Arquivo do mês: junho 2013

Epistemologia de Cadarços

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 Eu reparo o mundo. Meio que descaradamente mas não por sem-vergonhice, deixo claro. Reparo por certo interesse antropológico, penso, algo externo e incontrolável ao meu tímido bom senso. Gosto de estar sozinha em lugares públicos cotidianos e observar atentamente; uma espécie de perversão reprimida sem motivos. Restaurantes, cafés, lojas de departamento, ônibus, livrarias… Me ponho a analisar, sempre oculta pelo disfarce dos fones de ouvidos, as personagens que aparecem nas mais diversas cenas. Velhinhas, homens idosos, casais homos e héteros. Crianças atentas e pais perdidos. Adolescentes desavisados e desinibidos. Cães sarnentos. Gordos pombos. Reparo em toda e qualquer espécie de trejeitos. Modos afetados ou contidos de falar. De agir sob influência ou emoção. De atuar inconsciente. Olho muito. Mesmo. E sempre me surpreende quando se dá aquele momento em que, por espécie de enigmática hipnose, me olham de volta, conscientes do indizível. Julgo tal ato fantástico exemplo de nosso sexto sentido. A capacidade extra sensorial do reparado reparar o reparador no exato instante da reparação. Nesse momento de constrangimento, quando me sinto questionada pelo silencioso o que você está olhando, me envergonho da minha obstinada curiosidade atrevida. Desvio os olhos. E é quando se ilumina outro ponto de minha observação. Saltos, bicos finos e largos. Chinelos velhos, sapatilhas folgadas e encardidos cadarços. Vejo a simpatia, a apatia, a revolta que o rosto esconde ou estampa afirmada ou camuflada. Compartilho ou repudio sentimentos. É no extremo final do corpo que concluo meu estudo do objeto e posso me voltar tranquila para o resto do mundo outra vez. Seguir o dia olhando outras vidas.

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…cai, não fica nada!

É lindo ver as ruas cheias, pés em movimento, ânimos inflamados. Mas é triste ver que as bocas estão murchas, cabeças ainda estão ocas e os corações são vazios. Porque lutar não é bater no peito, dizendo-se acordado; não é se juntar pela emoção, não é responder o coro. Para esses, os heróis morreram de overdose, vencidos, lembrados apenas por uma verdade que eles mesmos deixaram para trás. Hipócritas.

Quero mesmo é ver gente que sabe o que diz, que arregaça as mangas, que defende em pé, pela razão, que leva o coro, cujos ídolos sabem que esperar não é saber e que fazem, sem esperar que as coisas aconteçam por acaso.


Meu cerco na Lapa

À Theodoro Soares Fragoso, antepassado que em 1836 morava na Lapa e colhia duzentas mãos de milho e nove alqueires de feijão, e tinha de renda cem mil réis. 

A Lapa é uma cidade a 69 quilômetros de Curitiba. É uma distância segura. Uma das vantagens em se visitar a cidade é a possibilidade de passar quase despercebido. Os turistas estão para a Lapa assim como os pombos estão para Curitiba: tomando conta das principais praças da cidade, todos os dias da semana, sempre em grupos animados, em número cada vez maior, ficando cada vez mais ousados, e fazendo parte de uma rotina que não merece mais muita atenção.

O curitibano do século XXI sente-se chocado com algumas das noções de planejamento urbano existentes na Lapa. Não consegue conceber a ideia de que existam ruas de calçamento em pleno centro da cidade. É como se o centro de Curitiba fosse engolido pelo Largo da Ordem. Todos os 14 quarteirões do Centro Histórico da Lapa não possuem asfalto. E nem sinaleiros. Em tempos de eleição, essa é uma característica amplamente favorável. Os homens urbanos certamente veriam com indignação a calçada da Rua Francisco Braga – sem dúvida a mais estreita de toda a Região Metropolitana de Curitiba. Mal cabe uma pessoa em cima dela, e essa pessoa geralmente encontra uma outra, vindo na direção oposta. Gosto de pensar que, na verdade, essa é uma eficaz estratégia do governo municipal, com o admirável objetivo de conceder ao cidadão comum a chance de praticar um ato de bondade, descendo da calçada e permitindo que um outro cidadão passe com mais tranqüilidade.

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Estratégia da prefeitura da Lapa para estimular a gentileza

A cidade conta com pouco mais de 40 mil habitantes. E assim como a capital paranaense, a Lapa também possui uma rua chamada XV de Novembro. Mas ao contrário da concorrida homônima de Curitiba, a rua lapeana possui tanto movimento quanto as outras ruas vizinhas: muito pouco. Há outra diferença fundamental que separa Curitiba da Lapa. Na Rua XV de Novembro da capital, os cidadãos curitibanos erigiram um imponente templo ao consumo e à modernidade. Na Rua XV de Novembro da Lapa, os cidadãos lapeanos ergueram um estranho prédio para preservar a memória de seus heróis. No “Pantheon dos Heroes” descansam em paz muitos dos cidadãos da Lapa, e provavelmente muitos outros que apenas morreram na cidade. Eis, portanto, a diferença: os lapeanos erguem templos ao passado, e nós a um futuro incerto, e provavelmente prejudicial.

Se morresse, o General Carneiro estaria neste Pantheon

Esses heróis da cidade morreram durante o Cerco da Lapa, na Revolução Federalista, em 1894. As tropas legalistas, em menor número, conseguiram impedir que os maragatos vindos do sul avançassem e chegassem com a revolução na capital do Brasil. E o líder das forças legalistas era o General Carneiro, esse mesmo senhor sob os pés de quem estou sentado nesse momento. É a praça que leva o seu nome, e a estátua em bronze também é a sua. Sei que se trata de um militar, um ex-combatente da Guerra do Paraguai, mas esqueço nossas diferenças e começo a puxar assunto. Penso em dizer que ele possui a grande vantagem de não ser estátua em Curitiba, onde atrairia apenas pombos. Assim como eu, o General Carneiro não nasceu na Lapa. Mas hoje, é ali que seu nome soa melhor. Não acredito que suas cinzas estejam realmente no Pantheon. O General Carneiro sequer morreu. O número de homenagens que recebe, o seu olhar imponente, o seu rosto convicto, a sua aura de valentia, a freqüência com que seu nome é pronunciado, a importância que representa para a economia da cidade, tudo isso é prova suficiente de que o General Carneiro continua bem vivo no pensamento de uma cidade que, por algum motivo que não conseguimos entender direito, se recusa a esquecer tudo que se refira ao seu passado.

 Temos em comum a infelicidade de não ter nascido na Lapa 

Ao me despedir do General, encontro o embaixador Hipólito Alves de Araújo, que desde 1957 é um bonito busto na mesma praça. Pareceu-me um bom sujeito, que libertou seus escravos oito anos antes da Lei Áurea. Ele olha fixamente para o Hospital que criou, do outro lado da rua. O prédio informa o ano da construção, que foi o de 1924. Ontem, praticamente.

Ainda mais se repararmos na Igreja de Santo Antônio, que fica na própria praça, e cuja porta informa uma data ocorrida há praticamente dois milênios: 1784. Sua arquitetura é em estilo colonial português simples. Dentro, há imagens do século XIX, trazidas da Europa. Mas tivemos o azar de estar lá em plena segunda-feira. Nesse dia, a Igreja fica fechada. Tudo que podemos fazer é ficar no espaço entre a porta central e a porta que dá acesso ao interior da Igreja. Pelo vidro, conseguimos enxergar o que existe lá dentro. Ao meu lado, um senhor e duas senhoras estão em profunda concentração, com semblantes contritos. Não é a segunda-feira e tampouco uma porta que vai impedir que eles orem. Em silêncio, observo aquela admirável manifestação de fé lapeana.

Igreja de Santo Antônio, para nós quase contemporânea a Cristo

Dizem que são 258 as edificações do Centro Histórico, das quais 38 datam do século XIX. A definição “Centro Histórico” não é de meu agrado. Sugere a existência de um outro centro, um centro que temo conhecer e me decepcionar. E, na verdade, tenho sérias dúvidas sobre a necessidade de um outro centro. Por ali, temos uma Igreja, uma praça, uma escola, um mercado, um hospital, uma farmácia, um terminal de ônibus e 24,41 hectares de passado e história, disponíveis de forma democrática a todos, incluindo aqueles que, como eu, não moram na cidade.

Caminhando pelos quarteirões, encontro a casa onde o governador Ney Amynthas de Barros Braga resolveu vir ao mundo. Muitos governadores do Paraná ainda irão nascer, mas tenho certeza que dificilmente um deles terá o seu nome estampado com tanto orgulho na casa onde nasceu. Existe ainda a Casa Lacerda, sede do Quartel General durante o Cerco da Lapa. Também existe a casa onde – dizem – morreu o sempre vivo General Carneiro. Há a simpática prefeitura, ao contrário do que estamos acostumados. A Casa dos Cavalinhos, onde um homem sonhou com cavalos alados e ganhou o prêmio máximo na loteria imperial. Hoje, essa casa guarda o acervo da memória lapeana que não está no inconsciente coletivo. E uma quantidade considerável de casas com placas na entrada, explicando a razão pela qual nós, estranhos seres contemporâneos, devemos reverenciá-las por toda a eternidade.

É o tipo de cidade em que até mesmo a prefeitura é simpática

Passo novamente pelo Antigo Beco da Tia Caetana, hoje Rua Dr. Amynthas de Barros. Coisa impensável em Curitiba: motoristas cumprimentam pedestres de dentro do carro. E pedestres cumprimentam outros pedestres. A Lapa oferece popularidade aos seus cidadãos. Encontro um motorista de chapéu, que me faz pensar nos tropeiros que seguiam de Viamão para Sorocaba. O antigo caminho das tropas é hoje uma bonita avenida, com 2 quilômetros de jardim.

tropas

Hoje em dia as tropas podem até sentar para descansar 

Descendo novamente a estreita Rua Francisco Braga, e praticando uma nova boa ação, chego até esse antigo caminho, no trecho que hoje se chama Rua Dr. Manoel Pedro. De lá, alcanço o Terminal Rodoviário José Ribas e me preparo para voltar.

Enquanto lá estou, uma moça se aproxima de mim. Ela segura uma prancheta e uma caneta. Certamente está fazendo alguma pesquisa eleitoral, pois estamos na época. A Lapa conta com tão poucas placas de propaganda política que chego a pensar que se trata de um novo Cerco. Mas ela se aproxima de mim, e antes de me dizer qualquer coisa, pergunta se eu sou da Lapa.

Tive uma doce vontade de mentir e dizer que sim, que eu era da Lapa desde o começo, desde que eu me conheço por gente. E, ao mesmo tempo, tive uma vergonha tão grande de confessar que eu era da capital que o máximo que consegui fazer foi negar, sem dizer de onde eu era.

– Não, eu não sou da Lapa.

Foi uma decepção tão grande para ela que não quis mais papo comigo, e então caminhou na direção de um outro cidadão. Dessa vez, um bom e pacato lapeano.


Esforço de compreensão

A presidente se reúne com o presidente do STF, Joaquim Barbosa, em Brasília. Foto: Agência Brasil

A presidente se reúne com o presidente do STF, Joaquim Barbosa, em Brasília. Foto: Agência Brasil


A multiplicidade e o caráter diverso dos protestos que ganham o Brasil apontam para uma convergência: a total e indignada insatisfação popular com os rumos que a classe política estabelecida tem dado ao país. E é só essa a certeza límpida a emergir desse movimento confluído, plural e com agravantes que só podem ser insinuadas neste momento. O que se nota, à reboque dos fatos e evidências, é um esforço de compreensão conjunto e coletivo por parte dos três poderes, da mídia (informalmente o quarto poder), mas também de representantes da sociedade civil ligados à intelectualidade. Não está claro, ainda, o Brasil que se propõe e o Brasil que se terá mediante reivindicações legítimas, vandalismo, inquietação e clamor que se verificam país afora e adentro.
Governantes, partidos políticos e demais players do cenário político tentam entender os anseios profundo que movem uma massa heterogênea contaminada por oportunistas e bandeiras históricas (MST, para ficar em um exemplo óbvio).
A BBC Brasil recentemente fez uma reportagem em que busca similaridades entre os protestos no Brasil e Occuppy Wall Street de 2011. Articulistas prestigiados dos mais importantes jornais do Brasil pensam uma coisa para depois pensarem outra acerca dos protestos, sua dimensão e possíveis efeitos práticos na cena política brasileira. Efeitos esses que, ainda que desgovernadamente, já se fazem sentir. O primeiro foi a fatídica redução da tarifa do transporte público em diversas cidades brasileiras. A segunda foi a ruína da PEC 37, séria ameaça ao combate à corrupção e crimes do colarinho branco. A mais profunda mudança, no entanto, foi acossar o congresso. Em parte devido à atrapalhada proposta de constituinte exclusiva proposta por Dilma, em parte pela voz das ruas ser especialmente raivosa para com o congresso, os parlamentares do Brasil puseram-se, pelo menos enquanto o forno ainda aquece, de ouvidos à nação. Propostas importantes para o país estão sendo postas em pauta. É alguma coisa, mas também não é nada de especial em uma cena política tão volátil como a brasileira.
O perigo que se espraia, e precisa ser considerado, é o conchavo do populismo que caracteriza nossos vizinhos na América do Sul ressurgir no Brasil recodificado. Dilma, do ponto de vista do marketing, lida razoavelmente bem com a situação. Do ponto de vista institucional, beira à negligência absoluta. Do ponto de vista político, rasteja morosamente. A atual semana deve ser decisiva para o futuro dos protestos e para o ânimo das ruas.
O governo tergiversa enquanto tateia os melhores mecanismos para capitalizar politicamente, ou evitar o derretimento em curso, e abrandar o humor de uma nação que apesar de se manifestar democraticamente, flerta com impulsos obscuros. À luz de eventos que a História catalogará com maior assertividade, nos resta a mobilização e vigilía. Mesmo que, para isso, seja necessário abandonar causas sem futuro viável no país; como a tarifa zero no transporte público, ideário esquerdista que como Dilma bem se posicionou não fecha. Ou paga o usuário ou paga o contribuinte. Lembremos que a carga tributária no Brasil já é por demais onerosa. O famigerado passe livre deu margem a um Brasil melhor. É hora de seguir em frente!


Marcha

Todos os olhares se voltam para mim. De gente de corpos suados ou prestes a suar. São pessoas em outras máquinas rumo ao desconhecido.

Minha função é promover a jornada. Pela manhã trato de coisas importantes e femininas, mas do almoço até o jantar, conto uma história atrás da outra. Passo uns quarenta minutos  me fingindo de séria. E depois, eu me liberto de novo.

A pé, ou pedalando, em no máximo meia hora, eu os guiei ao seu destino. Embora eles não tenham ido a lugar algum.


Intempéries

PROTESTO-BH04

Como falam! Como clamam, como apontam, como criticam. São muitas cabeças, muitas ideias, muitas vozes e opiniões. Uma infinidade infinda de direções. Quem seguir? A si? Ao outro que também não sabe bem para onde ir? Há uma fome, uma fúria, um vazio que tal qual o universo não se sabe como será preenchido. Há milhões de letras sendo escritas, lidas, reeditadas, compartilhadas e repartidas. Existe uma coragem que de forma honrosa encobre o medo do final do túnel. Esperança, teremos? Um herói, precisamos? Quem sabe uma força vinda da estratosfera com flores frescas e novos frutos de sabedoria. Vai-se o momento de meditar. É necessário pegar a bandeira e continuar. Até o precipício. Nossos ossos, ao futuro, hão de dizer do que fomos feitos. E o silêncio que se fará, solução ou não, será o retrato claro de que a paz só pode vir dos gritos.


Não é mais do mesmo

Então era isso que a dona Dilma tinha para falar. E pelo que se pode perceber pelas redes sociais, o povo não curtiu nem um pouquinho o que ela disse para toda a nação. Estão comentando por aí que o discurso não trouxe nada de novo, que a gente já sabia tudo isso de cor, blablabá. Será mesmo?

Por que, pensando bem – e lendo o discurso com bastante atenção –, ela disse, sim!, muita coisa. Brasileiras e brasileiros que a ouviam estavam banhados de pré-conceitos, predispostos a não gostar do que ouviriam e sequer se deram conta do que, no fundo, foi dito. A coisa é bem diferente e não se trata de mais do mesmo.

Note que logo no comecinho, ela tratou as manifestações populares como “uma nova energia política”, e talvez a pessoa que elaborou o texto não informou à presidente1 o peso que isso, na realidade, tem. Porque se existe uma nova energia política, existe também uma nova situação política, em que as condições são diferentes das anteriores e, portanto, passíveis de remodelagem. Ué, não é justamente isso que a gente queria? Não é esse um dos motivos pelo qual saímos às ruas? Já temos a fome, mas nos falta ainda a faca, o queijo e a vontade de comer.

Mais adiante ela confirma algo de que a gente só percebeu recentemente: que a união do povo tem força – e muita! – e que será dessa forma que conseguiremos atingir os nossos objetivos enquanto cidadãos. Ou ninguém escutou a dona Dilma dizendo que “temos que aproveitar o vigor das manifestações para produzir mais mudanças”? Por um acaso, alguém prestou atenção no mais que apareceu nessa frase? De todos os que estiveram clamando por um país melhor, será que um de vocês, ao menos um!, entendeu o que essa palavra pode vir a significar? Pois foi assim que ela nos entregou de bandeja o poder de produzir essas tais mudanças. Ou seja, ganhamos a faca.

Em seguida, nossa presidente comunica que vai “receber os líderes de manifestações pacíficas, os representantes das organizações de jovens, […] associações populares”. Partindo disso eu pergunto: quem serão os próximos a reivindicar? Qual o próximo objetivo a alcançar? Qual será o próximo movimento popular que levará milhares de pessoas às ruas para lutar por melhores condições de vida, por educação, saúde? Porque, notem, foi exatamente isso que ela mesma nos disse!, que receberá o povo brasileiro, que ouvirá nossas queixas e propostas. Os mais acomodados dirão que é inocência minha acreditar que haverá esse diálogo, mas eu digo que é burrice de cada um de nós que não usar as palavras dela a nosso favor! Imaginem milhões de pessoas, na frente do Palácio dos Bandeirantes gritando, urrando que ela nos ouça como prometeu. Garanto: ela não terá condições de voltar atrás no que disse em rede nacional. E com isso nos tornamos detentores da fome, da faca e agora, também, da vontade de comer.

Tudo o que nos faltaria, então, seria o queijo, mas a dona Dilma o ofereceu momentos depois quando admitiu por duas vezes que o cidadão é a peça mais importante de todo esse jogo. Foi dito com todas as letras que é a cidadania […] quem deve ser ouvido em primeiro lugar e, pasmem!, a presidente disse, também, que existe a necessidade de se fazer um esforço para que “o cidadão tenha mecanismos de controle mais abrangentes sobre os seus representantes”. Ela jogou na nossa cara, assim, sem dó nem piedade, bem escancarado, que nós não cobramos o que nos prometeram, que somos um bando de conformados-acomodados – não necessariamente nessa mesma ordem.

E aí pareceu que o queijo estava meio azedo, ruim de engolir, só porque ela falou que os royalties do petróleo seriam aplicados na educação, ou ainda sobre a importância da copa do mundo2 para o Brasil. Soa esquisito, é verdade, se a gente estiver focado somente no umbigo da população; mas faz um pouco de sentido quando se amplia o olhar para enxergar o horizonte, porque essa é a função primária da dona Dilma, que, na posição de presidente, precisa olhar para a coisa como um todo. Mas ficou um gostinho de azedo porque o tom do discurso foi realista, e como estamos todos vivendo de emoção, ninguém quis tentar entender.

Não, não apoio o governo e repito: não apoio o governo! Também não estou contra, não me enquandro em direita, ou esquerda, tampouco estou em cima do muro. Estou é no meio do povo, querendo mostrar a todos que já conseguimos mudar algumas coisas e ainda que tudo isso se resuma no discurso do poder executivo de nosso país, foi o primeiro passo. Como um bebê, estamos engatinhando, para depois ficar em pé e, por último, correr.

A chance está aí, nas nossas mãos. A presidente confirmou que juntamos a fome com a vontade de comer, e assumiu que estamos com a faca e o queijo na mão. Agora é que entra o slogan: depende de nós.

Mas se a gente achar que fizemos a revolução só porque fomos às ruas, não seremos mais do que uma questão de cinco alternativas do quesito Atualidades dos vestibulares dos próximos anos. Apenas teremos mudado a história desse país se nos movimentarmos cada vez mais, com objetivos cada vez mais profundos e direcionados, inundados de clareza e discernimento. Quem vive de Facebook é o Zuckerberg; o Brasil vive dos seus brasileiros. Se o gigante acordou de verdade, é hora de pensar no próximo passo.

Acesse aqui o link para o discurso completo.

Pequenos e rápidos pareceres gramaticais:

1. Terminantemente, me recuso a infringir a língua portuguesa dizendo presidenta.

2. Meu conceito de copa do mundo me impede de imputar-lhe a letra maiúscula.