Pública

Ela enrolava suas poucas roupas, como se espaço lhe fosse um problema. Agora, tudo à sua volta lhe pertencia, todos os lugares se faziam sua morada: a rua, a sarjeta, as calçadas. Sentada na porta de uma loja, local que adotara recentemente para sua cama, dobrou os cobertores que lhe serviam de colchão, com dificuldade se levantou e serviu um pouco d’água para seu companheiro.

Eram sete da manhã. Suas vestes eram as mesmas de ontem, de anteontem; eram as mesmas desde que perdera a casa na enchente. Não se sentia tão infeliz quanto as pessoas pensavam. Mais difícil era dividir o coletivo lotado. Agora a única coisa que dividia com os outros era a calçada.

Cuidavam dos seus pertences como ninguém e faziam questão de manter limpo o arredor da cama improvisada, numa espécie de mantra silencioso. Uma vez notei que algumas pessoas os viam com maus olhos, mas não entendia o motivo, pois unca importunaram ninguém que passasse por ali, não pediam esmolas e nem comida. Não fosse pelo cheiro que exalavam, poucos os perceberiam.

Uma vez vi o fiscal do coletivo falou umas palavras com os dois, baixinho, não deu pra escutar. Logo em seguida eles sairam, carregando o carrinho com seus pertences. Mas na semana seguinte lá estavam novamente e pela primeira e última vez escutei a voz dela.

“Não tô fazendo nada. Ele nem manda na rua…”

Uma outra vez um guarda da polícia pediu que desocupassem o local. Sentiu-se envergonhada. Até eu fiquei imaginando qual era o crime que ela teria cometido. Minha vontade era perguntar ao guarda se era proibido dormir na rua e se a resposta fosse sim, perguntaria a ele também para onde iriam, então… Porque chamar a polícia? Ela apenas dormia e limpava a calçada antes de sair. Que mal poderia ter?

Ela saiu, em silêncio. Às nove da manhã voltou e pediu para falar com o gerente. Foi maltratada pela vendedora, mas esperou.

“Nunca mijei na sua porta!”.

O gerente pediu desculpas, disse que orientaria o guarda a não mais importuná-la e que se o que ela queria era somente dormir, a permissão para dormir na calçada estava dada.

“Permissão? Você está me dando permissão? Pública! Ela é pública! Sua calçada e a minha cama são públicas!”

3 comentários em “Pública

  1. Muito bom, Bia! Gostamos bastante. A vida não é nada fácil, especialmente para quem não vive conforme os padrões (ter e parecer, ao invés de ser).
    Abraços, Jana e Jaime

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