Cavernas do meu submundo I

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I

Segredo

Os primatas compuseram seu olhar numa das cavernas do meu submundo, escreveu. O grego das tragédias formavam a mancha dos homens vencidos, a janela fechada lembrava jovens bondades a mergulhar nas águas de um copo, amarelos olhos saboreavam os sais do pobre inverno, marés de bom senso corroíam a maneira boba de entristecer o coração. Nomes não se eternizam nos troncos das árvores, disse uma sexta de julho, caminham sorrateiramente pelos bosques de erro, ironizou. Instrumentais lições apavoraram a inocência dos surtos, passaram as facas de prata pela fechadura da desarrazoada poética. Nos lugares-comuns, alimentou-se o etílico da existência. Os séculos enterraram algumas batalhas num baldio terreno, esquecidos heróis ilustraram os vergonhosos pêsames da humanidade, foram férteis os lares que ensandeceram e cicatrizaram. Sentados ao meio-fio, lampejos de cobre pregaram-me a um rústico estado de mágoa, anotou repetidas vezes num catálogo de vultos um selvagem escultor de fins do mundo.

II

Ócio

Machucado o amargo do ócio, também as respostas que não convenceram. Escândalos vandalizam troféus e luxúrias, a porta ainda aberta reclama das marcas que o deserto deixou. Engasgados os pequenos insetos sob o tapete, as mínimas perdas em meio ao entulho, extintos os carnavais e átimos. Ocultas pelas folhagens, as bússolas realçam a sinfonia dos sonhos. Variadas são as tonalidades a fotografar, as esperanças aniquiladas em fortes ao norte, os pés sobre os desarmes que afrontam ninhos de projéteis perdidos. Os princípios amarrotam a fórmula única de algemar o preto e branco, dizimados os calendários que orientavam os sacrifícios à acidez. Não quero a doçura que distrai a manhã, não quero o amigo que escuta o segredo, não quero as cartas que me farão ganhar os próximos dias, quero o poço, a cama, o enjoo, rabisca o que atordoa, o que ama. O todo cava e não encontra o melhor de si, esquece os cigarros sobre um banco de praça, aponta para o começo de uma guerra.

III

Barreiras

Eras, feras, ervas, canções, encontros, o que são? Talvez a terça parte de um pântano. Não há poeira e o sol se põe, não existe crepúsculo, a voz aceita o cárcere – as pausas não se emocionam. Assim que os vidros embaçaram, as alucinações voltaram a dormir, o menino frágil, um tanto intransitivo, procurava rastros – mas chovera. Nas esquinas, cortes engatilham o vácuo. Um pormenor contempla minhas overdoses, outro, mapeia meus rótulos, observa o infinito entre aspas. Varrem-se distúrbios, montanhas farejam destros bálsamos. Uma negra fumaça, ao longe, enobrece encruzilhadas, no oposto do cálice, pendura-se um desengano, as certezas estão livres e já se escondem sob as pedras. Encurralados, os acontecimentos apreciam os voos, as garças. Hipóteses namoram regras nunca seguidas, cantam os possessos, dançam os labirintos. Vi-a, nessas matas sem preço, a sentir o calor que reinventa a água, também à janela, a estranhar um céu sem nuvens, era uma rosa (ainda sem cor) – veio a tinta, desfez a confissão, restou a parede, branca, branca.

IV

Risos

Gaguejam preciosismos incinerados, a pólvora úmida, inútil. Estremecem os favores, encena-se um entardecer. Os desenhos, talvez secretos, acumulam-se na gaveta, sem asas – são pequenos os espinhos, a laranjeira à beira do riacho, os peixes numa fonte, os casebres de madeira, as crianças. Foi-se o tempo, não se sabe a consistência da areia, o que é atômico, o que é bomba. Gastos riscos encontram umas lembranças, páginas e páginas de convenientes risos, passa a semana, o ano, as notícias se espalham. Amor é palavra sem fôlego, alertava a frase pichada aos fundos de uma igrejinha, Ódio é palavra sem eco, escreveu-se logo abaixo, No mais, tudo existe, comentou um leitor, triunfante, e os ninhos não caíram do telhado. Sem asilo, no semblante vazio, esquecido do remédios que recompõe a essência, um espelho desilude a simplicidade dos dias que chegam. Digas que o hoje quedou inexpressivo e eu rirei, desafiou, Ainda sabes contar estrelas, perguntou ela, tímida, Do infinito, aceite apenas um sim, aconselhou logo, O vento é o que te apaga, afirmou ele – era mais que diálogo.

V

Egos

Liberdade é asilo onde aprisionas tua existência, é, na essência, uma farsa – começava a peça teatral. Acampados num celeiro de dispersões, os contornos da cinza timidez comercializavam tempestades, propagavam histórias sem nãos. A mão sem dedos que compunha a noite tinha um corte, chamaram-no de fuga. Os trilhos e trens que rasgavam a até então virgem paisagem não enferrujam e o que temos é um ponteiro a movimentar-se sem porquê. Nas aldeias do eu, umas ideias confortam a tolice, nos becos do caos, já não respira o infortúnio.

(continua…)

Antologia (musicada) de uma história de amor – parte II

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Every now and then, I get a little bit lonely
De vez em quando, eu me sinto solitária
And you’re never coming round
E você nunca retorna
Every now and then, I get a little bit tired of
De vez em quando, eu fico cansada
Listening to the sound of my tears
De ouvir o som das minhas lágrimas

Total eclipse of the heart (Bonnie Tyler)

Loving you was easy, playing by the rules
Te amar foi fácil, seguindo as regras
But you said love tastes so much better, when it’s
Mas você disse que o amor é muito melhor quando
Cruel
Cruel

Nothing ever hurt like you (James Morrison)

Foi tanta força que eu fiz por nada,
Pra tanta gente eu me dei de graça
Só pra você eu me poupei
Será que o tempo sempre disfarça,
Tomara um dia isso tudo passa
Desculpa as mágoas que eu deixei
Se você ainda acreditar,
eu prometo dublar seu corpo
Te proteger,
te poupar das dores,
Te devolver o amor em dobro
Não se ama, amor, em vão
Dublê de corpo (Leoni)

Seu rosto na TV
Parece um milagre
Uma perfeição
Nos mínimos detalhes
Eu mudo o canal
Eu viro a página
Mas você me persegue
Por todos os lugares
Fixação (kid abelha)

Hoje é o dia
E eu quase posso tocar o silêncio
A casa vazia.
Só as coisas que você não quis
Me fazem companhia
Eu fico à vontade com a sua ausência
Eu já me acostumei a esquecer
Salas e quartos
Somem sem deixar vestígio
Seu rosto em pedaços
Misturado com o que não sobrou
Do que eu sentia
Eu lembro dos filmes que eu nunca vi
Passando sem parar em algum lugar.
Tudo que vai (Capital inicial)

Ferve, mas não evapora

Imagem: http://www.flickr.com/photos/hckyso/
Imagem: http://www.flickr.com/photos/hckyso/

A moça chora e se descabela. O amor acabou. Não o dela, mas o que sentiam por ela. O problema é como acabar com o amor dela. Que ferve, mas não evapora.

O semblante do amante, antes tão querido, parece despossuído. De carinho, de afeto, de si mesmo. Ou possuído. Por outro amor, cansaço, incompreensão, ódio.

A explicação é de poucas palavras. “Eu não te amo mais” . “Claro que gosto de você”. “Não, você não a conhece”.

Do lado dela sobram elocuções. “Como assim?”. “Eu posso ver nos seus olhos que você ainda me ama”. “Quem é ela? Eu conheço?”. “É a Patrícia?”. “Mas você prometeu que a gente ia ficar junto!”.

Que continuam. “Você vai se arrepender!”. “Me desculpa por aquele dia”. “Eu também te traí”. “É mentira, eu disse só pra te magoar, nunca fiquei com o André”. “Eu não quero ser sua amiga!”

E se multiplicam. “Ninguém deixa de amar assim”. “Ela não vai te amar como eu”. “A gente ainda tem tanta coisa pra viver junto”. “É só uma fase, você vai ver”. “Eu não vou ficar aqui te esperando”.

“Me abraça, por favor”. “Tem certeza?”. “Eu ainda te amo, seu merda!”

“Eu estava aqui pensando que a gente podia sair qualquer dia…”

“Estou aqui com um livro seu, pensei em passar aí pra te devolver… Aquele do Murakami”.

“Me dá mais uma chance, por favor!”

“Como você pode fazer isso comigo?!”

“Eu ainda te amo, porra!”

Homem imortal

Ouvi no rádio que o primeiro ser humano a viver 150 anos já nasceu. Acredito que meu filho possa ser um desses privilegiados. E para minha surpresa, caso venha a ter neto ele poderá ser imortal. Alguns dos cientistas menos céticos já afirmam que em menos de 50 anos teremos andando no Planeta Terra seres humanos imortais. Essas duas condições, segundo os estudiosos, se deve aos avanços alcançados pela evolução da raça humana e, com ela, a ciência.

Essa notícia me causou algumas sensações estranhas. Há alguns anos eu me sentia incomodado por achar que tinha nascido na década errada. Era tudo muito pacato no país e o passado era recheado de grandes acontecimentos, a juventude nas ruas, a cultura a milhão, todos falavam em liberdade. Parecia que ninguém era controlado por ideologias dominantes e opressoras. Lindo sonho de adolescente.

Passado alguns anos percebi que eu não poderia escolher a década para nascer, logo teria que fazer acontecer era nessa mesma. Quais eram as minhas chances. O primeiro passo foi saber quantos anos me fora estimado. Fiquei surpreso com o número. Acima de 70 anos. Grandes homens da história, e que eram por mim admirados, haviam morrido com muito menos que isso. Mas, ao passar pela metade dessa idade e ter a impressão que não havia feito nada, por mais que já fizera algo, me veio preocupações enlouquecedoras. Oras, como viver o dobro daquilo que eu já passara? Como poder fazer mais do que eu já havia feito? Como me aposentar e ser feliz? O que é ser feliz?

Mais alguns anos se passaram e a perspectiva de viver mais de 70 anos já me parece pouco. Oras, tenho tanta coisa por fazer, tanto para ler, tanto para aprender, tanto para ver, tanto para saber. Esse sopro de existência no universo, chamado de vida, parece ser tão breve quando estamos no fim. É como fazer avaliação no final de ano, na maioria das vezes chegamos a certeza de que o ano que passou foi muito rápido, mesmo que não tenha ficado um segundo sem ser computado nos relógios. Agora, que vi minha estante cheia de livros, que a árvore que plantei vingou, quero mais tempo para fazer tudo isso.

Pense, como seria bom chegar aos 75 anos com a vitalidade de 40? Outra coisa, aos 20 estaríamos apenas começando a engatinhar em nossas vidas, não seria fantástico? Alguns podem pensar, mas os males também seriam prolongados com o avanço da idade. As frustrações com amigos, a perda de pessoas, as traições da vida, os desastres naturais e não naturais, sofreríamos muito mais. Mas, e daí? Teremos muito mais tempo para corrigir as coisas. E há tempos sabemos que o tempo é como água, dissolve quase tudo.

Pois bem, gostaria de ter uma vida prolongada, mas a imortalidade não está nos meus planos. A eternidade sobre a Terra é muito tempo. Sei que o ano acaba porque criamos um sistema de tempo, mas no natural, assim como para plantas e animais irracionais, não temos essa divisão, por outro lado, penso que é necessário o fim. É só com o fim que aprendemos a recomeçar. É por causa do fim que estamos caminhando para uma geração de 150 anos e, talvez, uma imortal.

 

PS: Segundos antes de subir o texto para o blog recebi uma reportagem sobre o assunto produzida em 2010, na Revista Trip. A matéria é sobre uma conferência realizada naquele ano para debater o homem imortal.

Pedreiragem

 

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– Mas olha se eu não vou!! Disse o homem de laranja deitado, semi adormecido sobre um boné empoeirado que tampava parcialmente seu rosto bronzeado.
– Eu vou também!! Retrucou o de cigarro nos lábios, olhos perdidos no horizonte da obra como a pensar numa grande questão.
Eu reconheço a direção do gracejo e faço cara de paisagem para terminar de passar. Normalmente responderia com algum desacato atrevido aos dois cidadãos. Outro dia ainda chamei um jovem, confesso que até bem bonito, de “aleijado tarado”, visto que estava se apoiando em muletas e me lançou desavergonhadamente um adjetivo extremamente abusado que opto por aqui suprimir. Confesso que eu me encontrava em uma péssima manhã. E mesmo se estivesse em uma boa. O fato é que quis humilhá-lo dada sua condição claramente dependente e seu atrevimento frente ao meu pequeno tamanho e rosto infante. Talvez se eu fosse uma mulher maior, ele não me importunaria. O fato é que a expressão que ele me lançou de volta me fez perceber que atingira o alvo. Ele se desarmou. E sinceramente espero que tenha receio em mexer com mulheres na rua de novo. Principalmente no sábado cedo. Muito cedo.
Agora voltando ao motivador dessa crônica, o que me impediu de mandar as favas aqueles dois pedreiros semi conscientes de seus atos (reza a lenda ser a cantada tão automática que caso a mulher volte interessada, para lhes passar seu telefone eles perguntam, confusos, se o problema é hidráulico ou elétrico…) é que me vi caindo na máxima tantas vezes ouvida de que: uma mulher se irrita quando mexem e se aborrece quando deixam de fazê-lo. Essa questão freudiana, dúbia e machista, me colocou em uma sinuca de bico, considerando que apesar dos meus amplos estudos históricos e práticos do feminismo ultra independente, devo confessar haver em nós uma certa vaidade que realmente pode vir a se ofender na falta do já esperado perturbar.
A questão é que a cantada, a grosso modo, nos transporta para a condição de objeto inanimado que tanto lutamos para deixar de lado, mesmo tendo no time contrário mulheres frutas a ofertarem em abundância o que deveriam racionar e distribuir com parcimônia (deveriam? machista eu?!). Mas a ausência de uma observação, um elogio, um bom dia cantado, nos transforma na figura invisível que também fomos durante muito tempo nessa era patriarcal que teima em terminar.
Antes que meus leitores se sintam enfadonhos quanto a este discorrer inesgotável sobre “mexer ou não mexer” eu darei um último conselho: pedreiros de obras, aleijados de plantão, caminhoneiros de estrada, namorados, amigos, irmãos: mesmo numa frase como “mas olha se eu não vou” pode haver certo tato delicado, ainda que com uma pequena pitada de malícia, que arrancará da mulher em sua correria um sorriso de atrevida simpatia. Lembrem-se da ternura com que se deve elogiar a beleza, seja qual seja. Posso dizer, defensora incansável das relações bem vindas, que faz toda a diferença se doar para aquilo que se diz!

De perder e ganhar em segundo lugar

Dizem que ganhar o segundo lugar é, na verdade, perder para o primeiro e que melhor o terceiro, pois ao menos ganhou do quarto.

Eu já prefiro o segundo, quiçá até mesmo do que o primeiro e não, não é ideologia barata, por mais que pareça, e também não é desdém, uma vez que almejo sempre alcançar resultados cada vez melhores, seja lá o que eu estiver fazendo.

Mas não, não acho que o “quase lá” seja motivo para um rio de reclamações, críticas e autoflagelação. Não. Acho isso de um espírito negativo sem tamanho, desnecessário, que só faz ficar ruim o que estava bom. Tudo isso pelo nosso péssimo hábito de alta competitividade: “porque não fui o melhor isso, porque não fui o melhor aquilo“, tudo mi-mi-mi.

Ninguém pensa que o segundo lugar é quase o primeiro, que faltou pouco para “chegar lá” e que só mais um pouco de treino e tudo estará como se deseja. Também existe aqui o tal “espírito de competição” criticado logo acima, mas a abordagem é diferente, uma vez que a superação é sobre si mesmo, e não sobre os outros. E enquanto continuar assim, na minha visão, tá valendo.

É triste ver a capacidade que as pessoas desenvolvem em anular todo o esforço aplicado, toda a luta até então simplesmente por uma diferença ínfima de patamar. E daí que o prêmio maior é para o primeiro? E daí que os louros e a fama vão escoar antes de chegar próximo do segundo? Afinal, pelo que se luta? – Se alguém respondeu status, OK, eu paro por aqui e não precisam ler o restante; mas se responderam qualquer outra coisa…

Saibam que a vida, e não só ela mas toda e qualquer coisa que nela se conquista, é efêmera, passa, morre, estraga, desaparece, acaba. E o que fica são as alegrias que vivemos, as amizades que fazemos, os sorrisos que distribuímos por aqui. Que seja piegas, mas é verdade: o rico fica pobre, o bonito fica feio, o legal fica chato, e assim por diante.

Então a saída é mudar o jeito de entender a vida. Ou seja, alcançar o segundo lugar, não significa que se perdeu para o primeiro, significa que se foi o segundo melhor, significa que o caminho trilhado até aquele momento estava certo, que falta pouco – muito pouco! Deveria ser um incentivo estar na segunda melhor classificação, e não um desestímulo de ter pedido para o primeiro.

Tudo o que se planta, dá. E o ditado não falha.

Loucura, já dizia o gênio, é querer resultados diferentes quando se está fazendo tudo igual.

Sem palavras

Subo no ônibus e descubro que não há nenhum lugar para sentar. Resmungo, porque eu queria aproveitar esse tempo para ler. Encosto-me então em um ferro qualquer e resigno-me com a tediosa viagem que me aguarda. No banco ao meu lado estão sentados dois jovens que falam com as mãos. São surdos-mudos, como tantos outros que já vi, sem entender absolutamente nada do que dizem. Reparo melhor neles. É um casal. Estão na faixa dos 20 anos, talvez um pouco mais. Ela é bonita e ele é boa pinta. Conversam, conversam horrores. Como conversam os surdos-mudos! Imagine você, Henrique, você surdo-mudo. O que faria com a sua timidez? Penso então num mundo de surdos-mudos, todos obrigados a olhar nos olhos de cada um, a prestar realmente atenção uns nos outros – quase chego a lamentar que possamos falar e ouvir.

E como ri esse casal! Estão realmente muito felizes. Não sei o que falam, mas sem dúvida são coisas muito doces e engraçadas. Eles se tocam bastante também. Ela tira uma sujeirinha do seu  próprio rosto com o dedo dele. Um deles falou algo que motivou uma espécie de guerra de cócegas. Como era bom de ver! E tanto fizeram, tanto se mexeram e se agitaram, que derrubaram uma garrafinha de água que levavam. Um senhor se abaixou e a devolveu. Ela então pegou a garrafinha, abriu a tampinha e colocou um pouco de água dentro dela. Sem aviso, jogou a água em cima dele.

Era uma brincadeira, uma gostosa brincadeira, e eles riam e se divertiam, e se abraçavam, e se cutucavam, e se amavam verdadeiramente ali na minha frente, enquanto eu me obrigava a fazer minha melhor cara de indiferença, como se aquilo que estava acontecendo diante de mim fosse absolutamente banal e corriqueiro e eu não estivesse encantado até os ossos. Deus, como eu queria que aquela viagem não acabasse nunca, que aquele ônibus seguisse até o fim do mundo, só para poder ficar observando aquele casal! Só pra ver aquele amor de surdos-mudos que me deixou tão, tão, sem palavras.

Silêncio dos Desencontros

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I

Sais

O derradeiro gozo dos ermos acasos empalidece a liberdade. Furtam-se sagrados livros, deuses de confusos credos, deságuam apurados vícios num bueiro de exatidões. Limbos ocultam o mel que jorra dos olhos de devassos absolutismos, a canção que vivifica córregos de horrores melindra calmas fortalezas. Lúdicas salivas avançam sobre uma montanha de nódoas. Caminha a estupidez entre teses e forcas. Dilúvios lutam contra as consequências de uma nefasta partida, perdidos soluços aquecem um mausoléu de orgias. Contínuos verbos alagam a beleza que reveste frágeis gritos. Nos ombros de um lago de vírgulas, se embriagam travessas modéstias. Incomunicável o sábado, incomunicável as poucas migalhas que a tarde teimou em aproveitar. Dezesseis horas, denuncia o relógio, vultos pulsam, aleatórios gestos, então, compõem o atraso, um circulo de finidades ameniza despóticas lembranças, inóspitas crateras surgem, sem chamados, sem recados, sem insistências.

II

Entraves

O asfalto fulmina os fragmentos do equinócio, a ausência vocifera, vocifera. No verso do espelho, mordazes certezas, porções de asneira. Tiros habitam os seios de um dom, escolhas monopolizam míseras ternuras, as poças d’água seguem límpidas, formidáveis, desumanas. Expectativas me enferrujam, confessa uma amena alma, Ensina-me a dizer que te amo, implora outra, Diga-me sempre que o mundo acabou ontem que me comprometo a lhe dizer uma mentira toda manhã – são as últimas linhas de um inédito romance. Passeia, entre fósseis, um modo neutro de maltratar o arco-íris, a boca pede um não, o corpo pede um verso, os tolos abominam o que é fôlego, caem umas cadentes estrelas, borra-se a noite – vontades gesticulam inércias. Na mansa debilidade dos latidos, doces essências temem o profano. O silêncio desmaia nos lábios do impasse, bobos ódios envernizam falaciosos juízos, uma garota está perdida no século XIX – sem pincéis, hesita em descer as escadas.

III

Névoa

Súbito, o aprendido esquece o porquê das mãos dadas. Recolhem-se lenços numa perdida desigualdade, o dissabor segue calado em seus ritmos, grifam-se as fases de um nome, sinônimos machucam adoráveis sarcasmos, borboletas de um vivo amarelo esquecem o riso dos quartos, finalmente encontram uma janela, fogem. Na órbita das promessas, menosprezíveis respostas oferecem o ouro jamais extraído, teatrais compressas de perfeição mantêm entretidos o barro oriundo da última taça de vinho. Sozinho, um universo de histerias subestima a poética dos compêndios de afago. Semeia-se egoísmo num canteiro de escolhas, semeiam-se fissuras num jardim de fluorescências, frágeis amizades definham em meio ao discurso dos loucos. Lá fora, novidades, vapor de maçã, os dias já não leem a mente da névoa. Detectável o ir e vir dos reinos, dos sínicos. Abandona os rumores de um prédio de agouros os sentidos que habitam a linha aquém do horizonte.

IV

Abstrações

Estonteantes doses de usura distorcem a compaixão quieta ao longe. Feito os cumprimentos aos punhados de confusão, ganha espaço a aversão ao que tem endereço, ao que provém da exilada satisfação. Traços do incerto traduzem os dejetos do dia, pílulas de alívio voltam-se, maquinam meios perigos. Reflexivo, estrangeiros perdões toleram o que é relâmpago. Forçosos abatimentos, sob o domínio de um pavor quase divino, observam o semblante da chuva. Coloquiais paixões ferem o que a atenção cerceia, neologismos, aos poucos, aprendem a lidar com a faísca que vivifica a censura. Preciosas volúpias rascunham os próximos trilhos na companhia do ilusório. Já não se fala mais, afastado os tropeços, afastado os pontos de vista, afastado o quase oculto. O livre alimenta o dito, o detalhe, o esquecimento. Não se asfaltam mais os mundanos temporais de inúteis alegações, apenas os datam, os aprisionam num intervalo de validades – persiste o aroma que a terra oferece às águas de outubro.

V

Tempo

A partir da décima quinta linha, a página de um abandonado diário recebe apenas leviandades. Tranquilidades incendeiam envenenados pretéritos, talvez as lágrimas que abrilhantam os olhos da chama tragam consigo a forma inexata de dizer que se ama. A cada recomeço, um parabenizar o breve, sublimes empecilhos fantasiam um leque de mentiras, véus saúdam o denso aspecto das grades que impedem a conquista. Extirpado o arame que envolvia os olhos de inquietas criaturas, são muitos os hálitos inventados. Guarnecem sujos areais uns irrisórios abraços, brota uma flor que logo se cala, logo se assombra. Precipícios soam inatingíveis, idolatráveis. Um sopro não apaga o mundo, explica um mendigo, mas o ridiculariza, e isso é bom, conclui. Lobos e luas concretizam saudades enquanto os pássaros espantam a desvirtude, subsiste os nexos, os versos, um caminho.

VI

Origens

Havia motivos para atravessar a rua, motivos para transpirar, motivo para responder perguntas, motivo para apreciar manias, motivo para ler desconhecidos escritos, motivo para ouvir novas canções, havia, sobretudo, sedentas razões para deixar-se. Levas de vaidade aos poucos quedaram cansadas, anedóticas, seguidas de um imprescindível jogo de análises. Havia, também, alegóricas frações de mudez, de um lado, a leveza do ártico, do outro, o apuro das ondas. Esquivava-se o desinteresse, as tortas letras sobre a mesa, tortos diálogos sobre indefinições, transitava o razoável no ápice de uma turva sentença. Num auge, um sem-fim de mimetismos, quase duas décadas de destrezas e a boca ainda seca. Dos minutos não contados, nasceu o nefasto, alimentou-se tardios instintos, fez-se um parque de contraditos.

VII

Resquícios

Omissões apagam as luzes do caos, pregam sonetos à porta do amanhã, regam o ainda não rotulável. O brilho das coisas vãs, aos poucos, cega narcisismos, também a crise que adoenta a existência. Pequenas malícias bebericam as lágrimas que a fuga deixou sob a poeira dos vales, dilapidam os amarelos sorrisos deixados na gaveta de mesmices. A distância brinca, alheia às vestes abandonadas no chão, figura, dentre tantas redundâncias, um esboço de fascinante desejo. As ideias, o fictício, contornam cismas, iletrados receios bagunçam um cômodo de excentricidades. Nativas indagações caem em desuso, constantes intuições rompem a barreira da rotina, aliciam-na. Ostentam militantes enjoos a necessidade de fixar audácias no interior dos pasmos espíritos, fica a vida entre a agulha e o lodo.

VIII

Encanto

A lembrança de um repetido convite assola cicatrizados impulsos – as negativas ferveram clichês. Ninguém cansou os chamados, ninguém corrompeu os avanços, e o fim é tão igual. Uma semana de exclamações, depois, uma justificativa, uma tentativa, duas – as mãos hesitaram, a insegurança fez promessas demais. Desde então, o caminho é de poucas histórias, de poucos sinais. Minha garota está perdida no século XIX, sussurrou o fantástico, Espera-me, só preciso descer as escadas, dizia uma mensagem que atravessou os séculos – estava formado um sobrenome, estava selado o silêncio dos desencontros.

Imprima-se a lenda!

Charge do Sponholz para o site Humor Político
Charge do Sponholz para o site Humor Político

Eu não ia meter a colher nesse debate a respeito das biografias. Em parte porque entendo ser ele superado pela flagrante inconstitucionalidade do artigo 20 do Código Civil de 2002. Essa inconstitucionalidade deve ser reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal. Mas não esgotará o debate, ainda que o revista de inexorabilidade vocacional.
Mas guloso de atuar nessa fogueira das vaidades em que todo mundo tem algo a dizer, e se diz muita bobagem, peço licença à antologia (musicada) de uma história de amor que iniciei aqui e volto a publicar na semana que vem (se nossos debatedores assim permitirem).
Todo mundo já está careca de saber que a Constituição diz, e vamos subir as aspas, que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”. Aí vem o tal do código 20 e diz o seguinte “salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais”. Há um flagrante contrassenso aí. Não é necessário ser jurista ou profundo conhecedor das normas cultas da língua para observar isso.
Mas meter a colher, é meter a colher. Aprofundemo-nos então. Chico Buarque disse à Folha de São Paulo que entende ser legítimo o direito do cidadão não querer ser biografado. Concordo com ele, mas penso que esse direito é renunciado, pelo menos em forma estrita, a partir do momento que esse cidadão ascende à vida pública. É diferente, e bem diferente, de proibir a exploração de um crime como o do assassinato da filha de Glória Perez, cujo único intuito do autor (do crime e do livro) seria explorar comercialmente a tragédia. Daniella Perez não atingiu esse status de celebridade mórbida por livre espontânea vontade. Há muita condescendência nesse debate, principalmente da parte daqueles que se posicionam em favor do grupo Procure Saber, presidido por Paula Lavigne (que merece um texto só para ela).
Mas falei que ia meter a colher, não falei? Tecnicidades e viradas de casaca à parte – porque quanto mais tempo se passa, mais a disposição do Procure Saber se parece com um misto de censura e vontade de ganhar mais dinheiro – esse debate que migrou da cena cultural para eixo central de garantia das liberdades no país (Judiciário e Legislativo já correm para se pronunciar a respeito e pegar carona – e avaliação positiva – na opinião pública) revela duas coisas: o envelhecimento favorece uma guinada ao conservadorismo mesmo em figuras plenamente identificadas com bandeiras liberais e a hipocrisia é um patrimônio brasileiro muito mais amplo e bem germinado do que a ruptura entre classe política e população sempre nos fez crer.
Quanto mais velho e mais rico, mais se tem a esconder. Que a Constituição nos dê licença, isso aqui é Brasil!

Nosso homem na Rocinha

22222Há os homens torturáveis e os não-torturáveis. Os primeiros são quaisquer membros do baixo povo, os homens que trabalham no campo, os operários, as domésticas e por aí vai da América Latina. Os não torturáveis são os cidadãos ditos formadores de opinião ou de alto escalão, tanto da AL quanto de países como Inglaterra, EUA, França e Alemanha. Isso quem explica é o Capitão Segura, personagem criado por Graham Greene em seu “Nosso homem em Havana” (li uma edição antiquíssima da Abril Cultural).

Vê-se que do inicio da década de 50, quando se passa a trama, até o Brasil de hoje os critérios permaneceram os mesmos. O meu “gancho” para essa reflexão é o caso Amarildo, vocês já devem ter imaginado. Um “seu polícia” queria mostrar serviço e, crente de que estava sendo tapeado pelo povo da favela, pegou o primeiro preto pobre que apareceu vagamente parecido com um esboço de suspeito e meteu-lhe o procedimento padrão. Só não contava que fosse ter o azar de coincidir com o período em que o “gigante” estaria acordado. O Ministério Público está concluindo o inquérito e diz-se que já foram identificados quais PMs tiveram participação ativa na tortura. O corporativismo e a lei do silêncio finalmente acusam os golpes.

Há cerca de dois ou três anos dois homens tiveram destino semelhante em São Paulo. O caso foi o seguinte: eram dois irmãos que, de carro, deixaram a esposa de um deles próximo a um corredor de ônibus na capital. Em seguida foram abordados pela polícia para nunca mais serem vistos com vida. A mulher ainda viu o momento em que os policias interceptaram os dois. O carro velho que dirigiam estava com a documentação irregular e o motorista com a habilitação vencida. Duas infrações que poderiam ser classificadas, tranquilamente, como menores na sociedade em que vivemos, o que só revela o despreparo e a brutalidade correntes na força policial.

O romance de Graham Greene é uma paródia dos livros de espionagem que tanto fizeram sucesso na Guerra Fria e me deprime ver que ele chegou tão atual aos nossos dias: os setores de investigação do governo cada vez menos “inteligentes” (desde a  PM até a Abin, para ficarmos nos exemplos brazucas) e a presunção de culpa dos mais pobres plenamente institucionalizada.

Noutra passagem – que muito me lembrou o personagem Prudêncio do “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, do Machado de Assis – o tal capitão Segura admite que é verdadeira a história de que sua carteira é feita de carne humana: era a pele de um policial que havia torturado seu pai, um homem da categoria social “torturável” . Ele vinga o pai e passa a gozar do conforto e prestígio de sua nova posição.

Alguém aí se pergunta: tudo isso há 500 anos a serviço de quem?

Curta 5

Caminho para o fim. Penso que seja bom. Não foi combinado, mas era o que tinha. O fim chega, mas não o do caminho. Todos vão ficando por ele, talvez virem pedra. Alegrando o poeta. Continuo no caminho, caminhando, caminhando, caminhando, sem fim.

Quando não dizer faz sentido

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Tem uma hora no convívio, no “tête-à-tête” diário, em que você já falou tudo e não tem mais assunto de onde puxar. Quando arruma, é baseado numa intimidade pretendida, quiçá fingida, que gera o esperado diálogo solidificado num teatro tal que a realidade sóbria termina por reclassificar como impróprio. Fica um sim pouco sonoro, dito em lugar de um desprendido não e o ponto final é tão grande que nem o gato de Alice sorriria maior e mais sem graça. Ouve a voz profunda do nada e opte sempre pelo denso silêncio… Tão repleto de verdadeiros significados que somente a sincronia fina e sincera é capaz de acatar. Onde não há a vulgaridade das palavras não tem como errar. E assim quando o realmente necessário for dito será tão pleno e construtivo que retrucar se fará inútil e um aperto de mãos quentes bastará para ampla e cúmplice compreensão.

Sobre as tristezas de ser adulto

Essa última sexta-feira, para mim, foi um aprendizado. Mais que isso, até, foi uma experiência de grande valor, que me levou a confirmar algo que eu já tinha absorvido tempos atrás, quando reli, talvez pela vigésima vez, o livro “O Pequeno Príncipe”.

Esse livro diz que os adultos não entendem a vida, os seus detalhes mais ínfimos e os mais significativos – coisa que o ditado também confirma ao espalhar que é nos menores frascos que se encontram as melhores essências. Ele também diz que para ver certas belezas do mundo é preciso manter-se sempre uma criança, com o coração limpo de maldades, mas consciente de suas atitudes.

E toda essa lembrança do que li nesse livro surgiu quando vi uma criança, por volta dos seus sete anos, desenhando algo que outras deveriam adivinhar: uma árvore, com um pássaro e algo embaixo, que eu julguei prontamente como uma lagarta, talvez uma nuvem, quem sabe até mesmo, um tronco meio esquisito. Diversas tentativas de adivinhação se foram e nenhum acerto e a minha imaginação já não caminhava mais.

Até que um outro pequenino se levantou e disse:

– É um passarinho no ninho!

Um ninho, tão simples quanto um ninho e tão óbvio quanto um ninho, assim como uma serpente que engole um elefante… E eu, cheia de pré-conceitos, pensando que seria impossível entender aquele desenho mal-feito, torto, esquisito. Bastava apenas abrir os olhos da minha criança, de todo o espírito inocente que é capaz de enxergar a profundidade daquilo que é simples, que é o mais importante de tudo o que existe.

E eu achando que por ler histórias infantis, por escrever histórias infantis, por estar próxima de pequenos seres incríveis, estava próxima do universo deles, da cabeça pensante que são. Mas a estrada é bem mais longa, a transformação é grande, e a descoberta de quão triste é se tornar adulto é incentivador para voltar uns passos e voltar a ser criança.

Você por toda parte

– Nunca brigue comigo. Porque senão eu vou lembrar de você por toda parte.

É engraçado que eu me lembre dessa sua frase justamente agora – agora que a gente já brigou. E, caminhando pela cidade, eu penso em como deve estar sendo difícil para você passar por todos aqueles lugares que um dia significaram tanto para nós. Como aquele banco na pracinha em frente ao Círculo Militar, onde sentamos, ainda tão inocentes, naquela primeira noite. Não lembro o que conversamos, e imagino que nem você, mas sabemos exatamente como nos sentimos. E depois fomos até aquela parada na Santos Andrade, onde ficamos um bom tempo, abraçados e felizes, esperando um ônibus que não iria aparecer nunca, pois já era tarde demais.

Também marcamos para sempre aquela cafeteria na XV em que – dizem – até o Dalton Trevisan costumava aparecer. Estivemos nela vezes demais, e agora é provável que nunca mais possamos ir até lá, mesmo sozinhos – principalmente sozinhos, porque seremos assaltados por lembranças insuportáveis. Ou a universidade em que haveria um congresso, um congresso que nós pagamos para participar e não participamos, porque achamos o lugar bonito e porque queríamos ficar sozinhos, e então sentamos longe de todos, e foi quando você deu a entender que a gente já podia namorar, mas você não sabia que eu tinha um plano para te pedir em namoro no dia seguinte, só que eu não resisti e pedi ali mesmo, naquela hora, e você disse pra eu repetir o pedido, porque era tão bom de ouvir – como voltar a esse lugar algum dia na vida?

Eu não queria, pelo menos nessa hora, ter uma memória privilegiada, porque eu lembro até das lojas em que nós entramos, lembro até de coisas que conversávamos enquanto passávamos por este ou aquele lugar, e o pior é que a maioria desses lugares fica no centro mesmo, que é por onde eu tenho que passar todo dia, então todo dia eu lembro de você, então todo dia dói.

Se eu soubesse que seria assim, eu nunca, nunca teria brigado com você.