Arquivo do mês: julho 2013

O caso das 14 horas

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Emácio secou as mãos demoradamente na toalha branca e ligeiramente aveludada de seu lavabo enquanto um cd de Phil Collins concluía sua última faixa no tocador. A próxima consulta já iria começar. Tratava-se de uma consulta preliminar, um potencial novo paciente. Apesar de já ter um consultório há dez anos, Emácio se flagrava com um frio na barriga em situações como essa.
A campainha tocou. O consultório de Emácio ficava em uma casa bastante arborizada de um condomínio em um município da região metropolitana de São Paulo. Poderia ser uma residência, mas era um consultório. Sobriedade e conforto caracterizavam o espaço.
Plínio entrou. Era um homem alto, não exatamente magro, com traços poucos marcantes e uma postura que certamente lhe valeria, se já não garantia, uma dor nas costas no futuro.
Plínio havia falado pouco de si quando da marcação da consulta. Não causou nenhuma especial impressão em Emácio naquele primeiro contato. O terapeuta se sentia aliviado em circunstâncias assim.
A timidez de Plínio e o tato calculado de Emácio marcaram os primeiros minutos da sessão. Plínio parecia querer construir o momento para uma revelação que nem mesmo ele tinha convicção de sua procedência.
Foi lá pelos 45 minutos de sessão que…
– Pois é isso doutor. Me sinto lesado! Não sei como elaborar exatamente. A vitima de bullying hoje é protegida pela própria instituição do bullying; que antes não tinha nome. Não tinha reconhecimento formal de pedagógicos e formadores de opinião.
Os nerds, antes, eram execrados e maltratados e hoje são figuras queridas pelo pop. O que é essa porra de Glee? Perdedores que ganham? Ganham o quê, porra?
Emácio, ajeitou-se na poltrona e Plínio continuava seu desabafo pouco respeitando as vírgulas e parágrafos vocais.
– E eu como fico? Sofri o que hoje se chama de bullying e não recebo nenhum tipo de amparo. A era pré-bullying foi parar aonde? O Brasil não tenta, nos trancos e barrancos, corrigir as injustiças históricas cometidas contra os negros? E contra nós? Que sofremos e não tivemos o amparo do instituto do bullying?
Emácio pensou em falar alguma coisa, mas julgou prudente terminar de ouvir a epifania de Plínio. Estaria ele em frente de alguém com baixa autoestima ou apenas egocêntrica ao extremo? O ineditismo do caso, no entanto, era um prazer intelectual. O próprio Emácio havia escrito alguns artigos sobre bullying, mas jamais proposto um recorte tão vanguardista.
A sessão acabou. Eram 15h05. Plínio estava um pouco suado, mas sua cor estava melhor do que quando chegara. Emácio, também um pouco suado, disse que gostaria de revê-lo na próxima semana, no que Plínio concordou e fez um adendo:
– São apenas ideias doutor. Esse pensamento me ocorreu em uma aventura insone. Acho uma sacanagem essa história do antes e depois do bullying. Deveria haver uma espécie de direito adquirido. Esse expediente é usado para tanta coisa…
Depois do “até breve”, Emácio ligou o cd do Phil Collins e foi lavar as mãos.

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Marcela

Ligou o computador e viu que a manchete do portal de notícias era de ontem. Considerou que havia dormido já com a madrugada avançada e que talvez nada de mais relevante houvesse acontecido naquele meio tempo. Ao conferir seus e-mails, apenas propagandas e uma série de “nãos”. O irmão não respondera quando depositaria o dinheiro para cobrir o cartão de crédito, a chefe não questionara quando ela encaminharia os relatórios, o namorado não disse se topava passar o final de semana na praia.

Colocou uma música para tocar, venceu a preguiça e começou a escrever o material para mandar à agência. Durante a manhã reinou uma paz telefônica: nem uma chamada ou mensagem.

Almoçou em frente ao computador vendo um filme antigo de Hitchcok. Por isso não se deu conta que a tv exibia apenas chuviscos no lugar do noticiário. Voltou ao trabalho e conseguiu, lá pelo fim da tarde, encaminhar o texto à chefe, que sequer confirmou o recebimento.

Como ninguém chegasse, jantou um queijo quente com coca-cola e aproveitou para ler. Deixou a porta do quarto entreaberta para ver quando alguém chegasse. Acordou no meio da noite com a cara amarrotada e tão sozinha quanto estivera o dia inteiro. Ligou para o pai, a mãe e o irmão e dava na mesma: caixa postal. Tentou chamar no trabalho dos pais e na faculdade do irmão, mas ninguém atendeu.  O serviço de emergência da polícia não transferia a ligação para nenhum atendente.

A mulher sentiu como se o mundo tivesse metido a viola no saco. Não ouvia o som do salto da vizinha contra o assoalho do apartamento de cima. Ou o barulho de videogame no apartamento ao lado. Ou o ruído dos carros na avenida lá embaixo – como assim não passava nenhum àquela hora? Concluiu que algum acidente grave impedia o tráfego.  Entrou no carro disposta a, ao menos, salvar o irmão do caos no trânsito. O caminho alternativo que escolheu parecia ter sido recém-inventado porque ela não registrou companhia alguma.

Na faculdade, as luzes todas acesas eram desmentidas pelo estacionamento deserto. O segurança não estava na cabine, então, ela teve que erguer sozinha a trava do portão para entrar. Diante das salas vazias, chamou por alguém repetidas vezes. O eco a estudou, mas não se estendeu.

Lá o irmão não estava. Nem no bar na rua de trás do campus, fechado em plena terça-feira. Talvez todos tivessem decidido voltar a pé pelo caminho do ônibus, que era mais iluminado e movimentado. Ligou novamente para o irmão e nada. Com sorte, ainda encontraria com ele.

Ninguém na Nove de Julho. O comércio fechado. Sujeira tomando conta das ruas – será que também acontecia uma greve dos varredores? Os mastros pelados na concessionária de veículos. Ninguém no caminho pro Centro, nem no bairro boêmio ou no caminho de volta. Ninguém na garagem, no elevador ou em casa.

Apenas Marcela na cidade, possivelmente, no mundo…


Acordei

E o frio se foi e o sol voltou a brilhar. Também o Papa deixou o Brasil, depois de uma semana de muitos, sábios e longos discursos. Quanto a mim, devo solicitar as devidas desculpas aos leitores e aos colegas cronistas, pois fui ali fazer um protesto, participar de uma manifestação, e me perdi em muitos temas, e fiquei dias sem mandar notícias.

Depois de alguns dias sem protestos, me dei conta de que ficou apenas a sabedoria. Após um soluço, me dei conta de que havia passado o carnaval e de que eu deveria voltar para a vida normal. Bom, estou de volta! Conto com o apoio de todos para retomar a vida num país diferente. Oras, o Brasil não acordou e novos rumos estão sendo tomados com a pressão e presença popular? Pois bem, é nesse país acordado que quero morar.

Confesso que somente na próxima semana é que irei para a rua saber se realmente o Brasil acordou. Se sim, conto nos próximos dias. Enquanto isso, devo dizer que houve um grande levante da grande rede televisiva e da maior igreja do mundo. Novas virão dessas duas. É esperar para ver.


De quando o problema é Si mesmo

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O jornaleiro grita, o padeiro de bicicleta buzina, a velha senhora resmunga enquanto varre a rua e o sol brilha.

O homem tolo sorri, envergonhado da própria tolice revelada. Sorri honestamente, o que afeta a minha presunção. Acho que o problema sou eu.

Eu que vejo a rotina como a bruxa que oferece a maçã. Ao invés de engolir, como toda boa princesa, eu cuspo e escarro e grito meu malfadado ato de eterno despertar. E eu brigo e xingo e questiono e não admito e agrido e choro e me desculpo e peço um pedaço então.

E sinto o veneno entrando, estrangulando meu rebelde bom senso, asfixiando minha mente provocada, apertando como camisa de força meus braços pequenos que ficam menores e menos. Sou toda contenção. As lágrimas escorrem para dentro, meus olhos são agora de vidro e brilham. Minha boca se move produzindo um “tudo bem”. Sigo os súditos. Abaixamos as cabeças para que desça com menos dureza a guilhotina do tempo.


No dia de todos os dias

Na última quinta-feira dizem que foi o dia do escritor. Vinte e cinco de julho é o dia do escritor. E isso significa que… que… Bem, isso não significa nada, na verdade, porque também não serve de nada além do que uma singela movimentação do comércio. Isso, claro, no caso de escritores, que são lembrados apenas na sessão de autógrafos e na lista dos mais vendidos da Veja. Mas tudo é diferente quando se fala do dia das mães, dos namorados, das crianças e por aí vai. Feliz do comerciário, que lucra seja lá qual for o seu comércio: loja, restaurante, estacionamento, delivery… São esses os dias que salvam o faturamento do trimestre!, e não é a toa que eles acontecem periodicamente: maio, agosto, outubro, dezembro. E esses dias de todas as coisas foram criados deliberadamente, e a cada dia tem mais um. É um tal de dia do empacotador, dia do alfaiate de ternos, dia do cortador de grama. Tem também o dia do trabalho – que é feriado, e ninguém trabalha, o que se torna uma situação um tanto quanto contraditória. E aí inventaram também os dias religiosos: como São Venceslau do Brás, da Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e pra não correr o risco de esquecer ninguém e pra poder incluir também os novatos, inventaram até o dia de todos os santos. Afinal, tá sempre chegando mais gente…

Mas é uma pena que esses ditos dias especiais sejam tratados como motivo para vender mais, porque poderia ser é um motivo para muitas coisas bem mais legais. Por cima, podemos pensar em movimentos de classe, ou mesmo em eventos voltados para a comemoração, discussão, encontros, festas, que seja!, a imaginação tem o céu como limite. Mas não é nada disso.

Também não vou dizer que não gosto de receber os parabéns. Aliás, eu até cobro: cobro abraços, cobro beijos e atenção. Cobro o carinho, a consideração, cobro o reconhecimento do meu esforço, trabalho e dedicação. Porque isso é o que importa e essa é a primeira coisa da qual as pessoas esquecem.

Então eu cobro e hipocritamente comemoro feliz os dias que me dizem respeito.


Grandes Sertões: São Paulo

 

 

“Só se vê prédio e casa. De natureza mesmo, só as nuvens. E aquelas montanhazinhas”. Assim observou a bonita moça sentada à minha frente enquanto nos preparávamos para pousar em São Paulo. Sem dúvida ela achou que seria uma condescendência muito grande incluir o Tietê, também visível ali de cima, entre as obras da natureza na capital paulista. Cheguei até mesmo a ouvir uma conversa questionando se era realmente água aquilo que víamos lá embaixo. A moça bonita reparou ainda na poluição do ar. Fez questão de mostrar a névoa escura para sua amiga. Esta, apenas respondeu: “Tenso, véi!”.

E assim fui chegando a São Paulo, pela segunda vez na vida – estou desconsiderando as conexões de vôos. Há oito anos eu cheguei a São Paulo de ônibus. Já escrevi sobre isso: andei de metrô, caminhei pela Paulista, cruzei a Ipiranga com a São João, vi o Canindé, o antigo Carandiru e preenchi o bilhete de passagem para um velhinho no Tietê – o Terminal, e não o Rio. E era justamente para o Terminal Rodoviário do Tietê que eu iria agora.

Lá eu pegaria um ônibus que me levaria a Taubaté, no Vale do Paraíba. Ainda impressionado por não haver uma ligação direta entre Congonhas e o Tietê, busco um ponto de ônibus na Avenida Washington Luís. Este ponto, imagino, é um dos primeiros contatos dos visitantes com a cidade. Procuro o ponto e não acho. Vejo pessoas paradas sem muita ordem. Não há um abrigo. Não há sequer uma placa indicando o local exato. Decido ficar por ali mesmo. A calçada é apertada. Encosto-me na parede de um comércio. Mal encosto e me pedem uma licencinha, porque estão pintando a parede. Eis a minha recepção na cidade.

Tenho anotado na cabeça o número de um ônibus que devo pegar até uma estação de metrô. O ônibus aparece. Reparo que está escrito realmente o nome de uma estação de metrô no itinerário. Embarco e relaxo. Fico na expectativa de chegar à estação. O tempo vai passando. Começo a achar muito demorado. Mas confio cegamente no itinerário e permaneço dentro. Chego em ruas estranhas. Súbito, o ônibus estaca: é o ponto final. Nem sinal do metrô. Tenho que descer. Estou perdido no meio do nada – até agora não sei onde estive. Nonada. Curiosamente, não fui o único a descobrir que pegou o ônibus errado só no ponto final. Indicam outro ponto para nós. Seguimos para lá. Pego outro ônibus, essa vez escrito bem grandão “Metrô Jabaquara”. Pergunto ao cobrador quanto tempo demora até lá. Ele responde: mais ou menos uma hora. Quase pergunto se isso é no fuso daqui ou no de lá.

Chego, finalmente. Vou comprar um bilhete para o metrô. A fila está enorme. Sou tomado por uma repentina saudade da roça. Começo a questionar a minha decisão de viajar. Murmuro palavras muito duras contra a cidade, e o que menos disse foi que era uma loucura. Compro o bilhete, entro no metrô e enfim chego ao Tietê. São quase quatro horas da tarde e eu ainda não almocei. Decido comer um prato completo, refeição de verdade. Vou a uma lanchonete, passo um tempo escolhendo, e então faço o meu pedido. O atendente explica: refeições, só a partir das cinco horas. Suspiro. E desejo ardentemente que o Vale do Paraíba ainda seja conhecido como os Sertões de Taubaté.


Descalça

descalçaPássaros despertam a aurora. Homens lapidam inutilidades. O mundo nublinifica-se. Alguém se descuida. Amanhece, o motel segue agitado. As prostitutas ainda vivificam umas tantas ruas da cidade. Há quem as ridicularize. Uma agência bancária, à esquina – lírica vitrine horas antes. Percebe-se um rato. Pulseiras espalhadas pelo chão, também um sapato – e não é de cristal. Mas é realmente um sapato. Ela perdeu-se, ele a tragou – cantarola o mendigo entre lágrimas, mais que rouco. É um inicio.  O dia entrega-se, como de costume, distraído. O sapato, ela vocifera – e apenas isso.