Arquivo do mês: fevereiro 2013

Enquanto eu desenhava um deus…

Enquanto eu desenhava um deus, o mato crescia e a anormalidade me contava anedotas que fizeram o Cristo sorrir. Não sabia a dimensão dos meus gritos, nem tampouco o gosto do hoje que me revoltava. E no meio do desenho, não é que o lápis caiu, caiu e a preguiça o furtou. E eu, amante das bobagens, montava um personagem muito sério e que não bocejava: único como a noite sem lua. E o rascunho quedava cada vez mais desproporcional. Só o mostrei a alguns mendigos que, sinceros, opinaram: tudo menos eterno. Menos Eterno. E por que não? É que era necessário redesenhá-lo ao amanhecer, para não esvaziá-lo com o passar dos segundos. E não tinha boca meu deus, e nem ouvidos, porque era tão singular que cri injusto fazê-lo chorar e compreender as lacunas de seu criador. E a criança enxerida que invadiu meu gênio inventivo deu-lhe um coração, muito marciano. Enquanto eu desenhava um deus, eu não era mais eu, nem deus um eu meu.


O desbravar da existência

Ariel e Penn

Montagem sobre as fotos de Ariel Goldenberg e Sean Penn originalmente publicada no site da Rede Telecine

A vida não cansa de nos surpreender. Seus designíos, ou os designíos de Deus, são eloquentes em determinar a fragilidade da existência e, simultaneamente, a força que irradia do espírito humano. Nas últimas semanas dois casos em particular ergueram esse testemunho. O primeiro é o de Ariel Goldenberg. Portador da síndrome de Down, Ariel é também ator. É um dos protagonistas do filme “Colegas”, que estreia nos cinemas brasileiros na próxima sexta-feira. O filme trata de três amigos portadores da síndrome que escapam da instituição em que vivem para perseguir seus sonhos. O de um deles é voar, a de outra é casar e a do personagem de Ariel é ver o mar. Na vida real Ariel tem um sonho mais difícil de ser realizado: conhecer Sean Penn, o ator de quem é fã. Já é bastante notório para quem é assíduo da internet a campanha “#vemSeanPenn” capitaneada por Ariel e abraçada pela equipe de divulgação do filme que viu nas redes sociais ganhar proporção universal. Com a estreia de “Colegas” eminente, Ariel ainda não tem a confirmação se seu ídolo estará presente na estreia (mote do vídeo que alcançou picos de visualização no Youtube), mas parece certo que eventualmente, mais cedo do que tarde, estará cara a cara com seu ídolo. Ariel, ator e futuro roteirista, trilha uma jornada de sucesso e não faz de sua deficiência um impedimento. É um exemplo notável, mas o que interessa à análise é o fato dele estar próximo de realizar um sonho tão incomum e ao mesmo tempo inacessível para um brasileiro comum. O que faz de Ariel especial? Sua força de vontade indomável? Sua graciosidade e esperança no trato com a vida?
Talvez olhar para Oscar Pistorius enseje alguma perspectiva menos abstrata. O atleta paraolímpico sul-africano, o primeiro biamputado a participar de uma final olímpica, motivou em agosto do ano passado um texto nesse Vida a Sete Chaves. Era um herói. Hoje, depois de matar sua namorada (se acidentalmente ou não ainda há uma investigação e processo judicial a declarar), experimenta o inferno dos anjos caídos. Pistorius alcançou, em sua carreira e vida pessoal, o que muitos mortais apenas sonham em conquistar – sejam deficientes físicos ou não. Agora, vislumbra o maior dos pesadelos – midiático e pessoal – nesse que promete ser um duradouro terceiro ato de sua existência.
O fato de duas pessoas, destinadas a se recolherem em suas insignificâncias terem ido tão longe, testado os limites do que o homem julga possível e experimentarem em níveis raros os sabores e dissabores da vida, fascina pelo aspecto divino, do imponderado, contido nesses casos luminosos.
A existência, em seu constante desbravamento, é um elixir sagrado, secreto e sempre poderoso.


O sim pelo não

O-Exorcismo-de-Emily-Rose-The-Exorcism-of-Emily-Rose-3

 

Na linha 675x – terminal Grajaú/metrô Vila Mariana, entram duas senhoras de saia comprida e coque no cabelo. Elas escolhem bancos opostos e se sentam no canto da janela. A da direita descansa a bolsa no assento vazio e conta para a outra:

O filho fez uma maldade tão grande com ela, que ela não quis contar. Ficou mal ela… Daí outro dia, o pastor, no culto, falou assim:

─ Jesus está me dizendo que há alguém aqui pensando em se matar. Em nome dele eu vos digo: não se mate!

Na mesma hora eu levantei e disse:

─ Senhor, é ela, a Sônia, quem está pensando em se matar!

Nunca fiz tão bem na minha vida porque ela me olhou com um ódio, um ódio tão verdadeiro que eu nunca tinha visto e, espero, nunca mais ver. Tenho certeza que era o demônio dentro dela se revirando todo, revoltado por ter sido descoberto.

Com uma obreira pegando em cada lado, a Sônia foi levada diante do altar. O pastor falou para o príncipe desse mundo dizer o que queria, mas ele se disfarçou bem dentro dela para não ser percebido e ela falou, com a própria voz, que não tinha nada, que só queria voltar pro banco dela lá no fundo da igreja.

Só que aquele pastor era bom, estava ungido por Deus e não se deixou enganar. Chamou mais dois obreiros e começaram a orar com todo fervor. A igreja foi acompanhando pra levar nosso apelo direto aos céus, que era para a Sônia se ver logo livre do coisa à toa.

Ela tentou fugir sabe? Tentou, mas os irmãos seguraram ela bem direito para ela só sair dali abençoada de novo.  Eles clamaram a Deus com todo coração e daí ela se jogou no chão urrando, noutras horas só chorava e ainda teve vez que ela mal punha as palavras pra fora, mas era sempre falando para a deixarem ir pra casa.

E o pai do mal lá, se fazendo de morto, mas conduzindo cada coisa que ela dizia. O pastor disse que nunca tinha visto o tinhoso tão esperto em todos seus anos de púlpito e que aquele lá não se ousava revelar na casa de Deus era pra poder continuar operando na irmã, levando ela pro desatino.

Toda a igreja empenhada, rezando, clamando. Vinha gente de fora olhar o nosso louvor e também entrava junto para libertar a Sônia do Asmodeu. Ela já estava descabelada e toda rasgada de tanto que se debateu para se libertar das mãos dos obreiros, mas eles eram firmes e ela ficou lá, caída no chão, até que o pastor ficar sem palavras de tanto que exortou a libertação dela.

Tentaram jogar água no rosto dela, chamaram, fizeram de um tudo, mas ela não abriu os olhos. Chamaram o Samu e levaram ela lá pro hospital do Campo Limpo.  Aquele muleque endemoniado do filho dela, o Elias, deve estar comemorando até agora que ela não acordou. O pastor nos revelou que, até hoje, aquele foi o caso mais grave de maligno incubado.


Fazendo a barba

Roberto era um cidadão com poucas manias. Todos diziam que ele viveria por séculos, pois nada o incomodava. Levava um vida simples, sem frescuras, com poucos recursos. Quando lhe perguntavam se era feliz, ele dizia, com voz calma e cheia de nuances, que não precisava de felicidade. Encerrava a conversa, sem ferir o interlocutor, com frase já conhecida por todos: “já tenho tudo, para que ser feliz?”. Essa afirmação, encerrada com uma pergunta, com toda certeza, era estranha.

As manias de Roberto eram poucas, mas as poucas causavam muitos questionamentos e faziam uma diferença enorme. Ele estacionava seu veículo sempre no mesmo local, na mesma posição, com o mesmo ângulo e mantinha um protetor do painel sobre banco traseiro para proteger o tecido do assento. Quando lhe perguntavam porque não proteger o painel, que era a forma mais comum, ele dizia que os engenheiros automotivos pensaram em fazer os painéis dos carros mais fortes, por isso, não precisavam de cuidados, mas os bancos foram esquecidos pelos profissionais. Para ele, essa era a forma de corrigir o erro.

Suas poucas manias eram assuntos presentes nas rodas de conversas entre seus amigos e parentes. Mas Roberto pouco se importava com isso, estando presente ou não nos encontros. Ele dizia que a preocupação das pessoas com suas manias não passava de falta de coragem em fazer igual. A afirmação que poderia parecer arrogante, mas soava suave, como pena ao vento, diante da simplicidade em que Roberto seguia a vida. Assim, os amigos e parentes apenas se divertiam com tudo isso.

Mas a mania mais marcante de Roberto era a forma como gostava de fazer a barba e todo o ritual para esse momento. Não era apenas uma mania, era uma forma de viver. Ele comparecia ao barbeiro a cada quinze dias. Sempre às 15 horas. Para não ter problemas com o horário chegava quinze minutos antes. Parava na porta da barbearia do Neco e entrava sempre com o pé direito. Sentava de costas para a porta de entrada. Se o local estivesse ocupado, ele levava um banquinho para não correr risco. Quando faltava sete minutos para sua vez, levantava ia até o banheiro e lavava o rosto de forma frenética e com muito sabão.

Neco era um velho amigo de Roberto. Gostava muito de pescaria e sabia o nome de todos os peixes que havia pescado nos últimos cinco anos e suas medidas, pois estava tudo anotado num pequeno caderno, que ficava ao lado agenda de clientes. Ele pescava sempre depois de vinte dias da abertura do período da pesca. Nunca falava de pesca com Roberto, pois sabia que o amigo detestava peixes e achava que pescar era a coisa mais chata para um adulto fazer. Neco se preparava por dois dias antes para atender Roberto, pois as toalhas tinham que bem lavadas e as lâminas novas. Todo esse preparo virava chacota na barbearia, claro que sem a presença de Roberto.

Na hora certa, Neco lavava as mãos e pedia para Roberto sentar na cadeira vermelha que ficava ao fundo do salão. O cliente calmamente, caminhando como um chefe de estado que chega para uma solenidade importante, atravessa todo o salão se olhando no espelho e com olhar no admirado. Se acomoda no assento, como uma figura altiva, começa a falar dos seus poetas preferidos e a recitar estrofes curtas e com voz forte. Esse ritual dura cerca de dez minutos, enquanto isso o barbeiro prepara as “ferramentas”, como Roberto gosta de chamar as lâminas e demais apetrechos. Neco toma um pedaço de madeira, com um pedaço de couro fixado de um lado, e afia o instrumento, ao modo de um açougueiro a preparar as facas, reclina a cadeira e começa a passar a espuma no rosto de Roberto, que com três minutos cronometrados já está dormindo.

O trabalho dura trinta minutos. Quase todos aproveitados por Roberto para dormir. Como de praxe, ele é acordado cinco minutos antes do término do “serviço”. Roberto acorda com criança que dormiu depois da refeição. Rosto limpo e angelical, como gosta de dizer, ele deixa a barbearia repetindo a mesma pergunta: “Felicidade é estar preparado para a morte?” Mesmo com a força da indagação, por ser Roberto a perguntar o questionamento fica leve e causa pouco incômodo. Roberto deixa o salão, pisando para fora com o pé esquerdo. Dobra a primeira esquina a esquerda e entra no bar do Chico. Deseja boa tarde aos presentes e toma o café que já está posto no balcão.

 


Elipses

inc

Para Aristóteles, a natureza nos dotou da capacidade de falar para viver em sociedade. A natureza nos fez sociáveis. Quando um homem estupra uma mulher, quando uma esposa ensandecida corta o falo de seu marido infiel, quando uma mãe mata seu filho a pauladas, talvez sejam somente as tais falhas de comunicação, mal que a todos afeta. Em geral, a maioria acorda dizendo bom dia, eu te amo, senti saudades de você. Da cozinha vem os gritos de tô com fome, acabou o leite, não fui eu que quebrei. Pelo telefone promessas de não me demoro, aqui está tudo bem, nosso pai faleceu. E ao fim do dia quando a noite cobre o mundo com escuridão e todos dormem anestesiados pela vida, aquele inquieto, que não pode pregar os olhos, sente-se mal por algo que disse ou pelo que deixou de dizer. De um modo ou de outro, ela partiu. A impotência do silêncio provoca lágrimas desesperadas, autocomiseração. Aristóteles deve estar errado. Ou a sábia Mãe Natureza deve ter esquecido de nos dotar com algo inominável que deveria ser capaz de nos fazer cientes do inexprimível.


Fala sério, Chico!

Chico

Pô, Chico, vem cá, me diz: qual a graça de usar palavras difíceis nas letras das suas músicas? O que você faz é, praticamentem, um Apartheidsocio-musical, sabia? Porque pensa: suas poesias já têm uma complexidade fora do normal, que não é para a compreensão de qualquer um, começa por aí. Isso, claro, sem falar que suas letras nunca são o que parecem ser. Aí é que até Deus vai duvidar do significado que o dicionário traz para as palavras que você usa.

Não devia nem comentar, mas colocar efêmero é mancada.Seria tão menos complicado se você apenas dissesse que era um personagem passageiro da sua trama. Olha, nem ficaria tão ruim. E a melodia? Tenho certeza que você teria providenciado as melhorias necessárias, mantendo o nível, bem melhor do que qualquer sugestão que eu pudesse dar.

Não satisfeito, lança outra música, agora com um fulgurante, palavra que até hoje só vi parecida no hino nacional, e que, nem lá nem cá, dá pra entender de primeira, não. Juro pra você que um resplandescente cairia melhor e, apesar da grafia ainda ser meio chatinha, faria mais efeito…

Mas a campeã… Ah, Chico, a campeã é quando você lança uma palavra que, pra mim, pra Deus e o mundo, é um xingamento contido. Escafandrista? Pô, forçou a amizade, hein?! Fala sério, que até a explicação que o pai-dos-burros dá é esquisita pra caramba, mal dá pra cantar a musica junto com você, porque a gente fica é tentando reproduzir e acertar onde fica o S, onde tem o R. Escafandrista… É mole?

Se são boas, as letras? Porra!, e como são.

Mas não justifica, né?


Nada no basquete é trivial

ceub

Descobri aqui em Brasília um curioso esporte, que, segundo dizem, já é praticado há algum tempo pelos negros norte-americanos.  Consiste, basicamente, em arremessar uma bola dentro de um cesto. Isso significa que não há gol, o que causa certo estranhamento de início.  Ainda assim, resolvi arriscar e acompanhar uma partida ao vivo.

É preciso dizer que aqui em Brasília quase ninguém vê futebol ao vivo. Assim como na minha São Bento, todo mundo torce para os times do Rio e São Paulo – ou seja, ninguém tem condições de ir ao estádio. Brasiliense e Gama são duas lendas urbanas.  Quando morava em Curitiba, eu acompanhava as partidas do Paraná Clube – falem o que quiser do Paraná, mas eu já vi o time jogar a Libertadores e ser campeão no próprio estádio. Pois bem.

Eu estava, portanto, órfão de um time para torcer em Brasília. E de repente, me aparece o basquete. Brasília é simplesmente o atual tricampeão do Novo Basquete Brasil – uma espécie de Campeonato Brasileiro. E como naquele sábado eu não tinha nada pra fazer, e o jogo ainda valia a vice-liderança, decidir ir ao ginásio.

Comprei um quilo de arroz e paguei meio ingresso. Entro no ginásio sem nenhuma apalpadela policial, como acontece nas partidas de futebol. Aliás, não há policiais aqui. Eu teria conseguido entrar com um punhal, uma faca, uma camisa do Flamengo – rival do Brasília. Procuro um lugar e sento. Um DJ anima a torcida, e um animador de torcidas faz o contrário. Os jogadores entram, se aquecem e cantam o Hino Nacional. Todo o ginásio se volta para a bandeira do Brasil – se duvidar, não é assim nem nos quartéis.

Era uma semana após a tragédia de Santa Maria, então havia faixas escandalosas apontando a saída de emergência. O jogo atrasou porque esperavam uma ambulância. Mas logo no começo eu notei o seguinte: a torcida é a mesma do futebol. Canta músicas  de incentivo, vaia o adversário, xinga o juiz, chama o craque do outro time de, digamos, homossexual. Também há uma torcida organizada que, como todas as torcidas organizadas, canta mais do que presta atenção no jogo. Talvez fosse porque Brasília estivesse ganhando, mas eu não vi gente da nossa própria torcida torcendo contra, como acontece no futebol.

Eis o que descobri: é mais emocionante do que futebol de campo. Nada do que um sujeito faz numa quadra de basquete é trivial – tudo é transcendente. Todos estão a um passo da enterrada e a outro passo da cesta contra – e houve uma cesta contra.  No futebol, o sujeito tem tempo de coçar a cabeça e qualquer outra parte do seu corpo. Pode caminhar em campo. Dar uma arrancada e voltar vagarosamente. No basquete, ele pode fazer a cesta mais fantástica de todas, num contra-ataque fulminante, e ainda assim terá que voltar correndo desesperadamente para o seu próprio campo. O próprio torcedor mal pode tirar o olho da quadra. E há muito mais motivos para se comemorar durante o jogo. Digo que uma partida de basquete é uma catarse, uma página de literatura russa.

Brasília venceu o jogo com facilidade maior do que a esperada. Eu descobri agora como alimentar nesta cidade a minha ânsia de torcer. E também tem o seguinte: ao contrário do futebol, no basquete eu não tenho a impressão de que poderia fazer melhor do que os jogadores.