Línguas, Espumas e Olhos travessos

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Compunham a cena da noite de começo. Palavras em profusão, vindo do branco e do negro, com pinceladas de verde e pitadas de vivo vermelho. Espalhavam-se pelo ar  e ao estourar traduziam sempre o mesmo sentimento, por mais que o assunto variasse tanto quanto o vento. Algo misto de consciência, coerência, impotência e muda insatisfação. Compartilhadas assim, sob nuvens e estrelas, tais sensações ficavam a circular, como fumaça viva ao redor dos dois indiferentes ao céu que lhes ouvia. Horas tantas, alta ia, partiram dali deixando uma impressão incômoda de dúvida, gravada mais uma vez no chão. Entre não saber e não agir, como conviver com a escolha de ir? Vai. Tudo termina da forma com que todos aprendemos a lidar com essa frustração. Dando as mãos. E oferecendo um sorriso de compreensão.

Tem que decidir

Quatro anos já vão se passando e lá vamos nós ter os ouvidos entupidos de falatórios e promessas. Sim, ano que vem teremos novas eleições e… e… e que não há nada de novo a ser dito, porque todos os que vieram antes já disseram tudo e a criatividade desse povo anda bem em baixa, vide os novatos que estão chegando e que mantém os mesmos discursos dos experientes.

Uns prometem mais, outros prometem menos e, cada um a seu modo, ficamos sempre perdidos. O sistema, aquele mesmo que lavou nosso cérebro, tira a população de seu ópio televisivo para dar espaço a um verdadeiro show de horrores: do mais engomado ao mais “povão”, tem candidato pra todo gosto – e não gosto também.

Mas – e aqui registro um mas significativo – cada dia que passa eu tenho me apegado menos a grupos e mais a pessoas e atitudes. Isso não resolve muita coisa, na verdade, mas já impede que meus olhos e ouvidos recebam informações só de uma parte. E em vista do que um dia foi só MDB e Arena, e que meu querido Chico me perdoe, é utópico crer hoje em dia em princípios e conceitos que sejam proclamados por partidos políticos, sejam eles de esquerda, direita, retranca, avanço ou retaguarda. Da mesma forma que já não existe mais um grupo que realmente se dedique ao bem estar coletivo da classe trabalhadora, também não existe mais ninguém que proclame uma ação socialista democrática no Brasil.

E se tem algo que me irrita profundamente é escutar “conversê” das pessoas dizendo que o X-ista daqui é blablabla, que o X-ista dali é mimimi. Então eu me pergunto: porque, em vez de ficar vangloriando um conceito, não dar crédito às mãos que trabalharam? Mas a conclusão é óbvia e logo eu reparo que, mais uma vez, cada um olha apenas para o seu próprio umbigo e prefere ter razão a ser feliz. Tudo muito parecido com o futebol, onde um torcedor não pode admitir que o jogador do outro time fez um passe melhor só porque será rechaçado pelos colegas.

Na minha humilde opinião, tudo patifaria. E das grossas. E se o leitor me permitir ser retrógrada e dar um brado contra à “evolução política”, bem que eu preferia que se decretasse, pela terceira vez, um AI para acabar com o pluripartidarismo. Às favas com PSB, PTB, PP, PT, PSDB, PMDB, PV, XYZ! Ou se é a favor, ou se é contra. Essa de ficar em cima do muro só ferrou com o sistema político, enfraqueceu o país e fez do povo seu bobo da corte.

Então chega, pô! Tem que decidir logo: ou fode ou sai de cima!

Das laranjas e dos crepúsculos

Há toda uma literatura para o sabiá, inaugurada provavelmente por Gonçalves Dias – nas palmeiras de sua terra é que ele cantava. A poesia lhe dispensava, no Brasil, as honras que os europeus dispensavam ao rouxinol. Monteiro Lobato não gostava muito dessa história: embora reconhecesse os méritos de sua voz melodiosa, achava que eles não justificavam tamanha afeição dos poetas, “como se a gama passarinheira tivesse uma nota só”. Alarmava-se com a ausência, nas festas da rima, do tangará, que dizia ser único pássaro do mundo que evoluiu do canto à dança.

Eram tempos interessantes, em que se criticava o sabiá em favor de outro pássaro. Nem por isso deixavam de existir aqueles mais insensíveis, como os donos de pomares, tratados por Lobato como “gente rude, para quem pior peste que o sabiá só o sanhaço”. Estes eram para ele os únicos que não reconheciam o sabiá como o filho das laranjas e dos crepúsculos, o poeta alado das saudades, e nem mergulhavam num banho suave de tristezas quando o ouviam em tardes lânguidas.

Hoje isso não é mais exclusividade dos donos de pomares. Pode-se perfeitamente morar em São Paulo, na área menos arborizada de São Paulo, e ainda assim cultivar pelo pássaro – a princípio apenas um pássaro, sem nada em seu canto que o diferencie dos demais – a mesma inimizade. Tem o sabiá paulista a característica de promover sinfonias durante a madrugada. Seus 75 decibéis destoam do som uniforme do trânsito (80 decibéis), o que tem gerado incômodo. Nada há de mais agressivo aos ouvidos urbanos do que o som de uma flauta doce. Há quem diga que são apenas três acordes martelados à exaustão – um pássaro punk rock. Tratando-se de cantos e sons feitos pela boca, a preferência é pelo toque de celular de uma empresa, idêntico a um assobio.

Estes não são bons tempos para os sabiás. Não se explica de outra maneira que, mesmo no seu centenário, Rubem Braga ainda permaneça distante dos donos de pomares da literatura.

Sexta, Sexta, Sexta

Ao impossível quando furta um olhar

Becos e cacos de um concebido embate passeiam na sala de estar. As minúcias de um talvez resgatam os sussurros dos deuses. Abatidos colossos delineiam as asas do ínfimo. No rubro dos espinhos, a ausência de disfarces. Tentáculos e sinuosidades esculpem vestígios entre obscuros itinerários. Frutos e doses de brisa ainda socorrem a aurora. A água como que corta os suaves rostos enfeitados de horizontes. Marchas se afogam em resquícios de poeira, cães agitam os segundos primeiros do eterno. Abstratas coisas cravejadas nos muros, abstratas coisas sob um labirinto de faces. Em meio ao descompasso dos vícios, frações de ironia. Há risos à margem de um ordinário martírio, o amargo a decifrar reflexos. Sexta, as incógnitas compõem análises. Sexta, as incógnitas compõem verbos. Sexta, as incógnitas compõem vãs presunções.

 

I

As vozes intensificam castos enlevos, também sorrisos sobre um leito de irmãos, súbito, o vazio – as levezas admiram-se: e quando existir o adeus? Encontram-se num universo de dóceis, travessos, com sede de avanços. Trocam vivas palavras, balbuciam pálidas indagações. Murmuram uns suplícios à boca da indiferença. Envoltos por um receio que pincelaram em cenários fictícios, discutem sobre máculas nos pulsos de um anjo. Mal sabem que o amanhã é soluço, e seguem preenchendo murais de devaneio. O negro e o dourado dos relógios de pulso beijam o anil de um código de arbítrios. E seria preciso resgatar a existência, fútil no interior de um esquecido vulcão, para ensiná-los que a liberdade concebeu eternidades e seduziu meio deserto. Gostam da noite, gostam da lua, gostam da calma de um quarto em branco. São desses que pausam canções para apreciar a chuva a bebericar as pedras, são desses que alentam cegos tropeços, são desses que abraçam o impreciso. No brilho do olhar de um acuado felino, entre as sobras da lua, memorizam serenos flagrantes, cautelosos que são, não se rendem, não se rendem muito. O desejo recitou um soneto à agonia, as incógnitas seguem aflitas desde então.

 

II

Vestem-se de caos enquanto dissipam uma prolongada ausência. Resistentes vaidades desvairam a calçada. Os olhares se escondem na copa das árvores. As curvas de um modesto comércio ocultam-na, as reticências de uns jovens ocultam-no. O razoável segue em prantos, o acaso tortura as buscas – é descabida a dança dos platônicos elos. Existe vento, ócio, incoerência; os pensamentos chocam-se fortemente. São excessos desculpáveis, buscam tão só despistar a lógica, asfixiados por frívolos equívocos. A expectativa nada balbucia, enxerga-se um sábado indomável, o esquecimento não chega. No cálice da meia-volta, um ostentar o delírio, no cálice da meia-volta, um excitar as hipóteses. E as curvas, quando se beijarão, indaga o efêmero. E as curvas, quando se beijarão, indaga o desperdício. E as curvas, quando se beijarão, indaga o irrefutável. Quando as vestes arderem, quando as vestes arderem, gagueja o utópico.

 

III

Há a migalha das mesas, o musgo, a acidez das lâmpadas. Esquecidos em fundos falsos, se viram reféns das brasas de uma saída. Perderam-se nas entrelinhas de um desfecho, conduzidos tremulamente pela excentricidade. Compuseram uma sombra de contrariedades e fantasiaram impaciências. A sexta é o fim de um abraço, pondera o adeus. A sexta é o fim de uma pausa, pondera o enigma. A sexta é o fim de uma canção, eles só têm uma canção, suspira um pretérito. Estava inventada a distância, estava inventada a ânsia – e eles agora têm uma ode.

Vipinhos, vipões e o boss

The boss e a bandeira: aula de rock em um festival pouco empolgante... (foto: Terra)
The boss e a bandeira: aula de rock em um festival pouco empolgante… (foto: Terra)

Acabou a quinta edição do Rock in Rio no Brasil. Em 2015, o evento completará 30 anos e já se especula sobre o line up desse festival histórico que leva rock e Rio de Janeiro no nome, mas rompeu fronteiras físicas e musicais. Se chegará a Las Vegas como ambiciona seu criador Roberto Medina não dá para saber, mas a nova edição na cidade maravilhosa já foi confirmada.
Com o “melhor line up de todos os tempos”, na avaliação de Medina, a edição de 2013 registrou o sucesso esperado de público, patrocínio e demais alegorias – como mídia espontânea, mas ficou devendo em matéria de qualidade musical.
O palco Sunset, afeito às experimentações musicais, novamente se provou o grande trunfo do evento propondo parcerias impensadas e sonoridades para lá de satisfatórias como a união de Ben Harper e Charlie Musselwhite; George Benson e Ivan Lins; Grace Porter e Donavon Frankenreiter. Já o palco Mundo, em que desfilaram as principais atrações do festival, padeceu da falta de repertório de alguns ou da total inadequação de outros ao tamanho do evento. O Muse, por exemplo, banda de longa estrada que está aprendendo a ser grande, decepcionou. O primeiro fim de semana do evento, aliás, não foi feliz em matéria de headliners. Apenas Justin Timberlake fez o seu com alguma eficiência. O funk foi ferramenta de marketing válida, mas não salvou Beyoncé de um show marcado pelo marasmo e pouca criatividade no repertório.
Algumas apostas vingaram, como Florence and The Machine e Jessie J (artistas de pouca envergadura, mas com energia compensatória suficiente), e outras tombaram, como Phillip Philips e Ghost B.C.
O festival mostrou que timing também é algo fundamental. Afora Justin Timberlake e Metallica, todos os outros grandes artistas fizeram shows no Brasil o que esvaziou o apelo do festival. Bon Jovi tocou desfalcado e fez um show burocrático como o fizeram Capital Inicial, Ivete Sangalo, Iron Maiden e Jota Quest, bandas que já se esgotaram para esse tipo de evento e que se comunicam mais efetivamente apenas com seus fãs – cada vez mais fanáticos, embora em menor número.
O contrário ocorreu com bandas como Skank e Alice in Chains. Se os mineiros fazem o mesmo show desde 2008 – quando lançaram seu último disco, eles o fazem sempre de maneira renovada, enérgica e cativante. Já a banda de Seattle provou que conseguiu se reinventar após a morte de um de seus fundadores e com William DuVall nos vocais.
Inesquecível, apenas Bruce Springsteen. É pouco para um festival que ambiciona tanto. The Boss jamais havia tocado em um festival no Brasil e seu show no sábado, 21 de setembro, fez a todos se perguntarem por quê. Surpreendente, agressivo, sensível, enérgico, carismático, absoluto. Springsteen mostrou para quem foi ver John Mayer (que é muito bom, diga-se) como se faz um show e como se comanda um show de um rock star. Ele reinou absoluto em uma edição que nos rabiscos dos altos e baixos prevalece uma infame lista de vipinhos e vipões nos camarotes do evento. Vipinhos e vipões sempre existiram, como bem frisou David Brazil – um vipinho – na esteira da lista. O que está difícil de emplacar é rock star, seja ele do rock ou de qualquer outro gênero musical, hoje em dia. Parafraseando Nelson Rodrigues, aquele filósofo que serve a todas as horas e angústias: jovens, envelheçam!

Fé desvirtuada

 

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O diabo é pequeno, mesquinho e realmente não tem o que fazer. Eu sei. Senão, o que ele estaria fazendo aqui em casa? Não tem ninguém aqui, só eu. E estava tomando banho na hora em que ele chegou. Agora ele está fazendo uns barulhos estranhos lá no meu quarto pra me perturbar. Como se algo estivesse caindo, não como uma folha, mas como se algo pesado, como um livro ou o telefone, caísse da estante.

Dessa vez, eu não vou sair enrolada na toalha, toda molhada, para ver o que é. Eu sei que é ele e isso basta. Se eu fosse ver, ele ia se esconder. Porque ele gosta de ficar brincando com a minha cabeça. Quer me deixar louca. Da primeira vez achei que fosse um bandido e me tranquei no banheiro até o Marcelo voltar do trabalho. Claro que eu desliguei o chuveiro, né? Não ia ficar gastando água esse tempo todo. Mas pelo menos consegui disfarçar bem e saí cheirosinha e linda pro meu amor. Com ele em casa, o capiroto não faz graça.

Teve uma vez que eu pensei que fosse um bandido. Só tinha eu e nossa bebê em casa. Eu peguei num cabo de vassoura e fui ver o que era. Pela janela da cozinha vi um vulto passando pelo corredor. Respirei fundo e rezei para que quem quer fosse ir embora. Tudo ficou calmo por um momento, mas depois os barulhos voltaram. Parecia alguém tropeçando nos baldes lá fora. Abri a porta e tranquei em seguida. Fui sorrateira lá nos fundos, mas não tinha ninguém. E olha que até debaixo do tanque eu chequei. Na garagem também nada. Quem mais podia ser, se não o sete-peles?

Conversei com o pastor e ele concordou comigo que esses sons, esses sustos não são de Deus. Ele disse que a gente tinha que contar tudo pro meu marido e fazer um exorcismo aqui em casa. Imagina que eu ia dizer uma história dessas pro Marcelo! Pra ele me achar louca, mandar me internar nalgum hospício e pôr outra mulher dentro da minha casa? Na-nani-nanão.  Se não quiser fazer só comigo o exorcismo, não tem negócio.

O pastor ainda quis regatear, falou que então o jeito era chamar as irmãs e fazer um círculo de oração. E desde quando o coisa ruim tem medo de círculo de oração? Não é justamente nos círculos de oração por aí que ele mais apronta? Faz a mulherada cair tudo uma depois da outra? Eu, hein? Quando ia desistindo e ameacei chamar um padre, o pastor parou de fazer doce e marcou na agenda de vir aqui semana que vem.

Então agora, ele pode fazer o barulho que quiser porque eu vou acabar meu banho com calma. É até bom ficar aqui porque o chuveiro abafa um pouco do barulho. Ele está com os dias contados nessa casa. Tenho medo, mas tenho  um pouco de pena também… Se é só a mim que ele tem pra assombrar, a coisa tá realmente feia pro lado dele. Não estou desfazendo, não. Mas é que, sinceramente, antes ele… era… mais…

 

Crônica originalmente publicada no Coletivo Claraboia

Curtas 2

Foi-se o sol vermelho da tarde. Mudou-se o sol de lugar. Fez-se dia mais cedo. Fez-se noite mais tarde. Veio então as flores. Veio então os pássaros. Veio então as nuvens. Veio a alegria das mães. Fez-se primavera.

Reverlado

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Ás vezes, por mais campos já vistos, mais flores já tocadas, mais mãos já sentidas, mais terras exploradas, um redemoinho de acasos nos leva de volta onde tudo começa e aí, desatentos que estamos a pensar no já sonhado,  atentamos para um ponto escuro, desconhecido, naquele exato lugar onde nossa vista já passou, por muitas e muitas vezes. E aí ao explorar o desconhecido descobrimos  que o sol pode sim nascer em uma caverna. A luz brilha no oeste. Só depende do jeito de ver e da vontade de olhar.

Sobre o que está acontecendo no Brasil

Estamos novamente diante de uma crise.

Mas, diferente das outras tantas vezes em que esse fato aconteceu, não vejo necessidade de relatar os detalhes da lambança por um único motivo: não adianta. É, não adianta falar, falar e falar, isso todo mundo faz e, com sinceridade, para quê serve? Para nada. Porque se servisse não estaria eu aqui sentada diante de um computador, escrevendo, mas estaria de novo na rua, gritando, marchando, exigindo mudança assim como fiz por vinte centavos – que não era só por “vinte centavos”, mas era.

Porque agora, mais do que nunca, é a hora de nos unirmos em coro vivo para acabar com a bagunça que estão fazendo em nosso país. Pegou o detalhe do “nosso”? Ninguém nunca repara nesse pronome possessivo, ou será que ninguém se importa? O meu coração acredita mais na primeira possibilidade, mas minha razão se decide pela segunda por ver tantas outras maracutaias diárias que são escondidas e dissimuladas pelas mesmas pessoas que brigaram lá atrás, por ver que as mesmas bocas que gritaram por justiça e pelo fim da corrupção ensinam os próprios filhos a corromperem não só seus pares como seus princípios também.

Hoje em dia o provérbio que diz que “a esperança é a última que morre” não vale mais, pois a pobre da esperança morreu faz tempo de morte matada e encomendada pela nossa hipocrisia, e é uma pena! A esperança do brasileiro costumava entrar na frente dos ideais e puxá-los para frente, para cima!, não deixava que desistissem. Agora a descrença é o carro-chefe da nossa caminhada, é o boi que entrou na frente da carroça para atravancar a evolução, é a exigência do fruto sem que a semente tenha germinado.

Mas ao menos há uma chance salvação: nosso país é uma criança ainda, que erra, que mente, que brinca de ser gente grande. Temos apenas quinhentos anos, e em vista do que grandes potências eram quando tinham a nossa idade, temos um restinho de esperança que definha jogada um canto da nação. De perto, ninguém é “todo mundo” e isso abre um caminho à nossa frente. À nossa frente.

 

Todas as pessoas que havíamos matado

A gente um dia se muda, vai pra outro bairro, outra cidade, e desliga-se de todo um mundo que nos parecia o único. Saem as referências espaciais, as ruas em que nenhuma mudança passava despercebida, o momento exato que sabíamos ser a hora de apertar o botão para descer do ônibus, os supermercados que esquadrinhávamos e sabíamos aquilo que era mais barato em cada um e onde o pãozinho era melhor, mas sobretudo saem as pessoas. As mais significativas, as do nosso relacionamento, as que só conversavam sobre o tempo, as que apenas se cumprimentava e as que víamos existir, sem troca de palavras.

Há vezes em que o corte é feito ainda na infância, e então acrescenta-se àquela saudade, que um dia vem, uma dor maior, de um tempo irrecuperável e às vezes de uma felicidade também. Mas então já habitamos um mundo diverso, novamente único, que exige toda a nossa atenção e nos impele a prosseguir, sempre em frente, porque o mundo não para, e o espaço para a lembrança é cada vez menor, cada vez menos compreensível, e já não há nada que ela possa nos ensinar.

Mas vem um dia que o passado busca mais espaço, quer voltar a passar pelo coração – quer ser recordação, e por onde não se espera, como uma rede social. Nelas se conhece não-conhecendo muita gente. Até que sem querer descobrimos alguém que já conhecíamos, morava perto de casa, jogamos bola juntos, mas puxa vida, eu não te reconheci, será possível, quanto tempo faz. E então, ávidos, absolutamente ávidos, remontamos a nossa história em comum, cada um ressaltando coisas diferentes, jeitos diferentes de viver a mesma coisa, e juntos revivemos todas as pessoas que havíamos matado, o destino de cada um, o pouco que sabíamos, e concluímos que tudo era muito bom, as crianças de hoje não sabem, a gente precisa reunir o pessoal qualquer dia, mas esse dia não acontecerá nunca, porque todos vivem em mundos diferentes, e porque talvez o melhor mesmo seja deixar tudo da forma que nos lembramos.

Fragmento de Quase Amor

Fragmento de Quase AmorE são assim, sabe? Mais ou menos fictícios. Há destroços, sextas, gritos, móveis e fragmentos de quase amor. Fugas ainda são tecidas, os ecos do hoje não trazem mais razoáveis justificativas para o estado de solidão, de descrença, de impasse. Umas vagas canções os concretiza. Não têm respostas, não têm segredos, não têm fantasias, não alcançam disfarces. No silêncio, repousam indícios de tortura, aqueles, com aroma de ofensa. Lá, no espectro do breve, sob um banco acinzentado, o razoável se agita. Frustrados entre as gentes, afastam-se do óbvio com um sorriso trêmulo. O encanto varre o chão, o místico abraça um fim, palavras, calçada, muros – resta um beijo e um até mais.

O Brasil dos sabiás e dos juízes

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Os paulistanos estão fartos do canto dos sabiás. Não é galhofa. É notícia e foi altamente repercutida em mídias distintas após a veiculação de uma reportagem a respeito pelo jornal “Folha de São Paulo” no último fim de semana. Rádios, internet e até mesmo jornalísticos mais leves na tv repercutiram a notícia sob o foro de curiosidade.
De outra parte, na cobertura tida como séria da agenda política do país, o julgamento do mensalão recobrou sua posição privilegiada à medida que o julgamento dos tais embargos infringentes (que se acolhidos determinarão um novo julgamento para 11 réus condenados por formação de quadrilha) ganhava contornos inesperados. O desfecho deste capítulo com potencial de reviravolta é hoje e a opinião pública já se mobiliza para findar a lua de mel do público com o judiciário brasileiro.
É curioso observar o Brasil de cima, mas é ainda mais desorientador observá-lo de baixo. Não à toa, Tom Jobim exortava a ouvidos pouco experimentados que o Brasil não era para principiantes.
Revoltar-se com os sabiás pode até ser fruto de um mau gosto regional ou de um estresse pontual, mas denota a inquietação mal aplicada de um povo que se acostumou a reclamar sem distinguir exatamente os objetos de suas reclamações. Ou atentar-se a seus efeitos. O mesmo ocorre no julgamento dos embargos infringentes. Não podem ser os juízes, que no caso de alguns podem pecar pela adesão cega à tecnicidade do universo jurídico, os objetos da tempestade que se avizinha. O buraco é mais embaixo, já se falava nos botecos de esquina.
A corrupção não acaba aqui, com esse julgamento. Tampouco será dirimida com o que quer que se produza de efeito penal. Há, contudo, uma catarse a ser processada, em especial depois dos protestos de junho que ainda carecem de regulamentação sociológica. Catarse essa que ficará perdida no limbo da pátria amada.
O Brasil dos sabiás e dos juízes é um país imaturo, injusto, incauto e movido a curiosidades mórbidas. Não que esse texto seja qualquer tipo de protesto. É apenas brasileiro!

Comida para lembrar

bife a milanesa e macarrãoEu decepcionaria minha mãe se tivesse que listar as duas melhores refeições da minha vida. Primeiro porque ela não foi a autora das obras, embora já ela já tenha executado várias vezes o mesmo prato, e porque não se trata de nenhuma pirotecnia: um básico bife à milanesa com macarrão ao molho.

O bife crocante e o macarrão com o molho perfeito da minha tia, de ascendência italiana, é até hoje a minha definição de almoço de domingo perfeito. Acompanhava salada de alface com tomate e fanta uva. Ou coca-cola. Lembro da minha mãe partindo o bife em quadradinhos no meu prato e no do meu irmão porque ainda não tínhamos a destreza necessária com garfo e faca.

Empatado fica o mesmo prato só que feito pela avó de um amigo de infância. Ela tinha um bar, em Interlagos, que ficava defronte uma fábrica de não sei o quê. O pai desse amigo nos pegava na escola e nos levava lá para almoçar. O bar era meio escuro e ficava na frente da casa. Para não atrapalharmos o atendimento, ela nos levava para a cozinha, onde a luz estava sempre acesa e nos servia. Foi ali que descobri os efeitos poderosos do queijo parmesão ralado numa porção de macarrão quentinho.

O que tornava aqueles pratos perfeitos? O nível de crocância e maciez do bife? O molho do macarrão no tom certo de acidez e sal? Admito que, pra mim, o molho de tomate é uma arte com um nível de complexidade insondável e que admiro num nível próximo da devoção. A minha tia e a avó desse meu amigo são minhas duas musas culinárias e constituíram no meu paladar o conceito de “confort food” muito antes dos chefs pop, como Nigella e Jamie Oliver.

A lembrança desses almoços me vêm fácil e, principalmente, a recordação de sair da mesa feliz. Mesmo sem ter batata frita no cardápio e sem a perspectiva de um repeteco no jantar. Eu sequer me recordo das sobremesas desses dias e olha que nunca fui de dispensar um docinho após a refeição. Hoje, quando começo a elaborar o que fazer pra comer minha ideia é atingir aquele mesmo efeito: algo muito gostoso e sem complicação nenhuma. Comida para relaxar depois de um dia cheio. Comida que me relaxe a mente enquanto vai sendo feita. Comida caseira, como minha mãe sempre fez (e aqui o meu mea culpa), que reúne a família e rende conversa em torno da mesa e da pia antes e depois de tudo pronto. Comida com gosto de infância, sabe como é?

Curtas

O orvalho prima em ser presente. O dia seguirá sem sua presença. A noite não será menos e nem mais noite. Mas, com certeza, o amanhecer será mais doce. O orvalho faz parte do que conhecemos e chamanos por dia. O orvalho prima em ser orvalho.