Protesto

Dia desses vi no jornal uma notícia – mais uma! – que me chocou: pai e filho agridem pastor e atiram em adolescente dentro de uma igreja evangélica por estarem incomodados com o barulho alto. Bom, pensei, amanhã as mídias sociais vão falar só disso e…

Pois eu me enganei. Três da tarde e nenhuma menção ao assunto. Achei estranho e um tanto quanto revoltoso. Será que, com essa onda de pastor com discurso infeliz, as pessoas pegaram birra de evangélico?, pensei, e aí acham que barulho alto agora é motivo pra violência?

Então resolvi botar a boca no trombone, não como evangélica (ah, sim, só pra constar: sou mulher, evangélica, e Marco Feliciano não me representa!) mas como ser humano: publiquei no facebook.

A coisa, vejam vocês, está cada dia pior, porque aquilo que ainda ousamos chamar de sociedade não significa mais o seu próprio significado em latim: associação amistosa com os outros. Nem mesmo a grande vantagem do homem sobre os animais – o poder da comunicação pelo uso de palavras – tem sido eficaz para reestabelecer esse antigo conceito; pelo contrário, ele tem sido destituído gradativamente e causando mais estrago do que o esperado.

Está cada vez mais difícil encontrar pessoas que ainda prezem pelo bem-comum. O próprio umbigo se tornou um lugar sagrado, de onde ninguém sai, ninguém entra e de onde não se enxerga um único passo adiante. Um amigo então me disse: o problema é com o Estado, porque num governo sério isso não acontece! Um Estado que não faz valer suas leis se torna permissivo, liberal demais, blablabla blablabla blablabla

E eu me pergunto: o Estado é culpado? Será mesmo? Porque a partir do momento que é preciso existir uma lei que proíba um ser humano de matar outro, não é o Estado que está com problemas, e sim o próprio ser humano!, que usa de maneira distorcida o seu direito de ir e vir, exteriorizando princípios e conceitos. A questão, meu amigo, é que a formação dessas premissas não é responsabilidade do Estado, mas nossa! É conduta humana, de quando os pais ensinam seus filhos, de quando os funcionários são éticos em suas empresas, de quando o respeito se mantém vivo.

Enquanto acharmos comum que pessoas se estapeiem por liquidações de fim de ano, que filhos desdenhem os pais, enquanto nos preocuparmos mais com o ibope de mulheres de biquini confinadas em uma mansão, não há Estado que esabeleça ordem.

Por esse motivo lanço meu protesto: homens!, mulheres!, levantem suas cabeças, olhem ao redor, percebam-se no início de uma guerra civil, em que se mata e morre pelo que não se precisa, pelo luxo, orgulho e ganância!

Acordem!

Parafraseio Vandré, porque a vida não se resume em dinheiro no bolso e saúde pra dar e vender. A vida é muito mais, só que ninguém está sendo capaz de ver.

Flashback

O poeta encontra um caderno velho, meio rasgado, com a capa solta. E fica surpreso, porque pensou que ele já estivesse no lixo há muito tempo. Com a excitação de um cientista maluco, resolve abrir e ler. Só que quando abre o caderno, seu rosto é  imediatamente atingido por grãos de emoção, sementes de ilusão e gotas de solidão. O poeta é arremessado ao chão, e só com muito custo consegue se aproximar do caderno novamente. Não sabe mais quanto tempo faz que escreveu. A primeira poesia, inevitavelmente, é uma porcaria. Cheia de versos obscuros que ele não lembra mais o significado. E quando consegue lembrar, não gosta. É um texto patético e nada mais. O poeta se consola com o pensamento de que evoluiu bastante desde que escreveu tamanho lixo. E agradece a Deus por aquele texto não cair na mão do povo e da imprensa, pois poderia acabar com a sua carreira.

Com olhar concentrado, o poeta vai percorrendo todas as páginas. Não há dúvidas que é a sua letra, mas ele não quer acreditar que tenha sido capaz de parir aquelas poesias. Percebe, desesperado, que tudo aquilo que escreveu já morreu. Exaltou a casa onde morava, e ela já foi demolida. Falava de sua cidade, e nunca mais teve tempo de voltar lá. Nunca mais soube nada dos seus melhores amigos. As suas poesias estavam repletas de referências a pessoas que sumiram para toda a vida. Que estranho que era, porque ali no papel, materializado numa poesia, parecia que tudo era eterno. E quando escreveu, realmente achava que era. Como era ingênuo! A leitura dava a ilusão de que aqueles sentimentos poderiam ser conseguidos de novo. Mas nunca mais, nunca mais!

E o poeta de antigamente pensava tão diferente do poeta de hoje! Era muito mais livre no que escrevia. E como era infantil! E como era idiota! Como se deixava levar por emoções que hoje já não teriam nenhum impacto! O poeta de hoje sente vergonha das suas antigas tolices. E ao mesmo tempo, deseja ardentemente voltar a ser tolo. Nunca mais teve chance de ser tolo. E tem ainda as musas… Com um aperto no coração, se lembra das musas que se foram. O poeta está cheio de pensamentos tristes, e percebe que as suas musas provavelmente não são mais puras, e muito menos perfeitas, como ele as descrevia nas suas poesias. Elas já cresceram, já fizeram muitas besteiras, já encheram a cara, já foram grosseiras e indelicadas, já treparam, já fecharam os olhos de prazer, já deram a luz, já receberam uma porção de cantadas, e talvez já tenham pensado em ceder. E nunca mais se lembraram do imbecil que jurou amor eterno numa poesia.

O poeta não pode mais suportar esses pensamentos. Enlouquecido, começa a rasgar as folhas do caderno e a gritar compulsivamente. Com um isqueiro, resolve fazer um pequeno ritual e colocar fogo em toda a casa. E então o poeta morre, carbonizado pelas chamas do passado.

Curitiba, 2007

Pedaço de papel

Falavam sobre os ossos da avó dele. E também sobre os ossos do avô, da mãe, do pai… Até dos próprios ossos falavam. Ainda que daquela maneira subliminar que sempre impera quando se fala dos mortos. Discutiam o jazigo da família que estaria quitado no próximo mês de setembro.

Ele tinha nas mãos o RG da avó. Era um pedaço de papel bastante desgastado e maltratado pelo tempo. Naquele momento lembrou que o pedaço de papel ainda resistia como sendo algo demasiadamente tocado pela avó. Quis se sentir mais próximo dela. Mas percebeu que era apenas seu desejo solitário no vácuo da existência. Pensava ser um registro de algo que não mais existia, a certificação de uma memória. De uma lembrança confinada a algumas pessoas que dali a algum tempo também seriam ossos.

Encarava a imagem da avó mais jovem do que quando a conhecera. Pensava consigo sobre os propósitos da vida. Suas intermitências e paradoxos. Todos ali flagrados naquele pedaço de papel. Despediu-se do pensamento, pois chegaram a seu destino. Mas sentiu seus ossos estremecerem por dentro.

Desejos costurados à beira mar

vivian maier - agust 22, 1956
Imagem: Vivian Maier

 

Quero ser encontrado quente

Os ladrões também já conhecem que não trago quase nada comigo. Apenas o relógio de pulso, o maço de cigarros no bolso da camisa, a identidade (Horácio Lima, filho de Flora Mattoso Lima e Dinis Pereira Lima, data de nascimento: 12/01/1929, natural de São Vicente/SP) e alguns trocados no da calça. Costurado por dentro da barra, meus últimos desejos.

Durmo na areia da praia com roupa e tudo. Não me vejo de cuecas ou de bermudão queimando a beira mar. Se as moças de hoje já se sentem constrangidas com homens bem mais novos que eu, lá pelos seus sessenta e pouco, beijando mocinhas na tv, não deixarei que minha velha figura fira a sensibilidade pública.

Os cachorros e os guardas não se incomodam mais comigo. Apenas farejam para ver se ainda respiro. Até hoje não os decepcionei.

Quase todos os dias venho, faço do chapéu um travesseiro, nem tiro os sapatos e me viro de lado. A maresia me acalma as costas. Fecho os olhos porque não sinto falta de me perder no horizonte. Já vi demais. Sonho.

Texto originalmente publicado no Coletivo Claraboia.

Tô sem nada

sem nada para fazer! Ontem eu devia estar sem nada para fazer, mas, infelizmente, estava muito ocupado para ficar sem nada para fazer. Agora, fico propondo essa conversa chata que é falar sobre nada. Como pode alguém no mundo de hoje, tão grande e pequeno ao mesmo tempo, ficar totalmente sem nada para fazer?

Estou naquele momento que o livro sobre hipnose ensina, meu cérebro tá cuidando apenas das funções vitais do corpo, pois nem mosquito voa nesse momento. Coisa melancólica ficar escrevendo sobre isso e achar que não está fazendo nada. Caraca, no mínimo está escrevendo! Mas e daí?

Se eu fosse politicamente correto estaria pensando em como salvar o mundo. Se eu fosse mauricinho de plantão pensaria na balada de logo mais. Se eu fosse da roça pensaria na possibilidade da chuva e o que vou fazer amanhã. Se eu fosse religioso estaria fazendo uma oração para tirar essa preguiça (que é pecado). Eu poderia ser qualquer alguém, mas a falta de vontade ainda assim perderia para a capacidade enorme, gigantesca e sufocante de não fazer nada. Absolutamente, nada!

Agora, nesse momento, com tanta preguiça que dá até inveja. pecando duas vezes.

Agora que cheguei ao fim desse devaneio nada a ver, descobri que tenho muito a fazer. Como um marinheiro em alto mar, olhei pela janela da minha escotilha, que é a janela do meu quarto, e vi o mundo grande lá fora  e o quintal para limpar. Confesso que estou feliz, pois tenho apenas que limpar o meu quintal. Mas hoje vou continuar minha sina, vou ficar sem fazer nada. Até amanhã a todos que estão fazendo algo por mim.

Beijo

beijo_by_FernandoScheidtBeijo - Fernando Scheidt

O cheiro de canela vinha do brinco na orelha e enebriava o sentido já atordoado pelo calor do corpo dela. Quente e úmido. Sentiu, no bigode, a respiração morna e macia, rápida mas equilibradamente constante. Quando encostou-lhe os lábios sentiu o frio do gloss que ela usava. Frio com gosto de cereja em conserva. Relevou. Nesse momento já havia fechado os olhos. Depois de conferir se ela fechara os dela. Três mordidinhas depois ele entreabriu a boca pequena com sua língua firme. Buscando o que ele já sabia estar ali. E ela cedeu. Com um pequeno suspiro estremecido. E ele sentiu se inundar de uma sensação de afogamento no calor de uma tarde de sol forte. Lento, molhado, ressaca. Como o mar. Infinito. Perdeu-se ali. Para sempre no beijo que sonhou e do qual nunca mais ia acordar.

Na levada do busão – Parte III

bus

Se existe combinação ingrata é essa: ônibus e chuva. Em qualquer que seja o nível de intensidade de um ou de outro, essa soma não costuma dar resultados positivos.

Engana-se aquele que pensa que ônibus é o refúgio da garoa; toda umidade maior que o normal é justificativa para janelas fechadas. Sobe dois, desce um, o ar esquenta e um calor abafado nasce instantaneamente. Se um desses fatores se altera (humano ou pluvial), a vida na terra – e dentro do busão – entra em crise existencial.

Não há ser, sono, livro, música que resista à sauna ambulante, e por mais que se tenha adentrado ao coletivo antes ou até depois da chuva, tenha a certeza de que você sairá molhado – guarda-chuvas são perfeitos reservatórios de água, e ainda que pareçam secos guardam dentro de si uma fonte inesgotável de goteiras irritantes. Sacolas, bolsas e barras de de calças são coadjuvantes, cumprem bem o seu papel.

Os bancos… Ah, os tão desejados bancos, com seus aspectos angelicais, aconchegantes e convidativos, são, na verdade, os mais traiçoeiros antagonistas dessa história. São gotas de todos os tamanhos, bem posicionadas, ocupando quase toda a superfície do banco, matando lentamente toda a esperança de viajar sentado, com um mínimo de conforto. E é aqui que tudo muda de lado, porque o que a blusa conservou seco, a própria bunda molhará.

Agora, se o leitor tem claustrofobia, não continue lendo esta crônica. Fuja enquanto é tempo!, porque é preciso falar sobre as janelas. Doces janelas… Elas que poderiam nos dar um pouco de vida, ar fresco, ânimo!… empalidecem foscas à luz do dia. Todo o carisma que têm os vidros em nos receber para uma soneca se transforma no pesadelo da lavagem de cabelo a seco (ou ao úmido). Notem que o nível de embaçamento é diretamente proporcional ao trânsito que está do lado de fora: quanto maior, menos se enxerga. Se é nojento do jeito que está, mais ainda é secar com a blusa. Portanto, desista.

Mas nem tudo está perdido. Para casos malditos como esse há sempre algumas opções à nossa frente. A primeira é dormir; a segunda é ler; a terceira é descer da droga do busão e caminhar até um ponto em que passe um outro busão, mais habitável, decente o suficiente para valer a pena passar a catraca.

Se ainda assim o leitor não se confortar com nenhuma dessas escolhas, conforte-se mesmo assim. Não é só para a morte que falta jeito pra dar…

Ah, minha amiga…

Acrediteis. Há dois milhões de moradores em Curitiba, e eu conheço menos de cem – a maior parte, mal. Desses, admiro a muitos. Amo, dois ou três. Morei na cidade por cinco anos, e hoje vou para lá, no máximo, três vezes ao ano. Quando vou, não tenho oportunidade de ver a maior parte das pessoas que conheço – e sequer todas as que amo. Ah, a vida já nos separou a todos. Quando muito, tentamos marcar um encontro, um encontro que nunca acontece, porque nossas agendas estão sempre apertadas, e nós já temos tantos outros afetos para nos preocupar. Pois acrediteis que, mesmo assim, eu encontrei por mero acaso uma dessas pessoas na última vez que lá estive. E a amei.

Trabalhamos juntos em um hospital. Fazíamos um jornal bimestral – um jornal que já nascia velho. Era gratuito e nem crônicas tinha. Não passávamos de estagiários, mas estava nas nossas mãos todo o setor de jornalismo do maior hospital público do Paraná. Ela trabalhava pela manhã e eu à tarde. Para nos comunicar, escrevíamos bilhetes. “Precisamos de um título para aquela matéria”. “Qual foto você acha melhor?”. “E se diminuíssemos aquele texto?”. Consultávamos o outro diante da menor alteração que fazíamos e aceitávamos sem maiores dificuldades as sugestões recebidas.

E assim fizemos alguns jornais. Erramos, erramos muito. Deixamos passar vários erros de texto. Algumas fotos ficaram desfocadas, e houve muitos desalinhamentos após a impressão. Mas no último jornal que fizemos juntos, concebemos uma edição sem erros. A nossa superação foi uma glória bem particular, que nunca chegou ao leitor. E, mesmo que chegasse, não significaria grande coisa. Mas foi um jornal que nasceu com tanta humildade e esforço que, aos nossos olhos, ele representou a glória efêmera mais eterna que já existiu.

Mas logo em seguida ela trocou de trabalho. Deste então, nunca mais nos vimos. Trocamos e-mails, e até tentamos voltar a trabalhar juntos em outro lugar, mas sem sucesso. A única vez em que voltei a vê-la foi essa, sentada no ônibus, um ônibus que eu peguei por engano, num dos poucos dias que estive em Curitiba, em meio a dois milhões de pessoas. Estava distraída, e não tive coragem de falar com ela. E provavelmente porque não conseguiria falar a verdade. Ah, minha amiga, eu queria poder te felicitar por ser uma pessoa boa e que não se deixou consumir pelo próprio ego, e nem inventou forças que não tinha. E, embora isso pareça pouco, a mim é tão raro que foi suficiente para que você estivesse entre essas duas ou três pessoas que eu amo em Curitiba. E para isso, nem foi preciso falar com você. Ah, minha amiga, como estou feliz em vê-la.

Sóbria embriaguez

O silêncio dói como navalha afiada nas tuas palavras e a força que esvai da memória doce de ti afunda em uma garrafa. Não sei rimar amor com dor, só sei que dói esmurrar teu coração inerte.

Foi-se o tempo de pedir perdão. Foi-se o tempo de tentar em vão. Veio o tempo de negação. Veio o tempo de sentir raiva. De sentir-se só. Comiseração. A dignidade se foi. Ainda estou procurando por ela. Aturdido e atordoado ouço vozes que me orientam. Que me desorientam. Como é ruim estar sóbrio. Como é ruim estar embriagado. Como é ruim.

Busco rimas em papéis em branco. Sentido nas nuvens. Luz no escuro. Busco vida onde só há arado. Busco paz em transe. Busco amparo na solidão. Busco você em mim. Busco sobriedade embriagado!

A planta e o passarinho

planta carnívora - divulgação

─Uma planta carnívora morreu engasgada com um pássaro.

─Ah, nem vem!

─O pobre passarinho foi atraído por ela e a gulosa, sabe o que ela fez?

─Considerando que haja alguma possibilidade de isso ser verdade, não, não sei o que ela fez.

─Não sei, devia ter algo errado com o dna dela porque aquela planta devia pensar que era uma cobra ou algo assim. Ela abriu a boca e engoliu o pobre passarinho! E os dois, os dois morreram!

─Ele porque não sabia que não devia ir entrando em qualquer planta colorida e ela porque comia com os olhos. Francamente, essa estória… Faça um favor a você mesmo, Henrique: saia do facebook e volte ao trabalho, sim?

Diálogos impertinentes

_ Ei, você pode me ajudar a atravessar a rua?

_ Claro! Tô precisando fazer minha boa ação de hoje.

_ Então vai me ajudar apenas para satisfazer sua necessidade e não a minha?

_ Claro que não! Quero realmente ajudá-lo, mas aproveito e resolvo duas situações ao mesmo tempo.

_ Então esqueça! Vou pedir para outra pessoa. Me deixe aqui mesmo. Se quer resolver o seu problema faça por onde, não me use. Já estou humilhado demais na minha condição e agora mais isso!

_ Não quis ofendê-lo. Apenas disse que posso da conta, ajudando você, de uma necessidade minha. Foi só isso! Afinal de contas, também parei de fazer as minhas coisas para lhe dar atenção e me propor a lhe ajudar. Eu poderia seguir a minha vida. Até porque, estou bem atrasado.

_ Agora piorou! Nem lhe conheço e já sou um peso na sua vida. Que atrasa a sua agenda. Lhe causo problemas! Olha, eu pretendia apenas chegar ao outro lado da rua. Tenho dificuldades em fazer isso sozinho, mas não quero ser um problema e nem tão pouco muleta para ninguém.

_ Eu não disse isso! Por favor, não coloque palavras na minha boca. Quero ajudar. Já demonstrei boa intenção. O que vai ser resolvido não interessa, pois terei resolvido o seu problema. Se não estivéssemos nessa discussão inútil, você já estaria do outro lado.

_ Sim, já estaria do outro lado! Mas frustrado por saber que fui usado. Só as boas intenções não têm resolvido os problemas de quem precisa. Não é necessário ter alguma limitação para precisa de ajuda. Você poderia estar na mesma condição que eu, precisando de ajuda. Poderia até ser para atravessar a rua e, com certeza, não queria ser o número de uma estatística.

_ Pessoa desconfiada! Você quer ou não atravessar a rua?

_ Não é uma questão de querer, eu preciso! Diante dos fatos, minha necessidade já foi para o espaço e agora estou apenas no querer. Não quero ser um atraso na vida de alguém que faz do outro apenas número.

_ Em nenhum momento passou pela minha cabeça de que você seria mais um número para mim. Agora, vejo em você um descontentamento com padrões da sociedade que não me encaixo. O que julgas que estou a fazer com você é o que fazes comigo. Me coloca como um número. Pessoas que apenas tem interesse nas outras pessoas.

_ Oras, e não é isso?

_ Claro que não! Vejo sua vontade e necessidade de chegar ao outro lado. Me dispus a ajudar,mas, você me julga segundo os teus problemas com quem não lhe deu melhores condições.

_ O outro lado da rua para mim é longe demais. Mas, ao chegar, vou abrir um novo horizonte na minha vida. Será um presente em que poderei olhar para o passado e perceber que superei uma grande barreira. Esse novo horizonte que se abre, terá muitos e enormes obstáculos. Terei que procurar ajuda e vou ser novamente a contabilidade de alguém que parar do meu lado.

_ Acredito que estar do outro lado será uma nova vida, tanto para mim quanto para você. Pois, estaremos no futuro. Agora, ter medo dos futuros desafios, que estão no futuro, é se prender ao passado.

_ Não tenha pena! Isso só piora a situação.

_ E quem disse que estou com pena?

_ Suas palavras falam de uma realidade que não conhece. Não sabes o dissabor que é pensar no futuro e já condicionar ao seu presente!

_ Talvez eu saiba. Também tenho minhas frustrações.

_ Frustrações não se comparam às limitações!

_ Mas também tenho limitações. Algumas me impedem de viver o presente e me prendem ao passado.

_ Não passam de medo! Medo de não transpor a rua. Em muitos momentos, ao se deparar com o mudar, o transpor, o crescer, o que fizeste?

_ Fiquei com medo! Não pedi ajuda e por isso não sai do lugar.

_ As limitações são piores, nos prendem ao presente. As frustrações apenas nos prendem ao passado. Para vencer a segunda, basta atravessar. Um verbo de ação e tudo está resolvido.

_ Agora vejo! O futuro e o presente estão do outro lado. O que eu espero de mim está no que eu fizer para superar minhas frustrações e conviver com as minhas limitações. O que faço?

_ Me dê sua mão, eu levo você até o outro lado.

Pelas tantas de tarde

coffe

Da copa sai o cheiro do café novinho. Na mesa ao lado, a colega fala da pedra no dedo da futura princesa. Ainda existem, no mundo, princesas. Lá embaixo, do alto de 10 andares escuto o barulho da vida: buzinando, acelerando, gritando a última do jornaleco diário. E aqui, na minha tela escura, passam números, passam letras, passo eu.

Alguém sabiamente me diz que estou com cara de “puta merda”. Preguiça, retruco eu. Mas nunca ouvi melhor definição para minha cara de 3 da tarde. Cara de quem segura no peito a explosão de um vulcão.

Tenho vontade de defenestrar o calendário. Largar sem mãe a bagunça de papéis, sair batendo a porta e dizendo até uma hora aí.Desligar o celular. Subir numa colina. Sentar debaixo de um pé de goiaba vermelha para ver a vida correr sem mim.

Ver que ela não corre, afinal. Nem eu. Mas insisto em terminar a tarde. Outra tarde. Tarde. Tarde…

Mantenha-se à direita

semaforo

 

Devia existir seta para pedestre, assim como para veículos automotores, daquelas que piscam freneticamente, mesmo. Quantos esbarrões seriam evitados, quantos xingamentos poupados para horas mais críticas se os bípedes também pudessem sinalizar seus movimentos futuros. Pequenos acidentes, inclusive quedas, arranhões, bolsas arrastadas, veriam seus índices baixar de aneira consistente!

Defendo que precisa haver regras também para os transeuntes, e assim as calçadas se tornariam mais conscientes, do mesmo jeito que deveria ser o trânsito de duas e quatro rodas.

E se o leitor acha exagero da minha parte, peço que vá passear lá na rua Vinte e Cinco de março, na região central de São Paulo, e lá permaneçam por quinze minutos. Deixo-os á vontade para escolherem a data: Carnaval, Páscoa, dia das mães, das crianças, ou Natal. E tente fazer compras por lá.

Se a gente pudesse ter noção do que as pessoas pretendem fazer enquanto andam na rua, o stress seria evitado. Por exemplo: vai sair da loja?, dê seta e aguarde um espaço seguro para adentrar novamente no fluxo. Vai entrar?, dê seta e aguarde o momento mais adequado para tal. Está procurando uma loja em especial?, ligue o pisca alerta e diminua a velocidade. Está esperando alguém sair dela?, ligue o pisca alerta e aguarde em local permitido. Está com criança de colo?, mantenha-se à direita.

E assim a regraseria aplicada para todos os locais de intensa movimentação, como metrôs, trens shoppings aos finais de semana, pronto-socorro e McDonald’s nas madrugadas de sexta.

Se, como no trânsito, as pessoas não conseguem se organizar por si sós, agindo com base no bom-senso comum, vamos instituir novos padrões de conduta! Quem sabe assim o respeito começa a ser praticado em todos os momentos e lugares?

Multa para pedestre?

Bem, nem tudo deve ser levado a ferro e fogo, não é?

Dona Ivanilda

Com algum atraso, requento agora um texto feito em 2007, mesma época de um texto, também requentado, da Thereza Collor (que tinha o defeito de não ser um texto Thereza Collor). Dona Ivanilda ainda vive e tudo indica que sabe tanto sobre o seu filho quanto um manifestante da Avaaz.

 Mãe de Renan, aposentada com um salário mínimo, chora ao falar do filho

Pode não parecer, mas Renan Calheiros tem uma mãe. Dona Ivanilda mora no interior de Alagoas. Se o seu filho fosse uma pessoa normal, ela jamais seria incomodada por alguém. Mas como não é, lá foi uma jornalista atrás da Dona Ivanilda. Queria descobrir qual é o tipo de pessoa que costuma parir um senador. E, lógico, achar contradições nas coisas que ela falasse. Isso comprova a teoria de que no reino animal temos os urubus e no reino humano temos os jornalistas. Mandemos então alguém para Alagoas, tirar o sossego da Dona Ivanilda.

Dona Ivanilda mora numa casa humilde, nem parece que é mãe de senador. Não há forro no teto. Cria galinhas-d’angola, veste chinelo e serve café fresco para as visitas. E sendo mãe, não vê culpa alguma no filho. É tudo coisa dessa gente que tem inveja do cargo que ele ocupa. Mas a parte mais lastimável da matéria é quando ficamos sabendo que Dona Ivanilda agora tem o hábito da leitura de jornais. Lê para saber o que falam do seu filho. Na verdade, lê para saber mais sobre ele. Passa a noite acordada assistindo noticiários na televisão. Quase todo dia Renan Calheiros liga para Alagoas. Mas Dona Ivanilda precisa ler os jornais e assistir a televisão para poder saber o que está acontecendo.

A jornalista, essa ave de rapina, pediu a Dona Ivanilda que citasse alguma emenda boa que seu filho criou. Perguntou já sabendo a resposta. Dona Ivanilda ficou calada. A irmã socorreu: “Foram várias”. A senhora jornalista poderia muito bem ir então entrevistar a população e perguntar por que motivo Renan Calheiros está sendo acusado. O resultado seria idêntico. “Por várias coisas”. Eu, cínico que sou, diria que não estava sabendo de nada. E na verdade estou sabendo muito pouco mesmo. Nem sei o que é lobista. E por que eu deveria ter então uma opinião a respeito?

Renan costumava aparecer na casa da mãe ao menos uma vez por mês. Desde que começou o escândalo que rendeu uma neta para Dona Ivanilda, ele não apareceu mais. Isso seria motivo suficiente para pedir a cassação de seu mandato: ficar tanto tempo sem ver a mãe. Mas Dona Ivanilda perdoa. Ainda que tenha feito alguma coisa errada, ele vai continuar sendo o Renan de sempre, aquele que tanto bem fez por Alagoas, um injustiçado!

E azar dele, que agora está perdendo a comidinha da mamãe.