Arquivo do mês: janeiro 2013

Bilhete para Carlos

Mas eles continuam tirando ouro do nariz, Carlos – e ainda exportam esperanças para a eternidade. Quando a normalidade os atinge, ficam a ler seus poemas de fim de mundo. As coisas andam muito complicadas por aqui, até as sombras sentem frio e gemem nos confins da madrugada. Há quem idolatre lâmpadas fluorescentes e quem julga indispensáveis os becos escuros. Os sonhos, meu caro, estão tão repetidos que a vontade de sonhar queda tosca no seu banquinho apodrecido. O presente se afoga em desejos que o futuro ignora e o passado acha anedótico – para teres uma leve ideia dos acontecimentos do país. As notícias são as mais ingratas possíveis: a eternidade anda abraçando muita gente, renovou o contrato com aquela piadinha sem graça que nos faz rir na horizontal. 

Eles não sabem que existem bilhões de Deuses, e todos almoçam na Antártida. Os diálogos são infrutíferos, amigo, os anjos que aluguei não leem Victor Hugo. Conheci ainda ontem meia duzia de absurdos e os convidei para um delicioso jantar, conversamos sobre a Copa do Mundo e os próximos fins de Mundo – pedi perdão por bocejar quando imploravam uma data exata e explicações com sentido, depois ri, maquiavelicamente – como se tivesse engolido Deus. 

Preocupe-se sim, itabirano. E conte os dias, porque quem os conta tem mais chances de enlouquecer – não, não me peça detalhes. Os detalhes são o plágio da alma. Agora todos querem encantar a felicidade, mas há algo de errado, lhe oferecem uma refeição e ela dorme – o sonífero esta sempre na água azul. Posteriormente, ficam a admirá-la, por infinitos segundos. 

Como te disse outrora, eu ainda compro doses de seriedade naquele beco entre o bem e o mal, o custo está comprometendo meu salário – no entanto, é preciso fingir ociosidade. Não peço que me entenda, só que me alugue uma alma, nem que seja verde e amarela. Carlos, envie-me uma foto desse seu trono, quero conferir a que espécie pertencem esses insetos que você devora.

 

Atenciosamente,

 

Aquele que troca a eternidade por três doses de loucura.

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Ele e nós

planeta

 

Ele tinha chegado ao Planeta naquele dia. Santa Maria. Só ouvia de Santa Maria. A humanidade havia sido estudada por séculos por aquela espécie que tentava entender melhor o que caracteriza o ser humano. O Brasil havia sido escolhido o destino para as primeiras observações in loco em virtude de sua abundante contradição. Santa Maria.

Ele enviava códigos binários para sua base em que relatava grande consternação por um acontecimento que teria vitimado muitos. Não detectava, porém, o que os humanos chamam de sinceridade em grande parte dessa consternação.

A Terra havia sido escolhida porque, ao longo dos anos, nenhuma espécie mudara tanto para permanecer a mesma como o homem. E segundo os relatos de Ele, essa capacidade seguia aguçada.

A observação estava apenas começando…

Santa Maria.


Cuidado com as coisas fúteis

Inferno astral não são os outros, meu bem. É o seu céu mesmo que pode andar meio virado, e isso bem antes do mês do aniversário e, pior, várias vezes ao ano. A fase dura entre três a dez dias e é mais ou menos como uma tpm fora de época. Eu não percebi na hora, mas o primeiro sinal dos maus dias foi esquecer meu chocolatinho da calma porque não ouvi o despertador tocar e precisei sair correndo para não perder o trem das 7h, isso numa véspera do feriado.

relogio

 

No site que dá as previsões – que não sei porque ainda leio, já que é sempre um tal de “não faça isso”, “não faça aquilo”, que mais parece a minha mãe do que astrologia – a orientação para o final de semana era para tomar “Cuidado com problemas de ordem fútil”. Nessa fase a pessoa meio que vira uma casquinha de ferida, implica com qualquer um por qualquer coisa.

Só que não é verdade, eu implico com o quê já implicava antes. A diferença é que tenho a impressão de que as pessoas fazem tudo de propósito para acabar com o meu humor. Se não lhe parece muito equilibrado da minha parte, tudo bem: sua opinião não é muito importante para mim neste momento.

Sábado foi o início do ciclo. Era minha primeira folga no hospital em dois meses. Sou enfermeira e posso garantir que não tem nenhum sex appeal nisso. Quem quer isso da vida, dê um F5 e vá ser bbb. Mulher fruta. Paniquete, sei lá. Sexo em hospital só rola na cabeça de adolescentes e de velhinhos já chegando no Alzheimer.

Não vou me alongar em divagações. Sábado, a faxineira faltou. Motivo: precisava ensaiar para um concurso de forró. Iria representar o pessoal do bairro, da igreja, sei lá. Não, não podia indicar ninguém, mas viria normalmente na semana que vem. A casa de pernas pro ar. O telefone toca, ainda são 8h30 da manhã. É a minha sogra avisando que vem pra cá. Seu Denis, de cama há meses, está de caso com a enfermeira da noite. Ela vai trazer as malas.

O filho dela não sabe o quê fazer, mas se arruma rapidinho para não perder o futebol com a turma da firma. Não tem cama para ela dormir aqui. As pessoas deveriam encarar isso como um sinal, mas não. E lá vou eu comprar uma cama que não poderei enfiar em lugar nenhum.

Domingo. Ela já está aqui há 16h. Reclamou que o táxi do aeroporto não tinha ar condicionado. Que a vizinhança era feia. E que as bebidas alcoólicas da geladeira pareciam chá. Deveria ter explicado que era para, quando bêbada, não correr o risco de atirar alguma visita simpática pela janela.

A cama nova só será entregue amanhã. O filhinho lhe ofereceu a nossa cama. Eu fiquei com o sofá. Ele tentou se ajeitar com umas cadeiras, ainda pôs umas almofadas. Não deu certo e acabou indo dormir no carro. Achei foi pouco.

Choveu o dia todo. Poderia esquecer do delivery porque motoboy não é anfíbio. A tv a cabo ficou fora do ar. Fomos ao cinema porque a janela começou a ficar convidativa demais. Mais de meia hora pra achar vaga no estacionamento. Os filmes todos já tinham começado. O jeito foi assistir à transmissão de uma ópera. A sogra aprovou. Eu e o Ricardinho ansiando por uma janela.

Mamãe liga à noite. Meu primo Maurício quer largar a mulher e voltar pra casa da vovó. Por isso havia tantas ligações perdidas da Sandrinha no meu celular. Tive que concordar com o padre da televisão: “as novelas estão acabando com a família”. Não vou retornar as ligações: seria muito chato eu dizer que o primo está coberto de razão. A Sandrinha é um encosto, todo mundo sabe. Ainda correria o risco de ele vir chorar no meu ombro. Soltei a tomada do telefone fixo. Eles que se explodam pra lá, na minha folga.

Segunda-feira, último dia de feriadão. O gerente da loja da cama liga e diz que não faz entrega aos feriados. Mas vender ele pode, o danadinho. Mandei a sogra ir lá comprar um guarda-roupa. Agora ele vai ver o que é promoção.

O Ricardinho escorregou no futebol e torceu o pé. Mandou o Beto vir do campinho me chamar. Ele entrou todo cheio de lama apartamento adentro. O cara arfava como se correr 200m fosse alguma São Silvestre. Não consegui entender nada. Apenas chorar. Aquelas pegadas enormes, meu tapete branco, a sogra, a cama, o guarda-roupa, a chuva que continuava, minha folga.

Entreguei um gelol pro Beto. E dinheiro pro táxi. Que fosse para o hospital ou para qualquer outro lugar, tanto fazia. Coisas fúteis? Não, pessoas fúteis, por todo lado. Vontade de ir buscar lá no Jardim Ângela aquela faxineira biscate pra dar um jeito nisso aqui, mandar a sogra para um albergue pra ela reclamar, agora com razão, que sentiu até os paus da cama sob o colchão, vontade de ir para o hospital.

Neste final de semana o plantão é do doutor Marcos. Podia usar aquela lingerie branca nova. A vendedora fez questão de dizer que era importada. Liguei pra Marcinha que topou trocar a folga, agora quem vai ser fútil sou eu.

Crônica originalmente publicada em Crônicas das 12 Badaladas

Equadorismos

anaïs

São tantas as formas virtuais de vida que me sinto meio que morta e afogada no anacronismo de minha ânsia de contato. Sinto falta de abraços. Anseio por brindes e sorrisos. Sinto falta, por vezes, do tapinha nas costas que tanto abomino. Spam estraga meu dia. Minhas amigas, que tenho em tão alta conta, acham que me animam com uma mensagem truncada da Lispector, que circula na internet. A tela é fria. E o túmulo de Clarice, revirado por sua revolta a falta de direitos autorais. Que não sejam direitos. Mas que sejam leais. Saio do trabalho ao léu, minguada e sozinha como a lua lá em cima. Todos on line. Ninguém por perto. Me sento no bar cujo garçom me apresenta o sorriso mais honesto. Peço a cerveja mais cara para retribuir sua gentileza. Abro um livro. Miller tem me feito companhia. Discordo de sua ânsia pelas fêmeas parisienses. Mas pelo menos ele se senta comigo gastando sua filosofia. Não gosta de mulheres inteligentes. Quem gosta afinal? Acho que bebi demais. Ninguém para dividir a conta. Meu pé esquerdo vai de encontro ao direito e os dois me levam para casa, sem que eu possa reclamar. Freando o ímpeto de todo dia, me recuso a ligar o computador dessa vez. É meu protesto bêbado. Quase uma revolução. Mas mudo de ideia. Escrevo uma crônica. Me sinto vingada. Alô, todos vocês, protegidos no calor das suas casas. Eu os detesto. Mas não posso viver sem tê-los por perto! Voltem para mim, brado pela janela. O viznho me manda calar a boca e dormir. Penso em citar Diderot. Esqueço no momento seguinte. Lembro de uma vodka no congelador. Penso em Trostky. Morreu no México. Nunca fui ao México. Onde fica o México? Vou procurar na internet. Acaba a luz. Me estranha o fato da escuridão ser igual de todos os lados. Pensando nisso, durmo o sono dos alcoolicamente alterados. Profundo e sem sonhos, esperançoso de que o mundo mude enquanto a noite passa. Ou eu mude de mundo, quem sabe do que é capaz o literato que nos dá vida. Boa noite Henry.


Bonitinha, mas ordinária

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ordinaria

Quatrocentosecinquentaenoveanos.

Quase perco o fôlego ao falar tua idade. Não, não me compreendas mal. És ainda uma mocinha, veja tuas colegas, o dobro de tua vida, e tu esbanjando doce imaturidade no auge de tua adolescência.

Não escutes palavras tolas de quem a inveja mortalmente. Carregas em ti uma preciosidade sem igual, teu ventre ainda pulsa a jovialidade do teu corpo. És como a rosa única, como o orvalho de uma manhã de primavera. Todos a olham, todos a procuram porque sabem de teu inestimado valor.

Teu passado? Ora, não te preocupes dele. Ainda há tempo de corrigires teus pequenos impropérios, não permitas que te abales por leviandades quaisquer.

Mas nos surpreendes, tu, que tão moça e tão sagaz em tuas artimanhas, joga feito gente grande. Usas de tua volúpia discreta para enlaçar aqueles a quem escolhes por capachos; tua delicadeza exuberante ludibria os olhos, cega-nos a razão, e quando então alcanças teus desejos, no ápice da loucura, afasta-te dos amantes, esqueces como de uma tarde fria de inverno.

Desdenhas aos que te querem, maltratas silenciosa e vorazmente os corações que cativaste. Mata-nos pouco a pouco, num prazer insandecido e inocente.

Ingênua, meu bem, és cruelmente ingênua. Mas também gostas de ser traída, esnobada, desdenhada e maltrada pela mesma medida que o fazes. Gostas porque sabes que todos, um dia, voltarão aos teus pés, reduzidos a pó perante ti.

És bonita, mas és das ordinárias…

E justamente por seres das ordinárias é que, eu também, não te troco por nada.


Em São Paulo

tiete

São Paulo anda fazendo aniversário. Eu conheço São Paulo como a mim mesmo – o que é uma maneira suave de dizer que não conheço nada. Já caminhei pela Avenida Paulista, mas nem por isso a conheço melhor. Já andei de metrô, já vi o rio Tietê (era melhor não ter visto), o antigo Carandiru e o estádio da Portuguesa. Cruzei a Ipiranga com a São João sem que absolutamente nada acontecesse no meu coração. Estive na frente do Museu de Artes e não tinha dinheiro para entrar.

No final de ano, conheci o Aeroporto de Congonhas – e o pessoal da companhia aérea foi muito gentil se esforçando para que eu conhecesse realmente bem o aeroporto, razão pela qual meu voo foi atrasado em quatro horas. Nada disso, no entanto, é mais marcante em São Paulo do que o homem da rodoviária. O velho homem da rodoviária.

*

Uma rodoviária é o lugar ideal para encontrar pessoas que nunca mais vamos ver. Há gente de todos os lugares, querendo ir para todos os cantos, e por motivos que ninguém quer saber. Em São Paulo, você olha ao longe e não vê o fim das plataformas de embarque. O melhor a fazer é soltar as malas e sentar, observando de que maneira o caos se organiza.

Eu estava nessa posição quando um senhor se aproximou com o seu comprovante de embarque e uma caneta. Perguntou se eu achava que precisava assinar aqueles papéis. Precisa, precisa sim, ainda mais hoje em dia, quando a palavra vale tão pouco. Se o senhor falar que se chama João, ninguém acredita, mas se estiver no papel, você está salvo.

O homem então perguntou se eu não poderia preencher o bilhete pra ele. Concordei e ele me emprestou a sua caneta. Perguntei seu nome completo e escrevi. Mas não bastava um nome, era preciso alguns números. As pessoas estão sempre querendo saber alguns números. Mostrou-me então a sua Carteira de Identidade. Copiei os números e devolvi o seu bilhete.

Pude perceber que aquele homem sabia ler e escrever. Mas, naturalmente, os comprovantes de embarque não são escritos em português, e sim na linguagem fria e técnica das pessoas esclarecidas. Certamente o bilhete está cheio pegadinhas e coisas incompreensíveis para quem não tiver o superior completo. A reforma ortográfica não previu esses casos.

O homem então me agradeceu – exageradamente. E antes que eu pudesse pensar alguma coisa, tirou R$ 5,00 da carteira e quis me entregar. Recusei. Ele então jogou o dinheiro em cima das minhas malas e saiu apressado, subindo no seu ônibus, que já estava estacionado. E eu fiquei ali, sentado, olhando e pensando coisas que se pensa numa rodoviária de São Paulo.


Luar de Bocejos

Engolira seis grilos cantantes após as comemorações de seus cem anos. Tristonha, percebeu que ficara décadas sem admirar a Lua através da janelinha de seu quarto. Abriu-a levemente para que os filhos não ouvissem quaisquer ruídos e não a colocasse de volta na cama, enfiando-lhe um sonífero para que deixasse de perturbar o sossego dos jovens. Viu a grandeza da noite e um luar de bocejos, e a Lua cada vez mais perto, mais perto, a anciã se fez menina, e sucumbiu ao irresistível desejo de abraçar a eternidade.