Arquivo do mês: setembro 2013

Línguas, Espumas e Olhos travessos

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Compunham a cena da noite de começo. Palavras em profusão, vindo do branco e do negro, com pinceladas de verde e pitadas de vivo vermelho. Espalhavam-se pelo ar  e ao estourar traduziam sempre o mesmo sentimento, por mais que o assunto variasse tanto quanto o vento. Algo misto de consciência, coerência, impotência e muda insatisfação. Compartilhadas assim, sob nuvens e estrelas, tais sensações ficavam a circular, como fumaça viva ao redor dos dois indiferentes ao céu que lhes ouvia. Horas tantas, alta ia, partiram dali deixando uma impressão incômoda de dúvida, gravada mais uma vez no chão. Entre não saber e não agir, como conviver com a escolha de ir? Vai. Tudo termina da forma com que todos aprendemos a lidar com essa frustração. Dando as mãos. E oferecendo um sorriso de compreensão.

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Tem que decidir

Quatro anos já vão se passando e lá vamos nós ter os ouvidos entupidos de falatórios e promessas. Sim, ano que vem teremos novas eleições e… e… e que não há nada de novo a ser dito, porque todos os que vieram antes já disseram tudo e a criatividade desse povo anda bem em baixa, vide os novatos que estão chegando e que mantém os mesmos discursos dos experientes.

Uns prometem mais, outros prometem menos e, cada um a seu modo, ficamos sempre perdidos. O sistema, aquele mesmo que lavou nosso cérebro, tira a população de seu ópio televisivo para dar espaço a um verdadeiro show de horrores: do mais engomado ao mais “povão”, tem candidato pra todo gosto – e não gosto também.

Mas – e aqui registro um mas significativo – cada dia que passa eu tenho me apegado menos a grupos e mais a pessoas e atitudes. Isso não resolve muita coisa, na verdade, mas já impede que meus olhos e ouvidos recebam informações só de uma parte. E em vista do que um dia foi só MDB e Arena, e que meu querido Chico me perdoe, é utópico crer hoje em dia em princípios e conceitos que sejam proclamados por partidos políticos, sejam eles de esquerda, direita, retranca, avanço ou retaguarda. Da mesma forma que já não existe mais um grupo que realmente se dedique ao bem estar coletivo da classe trabalhadora, também não existe mais ninguém que proclame uma ação socialista democrática no Brasil.

E se tem algo que me irrita profundamente é escutar “conversê” das pessoas dizendo que o X-ista daqui é blablabla, que o X-ista dali é mimimi. Então eu me pergunto: porque, em vez de ficar vangloriando um conceito, não dar crédito às mãos que trabalharam? Mas a conclusão é óbvia e logo eu reparo que, mais uma vez, cada um olha apenas para o seu próprio umbigo e prefere ter razão a ser feliz. Tudo muito parecido com o futebol, onde um torcedor não pode admitir que o jogador do outro time fez um passe melhor só porque será rechaçado pelos colegas.

Na minha humilde opinião, tudo patifaria. E das grossas. E se o leitor me permitir ser retrógrada e dar um brado contra à “evolução política”, bem que eu preferia que se decretasse, pela terceira vez, um AI para acabar com o pluripartidarismo. Às favas com PSB, PTB, PP, PT, PSDB, PMDB, PV, XYZ! Ou se é a favor, ou se é contra. Essa de ficar em cima do muro só ferrou com o sistema político, enfraqueceu o país e fez do povo seu bobo da corte.

Então chega, pô! Tem que decidir logo: ou fode ou sai de cima!


Das laranjas e dos crepúsculos

Há toda uma literatura para o sabiá, inaugurada provavelmente por Gonçalves Dias – nas palmeiras de sua terra é que ele cantava. A poesia lhe dispensava, no Brasil, as honras que os europeus dispensavam ao rouxinol. Monteiro Lobato não gostava muito dessa história: embora reconhecesse os méritos de sua voz melodiosa, achava que eles não justificavam tamanha afeição dos poetas, “como se a gama passarinheira tivesse uma nota só”. Alarmava-se com a ausência, nas festas da rima, do tangará, que dizia ser único pássaro do mundo que evoluiu do canto à dança.

Eram tempos interessantes, em que se criticava o sabiá em favor de outro pássaro. Nem por isso deixavam de existir aqueles mais insensíveis, como os donos de pomares, tratados por Lobato como “gente rude, para quem pior peste que o sabiá só o sanhaço”. Estes eram para ele os únicos que não reconheciam o sabiá como o filho das laranjas e dos crepúsculos, o poeta alado das saudades, e nem mergulhavam num banho suave de tristezas quando o ouviam em tardes lânguidas.

Hoje isso não é mais exclusividade dos donos de pomares. Pode-se perfeitamente morar em São Paulo, na área menos arborizada de São Paulo, e ainda assim cultivar pelo pássaro – a princípio apenas um pássaro, sem nada em seu canto que o diferencie dos demais – a mesma inimizade. Tem o sabiá paulista a característica de promover sinfonias durante a madrugada. Seus 75 decibéis destoam do som uniforme do trânsito (80 decibéis), o que tem gerado incômodo. Nada há de mais agressivo aos ouvidos urbanos do que o som de uma flauta doce. Há quem diga que são apenas três acordes martelados à exaustão – um pássaro punk rock. Tratando-se de cantos e sons feitos pela boca, a preferência é pelo toque de celular de uma empresa, idêntico a um assobio.

Estes não são bons tempos para os sabiás. Não se explica de outra maneira que, mesmo no seu centenário, Rubem Braga ainda permaneça distante dos donos de pomares da literatura.


Sexta, Sexta, Sexta

Ao impossível quando furta um olhar

Becos e cacos de um concebido embate passeiam na sala de estar. As minúcias de um talvez resgatam os sussurros dos deuses. Abatidos colossos delineiam as asas do ínfimo. No rubro dos espinhos, a ausência de disfarces. Tentáculos e sinuosidades esculpem vestígios entre obscuros itinerários. Frutos e doses de brisa ainda socorrem a aurora. A água como que corta os suaves rostos enfeitados de horizontes. Marchas se afogam em resquícios de poeira, cães agitam os segundos primeiros do eterno. Abstratas coisas cravejadas nos muros, abstratas coisas sob um labirinto de faces. Em meio ao descompasso dos vícios, frações de ironia. Há risos à margem de um ordinário martírio, o amargo a decifrar reflexos. Sexta, as incógnitas compõem análises. Sexta, as incógnitas compõem verbos. Sexta, as incógnitas compõem vãs presunções.

 

I

As vozes intensificam castos enlevos, também sorrisos sobre um leito de irmãos, súbito, o vazio – as levezas admiram-se: e quando existir o adeus? Encontram-se num universo de dóceis, travessos, com sede de avanços. Trocam vivas palavras, balbuciam pálidas indagações. Murmuram uns suplícios à boca da indiferença. Envoltos por um receio que pincelaram em cenários fictícios, discutem sobre máculas nos pulsos de um anjo. Mal sabem que o amanhã é soluço, e seguem preenchendo murais de devaneio. O negro e o dourado dos relógios de pulso beijam o anil de um código de arbítrios. E seria preciso resgatar a existência, fútil no interior de um esquecido vulcão, para ensiná-los que a liberdade concebeu eternidades e seduziu meio deserto. Gostam da noite, gostam da lua, gostam da calma de um quarto em branco. São desses que pausam canções para apreciar a chuva a bebericar as pedras, são desses que alentam cegos tropeços, são desses que abraçam o impreciso. No brilho do olhar de um acuado felino, entre as sobras da lua, memorizam serenos flagrantes, cautelosos que são, não se rendem, não se rendem muito. O desejo recitou um soneto à agonia, as incógnitas seguem aflitas desde então.

 

II

Vestem-se de caos enquanto dissipam uma prolongada ausência. Resistentes vaidades desvairam a calçada. Os olhares se escondem na copa das árvores. As curvas de um modesto comércio ocultam-na, as reticências de uns jovens ocultam-no. O razoável segue em prantos, o acaso tortura as buscas – é descabida a dança dos platônicos elos. Existe vento, ócio, incoerência; os pensamentos chocam-se fortemente. São excessos desculpáveis, buscam tão só despistar a lógica, asfixiados por frívolos equívocos. A expectativa nada balbucia, enxerga-se um sábado indomável, o esquecimento não chega. No cálice da meia-volta, um ostentar o delírio, no cálice da meia-volta, um excitar as hipóteses. E as curvas, quando se beijarão, indaga o efêmero. E as curvas, quando se beijarão, indaga o desperdício. E as curvas, quando se beijarão, indaga o irrefutável. Quando as vestes arderem, quando as vestes arderem, gagueja o utópico.

 

III

Há a migalha das mesas, o musgo, a acidez das lâmpadas. Esquecidos em fundos falsos, se viram reféns das brasas de uma saída. Perderam-se nas entrelinhas de um desfecho, conduzidos tremulamente pela excentricidade. Compuseram uma sombra de contrariedades e fantasiaram impaciências. A sexta é o fim de um abraço, pondera o adeus. A sexta é o fim de uma pausa, pondera o enigma. A sexta é o fim de uma canção, eles só têm uma canção, suspira um pretérito. Estava inventada a distância, estava inventada a ânsia – e eles agora têm uma ode.


Vipinhos, vipões e o boss

The boss e a bandeira: aula de rock em um festival pouco empolgante... (foto: Terra)

The boss e a bandeira: aula de rock em um festival pouco empolgante… (foto: Terra)


Acabou a quinta edição do Rock in Rio no Brasil. Em 2015, o evento completará 30 anos e já se especula sobre o line up desse festival histórico que leva rock e Rio de Janeiro no nome, mas rompeu fronteiras físicas e musicais. Se chegará a Las Vegas como ambiciona seu criador Roberto Medina não dá para saber, mas a nova edição na cidade maravilhosa já foi confirmada.
Com o “melhor line up de todos os tempos”, na avaliação de Medina, a edição de 2013 registrou o sucesso esperado de público, patrocínio e demais alegorias – como mídia espontânea, mas ficou devendo em matéria de qualidade musical.
O palco Sunset, afeito às experimentações musicais, novamente se provou o grande trunfo do evento propondo parcerias impensadas e sonoridades para lá de satisfatórias como a união de Ben Harper e Charlie Musselwhite; George Benson e Ivan Lins; Grace Porter e Donavon Frankenreiter. Já o palco Mundo, em que desfilaram as principais atrações do festival, padeceu da falta de repertório de alguns ou da total inadequação de outros ao tamanho do evento. O Muse, por exemplo, banda de longa estrada que está aprendendo a ser grande, decepcionou. O primeiro fim de semana do evento, aliás, não foi feliz em matéria de headliners. Apenas Justin Timberlake fez o seu com alguma eficiência. O funk foi ferramenta de marketing válida, mas não salvou Beyoncé de um show marcado pelo marasmo e pouca criatividade no repertório.
Algumas apostas vingaram, como Florence and The Machine e Jessie J (artistas de pouca envergadura, mas com energia compensatória suficiente), e outras tombaram, como Phillip Philips e Ghost B.C.
O festival mostrou que timing também é algo fundamental. Afora Justin Timberlake e Metallica, todos os outros grandes artistas fizeram shows no Brasil o que esvaziou o apelo do festival. Bon Jovi tocou desfalcado e fez um show burocrático como o fizeram Capital Inicial, Ivete Sangalo, Iron Maiden e Jota Quest, bandas que já se esgotaram para esse tipo de evento e que se comunicam mais efetivamente apenas com seus fãs – cada vez mais fanáticos, embora em menor número.
O contrário ocorreu com bandas como Skank e Alice in Chains. Se os mineiros fazem o mesmo show desde 2008 – quando lançaram seu último disco, eles o fazem sempre de maneira renovada, enérgica e cativante. Já a banda de Seattle provou que conseguiu se reinventar após a morte de um de seus fundadores e com William DuVall nos vocais.
Inesquecível, apenas Bruce Springsteen. É pouco para um festival que ambiciona tanto. The Boss jamais havia tocado em um festival no Brasil e seu show no sábado, 21 de setembro, fez a todos se perguntarem por quê. Surpreendente, agressivo, sensível, enérgico, carismático, absoluto. Springsteen mostrou para quem foi ver John Mayer (que é muito bom, diga-se) como se faz um show e como se comanda um show de um rock star. Ele reinou absoluto em uma edição que nos rabiscos dos altos e baixos prevalece uma infame lista de vipinhos e vipões nos camarotes do evento. Vipinhos e vipões sempre existiram, como bem frisou David Brazil – um vipinho – na esteira da lista. O que está difícil de emplacar é rock star, seja ele do rock ou de qualquer outro gênero musical, hoje em dia. Parafraseando Nelson Rodrigues, aquele filósofo que serve a todas as horas e angústias: jovens, envelheçam!


Fé desvirtuada

 

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O diabo é pequeno, mesquinho e realmente não tem o que fazer. Eu sei. Senão, o que ele estaria fazendo aqui em casa? Não tem ninguém aqui, só eu. E estava tomando banho na hora em que ele chegou. Agora ele está fazendo uns barulhos estranhos lá no meu quarto pra me perturbar. Como se algo estivesse caindo, não como uma folha, mas como se algo pesado, como um livro ou o telefone, caísse da estante.

Dessa vez, eu não vou sair enrolada na toalha, toda molhada, para ver o que é. Eu sei que é ele e isso basta. Se eu fosse ver, ele ia se esconder. Porque ele gosta de ficar brincando com a minha cabeça. Quer me deixar louca. Da primeira vez achei que fosse um bandido e me tranquei no banheiro até o Marcelo voltar do trabalho. Claro que eu desliguei o chuveiro, né? Não ia ficar gastando água esse tempo todo. Mas pelo menos consegui disfarçar bem e saí cheirosinha e linda pro meu amor. Com ele em casa, o capiroto não faz graça.

Teve uma vez que eu pensei que fosse um bandido. Só tinha eu e nossa bebê em casa. Eu peguei num cabo de vassoura e fui ver o que era. Pela janela da cozinha vi um vulto passando pelo corredor. Respirei fundo e rezei para que quem quer fosse ir embora. Tudo ficou calmo por um momento, mas depois os barulhos voltaram. Parecia alguém tropeçando nos baldes lá fora. Abri a porta e tranquei em seguida. Fui sorrateira lá nos fundos, mas não tinha ninguém. E olha que até debaixo do tanque eu chequei. Na garagem também nada. Quem mais podia ser, se não o sete-peles?

Conversei com o pastor e ele concordou comigo que esses sons, esses sustos não são de Deus. Ele disse que a gente tinha que contar tudo pro meu marido e fazer um exorcismo aqui em casa. Imagina que eu ia dizer uma história dessas pro Marcelo! Pra ele me achar louca, mandar me internar nalgum hospício e pôr outra mulher dentro da minha casa? Na-nani-nanão.  Se não quiser fazer só comigo o exorcismo, não tem negócio.

O pastor ainda quis regatear, falou que então o jeito era chamar as irmãs e fazer um círculo de oração. E desde quando o coisa ruim tem medo de círculo de oração? Não é justamente nos círculos de oração por aí que ele mais apronta? Faz a mulherada cair tudo uma depois da outra? Eu, hein? Quando ia desistindo e ameacei chamar um padre, o pastor parou de fazer doce e marcou na agenda de vir aqui semana que vem.

Então agora, ele pode fazer o barulho que quiser porque eu vou acabar meu banho com calma. É até bom ficar aqui porque o chuveiro abafa um pouco do barulho. Ele está com os dias contados nessa casa. Tenho medo, mas tenho  um pouco de pena também… Se é só a mim que ele tem pra assombrar, a coisa tá realmente feia pro lado dele. Não estou desfazendo, não. Mas é que, sinceramente, antes ele… era… mais…

 

Crônica originalmente publicada no Coletivo Claraboia


Curtas 2

Foi-se o sol vermelho da tarde. Mudou-se o sol de lugar. Fez-se dia mais cedo. Fez-se noite mais tarde. Veio então as flores. Veio então os pássaros. Veio então as nuvens. Veio a alegria das mães. Fez-se primavera.