Minha vida alemã

Não, definitivamente não é fácil ser alemão fora da Alemanha. Em São Bento, minha terra natal, sou apenas mais um Fendrich, que também precisa responder qual é o parentesco com o pessoal do açougue e da padaria. É um sobrenome conhecido e a maior parte das pessoas sabe escrever. Mas eu estou em Brasília, e por aqui não há muitos alemães. Eu certamente seria o único Fendrich na lista telefônica, caso a situação permitisse que eu tivesse um telefone.

Por aqui, meu sobrenome nunca é pronunciado, apenas soletrado. Ainda hoje tive que soletrá-lo para uma dessas moças que registram o nome das pessoas que entram nos prédios. Em geral, essas pessoas escrevem o que soletro e então ficam olhando assustadas para o palavrão que acabaram de escrever. Mas elas costumam ser precisas: “É sobrenome alemão?”. Respondo que é alemão, austríaco, ou qualquer coisa daquelas bandas lá.

Imagino como seria aborrecido para ela se eu me vangloriasse e citasse a minha história familiar. E, além do mais, de alemão eu não tenho muito mais que o sobrenome. Sou, na verdade, um péssimo alemão. Levo poucos costumes comigo e, se me perguntassem, eu não saberia citar um deles. Nunca participei de festas e bailes tradicionais – sou de temperamento quieto, calado e, como se não bastasse, também não bebo.

Faço parte da geração de descendentes que já não sabe falar alemão. Mas há alguns anos, conheci uma alemã de verdade, e que quase não sabia falar português.

Chamava-se, salvo engano, Stefanie Fischer. Devia ter pouco mais de 20 anos – e isso era mais do que eu tinha. Veio da Bavária e fazia intercâmbio no Brasil. Na minha faculdade, ela seria a professora de um rápido curso de alemão, um mês apenas. Inscrevi-me. O primeiro dia de aula foi pavoroso. Ela não sabia falar português e nós não sabíamos falar alemão – comunicávamos por mímica e inglês, as duas línguas internacionais.

Era daquelas pessoas raras, doces, tímidas e inocentes, e que ao menor sinal de constrangimento ficava vermelha. Isso acontecia com frequência, sempre que arriscava uma palavra em português – no fundo, ela sabia falar muitas coisas, mas tinha vergonha do nosso julgamento. Nós, ao contrário, não tínhamos vergonha alguma do julgamento dela, e usávamos e abusávamos do direito de falar mal o alemão.

Era uma pessoa esforçada, e aquilo que não aprendemos não foi sua culpa. O número de alunos foi diminuindo com o passar dos dias. Eram mais de vinte, e ao final éramos quatro. Havia qualquer coisa de comovente na maneira como nos ensinava, e que hoje não sei definir o que era – mas que ainda me comove.

Um dia falei para ela que tinha ancestrais na Baviera. Ela se interessou, e quis saber em qual cidade. Puxei pela memória o nome da terra dos Mühlbauer, que ela parecia não conhecer. Ela animou-me a aprender o alemão para ir lá conhecer a cidade. Até hoje, não aprendi de verdade o alemão e tampouco fui para lá.

Lembro apenas de algumas injustiças da língua alemã. Não bastasse o sol ser substantivo feminino, ainda temos que suportar o mar como substantivo neutro. Bolas, mar só pode ser substantivo feminino. A mar. Como eu amei a professora alemã, que voltou para casa e sumiu-se para sempre.

2 comentários em “Minha vida alemã

  1. Alemão, uma língua poética e que somente os muito dotados de sensibilidade (apesar de o senso comum achar que não) conseguem aprender! Fala se dar ao Sol um toque feminino não é uma questão filosoficamente bonita? Das ist wunderbar, eu diria!!!

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