Pedaço de papel

Falavam sobre os ossos da avó dele. E também sobre os ossos do avô, da mãe, do pai… Até dos próprios ossos falavam. Ainda que daquela maneira subliminar que sempre impera quando se fala dos mortos. Discutiam o jazigo da família que estaria quitado no próximo mês de setembro.

Ele tinha nas mãos o RG da avó. Era um pedaço de papel bastante desgastado e maltratado pelo tempo. Naquele momento lembrou que o pedaço de papel ainda resistia como sendo algo demasiadamente tocado pela avó. Quis se sentir mais próximo dela. Mas percebeu que era apenas seu desejo solitário no vácuo da existência. Pensava ser um registro de algo que não mais existia, a certificação de uma memória. De uma lembrança confinada a algumas pessoas que dali a algum tempo também seriam ossos.

Encarava a imagem da avó mais jovem do que quando a conhecera. Pensava consigo sobre os propósitos da vida. Suas intermitências e paradoxos. Todos ali flagrados naquele pedaço de papel. Despediu-se do pensamento, pois chegaram a seu destino. Mas sentiu seus ossos estremecerem por dentro.

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