Arquivo do mês: dezembro 2012

Opiniões

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Eu já detestei azeitonas tanto quanto detesto alcaparras. Já furei muito panettone só para não comer aquelas irritantes frutas secas. Já gritei para meio mundo ouvir que Simone de Beauvoir deveria ser canonizada. Não pela igreja católica claro, porque afinal eles são retrógrados, anacrônicos. Só uma opinião. Já abdiquei de usar sabonete, fiquei em dúvida na hora de eliminar da minha vida o desodorante e fiz muito abajur com coador de café usado. Para ajudar o mundo, pensava eu. Outro dia eu criticava as casadas e ameaça queimar as noivas. Hoje, fico feliz quando recebo um convite de casamento. Compro panettone para a família toda e faço questão de separar o salpicão com mais azeitonas para mim. Fim de ano chega e eu sempre me sento na minha montanha imaginária para ver o sol que iluminou minha vida o ano todo. Mudei muito de ideia. Fiz muita coisa onde antes só cabia nunca. Engoli muito sapo recheado com moscas varejeiras só para ficar perto de quem vale a pena. E não me arrependo. Tem gente que critica essa minha metamorfose ambulante. Tem gente que ri. Eu sorrio. E continuo andando. Na próxima esquina já penso em lutar pelo direito dos homens chorarem. Afinal de contas, as coisas mudam. Se a gente não mudar também acaba ficando cinza e insensível, perdido sozinho num buraco vazio. Feliz ano novo.


Canja de galinha não faz mal a ninguém

Antes de dormir, tenha sempre um chá quentinho e um gibi à mão. Camomila ou boldo, baixinhas-gorduchas-dentuças ou pato-rico-mão-de-vaca, não importa. O chá vem como acompanhamento ao gibi; e o gibi, como um mantra. Depois de terminar chá e leitura, permaneça sentado, respire fundo três vezes e, ao soltar o ar, permita-se rir mais uma vez de tudo o que acabou de ler. E então vá sonhar.

Logo após o susto desgraçado que você vai levar por conta do alarme do seu despertador, pule da cama sem meias no chão gelado, faça dez polichinelos e diga bom-dia a si mesmo. Quando o arrependimento bater – e isso deverá ser muito rápido -, pegue uma toalha e tome um banho bem quente. Aproveite a disposição e vista a roupa que mais lhe agrada, independente do tempo que estiver fazendo. Apenas lembre-se de carregar consigo uma blusa.

Não faça do ônibus um martírio. Mentalize: se vier lotado, é porque precisa de contato e calor humano; se estiver vazio, será um precioso momento de reflexão. E carregue sempre um bom livro à tiracolo, um clássico, o do amigo, um best-seller, tanto faz!, mas não deixe sua cabeça parada por muito tempo, ponha-a para funcionar, dê vazão às idéias.

Se o seu trabalho não é bem aquele que sempre desejou, inverta a situação: faça-o porque sabe fazê-lo, não porque mandaram. Se for preciso, espalhe post-its com piadas bobas, cole adesivos de jogador de futebol no computador e troque de mousepad. E para casos de emergência, guarde um chocolatinho na gaveta.

Tenha a plena consciência de que o almoço é uma hora sagrada e deixe de lado celulares, facebooks e comentários maldosos sobre o chefe. Se for para reclamar, reclame do dia se estiver muito quente, ou de ter esquecido o guarda-chuva se estiver chovendo. Mantenha a dieta, mas sem peso na consciência ou punições. Brinque com as cores no seu prato, alface, cenoura, tomate, beterraba, palmito, milho, um grelhado e não esqueça de esconder umas batatas fritas embaixo das verduras.

Não pense que o relógio é seu inimigo e que faz força pro ponteiro da hora não andar. O coitado não tem culpa, só quer mostrar quanto tempo ainda falta para você ser competente e se concentrar no que tem de ser feito. Enquanto ele diz está quase, está quase, você entende to me arrastando, to me arrastando… Ele até pode ser seu Vingador, mas uma hora será seu Mestre dos magos.

No caminho de volta, procure não xingar o motorista da condução, nem mesmo babar no vidro de tanto dormir. Sempre tem aquele amigo que há tempos você não fala, um vizinho que faz aniversário, uma tia que operou da vesícula; então pegue o telefone e ligue para eles. E se sobrar tempo, lembre de tudo o que tiver na geladeira e vá elaborando o cardápio da janta, começando pela entrada, salada, depois prato quente, guarnição, sobremesa e bebidas. Se sobrar, guarde um pouco de mistura para mim…

Não jante de qualquer jeito – mastigando mal feito um morto de fome -, prefira cozinhar a pedir pizza e, ao sentar para comer, garanta que tevê e rádio estejam desligados. Use esse momento a seu favor para conversar com seus filhos, pais, irmãos ou seu ego interior mesmo. Discuta relação, dê bronca, elogie, faça finalmente algo de útil! Dê atenção ao sabor do miojo com requeijão, ao suco de pozinho e aprecie as companhias que estiverem ao seu redor, ainda que sejam somente a pimenta e o queijo ralado.

Bem, e se nada disso estiver funcionando até então para lhe dar um dia bom e fazer com que você chegue em casa disposto a rir da cena patética da vilã da novela das oito, antes de fazer qualquer outra coisa, vá regar as plantas, arrancar as folhas secas e admirar as flores que estão brotando. Dê atenção ao seu gato, peixe, periquito, cachorro, tartaruga, hamster ou a seja lá o que tiver como pet. E se não tiver plantas ou pets, providencie um dos dois. Imediatamente.

E lembre-se: antes de deitar tenha sempre um chá quentinho e um gibi à mão.

* Publicado originalmente no blog literário Coletivo Claraboia.


Os 10 melhores livros de crônicas que li em 2012

Devo ser a pessoa que mais lê livros de crônicas no Brasil. Embora seja um gênero até certo ponto popular, não imagino que outra pessoa saia garimpando sebos e bibliotecas atrás de cronistas obscuros ou já esquecidos. Também não acho que mais alguém dedique mais de 70% dos livros de literatura para a crônica. Então, quero acreditar que tenho ao menos algum conhecimento de causa. E, com base nele, escolhi os 10 melhores livros de crônica que li este ano, a exemplo do que fiz ano passado.

(Veja aqui os livros de 2011: http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/3392565)

Novamente, quem ganhou foi o Nelson Rodrigues. Como já li todos os livros do Rubem Braga, o nosso cronista mais ilustre só aparecerá eventualmente nestas minhas listas, quando me disponho a relê-lo. Eis o resultado:

10. Inverno em biquíni – Henrique Pongetti. Cronista famoso nos anos 60 e 70, Pongetti escreve textos cultos, nem sempre fáceis, marcados pela elegância no estilo e serenidade no tom, em abordagens pouco tradicionais que, vez ou outra, nos levam ao riso de canto de boca.

9. Bom dia para nascer – Otto Lara Resende. Com um início difícil, a adaptação ao estilo de Otto ao longo da leitura garante diversão em bons textos sobre assuntos gerais, mas também específicos como etimologia, literatura, política e até mesmo animais.

8. Melhores crônicas – Ferreira Gullar. Famoso pela poesia, Ferreira Gullar é um nome que merece ser mencionado também entre nossos bons cronistas. Esta coletânea mistura textos marcados pela singeleza, pela crítica social, pelo humor e por algumas experimentações.

7. Quarta-feira – Eric Nepomuceno. É um livro em que os gêneros se misturam (crônica, conto e ensaio). Mas Eric também esteve sujeito á memória pessoal, e com ela escreveu casos singelos, alguns humorísticos, além de mini-reportagens típicas da crônica.

6. Diário da patetocracia – José Carlos Oliveira. É o testemunho incisivo mas bem-humorado de Carlinhos Oliveira diante da evolução dos acontecimentos políticos e sociais que fizeram de 1968 um dos anos mais marcantes da nossa história recente.

5. As terras ásperas – Rachel de Queiroz. Na casa dos 80 anos, Rachel de Queiroz escreveu crônicas que em nenhum momento resvalam em saudosismo. São textos maduros e concisos em que se posiciona criticamente sobre questões importantes e contemporâneas.

4. O caos nosso de cada dia – Carlos Eduardo Novaes. Herdeiro de Stanislaw Ponte Preta, Novaes destila um humor certeiro, mordaz, divertidíssimo, diante dos problemas sociais e urbanos que, quase 40 anos depois, continuam gerando o caos em nossos cidades.

3. Um cartão de Paris – Rubem Braga. Crônicas da velhice de Braga, cheias das mesmas belezas e desencantos. Relatos episódicos, impressionistas, ou simples recordações, nascidas de livros, dicionários, revistas, e temperados com a ironia tão típica do gênero.

2. A Semana – Machado de Assis. Mestre do gênero, só não é melhor saboreado pelo tempo, que deixou referências obscuras em seus textos. Comparações, associação de deias, o exagero claro e desnorteador revelam a ironia em seu mais perfeito estado. Um primor.

1. A cabra vadia – Nelson Rodrigues. Aqui estão algumas das coisas mais divertidas e originais que já se escreveu em português. Entrevistas imaginárias, personagens caricatos e sacadas extraordinárias aplicadas nas suas principais argumentações dos anos 60.


Na última quinta…

E já havia bebericado dois litros de lágrimas quando quedou desmaiada. Ao seu lado, um calendário, com um circulo a destacar a última quinta-feira do ano. E pouco tempo depois, quase viva, a estranha criatura se levantou e partiu em direção ao cemitério. Os visitantes estranharam quando perceberam aquele edifício de ossos a dar voltas num túmulo dos tempos da monarquia. Com muito custo, alguém se aproximou e a espantou como se estivesse a expulsar um cão.

Ela corria e se desvencilhava de seus muitos trapos. Duzentos metros depois, o sol queimava sua pele nua. Sorria sem sorrir, um tanto descontente. Ajoelhou-se sobre a poeira do asfalto, beijou as negras pedras da avenida, suspirou ao saborear a rosa que ali acabara de nascer. O hoje ainda bocejava, aquele ente desprovido de amanhãs cavava um túnel para chegar ao bueiro da vida. Findo o trabalho, se enfiara túnel adentro, a lamber as feridas das mãos.

Enfim, nasceu o dia. Ouviam-se gritos por todos os cantos, e todos os gritos vociferavam: “Volta, Eternidade!”. 


2012 em revista

Cena do filme 2012John Cusack pensativo ao olhar para o céu em cena do filme “2012”, que na verdade é de 2009

 

Foi, sob muitos aspectos, um ano intenso. O humor se despede de 2012 mais triste. Partiram Chico Anysio, Millôr Fernandes e Ivan Lessa. Luis Fernando Veríssimo nos deu um susto, mas se segurou na Terra. A torcida corintiana que não se segurou. Foi ao paraíso com escala em Tóquio. A Libertadores e o mundo foram do bando de loucos; que em 2012 responderam pelos picos de audiência da Globo. Já a Record não conseguiu os números que sonhava com as olímpiadas de Londres, que revelaram alguns heróis brasileiros como Arthur Zanetti. Londres também foi palco de Daniel Dias, atleta paraolímpico que fez as piscinas tremerem com seus recordes e conquistas.

Sim, 2012 foi um ano intenso. Do histórico julgamento do mensalão à reeleição de Barack Hussein Obama. Foi o ano do kuduro em Avenida Brasil. De Carminha colocar a culpa em Nina e de Lula mais uma vez não saber de nada da história mal explicada de Rosemary Noronha. Teve também empreguete, música inédita de Robert Carlos, troca de técnico na seleção brasileira e o fim do mundo adiado.

Ah, os maias! Nos pregaram uma peça! Era tudo uma questão de ciclo. Foi um ciclo ruim em muitos aspectos. Em 2012 houve muitas chacinas. Nos EUA, um lunático atirou a esmo em um cinema. Outro lunático assassinou crianças em uma escola. No Brasil,as UPPs cariocas começaram a se fragilizar e em São Paulo as madrugadas trouxeram o pavor das incertezas. Nunca estivemos tão inseguros!

Sim, foi um ciclo difícil. O infinito da Tim se provou finito. Os juros caíram, mas o PIB não aumentou. A Europa mergulhou em crise profunda. O desemprego por lá atinge recordes históricos. Oscar Niemayer finalmente deixou de fazer inveja em fumantes receosos de suas saúdes. “Imagina na copa” virou chavão nacional e o mascote do mundial de 2014 foi batizado de Fuleco.

O ano de asperezas também teve suas belezas. De Débora Nascimento a “Born to die”, de Lana Del Rey – ela própria, outra beleza. Sim, 2012 teve suas belezas. O furacão Sandy não dirimiu o ar cosmopolita de Nova Iorque e o Google não soube o que fazer com a ilha Sandy que está localizada próxima a Austrália, mas na verdade não existe.

O que existe é a virgindade de Catarina Migliorini que a leiloou (um japonês arrematou), mas deve entrar em 2013 inviolada, ainda que exposta na Playboy nacional. Quem não está sabendo se expor é Mark Zuckerberg. Talvez apenas Eike Batista tenha perdido tanto dinheiro em 2012 quanto o dono do Facebook. O jovem bilionário decidiu que só vende ações no ano que vem. O IPO (oferta inicial de ações na sigla em inglês) de sua empresa foi relativamente bem sucedido, mas daí em diante foi ladeira abaixo. O Facebook pode por fim à percepção otimista que o mercado tem de mídias digitais. Mas isso é papo para 2013. 2012 já foi intenso demais…


Movimento pelo ludismo no amor

tempos-modernos

 
Chega de e-mails e torpedos. Qualquer meio de comunicação surgido após a invenção do fogo deve ser sumariamente descartado na área afetiva. O que inclui das cartas de amor aos sinais de fumaça, definitivamente.

Cartas de amor, aliás, deveriam ser sumariamente controladas. Só deveriam ser escritas à mão. E à tinta. Branquinho nem pensar (o horror, o horror!), nisso é preciso dar razão à dona Maricota, lá da sua 5ª série.

Não é porque as cartas de amor sejam em si ridículas, nem os e-mails, ou os torpedos. O excesso de tecnologia é que não tem facilitado em nada esse aspecto da nossa vida.

Imagine você sendo Balzac. Com todo seu talento escreve à condessa X. A carta leva onze dias para chegar, isso pra não mencionar o tempo de escrita a bico de pena. Você, Balzac, engenheiro do amor, represou o sentimento para que ele não virasse uma enxurrada de palavras desconexas que afogasse sua amada. Conseguiu gerar energia suficiente para aquecer um coração a onze dias de distância por correio montado.

O problema é que o mundo está cheio de mestres de obras do amor. Gente que não tem condição. Daí constroem-se, à velocidade de torpedos, puxadinhos sob os morros, que tremem ao menor vento e não resistem às chuvas de verão.

Pedreiro amigo, admire a cachoeira. Leve sua amada para apreciar a natureza. Lá, diante das cataratas, fale tudo. Gagueje. Dê voltas, se preciso. Atire as máquinas longe, para sempre. Dê flores silvestres. Use as mãos! Castelos inteiros podem ser erguidos com ferramentas vocais e olho no olho. E não haverá problemas de delay na resposta ou risco de a baleia encalhar no twitter porque tudo será, de fato, em tempo real.

 

 Crônica originalmente publicada em: http://cronicasdas12.blogspot.com.br

Novo mundo

E mais uma teoria do fim do mundo não se concretizou, conforme os pessimistas queriam. Mesmo com o forte calor e seca em algumas regiões do Brasil, mesmo com nevascas e frio raros em alguns países, podemos dizer que não passou de mais uma interpretação errada sobre o fim do mundo.

Bom para nós. Digo nós, pois se você está lendo esse texto é porque o mundo ainda não acabou mesmo. Algumas pessoas viram seu mundo individual acabar, mas o fim coletivo ficou para outra data. Que segundo meus cálculos, se o homem não der jeito antes, será com o apagar do astro rei daqui a bilhões de anos.

Mas, já que o mundo não acabou, senta aqui e vamos conversar. Podemos começar a fazer um novo mundo. Faremos o seguinte, pegaremos o que já temos hoje e pode ser considerado bom e passamos a consertar o que reconhecemos que está errado. Primeira regra para que isso aconteça: só consertaremos o que possa gerar benefício para o coletivo. Segunda regra: não esquecer da primeira. Terceira regra: desconsidera as disposições em contrário e entra em vigor na data da sua publicação.

Sim meus caros. Para fazermos um novo mundo, no velho Planeta, precisamos apenas pensar em resolver problemas que beneficiem a todos. Deixemos nosso individualismo, pensemos no Planeta, obedeceremos a natureza e ordem natural das coisas. Sim, não acabaremos mais com o mundo.

Vamos iniciar essa ação nesse Natal. Então, bom Natal! Feliz ano novo! Feliz novo mundo! E obras nas mãos.