Arquivo do mês: agosto 2013

Lira paulistana

E no meio do inverno eu descobri que dentro de mim havia um outono invencível. Vestindo agasalhos e melancolias, eu caminhava sozinho pelas ruas de uma São Paulo quase provinciana. Sou um homem livre em meio à multidão que trabalha, geralmente naquilo que não ama. E, por ser assim, também sou um homem cheio de dúvidas, que não sabe para qual parte da cidade levar as suas angústias. Mas tenho muito rostos, e por isso caminho com naturalidade – passo facilmente por paulista. A única coisa capaz de me trair são os cruzamentos: sempre olho para o lado errado antes de atravessar a rua. No mais, sou também um quatrocentão, mais velho que os tantos prédios históricos por onde passo, e digno da mesma indiferença na bagunça das calçadas.

Ah, a Estação da Luz! Tanta poesia, tanta agressão. Antigamente até Nossa Senhora era da Luz. Hoje não haveria espaço para ela nos vagões da CPTM. Os trens chegam, já sem nenhum romantismo, as portas abrem e as pessoas disparam ensandecidas – reforço: disparam ensandecidas. E neste tenro gesto vos contemplo. Somos milhões, e para não nos esmagarmos e nem pisarmos uns nos outros, pedem apenas que deixemos a esquerda livre quando usamos as escadas rolantes. Feito isso, estamos livres para ter a pressa que desejarmos. Mas eu sou atraído pelas melodias de um pianista de Hamelin – inacreditável respiro no meio da afobação, bem-encaixado adereço num ambiente em que a própria visão de onde se está já não causa a menor comoção.

Volto às ruas e tenho a nítida impressão de que todo mundo está perdido. Estão todos querendo chegar a algum lugar que não sabem onde fica. Frustro a todos que me pedem informação. Tenho sempre engatilhado o irrefutável argumento de não ser daqui. Quase o usei para dispensar uma garota que me oferecia canetas e chaveiros para ajudar não sei qual causa. Achei caro e não comprei. Mas tive pena da garota, que no meio da praça pouco movimentada arrumava coragem para abordar aqueles que mais tinham cara de cristãos – e eles não compravam. Continuei meu caminho, somando essa às outras tristezas que carregava comigo.

Estou agora na Consolação, geograficamente falando. Também aqui, como em todo lugar, há um pedaço do meu passado. O velho Giese, homem lá do sul, um dia morou no distrito da Consolação. Isso no tempo em que o velho Giese não era velho. O que veio fazer aqui, velho Giese? Ou, pior: o que eu estou fazendo aqui? Tenho andado muito, e nem sempre soube para onde estava indo. Mas continuo andando, porque ficar é impossível. Aproveito para entrar na igreja local e ouvir um pouco do silêncio paulista. Vejo almofadas no espaço em que os fiéis se ajoelham, o que deve ser uma consolação muito grande.

Percebo com satisfação que a sombra em São Paulo é inevitável – os prédios a garantem. O sol está pálido, dentro e fora de mim. Nebulosidade variável, com possibilidade de chuva no decorrer do período. Garoa, sai dos meus olhos! Deixe-me ver as coisas como elas são! Pego um jornal e me dou conta que coisas continuaram acontecendo no mundo, apesar de eu estar viajando. Procuro um banco para sentar – estou cansado de tentar não me importar. Sentado, espero o primeiro pedinte, que já se aproxima.

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Da Janela, Do Quinto Andar

Da Janela, Do Quinto Andar

I

Estátuas e Cofres e Paredes Pintadas

Mãos pálidas tecem amanhãs, vagos clarões ressuscitam o céu, o quarto, acinzentado, já um tanto lírico, ainda dorme enquanto pássaros discutem com os anjos. A aurora não se ilude com as nuvens densas, o vento é só bobagem descontextualizada. Constroem-se prédios no centro da cidade, constroem-se desertos no interior de uma jovem. Um copo beija o chão, os cacos se escondem, um copo beija o chão, um grito ressoa. Sons e maus pensamentos abraçam a primavera. O dia dança além do lúcido, segundos mastigam formigas, formigas mastigam ferrugens. Ela não consegue existir e o trêmulo silêncio a embriaga. O futuro é mais que equivoco e desapego, ainda se veem estrelas atrevidas decompondo o azul. Há impasses, segredos e expectativas corrompidas. Poema escrito, janela aberta, a poeira abre os olhos do apartamento e queda muda sob a cama.

II

Ninguém Sabe o que Aconteceu

Observa minuciosamente os próprios pulsos e, súbito, sorri. A moça é um universo interessante, seu olhar tem a consistência de um mórbido adeus, os lábios são de um vermelho fragmentado, caminha como que sobre o ontem e ri nocivamente. A solidão é até seu desleixo, forma equivocada de contar os dias. Possui um ritmo esquisito, costuma esconder-se dos espelhos. Ela não vai crescer, ela não vai crescer e é tudo tão óbvio. Enfeita-se de imposturas e já não amanhece com o dia, mas ainda é tola como o antigamente. Umas palavras a corrói inexplicavelmente, umas lembranças a sufoca, uns beijos a abstrai. Seus lábios estão quentes, ela canta e depois se perde em desembaraços furtados. Não há acontecimentos, não há sabedoria, apenas bom senso e todos sabem mentir. Ninguém a notou na última semana.

III

Ela se Jogou

As pedras e os bueiros a enlaça por cálidos instantes. Há a aflição e o eco dos escassos transeuntes. Seu ponto de vista nem é belo o bastante, nem é verde o bastante. Os prédios vizinhos são demasiado ocres, seus vizinhos são demasiado ocres, a manhã é insuportavelmente ocre. Pousa um pombo à janela e a oferece asas. A infância, ali, na calçada, o gosto das lágrimas infantis ainda é doce. E o horizonte carregado de sombras e relâmpagos. Nem sinal de tinta vermelha. A água fervendo, a torneira aberta e desinteressada, o pó, o adoçante. O retrato sobre o armário, o sorriso ali, preso e comovido. Ela se desprende do finito e o que vê é denso, é denso, é luz.

IV

Da Janela, Do Quinto Andar

Ela se desprende do finito e o que vê é denso, é denso, é luz. Por que os corpos beijam o asfalto? Por que os beijos inundam os corpos? Por que o asfalto aceita o beijo dos corpos? Por que os corpos se entregam? Por que o asfalto está rubro? Por que o infinito é denso? Por que as asas são falsas? Por que o espelho aborrece? Por que construir desertos? Por que pintar as paredes e ocultar os cofres e as estátuas? Por que que o céu é azul?

V

Nada é Fácil de Entender

Nem flores, nem velas, nem chuva, apenas bocejo. Mais um dia assim, de um sol assim. O pombo volta à janela e só encontra uns resquícios de abandono. O pó para o preparo do café enfeita o chão da cozinha, a água já não ferve. Ela deixou a porta do apartamento aberta e seus vazios fugiram. O impasse não mora mais ali. A cama segue desarrumada, os presentes que ganhara de aniversário há uns meses continuam intactos em seus embrulhos, quase misteriosos. Na sala, a televisão ligada, o filme a acabar, as letras a subir. Não há escritos em lugar algum, não há adeus em lugar algum, não há amanhã em lugar algum.

VI

Dorme Agora

Todos sabem que a garota emudeceu e que já não podem beijá-la. O silêncio é honesto demais e não há quem surte. Difícil compreender porque as crianças permanecem sorridentes. Um livro sobre o criado-mudo, páginas mal lidas, outro sobre o sofá, com sabor de século passado. Fugas, casas, medos, pesadelos, filhos, gotas d’água, e grãos de areia, nada intenso. A torneira ainda aberta agora demonstra um desleixado interesse pela imensidão em que se afoga.

VII

É Só o Vento Lá Fora

É só imaginação, talvez um vento mais pálido. É preciso se distrair com o hoje como se não existíssemos. E os ruídos preenchem as ruas, gritos destacam-se, curiosos se empurram.  A vida é realmente uma tosca vírgula. Uma gota d’água ressuscita o dia que segue faminto. Da janela, do quinto andar, uma garota abraçou o amanhã.


O jeito deles…

1

O que seria do exibicionista sem o voyeur? A transcendência do questionamento não enseja a tal da resposta óbvia. Mariana era uma morena fogosa. Mas não sabia que era fogosa. Era reprimida até se descobrir fogosa. Ela se descobriu fogosa com o André. Os nomes são fictícios, os personagens talvez não sejam. André gostava de pensar que sabia tudo de sexo. Talvez soubesse. Não vem ao caso.
André gostava de olhar. Fazia sucesso com as mulheres porque apreciava particularmente as preliminares. Aquela troca intensa de olhares e toques, não necessariamente no privado, que elevam a temperatura de uma mulher. A princípio, pensava-se que André era um particular apreciador das preliminares. Não que não fosse, mas se dedicava mais a elas, porque se excitava com a excitação alheia. Ao perceber a entrega de uma mulher aos labirintos do prazer, André enlouquecia.
Com Mariana foi assim. Barzinho. Jantares. Boates. Motel. A lógica da lógica desses tempos tão banais. Mas Mariana gostava de dançar e não há nada mais poderoso e sensual do que o corpo de uma mulher em movimento. Mariana percebeu, então, que André reagia calorosamente a seu corpo em movimento.
O primeiro orgasmo da dupla foi em uma pista de dança. Assim mesmo. Vestidos.
Ela dançava. A pista fervia. Fumaça e luzes ensurdeciam Mariana e André em meio à roda de homens que se formou para observar os movimentos sensuais dela. André estava confortavelmente sentado em um canto que lhe favorecia uma visão entrecortada de Mariana. Ela se insinuava. Não necessariamente para ele. Os olhares eram cada vez mais agudos. Devassos. Mariana dominava a música. O vestido curto pregava peças aos olhos desatentos. Aos atentos concedia recompensas fugazes. André levantou-se. Foi ao banheiro. Lá passou alguns minutos. Voltou e reencontrou Mariana bebericando uma água tônica no bar. Falaram alguma coisa e partiram. Não dava para dizer se estavam apaixonados. Mas certamente estavam saciados.
Mariana e André são duas pessoas muito criativas em matéria de perseguição ao prazer. Em outra oportunidade, durante uma viagem ao interior de São Paulo, Mariana viajou nua no carro. No banco traseiro, enquanto André dirigia. Novamente a música a embalar movimentos muito mais desavergonhados em um espaço mais restrito e frequentemente sob olhares curiosos. André dividia seu voyeurismo por Mariana com afortunados a esmo. Motoristas de caminhão, cobradores de pedágio e outras figuras míticas das estradas brasileiras.
Teve, ainda, a vez em que ele a fotografou durante um dia inteiro. Um sábado chuvoso em Petrópolis. Em grutas, no verde da Serra e em casarões antigos. Foram mais de 2 mil fotografias que ninguém jamais viu. Vez ou outra eles voltam a elas em conversas picantes que mantém ocasionalmente. André não está no Brasil no momento. Mas a internet não o impede de se relacionar com Mariana. Eles não estão juntos, mas seguem juntos.


Laura e o diário

Não quiseram acabar com o meu casamento. Foi o que me disseram depois. Por isso não me entregaram o que me cabia. Das suas memórias. Desculpe.

Como poderia imaginar que as coisas não aconteciam de verdade como mamãe não se cansava de dizer? Que os homens apenas partiam e que as mulheres ficavam. No futuro do pretérito.

E você estava ao meu lado enquanto vagava pelo estrangeiro. Sob o desconhecido e luas sem luz tantas coisas foram ditas. Como rascunho. Em tinta. No silêncio dos bombardeios.

Nunca mais eu e você. Até hoje. Quando eu aprendi que as mães não sabem do amor mais do que as filhas.

 

Crônica originalmente publicada em: http://coletivoclaraboia.wordpress.com


As rosas não falam

rose

O labirinto de flores acolhe em sua densidade verde uma rosa muito branca e outra bem vermelha, ambas a desabrochar. O vento, cupido esperançoso, tenta aproximá-las com rajadas de incentivo, o que parece não funcionar.  Tal qual diferem em cores, assim sol e lua só atingem uma por vez a cada volta do dia. Em comum apenas o fato de que compartilham o mesmo céu.

Se falassem, talvez tivessem muito que dizer; uma declaração sobre a beleza, uma paixão pelo mundo vibrante, vontade de sorrir ou chorar junto. Mas não há sussurro. Porventura, com muita atenção, ouve-se um suspiro de melancolia. Emitido no momento em que certo cavalheiro passa, distraído, pelo labirinto. Para, surpreendido. Olha e decidido, colhe a vermelha rosa, leva esta até sua cartola e a transforma em adorno vaidoso. Perde-se no verde das folhas até sumir em algum corredor infindo. E a rosa branca, pobre infeliz, descobre que há algo mais duro e cortante do que o silêncio. Chama-se ausência.


Por uma leitura mais justa

Mais do que um compilado de frases de efeito, o livro que retrata a história do principezinho do planeta B612 – “O Pequeno Príncipe” –  é uma lição de vida. O enredo de veia infantil atinge tanto crianças quanto adultos pela relação que estabelece entre as faixas etárias, e é assim que vai encantando multidões pelo mundo afora.

Pode-se até dizer que Exupéry usa de um tom quase filosofal, mas não se assuste, porque não tem nada de Aristóteles, Platão ou Demócrito – aliás, passa é muito longe dessas! A relação que o tal príncipe trava com todos aqueles que encontra durante sua jornada sempre lhe trazem um aprendizado. Todos os planetas que visita – e com a Terra, são sete – é um mundo que desvenda, experiências novas e lições de vida, coisas que ele leva, ao final do livro, de volta consigo.

A riqueza do contexto está justamente nas amizades que o Pequeno Príncipe faz e, principalmente, nos conceitos que ele estabelece ao longo de sua viagem. A noção de importância, de justiça e honestidade estão muito presentes e é a soma de cada uma dessas percepções que permite ao jovem viajante chegar às conclusões mais lembradas do livro.

Há, sim! – e é preciso assumir – um melodrama que envolve a saga e que aparece nitidamente na relação de amizade sofrida do menino com a sua rosa. Ela interfere, mas de forma positiva, pois tudo aquilo que absorve de princípios, ele remete à sua relação com a flor.

O autor também trata a questão da morte, de uma forma um pouco dolorida para quem a experimenta, mas tranquila para aqueles que ficam. Como ponto de maior tensão do livro, o encontro do príncipe com a serpente causa raiva, tristeza, mas também causa a esperança da volta para casa, como que se pudéssemos afirmar que todos nós seremos estrelas um dia.

A história, em si, é um pouco ralentada para os mais pequenos, sem grandes emoções; para um leitor iniciante, o livro é excelente, pois é dividido em capítulos curtos. A versão mais difundida do livro possui ainda as aquarelas originais do autor, que acabam auxiliando e muito a prender a atenção das crianças.
“O que é belo no deserto é que ele esconde um poço em algum lugar”, e este livro esconde muitos poços em um único deserto.

Texto inicialmente publicado no site “Moleca-Moleca e Moleque-Chiclete”, adaptado para esta publicação.


Morador de rua

 Há algumas notícias que falam por si só e, mais do que isso, falam também entre si. Pela manhã, eu havia lido sobre os três adolescentes que confessaram ter queimado vivo um morador de rua no Guará. Discute-se apenas quem foi que jogou o fósforo – a gasolina foi uma garota, filha de policial. E queimaram pela mesma falta de motivo com que se queimam moradores de rua pelo Brasil afora, e aqui em Brasília em particular, referência nesse tipo de crime após a morte do índio Galdino há mais de quinze anos. Queima-se porque não se suporta que sejam moradores de rua e porque, havendo mal a fazer, o melhor é que seja feito contra quem não tem nada a perder. E também porque presume-se que quem mora na rua boa coisa não pode ser, pois certamente estão todos envolvidos em diversos tipos de delitos na região. Também para fazer justiça, queima-se vivo.

 Essa foi a notícia da manhã. Pela tarde, outro morador de rua foi destaque. Adeílson Mota de Carvalho, 37 anos, carregador nas proximidades da Rodoferroviária, encontrou o estudante Felipe Dourado, desaparecido há quase duas semanas e que desde então mobilizava a cidade. O morador de rua havia visto os diversos cartazes de “Desaparecido” espalhados por Brasília, e notou que havia uma extraordinária coincidência entre o retrato que eles exibiam e o sujeito que encontrou dormindo em um papelão embaixo de uma jaqueira.

 Chamou o jovem pelo nome, mas ele negou que se chamasse assim. Procurou então um cartaz para se certificar de que não havia se enganado. Tendo certeza, avisou a Polícia Militar de que o havia encontrado e pediu que chamassem logo os familiares do jovem. Feito isso, pediu ajuda a alguns funcionários de uma autoescola na região e com eles organizou uma espécie de cerco para que o rapaz não fugisse. Assim foi feito até que chegasse a irmã de Felipe, e depois outros familiares e a própria PM. Tudo isso fez Adeílson, não obstante morar na rua.

 Eis aí as duas notícias que tão bem dialogam entre si.