Lira paulistana

E no meio do inverno eu descobri que dentro de mim havia um outono invencível. Vestindo agasalhos e melancolias, eu caminhava sozinho pelas ruas de uma São Paulo quase provinciana. Sou um homem livre em meio à multidão que trabalha, geralmente naquilo que não ama. E, por ser assim, também sou um homem cheio de dúvidas, que não sabe para qual parte da cidade levar as suas angústias. Mas tenho muito rostos, e por isso caminho com naturalidade – passo facilmente por paulista. A única coisa capaz de me trair são os cruzamentos: sempre olho para o lado errado antes de atravessar a rua. No mais, sou também um quatrocentão, mais velho que os tantos prédios históricos por onde passo, e digno da mesma indiferença na bagunça das calçadas.

Ah, a Estação da Luz! Tanta poesia, tanta agressão. Antigamente até Nossa Senhora era da Luz. Hoje não haveria espaço para ela nos vagões da CPTM. Os trens chegam, já sem nenhum romantismo, as portas abrem e as pessoas disparam ensandecidas – reforço: disparam ensandecidas. E neste tenro gesto vos contemplo. Somos milhões, e para não nos esmagarmos e nem pisarmos uns nos outros, pedem apenas que deixemos a esquerda livre quando usamos as escadas rolantes. Feito isso, estamos livres para ter a pressa que desejarmos. Mas eu sou atraído pelas melodias de um pianista de Hamelin – inacreditável respiro no meio da afobação, bem-encaixado adereço num ambiente em que a própria visão de onde se está já não causa a menor comoção.

Volto às ruas e tenho a nítida impressão de que todo mundo está perdido. Estão todos querendo chegar a algum lugar que não sabem onde fica. Frustro a todos que me pedem informação. Tenho sempre engatilhado o irrefutável argumento de não ser daqui. Quase o usei para dispensar uma garota que me oferecia canetas e chaveiros para ajudar não sei qual causa. Achei caro e não comprei. Mas tive pena da garota, que no meio da praça pouco movimentada arrumava coragem para abordar aqueles que mais tinham cara de cristãos – e eles não compravam. Continuei meu caminho, somando essa às outras tristezas que carregava comigo.

Estou agora na Consolação, geograficamente falando. Também aqui, como em todo lugar, há um pedaço do meu passado. O velho Giese, homem lá do sul, um dia morou no distrito da Consolação. Isso no tempo em que o velho Giese não era velho. O que veio fazer aqui, velho Giese? Ou, pior: o que eu estou fazendo aqui? Tenho andado muito, e nem sempre soube para onde estava indo. Mas continuo andando, porque ficar é impossível. Aproveito para entrar na igreja local e ouvir um pouco do silêncio paulista. Vejo almofadas no espaço em que os fiéis se ajoelham, o que deve ser uma consolação muito grande.

Percebo com satisfação que a sombra em São Paulo é inevitável – os prédios a garantem. O sol está pálido, dentro e fora de mim. Nebulosidade variável, com possibilidade de chuva no decorrer do período. Garoa, sai dos meus olhos! Deixe-me ver as coisas como elas são! Pego um jornal e me dou conta que coisas continuaram acontecendo no mundo, apesar de eu estar viajando. Procuro um banco para sentar – estou cansado de tentar não me importar. Sentado, espero o primeiro pedinte, que já se aproxima.

Da Janela, Do Quinto Andar

Da Janela, Do Quinto Andar

I

Estátuas e Cofres e Paredes Pintadas

Mãos pálidas tecem amanhãs, vagos clarões ressuscitam o céu, o quarto, acinzentado, já um tanto lírico, ainda dorme enquanto pássaros discutem com os anjos. A aurora não se ilude com as nuvens densas, o vento é só bobagem descontextualizada. Constroem-se prédios no centro da cidade, constroem-se desertos no interior de uma jovem. Um copo beija o chão, os cacos se escondem, um copo beija o chão, um grito ressoa. Sons e maus pensamentos abraçam a primavera. O dia dança além do lúcido, segundos mastigam formigas, formigas mastigam ferrugens. Ela não consegue existir e o trêmulo silêncio a embriaga. O futuro é mais que equivoco e desapego, ainda se veem estrelas atrevidas decompondo o azul. Há impasses, segredos e expectativas corrompidas. Poema escrito, janela aberta, a poeira abre os olhos do apartamento e queda muda sob a cama.

II

Ninguém Sabe o que Aconteceu

Observa minuciosamente os próprios pulsos e, súbito, sorri. A moça é um universo interessante, seu olhar tem a consistência de um mórbido adeus, os lábios são de um vermelho fragmentado, caminha como que sobre o ontem e ri nocivamente. A solidão é até seu desleixo, forma equivocada de contar os dias. Possui um ritmo esquisito, costuma esconder-se dos espelhos. Ela não vai crescer, ela não vai crescer e é tudo tão óbvio. Enfeita-se de imposturas e já não amanhece com o dia, mas ainda é tola como o antigamente. Umas palavras a corrói inexplicavelmente, umas lembranças a sufoca, uns beijos a abstrai. Seus lábios estão quentes, ela canta e depois se perde em desembaraços furtados. Não há acontecimentos, não há sabedoria, apenas bom senso e todos sabem mentir. Ninguém a notou na última semana.

III

Ela se Jogou

As pedras e os bueiros a enlaça por cálidos instantes. Há a aflição e o eco dos escassos transeuntes. Seu ponto de vista nem é belo o bastante, nem é verde o bastante. Os prédios vizinhos são demasiado ocres, seus vizinhos são demasiado ocres, a manhã é insuportavelmente ocre. Pousa um pombo à janela e a oferece asas. A infância, ali, na calçada, o gosto das lágrimas infantis ainda é doce. E o horizonte carregado de sombras e relâmpagos. Nem sinal de tinta vermelha. A água fervendo, a torneira aberta e desinteressada, o pó, o adoçante. O retrato sobre o armário, o sorriso ali, preso e comovido. Ela se desprende do finito e o que vê é denso, é denso, é luz.

IV

Da Janela, Do Quinto Andar

Ela se desprende do finito e o que vê é denso, é denso, é luz. Por que os corpos beijam o asfalto? Por que os beijos inundam os corpos? Por que o asfalto aceita o beijo dos corpos? Por que os corpos se entregam? Por que o asfalto está rubro? Por que o infinito é denso? Por que as asas são falsas? Por que o espelho aborrece? Por que construir desertos? Por que pintar as paredes e ocultar os cofres e as estátuas? Por que que o céu é azul?

V

Nada é Fácil de Entender

Nem flores, nem velas, nem chuva, apenas bocejo. Mais um dia assim, de um sol assim. O pombo volta à janela e só encontra uns resquícios de abandono. O pó para o preparo do café enfeita o chão da cozinha, a água já não ferve. Ela deixou a porta do apartamento aberta e seus vazios fugiram. O impasse não mora mais ali. A cama segue desarrumada, os presentes que ganhara de aniversário há uns meses continuam intactos em seus embrulhos, quase misteriosos. Na sala, a televisão ligada, o filme a acabar, as letras a subir. Não há escritos em lugar algum, não há adeus em lugar algum, não há amanhã em lugar algum.

VI

Dorme Agora

Todos sabem que a garota emudeceu e que já não podem beijá-la. O silêncio é honesto demais e não há quem surte. Difícil compreender porque as crianças permanecem sorridentes. Um livro sobre o criado-mudo, páginas mal lidas, outro sobre o sofá, com sabor de século passado. Fugas, casas, medos, pesadelos, filhos, gotas d’água, e grãos de areia, nada intenso. A torneira ainda aberta agora demonstra um desleixado interesse pela imensidão em que se afoga.

VII

É Só o Vento Lá Fora

É só imaginação, talvez um vento mais pálido. É preciso se distrair com o hoje como se não existíssemos. E os ruídos preenchem as ruas, gritos destacam-se, curiosos se empurram.  A vida é realmente uma tosca vírgula. Uma gota d’água ressuscita o dia que segue faminto. Da janela, do quinto andar, uma garota abraçou o amanhã.

O jeito deles…

1

O que seria do exibicionista sem o voyeur? A transcendência do questionamento não enseja a tal da resposta óbvia. Mariana era uma morena fogosa. Mas não sabia que era fogosa. Era reprimida até se descobrir fogosa. Ela se descobriu fogosa com o André. Os nomes são fictícios, os personagens talvez não sejam. André gostava de pensar que sabia tudo de sexo. Talvez soubesse. Não vem ao caso.
André gostava de olhar. Fazia sucesso com as mulheres porque apreciava particularmente as preliminares. Aquela troca intensa de olhares e toques, não necessariamente no privado, que elevam a temperatura de uma mulher. A princípio, pensava-se que André era um particular apreciador das preliminares. Não que não fosse, mas se dedicava mais a elas, porque se excitava com a excitação alheia. Ao perceber a entrega de uma mulher aos labirintos do prazer, André enlouquecia.
Com Mariana foi assim. Barzinho. Jantares. Boates. Motel. A lógica da lógica desses tempos tão banais. Mas Mariana gostava de dançar e não há nada mais poderoso e sensual do que o corpo de uma mulher em movimento. Mariana percebeu, então, que André reagia calorosamente a seu corpo em movimento.
O primeiro orgasmo da dupla foi em uma pista de dança. Assim mesmo. Vestidos.
Ela dançava. A pista fervia. Fumaça e luzes ensurdeciam Mariana e André em meio à roda de homens que se formou para observar os movimentos sensuais dela. André estava confortavelmente sentado em um canto que lhe favorecia uma visão entrecortada de Mariana. Ela se insinuava. Não necessariamente para ele. Os olhares eram cada vez mais agudos. Devassos. Mariana dominava a música. O vestido curto pregava peças aos olhos desatentos. Aos atentos concedia recompensas fugazes. André levantou-se. Foi ao banheiro. Lá passou alguns minutos. Voltou e reencontrou Mariana bebericando uma água tônica no bar. Falaram alguma coisa e partiram. Não dava para dizer se estavam apaixonados. Mas certamente estavam saciados.
Mariana e André são duas pessoas muito criativas em matéria de perseguição ao prazer. Em outra oportunidade, durante uma viagem ao interior de São Paulo, Mariana viajou nua no carro. No banco traseiro, enquanto André dirigia. Novamente a música a embalar movimentos muito mais desavergonhados em um espaço mais restrito e frequentemente sob olhares curiosos. André dividia seu voyeurismo por Mariana com afortunados a esmo. Motoristas de caminhão, cobradores de pedágio e outras figuras míticas das estradas brasileiras.
Teve, ainda, a vez em que ele a fotografou durante um dia inteiro. Um sábado chuvoso em Petrópolis. Em grutas, no verde da Serra e em casarões antigos. Foram mais de 2 mil fotografias que ninguém jamais viu. Vez ou outra eles voltam a elas em conversas picantes que mantém ocasionalmente. André não está no Brasil no momento. Mas a internet não o impede de se relacionar com Mariana. Eles não estão juntos, mas seguem juntos.

Laura e o diário

Imagem: http://www.flickr.com/photos/lennyhirsch/
Imagem: http://www.flickr.com/photos/lennyhirsch/

Não quiseram acabar com o meu casamento. Foi o que me disseram depois. Por isso não me entregaram o que me cabia. Das suas memórias. Desculpe.

Como poderia imaginar que as coisas não aconteciam de verdade como mamãe não se cansava de dizer? Que os homens apenas partiam e que as mulheres ficavam. No futuro do pretérito.

E você estava ao meu lado enquanto vagava pelo estrangeiro. Sob o desconhecido e luas sem luz tantas coisas foram ditas. Como rascunho. Em tinta. No silêncio dos bombardeios.

Nunca mais eu e você. Até hoje. Quando eu aprendi que as mães não sabem do amor mais do que as filhas.

 

Crônica originalmente publicada em: http://coletivoclaraboia.wordpress.com

As rosas não falam

rose

O labirinto de flores acolhe em sua densidade verde uma rosa muito branca e outra bem vermelha, ambas a desabrochar. O vento, cupido esperançoso, tenta aproximá-las com rajadas de incentivo, o que parece não funcionar.  Tal qual diferem em cores, assim sol e lua só atingem uma por vez a cada volta do dia. Em comum apenas o fato de que compartilham o mesmo céu.

Se falassem, talvez tivessem muito que dizer; uma declaração sobre a beleza, uma paixão pelo mundo vibrante, vontade de sorrir ou chorar junto. Mas não há sussurro. Porventura, com muita atenção, ouve-se um suspiro de melancolia. Emitido no momento em que certo cavalheiro passa, distraído, pelo labirinto. Para, surpreendido. Olha e decidido, colhe a vermelha rosa, leva esta até sua cartola e a transforma em adorno vaidoso. Perde-se no verde das folhas até sumir em algum corredor infindo. E a rosa branca, pobre infeliz, descobre que há algo mais duro e cortante do que o silêncio. Chama-se ausência.

Por uma leitura mais justa

Mais do que um compilado de frases de efeito, o livro que retrata a história do principezinho do planeta B612 – “O Pequeno Príncipe” –  é uma lição de vida. O enredo de veia infantil atinge tanto crianças quanto adultos pela relação que estabelece entre as faixas etárias, e é assim que vai encantando multidões pelo mundo afora.

Pode-se até dizer que Exupéry usa de um tom quase filosofal, mas não se assuste, porque não tem nada de Aristóteles, Platão ou Demócrito – aliás, passa é muito longe dessas! A relação que o tal príncipe trava com todos aqueles que encontra durante sua jornada sempre lhe trazem um aprendizado. Todos os planetas que visita – e com a Terra, são sete – é um mundo que desvenda, experiências novas e lições de vida, coisas que ele leva, ao final do livro, de volta consigo.

A riqueza do contexto está justamente nas amizades que o Pequeno Príncipe faz e, principalmente, nos conceitos que ele estabelece ao longo de sua viagem. A noção de importância, de justiça e honestidade estão muito presentes e é a soma de cada uma dessas percepções que permite ao jovem viajante chegar às conclusões mais lembradas do livro.

Há, sim! – e é preciso assumir – um melodrama que envolve a saga e que aparece nitidamente na relação de amizade sofrida do menino com a sua rosa. Ela interfere, mas de forma positiva, pois tudo aquilo que absorve de princípios, ele remete à sua relação com a flor.

O autor também trata a questão da morte, de uma forma um pouco dolorida para quem a experimenta, mas tranquila para aqueles que ficam. Como ponto de maior tensão do livro, o encontro do príncipe com a serpente causa raiva, tristeza, mas também causa a esperança da volta para casa, como que se pudéssemos afirmar que todos nós seremos estrelas um dia.

A história, em si, é um pouco ralentada para os mais pequenos, sem grandes emoções; para um leitor iniciante, o livro é excelente, pois é dividido em capítulos curtos. A versão mais difundida do livro possui ainda as aquarelas originais do autor, que acabam auxiliando e muito a prender a atenção das crianças.
“O que é belo no deserto é que ele esconde um poço em algum lugar”, e este livro esconde muitos poços em um único deserto.

Texto inicialmente publicado no site “Moleca-Moleca e Moleque-Chiclete”, adaptado para esta publicação.

Morador de rua

 Há algumas notícias que falam por si só e, mais do que isso, falam também entre si. Pela manhã, eu havia lido sobre os três adolescentes que confessaram ter queimado vivo um morador de rua no Guará. Discute-se apenas quem foi que jogou o fósforo – a gasolina foi uma garota, filha de policial. E queimaram pela mesma falta de motivo com que se queimam moradores de rua pelo Brasil afora, e aqui em Brasília em particular, referência nesse tipo de crime após a morte do índio Galdino há mais de quinze anos. Queima-se porque não se suporta que sejam moradores de rua e porque, havendo mal a fazer, o melhor é que seja feito contra quem não tem nada a perder. E também porque presume-se que quem mora na rua boa coisa não pode ser, pois certamente estão todos envolvidos em diversos tipos de delitos na região. Também para fazer justiça, queima-se vivo.

 Essa foi a notícia da manhã. Pela tarde, outro morador de rua foi destaque. Adeílson Mota de Carvalho, 37 anos, carregador nas proximidades da Rodoferroviária, encontrou o estudante Felipe Dourado, desaparecido há quase duas semanas e que desde então mobilizava a cidade. O morador de rua havia visto os diversos cartazes de “Desaparecido” espalhados por Brasília, e notou que havia uma extraordinária coincidência entre o retrato que eles exibiam e o sujeito que encontrou dormindo em um papelão embaixo de uma jaqueira.

 Chamou o jovem pelo nome, mas ele negou que se chamasse assim. Procurou então um cartaz para se certificar de que não havia se enganado. Tendo certeza, avisou a Polícia Militar de que o havia encontrado e pediu que chamassem logo os familiares do jovem. Feito isso, pediu ajuda a alguns funcionários de uma autoescola na região e com eles organizou uma espécie de cerco para que o rapaz não fugisse. Assim foi feito até que chegasse a irmã de Felipe, e depois outros familiares e a própria PM. Tudo isso fez Adeílson, não obstante morar na rua.

 Eis aí as duas notícias que tão bem dialogam entre si.

A um olhar quando furtivo

 

Fragmento I

Não beije o ontem, venha comigo, vou desenhar seu espelho. Abandone as fervorosas melodias, adie o abraço que o verso te ofereceu. Feche o livro, amanheça, molhe os lábios e aurifique seu semblante.  Não respire essa fumaça densa que oculta o azul que a habita. Falemos, pois, do teu olhar, esse tenro impacto. Recuso-me a pormenorizar as contemplações furtivas que diriges ao acaso, essa é uma sua face que fingirei ignorância. Sigamos. Seu olhar te entrega, te costura, te ensandece. Foi, inclusive, através dele que percebi essa sua boba resistência ao óbvio. Imitas, mas raramente, aquele fixo observar felino, certa espécie de êxito. Foge à colisão de olhares, saberás o motivo? Receias ali, no sentido que a espreita, encontrar seu abrigo. Convém, entretanto, ignorar essa precipitada ponderação, permaneça breve, a tela continua branca.

Fragmento II

É que vês estrelas às três da tarde, isso não pode, é até crime. Há, e sabes disso, um grito que te aflige, hesitas, não desejas apresentá-lo ao mundo. É grito que não faz eco, sei bem. Mas busque acariciá-lo. Sim, acaricie seus gritos e, se possível, os beije. Seu grito é uma espécie de lágrima – certo espetáculo de incongruências. É quase segredo. Não enlouquecerás se o libertares, tranquilize-se. Ora, não deixe um grito furtar seu instante.

Fragmento III

É preciso se apaixonar para ressuscitar com o amanhã. Vislumbre um princípio que ignoras. E o que dizer dos seus receios? Constituem fonte de seu silêncio, eis minha primeira sentença. Seu silêncio é como um verbo a se torturar, percebes? Teus passos estão impregnados de monotonia, temias isso, não? Convém esclarecer que continuas convicta de que és reflexo de algum enigma, mas percebeste outro dia que podem decifrá-la, e isso lhe furtou pensamentos. Entregue-se, sussurra um pedaço de ti, Ignore, balbucia outro fragmento – e permaneces imóvel. Mas não posso aconselhar-te – não descaradamente. Queres, ainda que negues, fugir do silêncio, mesmo que por um instante. Entendo sua ânsia e seu descompasso.

Fragmento IV

Teço-te com as agulhas enferrujadas do último inverno, aquém do chão. Seus lábios estão tingidos de ansiedades, vivificados por um medroso vermelho. Os dias caem desajeitados e desumanos, mas o vento ainda ri. A tarde ouve seu silêncio e se irrita. É enigmático seu desejo de se encaixar no amanhã. E quantas maçãs saboreaste antes de acordar? Teus passos, de tão lúcidos, ferem o óbvio.

Fragmento V

Convém insistir? Ai, outro segredo. Tens medo do Sol, menina, e isso já é selvageria. Colecionemos bobagens. Há um soneto, alguém sabe recitá-lo, podes até ouvi-lo, é de Vinicius. Temos um sábado, temos uma tarde, temos uma biblioteca, temos silêncios. Alguém não foi óbvio contigo e te impressionou, estou certo? Não fez o barulho dos bobos, preferiu o silêncio dos indecisos.

Fragmento VI

Tens, no olhar, os rascunhos do seu quarto. É um pálido cômodo, tentas de todo modo distorcê-lo. Os livros estão desorganizados, os raros Cd’s num canto, esquecidos. O enfeite atrás da porta tem tonalidade de infância. A janela que tanto desejas transpor, como descrevê-la? É poética, não é? O muro, logo adiante, é como o rascunho de sua alma – tens medo dele. Sei que olhas para o alto nos singelos crepúsculos com um ambicioso desejo de perder seu olhar na primeira estrela que rasga o céu. Mas não a encontra e precisas sair. És tão sublime, consegues, em questão de segundos, fazer-se multidão, maquiar-se de pretéritos e mentir para o hoje. E até sorris! Oh, ousas sorrir!

Fragmento VII

Por que se enganas ao buscar o inútil que a sacia nas fases do óbvio? Por que fugir do que há em ti até ser apanhada pelo inverno que ignoras? Doce é o ventre do acaso, amarga a asa da eternidade. Não há empecilho mais estúpido que o cálice que te desenha. O sangue é um céu de vidro. O sentido é um sapo que se engole. Nos teus lábios naufragam umas vaidades. O vento que sopra é a poeira de suas madrugadas vãs. O futuro é um trecho sem aroma. Por que é necessário amarrotar os sentimentos e abandonar o ferro à vapor? Faça um buraco na parede para enxergar seus delírios.

Fragmento VIII

Não mastigue pétalas empoeiradas antes de fotografá-las. A escuridão é o teu abraço, a loucura é sincera, só a loucura é sincera. Não sabes desenhar um poço, mas já queres ser feliz. E se fosse proibido inventar impasses, como sobreviverias? Não, não se afogue em agosto.  Estas fartas de overdoses umbilicais – eu sei! – e mesmo assim mastiga a noite e conversas com seus amigos. A humanidade é o que vês do outro lado da rua. Essa tua mania de achar os cães idiotas, um tanto mais que bobos, até que é lírica. Os gatos têm mesmo senso de espanto, e são capazes de te fazer beber os aplausos do horizonte.  Existe alguém pra te enfeitar de inverdades, és um desejo seu,  não é? Tens uns vazios contraditórios e não podes vendê-los na feira.

Fragmento IX

Não consegues escrever um diário, pois estás além do razoável – e continuas simples. O melhor que fazes com as noventa e seis páginas em branco é picotá-las em incontáveis pedaços, depois as espalhe pela cama, e então durma sobre essas minúsculas partes suas. Sonharás, então, com um acidente de trânsito na linha do horizonte, perceberás, bobamente, o que buscas. Desenhemos o impasse numa noite sem lua! Vivamos como se tivéssemos lançado o ódio num formigueiro e perdido o dia todo tentando salvá-lo. E quando chega o sábado à noite e não desejares ressuscitar, vagueie por suas virgulas, sim.

É o frio, estúpido!

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Obama chegaria a qualquer momento, mas ele não era a atração daquele encontro na sede das Nações Unidas em Nova Iorque. O mandatário americano, cada vez mais questionado, era apenas mais um dos que buscavam as respostas cujas perguntas estavam na boca do povo. Como Sandefjord, cidadezinha com 40 mil habitantes na Noruega, conseguiu erradicar completamente a criminalidade de suas hostes – não há sequer um roubo de bicicleta em dois anos – aumentar o IDH (índice de desenvolvimento humano), entre outras peripécias de difícil admoestação? O interesse ali, mormente, era obviamente em como transformar as conquistas daquele condado nórdico em capital político de Chuí, no Sul do Brasil, a Pequim, a capital do país mais populoso do mundo.
A comitiva inglesa encarava com algum desdém os dividendos daquela conferência. Os alemães mandaram fazer um dossiê a respeito de Sandefjord por eles mesmos. A França tentou fazer o mesmo, mas os responsáveis acabaram realçando o aspecto artístico e culturalmente livre da cidade norueguesa e negligenciando as conquistas socioeconômicas do município. O chefe da comitiva brasileira estava irritadíssimo. Ninguém ali ouvira falar de Sandefjord. “Como?”, indignava-se.
A solícita comitiva argentina entregou um arquivo com algumas especulações a respeito da cidade amealhadas em um voo do mandatário boliviano à Europa.
A ansiedade no auditório era quase palpável. Os italianos, atordoados, discutiam no fundo (sim a comitiva italiana foi remanejada porque o país da bota ultimamente é uma vergonha para a União Europeia e eles andam querendo escondê-lo) como seria possível reduzir de tal modo a violência sem um aumento exponencial com os gastos de segurança e externavam a preocupação com o fato de a estratégia não ter sido replicada em todo o país, com a devida ressalva de que a Noruega já apresentava os menores índices de criminalidade da Europa.
Os suecos só faziam bico. Estavam, por certo, enciumados da atenção que os noruegueses recebiam em Nova Iorque. Os dinamarqueses, algo resignados, enviaram uma mensagem codificada à delegação sueca informando que eles ainda detinham as mulheres mais belas da Escandinávia.
O alto-falante pediu silêncio. O prefeito de Sandfjord se dirigia ao púlpito e falaria pelos próximos 30 minutos, de acordo com o protocolo. As perguntas eram visíveis na audiência. O homem Sandfjord, bem acima do peso, com aquelas bochechas digna de Papai Noel, e um pouco mais esbaforido do que se poderia imaginar, aproximou-se do microfone e balbuciou em inglês o seguinte: “It´s the cold, stupids”. E o resto é história!

Oh, meu Deus!

Reprodução - Porta dos Fundos
Reprodução – Porta dos Fundos

A bancada dos sem-graça, vulgo, bancada evangélica representada na pessoa do senhor Marco Feliciano convoca seus fiéis a denunciar um esquete do coletivo Porta dos Fundos. O esquete em questão aborda uma personagem que vai ao médico e que, durante o exame ginecológico, descobre que há uma imagem do Cristo inscrita em suas partes íntimas, resultando numa peregrinação de fiéis.

 

Uma das leituras que o vídeo permite é a banalização dos chamados milagres. Há quem veja imagem da Virgem em uma janela embaçada, em um pedaço de pão com manteiga (como ironizou a série Glee em um de seus episódios) ou sei lá no quê. Pelo que me lembro das aulas de história, a reforma protestante foi justamente para pôr um limite nesse tipo de palhaçada e na venda das indulgências.

 
Eis que séculos depois, os neopentecostais brasileiros querem que o mundo volte alguns giros. Querem matar o mensageiro e preservar os pecados. Adoração de imagens, até onde me consta, é prática mais frequente entre os católicos, os espíritas, praticantes do candomblé, etc, do que entre os ditos crentes. E, até onde consegui apurar, eles não vestiram a carapuça. Vai ver que agora os neopentecostais acham que a religião tem que ir por aí mesmo: adorar toda e qualquer coisa. Que cruzada, hein? Pobre Lutero, deve estar se revirando na tumba e quase implorando pela antecipação do juízo final!

twitter marco feliciano porta dos fundos
Reprodução

Essa é mais uma oportunidades de nos questionarmos se um Estado laico deve permitir que sejam eleitas pessoas com o objetivo de legislar exclusivamente em nome da sua religião. O Estado comporta a nação inteira. Tem que representar a todos. E Marco Feliciano não me representa. Não me representa porque ele não quer me respeitar. Simples assim. Ele não admite que haja outros credos, outras visões de mundo e chama de iniquidade tudo aquilo que não é espelho. Ou que não lhe convém.

 
É hora de todos que comungam de outros credos – inclusive credo nenhum – de se unirem contra esse tipo de visão de mundo. Não quero acordar num país em que o fundamentalismo religioso seja regra. Basta lembrar os escritores e artistas que já receberam o veredicto de terem suas cabeças cortadas por, na interpretação de alguns religiosos, supostamente “ridicularizarem” o profeta Maomé. Liberdade de expressão, meu povo! As exceções devem ser analisadas nos termos da lei.

 
Dentro da sua Igreja, cada um que siga seu credo. Deus não precisa impor sua vontade à população inteira. E, para os que creem, lembremos de Sodoma e Gomorra. A família de Ló, a única a seguir as regras pregadas por Deus na área, foi poupada da destruição. A mensagem foi clara: véio, de boa, cada um que cuide de sua salvação porque Ele está vendo. E só pra lembrar: Ele abandonou a política do ódio oficialmente quando enviou seu Filho ao mundo com o slogan de “amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”. Precisa dizer mais?

Restam quatro

Poucas foram as vezes que senti vontade em usar esse espaço para falar de futebol, mas diante dos fatos, me vi obrigado. Em minha opinião, sou o que se pode chamar de torcedor e, na minha exclusiva opinião, jogo melhor do que comento a modalidade. Só isso. Nada fanático e que tem poucas informações sobre o próprio time. Mas, devo confessar que diante do bullying das torcidas adversárias, não vou perder a oportunidade de tirar uma casquinha de um grande time paulista que está prestes a conhecer as mazelas, ou quem sabe os benefícios, da segunda divisão do Brasileirão.

Antes cabe justificar o título deste texto. Depois de muitas confusões, irregularidades e viradas de mesa na organização da principal competição do futebol brasileiro, chegamos a um formato que muito agrada ao torcedor e as equipes. São 20 times na primeira divisão e outros 20 na segunda divisão. Mesmo com muita força nos bastidores, grandes times já estiveram na segunda divisão, alguns ainda se mantém, outros saíram e voltaram. E, até o momento, restam quatro supertimes, da elite do futebol brasileiro, para disputar a segundona.

Digo apenas quatro, pois na condição de torcedor de um dos grandes times de São Paulo, que está hoje na segunda divisão, não vou perder a oportunidade de dizer que o tricolor paulista já não mais flerta com a segundona, mas já está de comprometido e de papel passado. No mundo futebolístico dizem que alguns times jogam e tem sorte de campeão. Como aconteceu, recentemente, com o Atlético Mineiro ao vencer a Copa Libertadores. Em vários momentos a sorte de campeão decidiu em favor do Galo. Penso que o ditado tem o revés da moeda. Esse lado é quando se tem o azar do perdedor. E é esse mal que assola o tricolor do Morumbi.

Oficialmente, cinco equipes não estiveram na segunda divisão desde que o formato do de disputa do campeonato é feita em pontos corridos. São eles: Cruzeiro, Internacional, Santos, Flamengo e São Paulo. O Campeonato Brasileiro tem muito a ser jogado, mas o tricolor já deu mostra de que fará renda na segundona. Dos 20 times que jogam a primeira divisão quatro sempre vão para a divisão inferior, e nesse grupinho sempre tem um dos grandes. Agora, chegou a vez do São Paulo.

Com a satisfação de quem será bi-campeão da segundona, já estou esperando os fogos para a comemoração. Quanto aos sãopaulinos, vai o conselho de que o importante é conquistar títulos. A sorte de vocês é que no centenário do alvi-verde paulista não serão derrotados na Arena jogando pelo Brasileirão. Mas, o que fazer? Nos vemos outra vez em 2015.

Farei

cao

– Ah, já pegou? Obrigada!

Sim, penso eu, em meu silêncio rigorosamente bem educado. Já fiz o que você deveria ter feito. Já busquei, analisei, verifiquei e concluí. Está tudo aqui. Nos devidos lugares. Colha meus louros agora com sua cara de pau oco de quem finge saber o que faz. Se ilumine frente aos holofotes do meu bom trabalho enquanto assisto impassível ao circo de babel onde ninguém sabe o que diz.

Ficarei na minha mesa escura e escondida onde regurgitarei cada tarefa sua que foi feita pelas minhas mãos. Devido a isso maquinarei meu plano de destruição dos incompetentes, preguiçosos, ociosos, fofoqueiros, enrroladores, incapazes e medíocres. Faíscas chispam nos meus olhos que sorriem com cordialidade mentirosa para a escória dos fingidos.

Acho que detonarei o mundo inteiro. Não salvarei ninguém, absolutamente, segundo meu conceito.

Explodirei.

Da perda de um amigo

Quando a gente perde uma pessoa a quem chamamos de amigo, com ela vão embora muitas outras coisas das quais somente nos damos conta muito tempo depois. E quando isso acontece, descobrimos que ele nunca mais voltará e então a tristeza se torna muito grande, a gente chora por qualquer coisa e todas as lembranças voltam o tempo todo porque a saudade é muito forte. Sabemos não ser mais possível ouvir a sua voz, rir ou chorar em seu ombro e apesar disso a gente fica feliz porque sabe que, de alguma forma, esavamos unidos pelo laço de uma amizade sincera e gratuita até para depois da vida; toda história se fortalece, como se tudo tivesse acontecido ontem mesmo, de tão próximo que a gente fica.

Mas mais difícil do que perder um amigo para a consequência inevitável da vida – que é a morte – é perder um amigo enquanto ele ainda está vivinho da silva. E por mais incrível que pareça, são coisas bem diferentes. E perder um amigo enquanto ainda é possível revê-lo, é bem mais triste porque essa é uma perda provocada por nós mesmos por, talvez, não termos sido especialmente cuidadosos com quem considerávamos quase um irmão. Não se trata de uma perda irreparável – como a morte do corpo -, mas da triste perda consentida e assistida – que é a morte da alma. E essa é ainda mais dolorida porque depende s[o de nós para mudar. Ou entao a cada vez que cruzarmos com ele, que ouvirmos a sua voz, que o sentirmos por perto, é como se um ácido chamado orgulho vao corroer nosso peito pouco a pouco, vai destruir nossa alegria e nada será tão colorido como foi um dia.

Perder um amigo é perder as madrugadas de gargalhadas, as corridas no shoppings, as disputas de pizza e as brincadeiras no supermercado; é olhar para trás e saber que eram felizes de verdade, é sentir falta do carinho que existia e que – esse assim – morreu. É perder uma vida inteira, mas não uma vida que já se foi, mas uma vida que ainda se tem viva.

A corrupção do bem

Os nobres deputados do Distrito Federal aprovaram na última semana a criação da corrupção do bem. Não podendo tolerar mais os escabrosos desvios de dinheiro público na capital federal, os distritais concordaram que o melhor meio de combatê-los seria proporcionar também ao cidadão comum a possibilidade de se beneficiar com o esquema. Para alcançar tão longânime objetivo, decidiram por unanimidade oferecer um prêmio a quem denunciar casos de corrupção, e que consiste em 10% do dinheiro desviado.

A população de Brasília compreenderá que o dízimo desse dinheiro seja então desviado para o bolso de uma pessoa de bem, alguém que pesou todos os inconvenientes que a sua denúncia poderia trazer, mas por fim foi convencido pelo generoso argumento dos deputados, e observou comovido que ainda vale a pena ser honesto neste país. Também não haverá quem encontre reparo na remota possibilidade do denunciante já ter se envolvido ou se beneficiado em casos semelhantes, de modo que não será nenhuma extravagância cedermos a ela mais uma porcentagem de dinheiro público.

Sabendo que, à força de tão poderoso argumento, fatalmente surgirão muitos cidadãos dispostos a exercer plenamente a sua honestidade, os ilustres deputados, mostrando estarem realmente à frente do seu tempo, trataram de também decidir de que modo ocorrerá a divisão do dízimo em caso de várias pessoas denunciarem o mesmo caso de corrupção. Assim, ficou estabelecido que o primeiro a denunciar terá direito a 70% dos recursos da corrupção já previstos para o combate à corrupção. O segundo e o terceiro a denunciar dividirão os outros 30%, enquanto que o quarto, o quinto e todos os demais terão que se contentar com a sensação de estar fazendo a coisa certa.

Argutos observadores do comportamento humano, os distritais perceberam que o único meio de fazer com que o homem se interesse pelo coletivo é fazê-lo se interessar pelo individual. E o individual normalmente não vê problema algum em ter uma inesperada fonte de recursos financeiros, ainda que sejam 10%, pois em geral desviam-se somas avultadas, e os 10% viram facilmente muito dinheiro, donde se percebe que a Câmara Legislativa do Distrito Federal está ao mesmo tempo acabando com a corrupção e promovendo a inclusão social.

Como devidamente lembrado pelos deputados, em geral as pessoas sentem medo de denunciar casos de corrupção, pois ficam expostas e podem ter a sua segurança ameaçada. Em boa hora veio essa proposta de premiação, pois bem sabemos que com ela já não existe mais o que temer, considerando que normalmente as pessoas com muito dinheiro são também as que mais têm segurança, e a consciência disso se torna um argumento tão decisivo que, quem estava em dúvida, irá correndo denunciar até a própria mãe, se preciso for.

Dito isso, é preciso reconhecer os elevados ideais que norteiam a atividade legislativa no Distrito Federal, cuja iniciativa já começa a ser imitada em cidades como Curitiba, pois também por lá parece haver cabeças iluminadas e interessadas em resolver de uma vez por todas tão nefanda questão como essa da corrupção. Nem que seja preciso comprar meio mundo, esse mal será enfim extirpado do nosso meio.