canalhas…


Justiça, pra que te quero?

Fico encantada com a capacidade que os serviços públicos tem de, por princípio, funcionar às avessas. E pior: fazer parte de algum órgão ou serviço público – ou ainda somente participar de determinadas situações regulamentadas e gerenciadas por eles – nos permite enxergar o quão defasada é a sanidade mental desses órgãos regulamentadores.

E digo isso por experiência própria, pois há alguns anos que sou convocada para compor a banca de juri popular no Tribunal de Justiça da Capital. Ou seja, vou lá, fico à disposição pra dar pitacos na vida alheia, sem nem mesmo ter noções de direito penal, e tudo isso pra dizer que sou instrumento da justiça nesse país.

E que me perdoem os envolvidos, mas a situação é simplesmente patética.

Vejam vocês que sou obrigada a comparecer, passiva de pena de multa em caso de ausência injustificada, e eu pergunto: pra quê? Mas também respondo: pra ficar mofando na cadeira, esperando por mais de duas horas a boa vontade do juiz – e às vezes é só e tão somente a oficial de justiça – de nos avisar que o julgamento será cancelado.

O motivo? Bem, já passei por vário, posso listá-los:

– A vítima não foi comunicada;

– As testemunhas não foram ouvidas;

– O promotor ainda está em um caso que se estendeu;

– O réu não apareceu.

Um consolo é que, neste último caso, o tratante teve a prisão preventiva decretada e passou a ser tratado como foragido da polícia.

Ha. Ha. Ha.

Parece piada, de tão patético. É um descaso sem tamanho com as pessoas envolvidas no processo, que já sofrem por terem perdido entes (por que juri popular, meu caros, é coisa “leve”, “sussa”, só homicídio e tentativa de homicídio), conosco, que nos dispomos a colaborar como parte da sociedade que decide por si mesma seu futuro e de seus integrantes.

Mas é aí que a gente se dá conta de que não há nada pior do que depender de um sistema falido; que não há nada pior do que não ser capaz de mudar uma vírgula desse próprio sistema; nada pior do que fazer parte do sistema que deveria fazer justiça e quem, em vez disso, apenas enrola, enrola, enrola…

Triste saber que esse relato foi escrito quando o julgamento já estava com atraso de mais de hora.