Enquanto eu desenhava um deus…

Enquanto eu desenhava um deus, o mato crescia e a anormalidade me contava anedotas que fizeram o Cristo sorrir. Não sabia a dimensão dos meus gritos, nem tampouco o gosto do hoje que me revoltava. E no meio do desenho, não é que o lápis caiu, caiu e a preguiça o furtou. E eu, amante das bobagens, montava um personagem muito sério e que não bocejava: único como a noite sem lua. E o rascunho quedava cada vez mais desproporcional. Só o mostrei a alguns mendigos que, sinceros, opinaram: tudo menos eterno. Menos Eterno. E por que não? É que era necessário redesenhá-lo ao amanhecer, para não esvaziá-lo com o passar dos segundos. E não tinha boca meu deus, e nem ouvidos, porque era tão singular que cri injusto fazê-lo chorar e compreender as lacunas de seu criador. E a criança enxerida que invadiu meu gênio inventivo deu-lhe um coração, muito marciano. Enquanto eu desenhava um deus, eu não era mais eu, nem deus um eu meu.

O desbravar da existência

Ariel e Penn
Montagem sobre as fotos de Ariel Goldenberg e Sean Penn originalmente publicada no site da Rede Telecine

A vida não cansa de nos surpreender. Seus designíos, ou os designíos de Deus, são eloquentes em determinar a fragilidade da existência e, simultaneamente, a força que irradia do espírito humano. Nas últimas semanas dois casos em particular ergueram esse testemunho. O primeiro é o de Ariel Goldenberg. Portador da síndrome de Down, Ariel é também ator. É um dos protagonistas do filme “Colegas”, que estreia nos cinemas brasileiros na próxima sexta-feira. O filme trata de três amigos portadores da síndrome que escapam da instituição em que vivem para perseguir seus sonhos. O de um deles é voar, a de outra é casar e a do personagem de Ariel é ver o mar. Na vida real Ariel tem um sonho mais difícil de ser realizado: conhecer Sean Penn, o ator de quem é fã. Já é bastante notório para quem é assíduo da internet a campanha “#vemSeanPenn” capitaneada por Ariel e abraçada pela equipe de divulgação do filme que viu nas redes sociais ganhar proporção universal. Com a estreia de “Colegas” eminente, Ariel ainda não tem a confirmação se seu ídolo estará presente na estreia (mote do vídeo que alcançou picos de visualização no Youtube), mas parece certo que eventualmente, mais cedo do que tarde, estará cara a cara com seu ídolo. Ariel, ator e futuro roteirista, trilha uma jornada de sucesso e não faz de sua deficiência um impedimento. É um exemplo notável, mas o que interessa à análise é o fato dele estar próximo de realizar um sonho tão incomum e ao mesmo tempo inacessível para um brasileiro comum. O que faz de Ariel especial? Sua força de vontade indomável? Sua graciosidade e esperança no trato com a vida?
Talvez olhar para Oscar Pistorius enseje alguma perspectiva menos abstrata. O atleta paraolímpico sul-africano, o primeiro biamputado a participar de uma final olímpica, motivou em agosto do ano passado um texto nesse Vida a Sete Chaves. Era um herói. Hoje, depois de matar sua namorada (se acidentalmente ou não ainda há uma investigação e processo judicial a declarar), experimenta o inferno dos anjos caídos. Pistorius alcançou, em sua carreira e vida pessoal, o que muitos mortais apenas sonham em conquistar – sejam deficientes físicos ou não. Agora, vislumbra o maior dos pesadelos – midiático e pessoal – nesse que promete ser um duradouro terceiro ato de sua existência.
O fato de duas pessoas, destinadas a se recolherem em suas insignificâncias terem ido tão longe, testado os limites do que o homem julga possível e experimentarem em níveis raros os sabores e dissabores da vida, fascina pelo aspecto divino, do imponderado, contido nesses casos luminosos.
A existência, em seu constante desbravamento, é um elixir sagrado, secreto e sempre poderoso.

O sim pelo não

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Na linha 675x – terminal Grajaú/metrô Vila Mariana, entram duas senhoras de saia comprida e coque no cabelo. Elas escolhem bancos opostos e se sentam no canto da janela. A da direita descansa a bolsa no assento vazio e conta para a outra:

O filho fez uma maldade tão grande com ela, que ela não quis contar. Ficou mal ela… Daí outro dia, o pastor, no culto, falou assim:

─ Jesus está me dizendo que há alguém aqui pensando em se matar. Em nome dele eu vos digo: não se mate!

Na mesma hora eu levantei e disse:

─ Senhor, é ela, a Sônia, quem está pensando em se matar!

Nunca fiz tão bem na minha vida porque ela me olhou com um ódio, um ódio tão verdadeiro que eu nunca tinha visto e, espero, nunca mais ver. Tenho certeza que era o demônio dentro dela se revirando todo, revoltado por ter sido descoberto.

Com uma obreira pegando em cada lado, a Sônia foi levada diante do altar. O pastor falou para o príncipe desse mundo dizer o que queria, mas ele se disfarçou bem dentro dela para não ser percebido e ela falou, com a própria voz, que não tinha nada, que só queria voltar pro banco dela lá no fundo da igreja.

Só que aquele pastor era bom, estava ungido por Deus e não se deixou enganar. Chamou mais dois obreiros e começaram a orar com todo fervor. A igreja foi acompanhando pra levar nosso apelo direto aos céus, que era para a Sônia se ver logo livre do coisa à toa.

Ela tentou fugir sabe? Tentou, mas os irmãos seguraram ela bem direito para ela só sair dali abençoada de novo.  Eles clamaram a Deus com todo coração e daí ela se jogou no chão urrando, noutras horas só chorava e ainda teve vez que ela mal punha as palavras pra fora, mas era sempre falando para a deixarem ir pra casa.

E o pai do mal lá, se fazendo de morto, mas conduzindo cada coisa que ela dizia. O pastor disse que nunca tinha visto o tinhoso tão esperto em todos seus anos de púlpito e que aquele lá não se ousava revelar na casa de Deus era pra poder continuar operando na irmã, levando ela pro desatino.

Toda a igreja empenhada, rezando, clamando. Vinha gente de fora olhar o nosso louvor e também entrava junto para libertar a Sônia do Asmodeu. Ela já estava descabelada e toda rasgada de tanto que se debateu para se libertar das mãos dos obreiros, mas eles eram firmes e ela ficou lá, caída no chão, até que o pastor ficar sem palavras de tanto que exortou a libertação dela.

Tentaram jogar água no rosto dela, chamaram, fizeram de um tudo, mas ela não abriu os olhos. Chamaram o Samu e levaram ela lá pro hospital do Campo Limpo.  Aquele muleque endemoniado do filho dela, o Elias, deve estar comemorando até agora que ela não acordou. O pastor nos revelou que, até hoje, aquele foi o caso mais grave de maligno incubado.

Fazendo a barba

Roberto era um cidadão com poucas manias. Todos diziam que ele viveria por séculos, pois nada o incomodava. Levava um vida simples, sem frescuras, com poucos recursos. Quando lhe perguntavam se era feliz, ele dizia, com voz calma e cheia de nuances, que não precisava de felicidade. Encerrava a conversa, sem ferir o interlocutor, com frase já conhecida por todos: “já tenho tudo, para que ser feliz?”. Essa afirmação, encerrada com uma pergunta, com toda certeza, era estranha.

As manias de Roberto eram poucas, mas as poucas causavam muitos questionamentos e faziam uma diferença enorme. Ele estacionava seu veículo sempre no mesmo local, na mesma posição, com o mesmo ângulo e mantinha um protetor do painel sobre banco traseiro para proteger o tecido do assento. Quando lhe perguntavam porque não proteger o painel, que era a forma mais comum, ele dizia que os engenheiros automotivos pensaram em fazer os painéis dos carros mais fortes, por isso, não precisavam de cuidados, mas os bancos foram esquecidos pelos profissionais. Para ele, essa era a forma de corrigir o erro.

Suas poucas manias eram assuntos presentes nas rodas de conversas entre seus amigos e parentes. Mas Roberto pouco se importava com isso, estando presente ou não nos encontros. Ele dizia que a preocupação das pessoas com suas manias não passava de falta de coragem em fazer igual. A afirmação que poderia parecer arrogante, mas soava suave, como pena ao vento, diante da simplicidade em que Roberto seguia a vida. Assim, os amigos e parentes apenas se divertiam com tudo isso.

Mas a mania mais marcante de Roberto era a forma como gostava de fazer a barba e todo o ritual para esse momento. Não era apenas uma mania, era uma forma de viver. Ele comparecia ao barbeiro a cada quinze dias. Sempre às 15 horas. Para não ter problemas com o horário chegava quinze minutos antes. Parava na porta da barbearia do Neco e entrava sempre com o pé direito. Sentava de costas para a porta de entrada. Se o local estivesse ocupado, ele levava um banquinho para não correr risco. Quando faltava sete minutos para sua vez, levantava ia até o banheiro e lavava o rosto de forma frenética e com muito sabão.

Neco era um velho amigo de Roberto. Gostava muito de pescaria e sabia o nome de todos os peixes que havia pescado nos últimos cinco anos e suas medidas, pois estava tudo anotado num pequeno caderno, que ficava ao lado agenda de clientes. Ele pescava sempre depois de vinte dias da abertura do período da pesca. Nunca falava de pesca com Roberto, pois sabia que o amigo detestava peixes e achava que pescar era a coisa mais chata para um adulto fazer. Neco se preparava por dois dias antes para atender Roberto, pois as toalhas tinham que bem lavadas e as lâminas novas. Todo esse preparo virava chacota na barbearia, claro que sem a presença de Roberto.

Na hora certa, Neco lavava as mãos e pedia para Roberto sentar na cadeira vermelha que ficava ao fundo do salão. O cliente calmamente, caminhando como um chefe de estado que chega para uma solenidade importante, atravessa todo o salão se olhando no espelho e com olhar no admirado. Se acomoda no assento, como uma figura altiva, começa a falar dos seus poetas preferidos e a recitar estrofes curtas e com voz forte. Esse ritual dura cerca de dez minutos, enquanto isso o barbeiro prepara as “ferramentas”, como Roberto gosta de chamar as lâminas e demais apetrechos. Neco toma um pedaço de madeira, com um pedaço de couro fixado de um lado, e afia o instrumento, ao modo de um açougueiro a preparar as facas, reclina a cadeira e começa a passar a espuma no rosto de Roberto, que com três minutos cronometrados já está dormindo.

O trabalho dura trinta minutos. Quase todos aproveitados por Roberto para dormir. Como de praxe, ele é acordado cinco minutos antes do término do “serviço”. Roberto acorda com criança que dormiu depois da refeição. Rosto limpo e angelical, como gosta de dizer, ele deixa a barbearia repetindo a mesma pergunta: “Felicidade é estar preparado para a morte?” Mesmo com a força da indagação, por ser Roberto a perguntar o questionamento fica leve e causa pouco incômodo. Roberto deixa o salão, pisando para fora com o pé esquerdo. Dobra a primeira esquina a esquerda e entra no bar do Chico. Deseja boa tarde aos presentes e toma o café que já está posto no balcão.

 

Elipses

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Para Aristóteles, a natureza nos dotou da capacidade de falar para viver em sociedade. A natureza nos fez sociáveis. Quando um homem estupra uma mulher, quando uma esposa ensandecida corta o falo de seu marido infiel, quando uma mãe mata seu filho a pauladas, talvez sejam somente as tais falhas de comunicação, mal que a todos afeta. Em geral, a maioria acorda dizendo bom dia, eu te amo, senti saudades de você. Da cozinha vem os gritos de tô com fome, acabou o leite, não fui eu que quebrei. Pelo telefone promessas de não me demoro, aqui está tudo bem, nosso pai faleceu. E ao fim do dia quando a noite cobre o mundo com escuridão e todos dormem anestesiados pela vida, aquele inquieto, que não pode pregar os olhos, sente-se mal por algo que disse ou pelo que deixou de dizer. De um modo ou de outro, ela partiu. A impotência do silêncio provoca lágrimas desesperadas, autocomiseração. Aristóteles deve estar errado. Ou a sábia Mãe Natureza deve ter esquecido de nos dotar com algo inominável que deveria ser capaz de nos fazer cientes do inexprimível.

Fala sério, Chico!

Chico

Pô, Chico, vem cá, me diz: qual a graça de usar palavras difíceis nas letras das suas músicas? O que você faz é, praticamentem, um Apartheidsocio-musical, sabia? Porque pensa: suas poesias já têm uma complexidade fora do normal, que não é para a compreensão de qualquer um, começa por aí. Isso, claro, sem falar que suas letras nunca são o que parecem ser. Aí é que até Deus vai duvidar do significado que o dicionário traz para as palavras que você usa.

Não devia nem comentar, mas colocar efêmero é mancada.Seria tão menos complicado se você apenas dissesse que era um personagem passageiro da sua trama. Olha, nem ficaria tão ruim. E a melodia? Tenho certeza que você teria providenciado as melhorias necessárias, mantendo o nível, bem melhor do que qualquer sugestão que eu pudesse dar.

Não satisfeito, lança outra música, agora com um fulgurante, palavra que até hoje só vi parecida no hino nacional, e que, nem lá nem cá, dá pra entender de primeira, não. Juro pra você que um resplandescente cairia melhor e, apesar da grafia ainda ser meio chatinha, faria mais efeito…

Mas a campeã… Ah, Chico, a campeã é quando você lança uma palavra que, pra mim, pra Deus e o mundo, é um xingamento contido. Escafandrista? Pô, forçou a amizade, hein?! Fala sério, que até a explicação que o pai-dos-burros dá é esquisita pra caramba, mal dá pra cantar a musica junto com você, porque a gente fica é tentando reproduzir e acertar onde fica o S, onde tem o R. Escafandrista… É mole?

Se são boas, as letras? Porra!, e como são.

Mas não justifica, né?

Nada no basquete é trivial

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Descobri aqui em Brasília um curioso esporte, que, segundo dizem, já é praticado há algum tempo pelos negros norte-americanos.  Consiste, basicamente, em arremessar uma bola dentro de um cesto. Isso significa que não há gol, o que causa certo estranhamento de início.  Ainda assim, resolvi arriscar e acompanhar uma partida ao vivo.

É preciso dizer que aqui em Brasília quase ninguém vê futebol ao vivo. Assim como na minha São Bento, todo mundo torce para os times do Rio e São Paulo – ou seja, ninguém tem condições de ir ao estádio. Brasiliense e Gama são duas lendas urbanas.  Quando morava em Curitiba, eu acompanhava as partidas do Paraná Clube – falem o que quiser do Paraná, mas eu já vi o time jogar a Libertadores e ser campeão no próprio estádio. Pois bem.

Eu estava, portanto, órfão de um time para torcer em Brasília. E de repente, me aparece o basquete. Brasília é simplesmente o atual tricampeão do Novo Basquete Brasil – uma espécie de Campeonato Brasileiro. E como naquele sábado eu não tinha nada pra fazer, e o jogo ainda valia a vice-liderança, decidir ir ao ginásio.

Comprei um quilo de arroz e paguei meio ingresso. Entro no ginásio sem nenhuma apalpadela policial, como acontece nas partidas de futebol. Aliás, não há policiais aqui. Eu teria conseguido entrar com um punhal, uma faca, uma camisa do Flamengo – rival do Brasília. Procuro um lugar e sento. Um DJ anima a torcida, e um animador de torcidas faz o contrário. Os jogadores entram, se aquecem e cantam o Hino Nacional. Todo o ginásio se volta para a bandeira do Brasil – se duvidar, não é assim nem nos quartéis.

Era uma semana após a tragédia de Santa Maria, então havia faixas escandalosas apontando a saída de emergência. O jogo atrasou porque esperavam uma ambulância. Mas logo no começo eu notei o seguinte: a torcida é a mesma do futebol. Canta músicas  de incentivo, vaia o adversário, xinga o juiz, chama o craque do outro time de, digamos, homossexual. Também há uma torcida organizada que, como todas as torcidas organizadas, canta mais do que presta atenção no jogo. Talvez fosse porque Brasília estivesse ganhando, mas eu não vi gente da nossa própria torcida torcendo contra, como acontece no futebol.

Eis o que descobri: é mais emocionante do que futebol de campo. Nada do que um sujeito faz numa quadra de basquete é trivial – tudo é transcendente. Todos estão a um passo da enterrada e a outro passo da cesta contra – e houve uma cesta contra.  No futebol, o sujeito tem tempo de coçar a cabeça e qualquer outra parte do seu corpo. Pode caminhar em campo. Dar uma arrancada e voltar vagarosamente. No basquete, ele pode fazer a cesta mais fantástica de todas, num contra-ataque fulminante, e ainda assim terá que voltar correndo desesperadamente para o seu próprio campo. O próprio torcedor mal pode tirar o olho da quadra. E há muito mais motivos para se comemorar durante o jogo. Digo que uma partida de basquete é uma catarse, uma página de literatura russa.

Brasília venceu o jogo com facilidade maior do que a esperada. Eu descobri agora como alimentar nesta cidade a minha ânsia de torcer. E também tem o seguinte: ao contrário do futebol, no basquete eu não tenho a impressão de que poderia fazer melhor do que os jogadores.

Flashes do acaso – III

Quarto escuro

Deitados, não exatamente recolhidos, o pai beija demoradamente a mãe. Sua língua demonstra curiosidade e ansiedade. A mãe se insinua no escuro do quarto, o frenesi com que as mãos dele investigam o corpo dela provoca calor, mas então uma sensação de sufocamento a invade. Ela empurra o marido com força e pavor. Descalça, se esgueira pelos corredores escuros da casa enquanto lágrimas fortuitas ameaçam se derramar. Ela busca o quarto de sua filha. Seu tato afinado lhe conduz à porta certa.
A filha sufoca. A luz acende. Era o pai que viera atrás da mãe. Ele envolve a menina. A mãe chora e se prostra no chão.
– Minha filha, meu Deus, minha filha, meu Deus, minha filha…
O pai sente a vida da criança se esvair. Sua língua, antes curiosa, trava em desolação.

O papa e sua cruz

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A distância entre a coragem e a covardia é bem menor do que se imagina. Quase mínima, eu diria. Pensei nisso a propósito do episódio da renúncia do Bento 16, que fez, pela primeira vez em décadas, a Igreja Católica ser manchete em pleno carnaval.

Realmente, muita coisa precisa ser explicada. Quais intrigas palacianas constavam das cartas que o mordomo papal afanou no chamado Vatileaks? E o que havia nos papéis que o cara do banco papal mantinha em casa, que dizem apontavam conexões com a máfia e o diabo a quatro? Perdão por invocar o chifrudo, mas eita historinha mal contada. E, para fechar a gestão de Bento no mesmo clima, não faltam nem casos de padres pedófilos devidamente mal abafados.

Diante do sofrimento e agonia de João Paulo II ao longo de tantos anos, a primeira coisa que vem à mente é fazer como a colega Barbara Gancia, da Folha de São Paulo, e tascar em Bento 16 a pecha de arregão. Pedir pra sair não é exatamente uma opção para um cargo desses. Se o posto mais alto da Igreja representa uma posição de poder e prestígio, é também, do ponto de vista religioso, uma missão. Em teoria, está-se ali para servir a Deus e ser orientado pelo Espírito Santo para manter, guiar e ampliar o rebanho. Não deveria haver maior honra para um homem de fé.

Ao mesmo tempo, imagino que deve requerer uma coragem imensa admitir que se não se está a altura do desafio. Para encarar o mundo inteiro, abaixar a cabeça e dizer: não consigo. Para olhar a própria dor e dizer não dá, sabendo que um outro homem, não Jesus feito homem, mas outro homem comum, aguentou aquilo ou mais até o fim de seus dias. Por saber que a Igreja definha em meio a lutas internas, corrupção, casos de pedofilia e descrédito dos próprios fieis e isso não pode ser. Quem sabe fazer as mudanças necessárias seria traição maior a si mesmo do que ao próprio deus que jurou servir?

Mais difícil para os cristãos do que amar o próximo como a nós mesmos talvez seja simplesmente “não julgar” (Mateus 7, 1-5). Até onde se sabe, teremos todos contas a acertar no final dos tempos.

Renascer

Não sei se era uma linda manhã de sol quando nasci. Como foi doutrinado a pensar sempre positivo, pois dessa forma é possível acalmar o espírito, preferi acreditar que o astro brilhava para a minha chegada. Agora, quando o sol brilha forte pela manhã penso que estou renascendo. É uma sensação pra lá de otimista. Já não é fácil nascer uma vez, renascer se torna ainda mais duro.

O nascer parece ser uma decisão que tomam por nós. Claro que considero todos os esforços para ser o primeiro a romper os desafios no útero materno, numa corrida desenfreada e única para garantir a vida. É um momento lindo o processo concepção de uma nova vida, dentro das teorias evolucionistas e também nas criacionistas.

O renascer é uma decisão tomada por nós. É quando já avançados em qualquer das teorias que acreditemos, temos que fazer escolhas e construir, forjar, modificar, edificar, elaborar uma nova forma de vida ou personificar um novo modelo de existir. Na teoria evolucionista é o acreditar que os mais fortes sobrevivem ao compreenderem e se adaptarem ao meio. Dadas as mudanças, transformações e depredações que temos, como espécie humana, causado ao meio, não está fácil ter todos os dias ter que renascer, reconstruir-se, reformar-se, adaptar-se. Considerando a teoria criacionista, onde podemos observar o livre arbítrio, para utilizar apenas uma linha de pensamento, está extremamente desafiador renascer no individualismo.

Vivemos um mundo de extremas dificuldades. Vivenciamos o processo, considerado pelo próprio homem, de maior avanço em nossa viagem, enquanto espécie, sobre o Planeta Terra. Por essa evolução, estamos nos limitando, em todos os sentidos que essa palavra possa ter em todas as suas flexões e variações, na forma de renascer. Estamos renascendo para dentro e não para o mundo. Os medos, as aflições, as descrenças, as guerras, as ingerências, os conflitos estão nos fazendo seres impossibilitados de vencer a evolução.

Hoje está sol. Lindo. Renascido, na minha visão humana. Mas, o astro que não renasce, apenas resurge, faz renascer a vida em nossa nave-mãe que nos conduz a sabedoria e a necessidade de utilizar a sabedoria para podermos fazer algo simples, considerando a força da natureza, gerar a vida.

Consideração

Amizade

Se a gente pensa em ligar, vem a conta para pagar e o pensamento acaba ficando esquecido, em cima do caixa eletrônico. Outra hora é mandar um email, coisa rápida de fazer, daí aparece na tela aquela promoção irresístivel de agora e o email, coitado, fica para inglês ler. Assim passa uma semana ou três, passam dias, passa mês e a hora que a gente vê e se dá conta, assusta, ou o quê, o meio do ano está aí, mais marcas no canto do olhar aqui e a gente não sabe porquê não ligou, não escreveu, não procurou, não enviou um bombom sequer, enrrolado em papel marchê.

Já dizia vovó Maria, o tempo do homem é invenção e quem é regulado por relógio acaba sempre atrasado na vida. Eu acho que ela tem toda razão. Já passou da hora de ir te ter, te estender a mão! Te dar abraços e beijos, falar como gosto de você e declarar, ao vivo e a cores, que por mais que a vida corra você sempre vai me ver.

Fuso confuso

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Coisa doida demais é fuso horário.

Quando criança, a única coisa de que sabia – e que era capaz de entender – era que se no Japão fosse dia, na minha casa seria noite, e vice-versa. Começava a complicar se surgissem datas na conversa: sendo dia 07 de junho no Brasil, era dia 08 no Japão. Ou dia 06, já não sei.

Depois que cresci e comecei a trabalhar, me vi na situação de ligar para um gringo e acertar data e hora para uma reunião de negócios. Como dizem os matutos do interior, aí é que a merda agarrou.

Era um tal de am / pm, UTC, PST, EST, CET… Parece mais com sigla de partido político, e só serviu para me confundir cada vez mais. U, que sequer tinha saído dos limites do Sudeste brasileiro, tinha que saber tanto de geografia como nunca soube: quem ficava no Eastern, quem ficava no Central ou ainda no Pacific.

Aí descobri que outros países também também aplicavam a prática do horário de verão. Fo-deu. Se já era difícil saber a diferença de fuso no tempo real, que dirá ter que lembrar que o Sudão está a 1h a mais, ou se Palo Alto está a 1h a menos. Mesmo quando a mudança era só no relógio de pulso eu sentia a cruel necessidde de perguntar se o ponteiro andava para frente ou para trás.

Ainda hoje tenho sérias dificuldades em lembrar de alguns fusos, mas ao menos já entendo como eles funcionam! E melhor do que isso: descobri um site na internet que já tem tudo pronto, calculadinho!

A conclusão que tiro disso? Com certeza, é a de que preciso viajar mais…

O sino da igreja

sino de igreja

Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. É bom que cante baixo, ou alguém reclamará. Pois se não é pra pensar assim! Imaginem que existe uma igreja, igual a todas as igrejas, e que ela tem um sino, igual a todos os sinos – pessoalmente, jamais vi um sino de igreja, mas imagino que sejam muito parecidos entre si. E imaginem também que, não sabendo fazer outra coisa, só resta ao sino badalar. Faz parte da ordem natural das coisas que exista uma igreja com um sino e que ele badale. Agora imaginem como pode ser chato um sino badalando.

Tão chato que alguém resolveu escrever uma carta ao jornal, reclamando daquele barulho infernal – com o perdão da expressão. Queixava-se o sujeito do excessivo número de vezes que o sino da igreja se põe a tocar. Conheço o sino que ele fala. Se são quatro horas da tarde, ele irá tocar quatro vezes, uma atrás da outra. Depois de quinze minutos, voltará a tocar, uma única vez. Baterá ainda a meia-hora e os três quartos de hora. E continuará fazendo isso religiosamente, na hora seguinte e por toda a eternidade – tal é a missão do sino.

Imagino que o homem que se queixa more perto da igreja, e que o escute tocando justamente nos horários em que queria descansar e não ouvir barulho algum. Esqueci de falar que aquele sino em especial, sendo fervorosamente católico, se põe a tocar desesperadamente às seis horas da tarde, a hora do Angelus, o momento da Anunciação do Cristo. Talvez também toque às seis horas da manhã, o que provavelmente causa o aborrecimento de alguns pobres cachorros que se queixam como podem – uivando. E de senhores de família que se queixam mandando cartas ao jornal.

No lugar onde minha mãe nasceu, existe um sino que trabalha ainda mais. Se durante o dia ele começa a tocar de forma insistente, é um claro sinal de que alguém morreu. E as pessoas então se lembram de alguma pessoa que estava doente nos últimos dias, e se perguntam se é por ela que o sino dobra. Mas na minha terra, o sino já não toca nessas ocasiões. A cidade cresceu tanto, e começou a morrer tanta gente que o sino teria que passar o dia inteiro anunciando funerais – coisa que a vizinhança também não aprovaria.

Também hoje, o sino deixou de regular as nossas horas. Ele badala porque quer. Ninguém aguarda o seu sinal para saber que horas são. Há alguns mais antigos que acertam os seus relógios de pulso com o relógio da igreja – que, em geral, está sempre atrasado. Aquele relógio, eu conheço a história. É alemão, foi construído em 1925. Um senhor da cidade doou um conto de réis para que fosse comprado. Quando a igreja foi demolida para dar lugar a uma mais nova, ele foi junto. Possui marcadores em todos os quatro lados, e quando anoitece ele ainda pode ser observado à distância, graças a um sistema de iluminação interna. Se ninguém observa, não é por omissão dele.

Tem o relógio a doce vantagem de ser mudo. Da minha janela, não ouço qualquer sino, não vejo qualquer igreja. Não há, mesmo, nada digno de ser visto nem ouvido. E então eu pego novamente o jornal, que é coisa que sempre tem o barulho de que preciso.

Flashes do acaso – II

Ele se incomodava profundamente com o tilintar da lotação. O frenesi com que as cabeças iam ao teto lhe causava alguma indignação. Não era o único. Investigava os olhares. Havia condescendência. Havia conformismo. Havia indiferença. Havia ela. De repente perdeu-se de seus pensamentos. Aquela mulher lhe gritava familiaridade. Não era atração. Não era paixão. Ficou fitando a mulher e por pouco perdeu seu ponto. Só não o perdeu porque era o ponto dela também. Desceram.
Ela sentou-se no ponto de ônibus e ele sem se perceber se pôs a esperar também nas adjacências. Não sabia se esperava um ônibus. Se esperava uma epifania. Não sabia o que esperava. Aos poucos ela foi se dando conta da presença dele. Se olhavam fortuitamente. Ele pegou um cigarro. Passaram-se cinco minutos. Ela tirou um caderninho surrado da bolsa. Passaram-se dez minutos. Ele pegou outro cigarro. Passaram-se mais cinco minutos. Ela lia algo no caderninho com atenção inventada. Passaram-se outros cinco minutos.
Ele ficou sem cigarros e resolveu se aproximar.
– José?
– Mãe?