Arquivo do mês: abril 2013

O último amor da prateleira

coca-cola1-blog chá com cupcakes

Que o amor é um produto temos aí todos os departamentos de marketing do mundo para nos provar, isto posto, porém, abre-se uma nova questão: dá para consumi-lo com moderação? Não que haja algum risco de superdosagem, mas e se ele não for um bem renovável?

Sim, será que existe alguma certa medida para evitar que a fogueira do amor se apague? Quanta madeira devemos por? E abanar, precisa muito ou pouco? Ficar mais perto vai gastar mais o calor? Não, isso não deve ter nada a ver, embora ficar muito perto inclua riscos inerentes de queimaduras de graus variados.

Tem quem prefira a abordagem biológica ao invés desse papo de fogueira. São aqueles que se referem ao sentimento como a última flor do lácio, uma orquídea rara ou, há que se ter tolerância, como um raro peixe ornamental. Para eles, é o estudo constante e pormenorizado das particularidades e idiossincrasias desse sentimento tão sutil que permitirá que ele ganhe uma pós-vida, por assim dizer.

Veja que mesmos estes contam com uma certa morte do amor. Só que por mecanismos de negação avançados, eles superam isso velando com fervor até que o sentimento retorne ao mundo dos vivos. Tenho dúvidas se nessas o amor realmente ressuscita ou se vem como algo meio morto, meio vivo.  Também gostaria de mais provas dessa teoria, vale até uma foto de um coração espectral, por exemplo.

Essa pseudo-vida seria a troco de quê? Não seria mais bonito tomar até a última gota do que fazer render a história colocando mais gelo? Sim, porque conforme o fim fosse se aproximando e sendo adiado ficaria aquela coisa como refrigerante do McDonald’s – uma bebida aguada, insípida e gelada.

Resta a possibilidade de que não haja morte. Que ele renasça das cinzas. Ou que nunca morra. Ou ainda que se transforme. Ou que seja finito enquanto dure, como previu Vinícius de Moraes. Apesar de tudo, não dá pra negar a beleza da coisa.

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Pega-pega

Em tempos de jogos eletrônicos, onde se pode destruir ou salvar o mundo, ver crianças brincando de esconde-esconde, pega-pega ou outro tipo de brincadeira mais prosaica não é raro, por mais que possa parecer. Quando começa o corre-corre pela casa vem logo atrás uma orientação, digamos ameaçadora, amedrontadora, de um pai ou mãe que, no intuito de preservar testas, queixos, joelhos e cotovelos, pede para os filhos pararem de correr. “Fulano, para de correr!”, diz o pai. “Fulana, cê vai cair!”, diz a mãe. Aí vem a pior, “se você cair não quero nem saber, vai ficar chorando! Não adiante vir pedir ajuda!”.

Não entendo a mínima de psicologia infantil. Também descobri que não entendo é nada de psicologia nenhuma, mas como bom comentador da vida alheia, posso, e sim, fazer juízo sobre a educação dos filhos dos “outros”. Pensemos, existe coisa mais chata que uma criança com um tablet, celular ou vídeo game que não lhe dá a mínima quando você fala com ela? Deve existir coisa mais chata, mas que é uma situação frustrante com certeza é. As crianças isoladas no mundo virtual me incomodam muito, mais do que elas correndo.

Tenho notado nas festas que num determinado momento, os pais, bebendo ou não, começam a filosofar. A primeira e célebre frase é: como as crianças aprendem rápido a mexer em equipamentos eletrônicos? Claro que aprendem rápido, elas não ligam a mínima para o fato de queimar ou apagar a memória do equipamento. Não vão perder nada mesmo. Em seguida vem as teorias sobre o tempo em que as crianças passam vidradas nos jogos. “Se deixar nem come!”, constata uma mãe, causando uma situação dúbia. Será que o filho dela é melhor do que o da prima no jogo, por isso ele fica tanto tempo? Será que meu filho é tão ruim no jogo, ele não passa de fase e por isso fica tão pouco tempo? Será que meu filho tem problemas por não gostar de jogos eletrônicos?

Na sequencia vem a pior fase do filosofar dos pais sobre filhos e jogos eletrônicos: a desistência. Um casal constata que não tem jeito e, por isso, estabeleceu horários para os jogos e a lição. Outro desistiu de vez e comprou uma televisão apenas para o filho jogar, assim não tem que brigar na hora da novela e do futebol. Outro resolveu aprender a jogar e já fazem campeonatos entre todos. Nesse casal há uma rusga entre eles, pois o marido lidera o campeonato da FIFA/soccer, mesmo com a denúncia da esposa de que ele roubou na última partida. E, assim, eles seguem no que se pode chamar de felizes, pois assumiram por completo a teoria de que se caso não possa vencê-los compre um jogo novo para dificultar.

Algumas teorias da evolução do homem como sociedade apontam que em algum momento da história perdemos a conectividade com o conhecimento até então produzido. Claro que a forma que ressalto é simplista, mas vejo que perdemos a capacidade de conectar assuntos. Na sequencia da conversa dos pais na festa, debatendo sobre os filhos e jogos eletrônicos, vem a constatação de que as crianças estão mais gordas, menos imaginativas, com colesterol, sem vontade de fazer nada e que não são com as crianças do passado que não tinham nada mais inventavam e eram mais felizes. Posso culpar pais. Os pais podem culpar os professores. Os professores podem culpar as famílias. As famílias podem culpar o governo. O governo pode culpar que ele quiser, até mesmo a igreja. Perdemos a capacidade de conectar as coisas nas soluções corretas. Se é que exista solução quando se trata de crianças. Oras, as crianças estão mais paradas porque querem ou porque é mais fácil cuidar delas dessa forma? Os pais não estão conectando suas constatações com as possíveis ações para resolver ou modificar o problema? E por fim, quando vamos perceber que evoluir significa, na minha embasada opinião, perder? Essa pergunta, espero, que não requeira explicação.

Como todo bom e saudável fim de festa com crianças, chegamos ao choro. Um “pestinha” caiu ao tentar fugir do pega-pega e bateu a testa no chão. Ele ganhou um belo de um galo. Metade dos adultos parou para atender o “pentelho”. A outra metade foi colocar os seus em atividades menos movimentadas e perigosas, logo deram seus celulares e outros equipamentos para que jogassem e ficassem sem correr e sem correr o risco de novos acidentes. Sem outras ocorrências todos continuaram a comer. Foi um pega-pega geral.


Sereiano

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É noite alta, é sono longe e vai-se a cabeça quebrando em busca de ideia para falar de assunto que não me quer. Preencher papel virtual com engodo nunca me apeteceu. Mas parece que de tudo que podia já falei usando o vento, o sol e o céu. E se, de repente, não sobrou mais nada, acabou meu relacionamento luxurioso com as palavras, teria que dormir atormentada pela assustadora constatação de que sobre esse infinito universo estrelado, onde vaga a solta tanta inspiração, eu não tenho mais o que dizer, me esvaiu a emoção! Ainda ontem, fazia um tratado sobre meu constante e infindo reparar e agora eis que me vejo acuada, frente a esta tela branca que não me diz nada, entrando em silencioso desespero pela falta de uma boa tirada. Rodopio em círculos mesmo estando bem sentada. Olho para os lados, vejo duendes amigos e peço uma dose que seja de iludida fantasia. Eles gargalham como fazem sempre que vêem minha aflição. E eu, tonta que sou, quase me deixo levar outra vez pelo conto da fada trolada. Não, não quero amorzinhos ou grande afetação. Chega também de tristeza e lamentação. Não há remédio ou salvação. Devo aceitar que meu coração só trabalha quando quer. E hoje ele está de folga, voltou aos meus dedos as costas e recusa-se a assimilar fogo a paixão. Deixo então, resignada, este confessionário aberto e vou mergulhar nas páginas de um marinheiro inquieto a quem tive a honra de ser acidentalmente apresentada entre as prateleiras da biblioteca. Para que não fique de todo perdida essa vã tentativa de ao ilustrar meu mundo regalar suas vidas, ouçam Conrad, o mais novo passageiro de minhas íntimas viagens: “escrever é apenas uma conversão das minhas forças em frases”. É meu caro homem dos mares… faça-me companhia esta noite pois Orfeu definitivamente não me visitará. E eis que me sinto fraca com a pena que tenho nas mãos. Leiamos então.


Pública

Ela enrolava suas poucas roupas, como se espaço lhe fosse um problema. Agora, tudo à sua volta lhe pertencia, todos os lugares se faziam sua morada: a rua, a sarjeta, as calçadas. Sentada na porta de uma loja, local que adotara recentemente para sua cama, dobrou os cobertores que lhe serviam de colchão, com dificuldade se levantou e serviu um pouco d’água para seu companheiro.

Eram sete da manhã. Suas vestes eram as mesmas de ontem, de anteontem; eram as mesmas desde que perdera a casa na enchente. Não se sentia tão infeliz quanto as pessoas pensavam. Mais difícil era dividir o coletivo lotado. Agora a única coisa que dividia com os outros era a calçada.

Cuidavam dos seus pertences como ninguém e faziam questão de manter limpo o arredor da cama improvisada, numa espécie de mantra silencioso. Uma vez notei que algumas pessoas os viam com maus olhos, mas não entendia o motivo, pois unca importunaram ninguém que passasse por ali, não pediam esmolas e nem comida. Não fosse pelo cheiro que exalavam, poucos os perceberiam.

Uma vez vi o fiscal do coletivo falou umas palavras com os dois, baixinho, não deu pra escutar. Logo em seguida eles sairam, carregando o carrinho com seus pertences. Mas na semana seguinte lá estavam novamente e pela primeira e última vez escutei a voz dela.

“Não tô fazendo nada. Ele nem manda na rua…”

Uma outra vez um guarda da polícia pediu que desocupassem o local. Sentiu-se envergonhada. Até eu fiquei imaginando qual era o crime que ela teria cometido. Minha vontade era perguntar ao guarda se era proibido dormir na rua e se a resposta fosse sim, perguntaria a ele também para onde iriam, então… Porque chamar a polícia? Ela apenas dormia e limpava a calçada antes de sair. Que mal poderia ter?

Ela saiu, em silêncio. Às nove da manhã voltou e pediu para falar com o gerente. Foi maltratada pela vendedora, mas esperou.

“Nunca mijei na sua porta!”.

O gerente pediu desculpas, disse que orientaria o guarda a não mais importuná-la e que se o que ela queria era somente dormir, a permissão para dormir na calçada estava dada.

“Permissão? Você está me dando permissão? Pública! Ela é pública! Sua calçada e a minha cama são públicas!”


Minha vida alemã

Não, definitivamente não é fácil ser alemão fora da Alemanha. Em São Bento, minha terra natal, sou apenas mais um Fendrich, que também precisa responder qual é o parentesco com o pessoal do açougue e da padaria. É um sobrenome conhecido e a maior parte das pessoas sabe escrever. Mas eu estou em Brasília, e por aqui não há muitos alemães. Eu certamente seria o único Fendrich na lista telefônica, caso a situação permitisse que eu tivesse um telefone.

Por aqui, meu sobrenome nunca é pronunciado, apenas soletrado. Ainda hoje tive que soletrá-lo para uma dessas moças que registram o nome das pessoas que entram nos prédios. Em geral, essas pessoas escrevem o que soletro e então ficam olhando assustadas para o palavrão que acabaram de escrever. Mas elas costumam ser precisas: “É sobrenome alemão?”. Respondo que é alemão, austríaco, ou qualquer coisa daquelas bandas lá.

Imagino como seria aborrecido para ela se eu me vangloriasse e citasse a minha história familiar. E, além do mais, de alemão eu não tenho muito mais que o sobrenome. Sou, na verdade, um péssimo alemão. Levo poucos costumes comigo e, se me perguntassem, eu não saberia citar um deles. Nunca participei de festas e bailes tradicionais – sou de temperamento quieto, calado e, como se não bastasse, também não bebo.

Faço parte da geração de descendentes que já não sabe falar alemão. Mas há alguns anos, conheci uma alemã de verdade, e que quase não sabia falar português.

Chamava-se, salvo engano, Stefanie Fischer. Devia ter pouco mais de 20 anos – e isso era mais do que eu tinha. Veio da Bavária e fazia intercâmbio no Brasil. Na minha faculdade, ela seria a professora de um rápido curso de alemão, um mês apenas. Inscrevi-me. O primeiro dia de aula foi pavoroso. Ela não sabia falar português e nós não sabíamos falar alemão – comunicávamos por mímica e inglês, as duas línguas internacionais.

Era daquelas pessoas raras, doces, tímidas e inocentes, e que ao menor sinal de constrangimento ficava vermelha. Isso acontecia com frequência, sempre que arriscava uma palavra em português – no fundo, ela sabia falar muitas coisas, mas tinha vergonha do nosso julgamento. Nós, ao contrário, não tínhamos vergonha alguma do julgamento dela, e usávamos e abusávamos do direito de falar mal o alemão.

Era uma pessoa esforçada, e aquilo que não aprendemos não foi sua culpa. O número de alunos foi diminuindo com o passar dos dias. Eram mais de vinte, e ao final éramos quatro. Havia qualquer coisa de comovente na maneira como nos ensinava, e que hoje não sei definir o que era – mas que ainda me comove.

Um dia falei para ela que tinha ancestrais na Baviera. Ela se interessou, e quis saber em qual cidade. Puxei pela memória o nome da terra dos Mühlbauer, que ela parecia não conhecer. Ela animou-me a aprender o alemão para ir lá conhecer a cidade. Até hoje, não aprendi de verdade o alemão e tampouco fui para lá.

Lembro apenas de algumas injustiças da língua alemã. Não bastasse o sol ser substantivo feminino, ainda temos que suportar o mar como substantivo neutro. Bolas, mar só pode ser substantivo feminino. A mar. Como eu amei a professora alemã, que voltou para casa e sumiu-se para sempre.


Papo entre umbigos

“Pois se eu nada compreendi é porque sou besta o suficiente  e já posso ser eterno”

(Um meu personagem)

Acordou assim, com aquele hálito de infinito. Fez o que o mundo faz todas as manhãs e se lançou ao asfalto para sentir a poeira da existência. Assoviava e sorria, feito um deus num feriado qualquer. E como caminhava com seus rascunhos sob os braços! Tinha consigo uns sete rascunhos, sete sagrados inacabados. Coisa estranha, pensava alto:

– Não compreendo esses deuses enferrujados a furtar um do outro um mesmo rascunho, a se contentar com uma obra de arte pronta e com doses de imperfeição. Quero falar das mentiras que a existência me conta, dos dias em que os deuses se afogam em mares de hipocrisia. Dia desses fui até a esquina intentando te corromper, mas você não estava lá, foi aí que decidi voltar para casa, conversar com meu umbigo, desenhar um deus. O homem é um deus enferrujado, você me disse semana e meia atrás, quando os anjos tentaram furtar meus rascunhos. Você sabe que o que é triste e o que é divino, mas não sabe o que é pecado pois não o desenhaste. Você sabe o que é céu e também o que é inferno, mas não sabe o que é alma, pois não a desenhaste. Você sabe o que é hoje, o que é ontem, mas não o que é amanhã, pois não o desenhaste. Mas fazes rascunhos, e isso é o bastante. Agora entendo o que é um deus enferrujado, mais parece uma existência que se desfez em tédio. Você com suas verdades, eu desenhando um deus.

Eu navegava também em universos alheios, arriscava incertas considerações:

– José, o mendigo, você não me disse que a vida seria assim, um parque com sete bilhões de deuses. Você não me disse que o homem era assim, um deus enferrujado. Sei que és anjo analfabeto, mas isso não é uma boa justificativa. Falavas sobre vida eterna, mas não me mostrava nem seu rascunho. Falavas sobre alma, mas não me mostrava nem seu rascunho. Eu procurei o coração do dia, encontrei a poeira de seus passos. É estranho, mas às vezes penso que escrevi algum livro sagrado.

Eu e José, o mendigo, tecemos mais e mais considerações sobre deuses enferrujados, sobre homens enferrujados. Até sei que esse é um papo entre umbigos, não me desencante, preciso confundir-me. Não ressuscitei ontem e hoje amanheci com vontade de ouvir canções de ninar.


Fuga

Menino na janela

O menino observava pela janela. Havia um casal. Ele aparentava ter uns quarenta e poucos anos. Vestia terno e falava ao celular. Ela também aparentava ter uns quarenta e poucos anos, mas o menino intuía que ela tinha menos. Não muito menos, mas menos.

O menino percebia que o casal não tinha lá aquela sintonia. A mulher tentou iniciar uma conversa por duas vezes. Não trocaram palavras por mais de 20 segundos. As duas tentativas foram frustradas por ligações que o homem recebeu. A mulher olhava o horizonte e o menino imaginava que ela buscasse respostas. Quais? Divagou.

De repente, o homem se levantou. Pôs-se a andar de um lado para o outro e só olhava para a mulher. Seus olhos estavam expressivos e o menino então ficou apreensivo. Estaria ele com raiva? Emocionado? Muito empolgado? Ele não falava nada! Ficou uns cinco minutos andando de um lado para o outro e olhando para a mulher. Pegava o celular e o colocava em um bolso do paletó para depois pegá-lo novamente e levá-lo a outro bolso do paletó.

A mulher olhava para o horizonte.

O menino então considerou algumas possibilidades: A – O homem se descobriu traído. B – A mulher descobriu uma doença fatal. C – O homem descobriu uma doença fatal. D- O homem descobriu que a mulher descobriu que ele a traía. E – a mulher descobriu que está grávida.

O homem se aproximou da mulher. Abraçaram-se. Trocaram meia dúzia de palavras. Se olharam e o menino então viu lágrimas nos olhos do homem e da mulher.

Juntos eles se direcionaram para o prédio. Desapareceram da janela. O menino continuou ali, olhando para o espaço agora vazio. De repente, a porta do apartamento em que estava se abriu.

– Carlinhos, mamãe e papai chegaram!