Arquivo do mês: março 2013

Protesto

Dia desses vi no jornal uma notícia – mais uma! – que me chocou: pai e filho agridem pastor e atiram em adolescente dentro de uma igreja evangélica por estarem incomodados com o barulho alto. Bom, pensei, amanhã as mídias sociais vão falar só disso e…

Pois eu me enganei. Três da tarde e nenhuma menção ao assunto. Achei estranho e um tanto quanto revoltoso. Será que, com essa onda de pastor com discurso infeliz, as pessoas pegaram birra de evangélico?, pensei, e aí acham que barulho alto agora é motivo pra violência?

Então resolvi botar a boca no trombone, não como evangélica (ah, sim, só pra constar: sou mulher, evangélica, e Marco Feliciano não me representa!) mas como ser humano: publiquei no facebook.

A coisa, vejam vocês, está cada dia pior, porque aquilo que ainda ousamos chamar de sociedade não significa mais o seu próprio significado em latim: associação amistosa com os outros. Nem mesmo a grande vantagem do homem sobre os animais – o poder da comunicação pelo uso de palavras – tem sido eficaz para reestabelecer esse antigo conceito; pelo contrário, ele tem sido destituído gradativamente e causando mais estrago do que o esperado.

Está cada vez mais difícil encontrar pessoas que ainda prezem pelo bem-comum. O próprio umbigo se tornou um lugar sagrado, de onde ninguém sai, ninguém entra e de onde não se enxerga um único passo adiante. Um amigo então me disse: o problema é com o Estado, porque num governo sério isso não acontece! Um Estado que não faz valer suas leis se torna permissivo, liberal demais, blablabla blablabla blablabla

E eu me pergunto: o Estado é culpado? Será mesmo? Porque a partir do momento que é preciso existir uma lei que proíba um ser humano de matar outro, não é o Estado que está com problemas, e sim o próprio ser humano!, que usa de maneira distorcida o seu direito de ir e vir, exteriorizando princípios e conceitos. A questão, meu amigo, é que a formação dessas premissas não é responsabilidade do Estado, mas nossa! É conduta humana, de quando os pais ensinam seus filhos, de quando os funcionários são éticos em suas empresas, de quando o respeito se mantém vivo.

Enquanto acharmos comum que pessoas se estapeiem por liquidações de fim de ano, que filhos desdenhem os pais, enquanto nos preocuparmos mais com o ibope de mulheres de biquini confinadas em uma mansão, não há Estado que esabeleça ordem.

Por esse motivo lanço meu protesto: homens!, mulheres!, levantem suas cabeças, olhem ao redor, percebam-se no início de uma guerra civil, em que se mata e morre pelo que não se precisa, pelo luxo, orgulho e ganância!

Acordem!

Parafraseio Vandré, porque a vida não se resume em dinheiro no bolso e saúde pra dar e vender. A vida é muito mais, só que ninguém está sendo capaz de ver.

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Flashback

O poeta encontra um caderno velho, meio rasgado, com a capa solta. E fica surpreso, porque pensou que ele já estivesse no lixo há muito tempo. Com a excitação de um cientista maluco, resolve abrir e ler. Só que quando abre o caderno, seu rosto é  imediatamente atingido por grãos de emoção, sementes de ilusão e gotas de solidão. O poeta é arremessado ao chão, e só com muito custo consegue se aproximar do caderno novamente. Não sabe mais quanto tempo faz que escreveu. A primeira poesia, inevitavelmente, é uma porcaria. Cheia de versos obscuros que ele não lembra mais o significado. E quando consegue lembrar, não gosta. É um texto patético e nada mais. O poeta se consola com o pensamento de que evoluiu bastante desde que escreveu tamanho lixo. E agradece a Deus por aquele texto não cair na mão do povo e da imprensa, pois poderia acabar com a sua carreira.

Com olhar concentrado, o poeta vai percorrendo todas as páginas. Não há dúvidas que é a sua letra, mas ele não quer acreditar que tenha sido capaz de parir aquelas poesias. Percebe, desesperado, que tudo aquilo que escreveu já morreu. Exaltou a casa onde morava, e ela já foi demolida. Falava de sua cidade, e nunca mais teve tempo de voltar lá. Nunca mais soube nada dos seus melhores amigos. As suas poesias estavam repletas de referências a pessoas que sumiram para toda a vida. Que estranho que era, porque ali no papel, materializado numa poesia, parecia que tudo era eterno. E quando escreveu, realmente achava que era. Como era ingênuo! A leitura dava a ilusão de que aqueles sentimentos poderiam ser conseguidos de novo. Mas nunca mais, nunca mais!

E o poeta de antigamente pensava tão diferente do poeta de hoje! Era muito mais livre no que escrevia. E como era infantil! E como era idiota! Como se deixava levar por emoções que hoje já não teriam nenhum impacto! O poeta de hoje sente vergonha das suas antigas tolices. E ao mesmo tempo, deseja ardentemente voltar a ser tolo. Nunca mais teve chance de ser tolo. E tem ainda as musas… Com um aperto no coração, se lembra das musas que se foram. O poeta está cheio de pensamentos tristes, e percebe que as suas musas provavelmente não são mais puras, e muito menos perfeitas, como ele as descrevia nas suas poesias. Elas já cresceram, já fizeram muitas besteiras, já encheram a cara, já foram grosseiras e indelicadas, já treparam, já fecharam os olhos de prazer, já deram a luz, já receberam uma porção de cantadas, e talvez já tenham pensado em ceder. E nunca mais se lembraram do imbecil que jurou amor eterno numa poesia.

O poeta não pode mais suportar esses pensamentos. Enlouquecido, começa a rasgar as folhas do caderno e a gritar compulsivamente. Com um isqueiro, resolve fazer um pequeno ritual e colocar fogo em toda a casa. E então o poeta morre, carbonizado pelas chamas do passado.

Curitiba, 2007


Pedaço de papel

Falavam sobre os ossos da avó dele. E também sobre os ossos do avô, da mãe, do pai… Até dos próprios ossos falavam. Ainda que daquela maneira subliminar que sempre impera quando se fala dos mortos. Discutiam o jazigo da família que estaria quitado no próximo mês de setembro.

Ele tinha nas mãos o RG da avó. Era um pedaço de papel bastante desgastado e maltratado pelo tempo. Naquele momento lembrou que o pedaço de papel ainda resistia como sendo algo demasiadamente tocado pela avó. Quis se sentir mais próximo dela. Mas percebeu que era apenas seu desejo solitário no vácuo da existência. Pensava ser um registro de algo que não mais existia, a certificação de uma memória. De uma lembrança confinada a algumas pessoas que dali a algum tempo também seriam ossos.

Encarava a imagem da avó mais jovem do que quando a conhecera. Pensava consigo sobre os propósitos da vida. Suas intermitências e paradoxos. Todos ali flagrados naquele pedaço de papel. Despediu-se do pensamento, pois chegaram a seu destino. Mas sentiu seus ossos estremecerem por dentro.


Desejos costurados à beira mar

vivian maier - agust 22, 1956

Imagem: Vivian Maier

 

Quero ser encontrado quente

Os ladrões também já conhecem que não trago quase nada comigo. Apenas o relógio de pulso, o maço de cigarros no bolso da camisa, a identidade (Horácio Lima, filho de Flora Mattoso Lima e Dinis Pereira Lima, data de nascimento: 12/01/1929, natural de São Vicente/SP) e alguns trocados no da calça. Costurado por dentro da barra, meus últimos desejos.

Durmo na areia da praia com roupa e tudo. Não me vejo de cuecas ou de bermudão queimando a beira mar. Se as moças de hoje já se sentem constrangidas com homens bem mais novos que eu, lá pelos seus sessenta e pouco, beijando mocinhas na tv, não deixarei que minha velha figura fira a sensibilidade pública.

Os cachorros e os guardas não se incomodam mais comigo. Apenas farejam para ver se ainda respiro. Até hoje não os decepcionei.

Quase todos os dias venho, faço do chapéu um travesseiro, nem tiro os sapatos e me viro de lado. A maresia me acalma as costas. Fecho os olhos porque não sinto falta de me perder no horizonte. Já vi demais. Sonho.

Texto originalmente publicado no Coletivo Claraboia.


Tô sem nada

sem nada para fazer! Ontem eu devia estar sem nada para fazer, mas, infelizmente, estava muito ocupado para ficar sem nada para fazer. Agora, fico propondo essa conversa chata que é falar sobre nada. Como pode alguém no mundo de hoje, tão grande e pequeno ao mesmo tempo, ficar totalmente sem nada para fazer?

Estou naquele momento que o livro sobre hipnose ensina, meu cérebro tá cuidando apenas das funções vitais do corpo, pois nem mosquito voa nesse momento. Coisa melancólica ficar escrevendo sobre isso e achar que não está fazendo nada. Caraca, no mínimo está escrevendo! Mas e daí?

Se eu fosse politicamente correto estaria pensando em como salvar o mundo. Se eu fosse mauricinho de plantão pensaria na balada de logo mais. Se eu fosse da roça pensaria na possibilidade da chuva e o que vou fazer amanhã. Se eu fosse religioso estaria fazendo uma oração para tirar essa preguiça (que é pecado). Eu poderia ser qualquer alguém, mas a falta de vontade ainda assim perderia para a capacidade enorme, gigantesca e sufocante de não fazer nada. Absolutamente, nada!

Agora, nesse momento, com tanta preguiça que dá até inveja. pecando duas vezes.

Agora que cheguei ao fim desse devaneio nada a ver, descobri que tenho muito a fazer. Como um marinheiro em alto mar, olhei pela janela da minha escotilha, que é a janela do meu quarto, e vi o mundo grande lá fora  e o quintal para limpar. Confesso que estou feliz, pois tenho apenas que limpar o meu quintal. Mas hoje vou continuar minha sina, vou ficar sem fazer nada. Até amanhã a todos que estão fazendo algo por mim.


Beijo

beijo_by_FernandoScheidtBeijo - Fernando Scheidt

O cheiro de canela vinha do brinco na orelha e enebriava o sentido já atordoado pelo calor do corpo dela. Quente e úmido. Sentiu, no bigode, a respiração morna e macia, rápida mas equilibradamente constante. Quando encostou-lhe os lábios sentiu o frio do gloss que ela usava. Frio com gosto de cereja em conserva. Relevou. Nesse momento já havia fechado os olhos. Depois de conferir se ela fechara os dela. Três mordidinhas depois ele entreabriu a boca pequena com sua língua firme. Buscando o que ele já sabia estar ali. E ela cedeu. Com um pequeno suspiro estremecido. E ele sentiu se inundar de uma sensação de afogamento no calor de uma tarde de sol forte. Lento, molhado, ressaca. Como o mar. Infinito. Perdeu-se ali. Para sempre no beijo que sonhou e do qual nunca mais ia acordar.


Na levada do busão – Parte III

bus

Se existe combinação ingrata é essa: ônibus e chuva. Em qualquer que seja o nível de intensidade de um ou de outro, essa soma não costuma dar resultados positivos.

Engana-se aquele que pensa que ônibus é o refúgio da garoa; toda umidade maior que o normal é justificativa para janelas fechadas. Sobe dois, desce um, o ar esquenta e um calor abafado nasce instantaneamente. Se um desses fatores se altera (humano ou pluvial), a vida na terra – e dentro do busão – entra em crise existencial.

Não há ser, sono, livro, música que resista à sauna ambulante, e por mais que se tenha adentrado ao coletivo antes ou até depois da chuva, tenha a certeza de que você sairá molhado – guarda-chuvas são perfeitos reservatórios de água, e ainda que pareçam secos guardam dentro de si uma fonte inesgotável de goteiras irritantes. Sacolas, bolsas e barras de de calças são coadjuvantes, cumprem bem o seu papel.

Os bancos… Ah, os tão desejados bancos, com seus aspectos angelicais, aconchegantes e convidativos, são, na verdade, os mais traiçoeiros antagonistas dessa história. São gotas de todos os tamanhos, bem posicionadas, ocupando quase toda a superfície do banco, matando lentamente toda a esperança de viajar sentado, com um mínimo de conforto. E é aqui que tudo muda de lado, porque o que a blusa conservou seco, a própria bunda molhará.

Agora, se o leitor tem claustrofobia, não continue lendo esta crônica. Fuja enquanto é tempo!, porque é preciso falar sobre as janelas. Doces janelas… Elas que poderiam nos dar um pouco de vida, ar fresco, ânimo!… empalidecem foscas à luz do dia. Todo o carisma que têm os vidros em nos receber para uma soneca se transforma no pesadelo da lavagem de cabelo a seco (ou ao úmido). Notem que o nível de embaçamento é diretamente proporcional ao trânsito que está do lado de fora: quanto maior, menos se enxerga. Se é nojento do jeito que está, mais ainda é secar com a blusa. Portanto, desista.

Mas nem tudo está perdido. Para casos malditos como esse há sempre algumas opções à nossa frente. A primeira é dormir; a segunda é ler; a terceira é descer da droga do busão e caminhar até um ponto em que passe um outro busão, mais habitável, decente o suficiente para valer a pena passar a catraca.

Se ainda assim o leitor não se confortar com nenhuma dessas escolhas, conforte-se mesmo assim. Não é só para a morte que falta jeito pra dar…