Arquivo do mês: novembro 2012

A voz do Brasil (retórica)

Como proposto pela colega de crônicas, Bia Bernardi, quero prolongar o debate sobre a chegada de “melhorias” para algumas comunidades pelo Brasil e se isso poderia ser benefício ou intromissão do mundo moderno. Aproveito a deixa para justificar minha ausência na lista da semana passada, pois estive em viagem (de feriado, poderia ser de férias) ao Rio Grande do Norte, mais especificamente na capital, Natal.

Entre as muitas opções de lazer na principal cidade do estado, há dezenas de opções, sobretudo de praias, ao redor e para os mais variados gostos. Como o turismo no Brasil, a mim, parece estar muito organizado (mesmo sem conhecer o turismo em outros país), fomos convencidos a comprar pacotes para conhecer pontos maravilhosos de nosso litoral nordestino. Nossas escolhas nos levaram a viajar quase duas horas longe de Natal. No trajeto, muito do brasil que temos no sul e muito do brasil que temos apenas no Nordeste.

A cidade de Natal já não tem como crescer na horizontal e, por isso, cresce vagarosamente para o alto. Por conta disso, as cidades vizinhas ganham condomínios em seus territórios e população de baixa renda para viverem às margens do desenvolvimento. Em alguns casos, marginalizadas. O boom do crescimento atinge uma capital, que segundo os moradores, não sabia o que era ser grande e agora tem até engarrafamento, mas, tem como ainda se adaptar aos novos tempos.

Saindo da capital, já deixando para trás as cidades vizinhas, encontramos um brasil com hábitos que parecem esquecidos no tempo e, que agora, se tornam ponto turístico. Em meio a vegetação típica do litoral do nordeste, em cidades com casas “típicas”, encontramos um grupo de mulheres a lavar roupas num local onde a água era trazida por caminhões-pipas e elas batiam as peças em pedras. No melhor estilo lavadeiras das corredeiras dos rios. As roupas secam na cerca de arame ao lado. Para o guia do passeio isso era o sinônimo da melhor máquina de lavar roupas que temos, que tinha incluso a secadora. Uma atividade de trabalho comum em todo o Brasil, talvez até nas grandes cidades, e que ali virou uma atração da janela do ônibus e figura inusitada para os turistas que estavam levando riquezas para a região.

Num primeiro momento me veio uma sensação de que via uma cena bucólica, mas logo em seguida percebi que aquele era o Brasil. Isso mesmo, o Brasil! Em meio aos avanços tecnológicos podemos encontrar uma forma de trabalho vinculada aos séculos passados, mas que mantém sua presença nos dias atuais. Isso é retrocesso? Isso é o Brasil da exclusão? Acredito que não. Sem querer fechar os olhos para as desigualdades que vivenciamos, mas, para mim, ali era o Brasil que se diz verdadeiro. Aquelas mulheres, pelo meu olhar distante, e talvez não todas, estavam a reproduzir uma forma de trabalho que passou de gerações em gerações. O que devemos garantir é de que elas possam ter acesso a outros meios e ter a certeza de que possam ter escolhas. Destaco essa forma de trabalho, mas outras muitas passaram pelo meu olhar, nessa viagem, que não lhes coloco juízo e penso que apenas vi um brasil.

Querida Bia, acredito que a questão esteja em que possamos ter e oferecer acesso aos avanços da sociedade que consideramos moderna. Temos que poder oferecer consciência sobre os avanços que as “modernidade” podem oferecer a nossa cultura popular, antes que a cultura de massa transforme tudo em enlatado. Precisamos que todos estejam inseridos em políticas de inclusão, mas com o respeito necessário para sua preservação e para que as pessoas que a praticam estejam dispostas a mantê-las. Não podemos fazer do brasil um país distante do Brasil.


As pétalas caídas

Era um homem sem nome que gaguejava em silêncio. Muito desligado, caminhava pela calçada, sem angústias. Percorria a vizinhança, sua vida, seu trabalho, e admirava as rosas que ajudara a embelezar. Súbito começou a assoviar, um rock. E o dia cada vez mais vivo com o temporal iminente.

O menino calado, próximo à casa dos cachorros, engolia uma rosa, delicadamente. O cão admirava a cena, saboreando as pétalas caídas. O homem se aproximou com sua gagueira, assoviou e o cão se escondeu. O menino digeriu rapidamente o que restava do banquete. E nada aconteceu nos próximos trinta segundos. Depois, o tempo parou, o menino estava a bocejar.  O jardineiro lhe ofereceu um copo d’água; o céu, um mar de lágrimas.


Azul de amor

 

A memória dela relacionava a dor à cor

A ilusão ao amor

O querer ao poder

O se perder ao partir

 

A memória dele relacionava paz a pertencer

Fugir a perder

Amar a ser

Luz a azul

 

O azul do colchão em que fizeram amor…

O azul dos olhos dela…

O azul da bermuda desbotada dele…

O azul da piscina em que se conheceram…

O azul da pasta de dente preferida dela…

O azul do sangue dele…


Beleza interior?

 

Em um ônibus.

– Pois eu não queria que o meu caráter ficasse assim tão nítido para quem não me conhece.

– Como assim? – Respondeu a outra – Não é possível saber como é alguém apenas olhando-lhe a cara.

– Pois comigo é assim. De verdade. Sendo eu tão feia, logo me supõem ser o melhor dos corações. Se não, por que andaria alguém na minha companhia?

A outra nada respondeu porque pensou consigo que alguém de tão bom coração faria menos cálculos acerca das impressões alheias. Leandra era uma boa mulher, estava sempre disposta a ajudar os outros no que fosse e oferecia sempre boas palavras. Se fosse mais bonita, então…

– Quer dizer que se você não fosse feia, poderia ser tão megera quanto quisesse?

– Não disse isso, mas não teria a obrigação de ser boa. Ou é isso, ou ser chamada de bruxa abertamente pelo povo.

– Mas quem é que haveria de lhe chamar de bruxa?

– De bruxa, de despeitada, de invejosa. Olhe bem na minha cara! Veja se não sou bem como essas vilãs de televisão. Nem a verruga falta! O bigode eu ainda tiro, mas nem sei se adianta.

– Você, então, Leandra, é mesmo uma sonsa. Bem que a Dolores vivia dizendo.

– Sonsa, eu? Até você, Mercês? Sonsa! Da Dolores eu até entendo, que ela, além de feia, tem orgulho de ser mexeriqueira e invejosa.  Mas de você?

– Olha, é cada uma! Você vem do Brás até aqui falando que gostaria de se revelar para os outros, que não é essa florzinha que a gente pensa. Se o nome disso não é ser sonsa, eu não sei mais o que é!

– E uma sonsa ia sair se revelando? Ainda mais num ônibus? Para o bairro inteiro ficar sabendo? O que eu digo é que sou refém dessa feiura. Condenada a ser boazinha, quase trouxa. A gente que é feia nem direito a desabafo tem!


Tropeção

Não, sempre dizia ela, e sorria tentando amenizar a recusa. Talvez, se insistissem muito, mas viam em seus olhos as labaredas da confusão. Detesto, firme afirmava e apertava os lábios temendo contradição. Alheia, demonstrava indecisa e escondia o rosto que desconhecia, entre as mãos.

Um dia, como sempre distraída, caiu num buraco aberto no alto por alguém que brotou da escuridão. Caiu em pé  e surpresa só discerniu no escuro a cara enrugada da solidão. O grito não vinha, o choro morria e a lama quente a envolveu sozinha, em sonhos de nada, ideias vazias que corriam perdidas sem direção. Por anos viveu enterrada, abraçada aos próprios joelhos, gemendo em altos lamentos, com a cabeça no chão. E o coração ao invés de pó, virou semente doente, planta traiçoeira, venenosa e morteira, que já nasce torta e seca a repetir, pela boca do vento, para todo o sempre o mesmo intento, sussurrando o eco do não.


A Voz (de um pedaço) do Brasil

Dia desses, enquanto presa no trânsito da capital, para não ficar no silêncio das buzinas, fiquei ouvindo o programa A Voz do Brasil – se o caro amigo leitor nunca desfrutou desse momento, eu recomendo fazê-lo, ainda que por pura curiosidade, apenas; diria que ver o Brasil com os olhos de quem está lá em cima achando que faz o melhor para todos.

A primeira matéria apresentada foi sobre os planos que o Governo Federal tem para as tribos Quilombolas (em uma explicação rápida, quilombolas são os descendentes de negros escravos fugidos): a aplicação de ações como o “Brasil sem pobreza”, o “Luz para todos” e por aí vai.

Aí eu me perguntei, retoricamente: alguém perguntou se eles querem isso? Porque, na minha santa ignorância sobre o assunto, imagino que tudo o que eles almejam hoje seja terra e paz. Terra para morar, para produzir, para se sustentarem. Paz para viver, simplesmente. Penso que seja como as tribos indígenas, que tem seus costumes e que não bate em quase nada com os costumes dos “caras pálidas”.

Não seria, portanto, uma invasão à cultura quilombola?, assim como o é na cultura indígena. Quem foi que disse que eles querem luz, energia, tomadas e fios? Sinto que eles já tenham tudo do que sempre precisaram: suas danças, seus ritos, suas regras, também. Talvez o que falte sementes para plantar e a liberdade de fato, coisa que lhes fora tomada há séculos atrás e, veladamente, ainda não lhe devolveram.

Porém, assumo mais uma vez que este não é um assunto o qual domino e que, portanto, aqui deixo registrado ser uma linha de raciocínio puramente minha! E por isso peço aos leitores que me auxiliem a expandir os horizontes dessa discussão. Será que estou sendo limitada ao achar que por ser um povo de origens simplistas não precisam evoluir? Ou será que tenho um mínimo de coerência nas palavras?

Juro: fiquei encafifada.


Terreno baldio

Já andei 26 horas dentro de um ônibus até Brasília, mas essa distância é uma ilusão. Outro dia, saí do meu trabalho em pleno Plano Piloto e dei as caras em Santa Catarina. Isso se chama Google Street View. Hoje em dia, o sujeito não pinta um portão, não troca uma cerca, sem que o mundo inteiro fique sabendo. Pois eu fui ver então que tal estava a rua que morei em São Bento até meus 13 anos.

A primeira mudança, já sabida, foi o asfalto – iniciado assim que nos mudamos de lá. Encontrei também um ponto de ônibus exatamente em frente à minha antiga casa. Bem se vê que éramos nós que estávamos travando o desenvolvimento do lugar. Mas não foi isso que mais me chamou a atenção. Foi essa terrível verdade: não há mais terrenos baldios por lá. Em quase todos os lugares onde antes havia um campinho improvisado, um atalho de bicicleta, ou apenas um punhado de terra para brincar de carrinho, existe agora uma casa – uma grande e gorda casa.

E o mais inacreditável é que, apesar disso, continuam morando crianças lá. O mundo inteiro concorda que elas passam tempo demais dentro de casa, mas a verdade é que não existe mais nada para elas fazerem lá fora. Contentem-se com a garagem de casa – isto, é de algumas casas, pois em boa parte delas o espaço é pequeno demais para se jogar bola. Será preciso ir atrás de alguma quadra, uma dessas de concreto, em que você não pode sequer se jogar ao chão, e que ainda por cima são longe demais, e nem sempre se tem disposição ou meios para ir até lá.

Não posso crer no desenvolvimento sustentável de um país que não tenha terrenos baldios. No meu delírio, imagino um projeto de lei na Câmara dos Deputados prevendo a obrigatoriedade dos terrenos baldios em áreas residenciais. Movimentos sociais se mostrariam indignados, pois, com tanta gente sem ter onde morar, como é que o governo se daria ao luxo de reservar um lugar para que nele não fosse construído e nem produzido rigorosamente nada? Com tanta gente querendo demarcação de terras, como justificar um lugar inútil? Argumentariam que criança brinca em qualquer lugar, e defenderiam um parquinho na praça do bairro. E se ainda assim o projeto fosse aprovado no Congresso, começaria a campanha Veta Dilma.

Mas pelo menos as casas da minha rua ainda estão parecidas com casas. Aqui em Brasília muitas delas não passam de caixas de fósforo, cercadas por lanças pontiagudas em muros tão altos que nem mesmo o morador é capaz de ver o que acontece no lado de fora. Estou vendo o dia em que haverá um rio com jacarés e uma ponte levadiça entre o portão e a casa. Tudo isso numa arquitetura torpe, que seria suficiente para fazer o Niemeyer desvincular o nome dele da cidade. E os terrenos baldios, também aqui, limitam-se a quadras de esportes, para sempre vazias.

Nelson, o Rodrigues, dizia que certas verdades só são ditas num terreno baldio, à meia-noite, sob a luz de archotes, e na presença de, no máximo, uma cabra vadia. Saí do Google Street View com a nítida impressão de que certas verdades atrozes não poderão mais ser ditas, por pura falta de espaço. E nem mesmo a cabra terá um cenário para comer.