Inácio Campos Neves

É um desafio prazeroso analisar a geopolítica que emerge das urnas em 2012. Três palavras-chaves devem ser consideradas: renovação, abstenção e pluralidade. Mas atentaremos a elas mais adiante. Primeiro, é preciso falar das duas lideranças políticas que saem fortalecidas do pleito municipal; e de uma ameaça ao PT que se avizinha com irresistível apelo eleitoral.
Lula conseguiu. Elegeu o potencialmente despreparado e reconhecidamente desprovido de carisma Fernando Haddad para comandar a maior cidade do país. O triunfo em São Paulo é mais de Lula do que do PT, embora caia como uma luva para o partido desgastado em meio à repercussão negativa do julgamento do mensalão. Estar à frente do maior orçamento municipal do país é um bálsamo que disfarça algumas clamorosas derrotas petistas. Ainda que tenha avançado no número de prefeitos eleitos em todo o país, o PT perdeu disputas importantes em cidades estratégicas como Fortaleza, Recife, Belo Horizonte (uma derrota particular de Dilma como articulista política), Macapá, Salvador e Campinas. São derrotas que, sozinhas já seriam razão para preocupação, mas elas ainda denunciam a consolidação de uma liderança política que parece disposta a fazer frente à Lula no plano nacional. Trata-se de Eduardo Campos, cuja sigla que preside, o PSB, saiu 40% maior das urnas. Um crescimento, sob todas as perspectivas, acachapante. Que Campos, político de formação familiar, tem grandes aspirações já era sabido. A questão é que com os fantásticos resultados obtidos nas urnas, essas aspirações podem ser chamadas à luz já em 2014. Um possível cenário, e que a eleição em Belo Horizonte se enunciou como eloquente laboratório, é uma coligação entre PSDB e PSB. As siglas já são coligadas no âmbito regional em muitos estados e uma chapa com Aécio e Campos poderia minar, e muito, uma candidatura petista à presidência da república. Fosse ela protagonizada por Lula – grande derrotado no Nordeste – ou Dilma.
Aécio Neves, por sua vez, conseguiu vitória expressiva em Minas Gerais, mas sua participação lá não foi maior do que a de Eduardo Campos, por exemplo. Como senador, Neves titubeia em firmar-se como liderança vultosa e sua boa colocação como presidenciável hoje se deve mais ao definhamento político de José Serra e a estabilidade de Alckmin em São Paulo do que qualquer outra coisa. Eduardo Campos, nesse sentido, pode tanto ser o maior aliado de Aécio como seu mais valoroso adversário.
A princípio, Campos reafirma a disposição de reforçar as alianças que mantém. Ou seja, manter-se no governo federal (com o PT) e estaduais (com o PSDB em Minas e São Paulo, por exemplo). É uma posição estratégica que lhe permite calcular com mais precisão os ânimos e circunstâncias, inclusive, para uma candidatura própria à presidência em 2014.
Quanto a Lula, as derrotas sofridas no Nordeste precisam ser relativizadas. O engajamento foi do moderado ao nulo. Lula investiu mesmo todo o seu cacife em fazer de Fernando Haddad, um candidato ainda mais engessado do que Dilma (mulher, perfil técnico e competente, passado de combatente à ditadura, etc), prefeito de São Paulo. Fez da aliança com Maluf, um trunfo de mídia espontânea com pouco efeito nocivo à candidatura de seu afilhado – como mostrou a boa votação de Haddad em redutos reconhecidamente antipetistas.
Lula sai fortalecido e contribui para a necessária renovação dos quadros políticos. Aspecto que o PSDB negligencia e deve pagar caro em um futuro não tão distante assim.
Outro aspecto que chamou a atenção foi o alto índice de abstenções no país. Em São Paulo, somadas aos votos brancos e nulos, totalizaram mais de 2 milhões e meio de eleitores desinteressados dos candidatos ou do processo eleitoral. A questão pede análise mais contida, mas é certo afirmar que o número corteja algumas verdades incontestes. Em uma democracia me parece absurda a ideia do voto obrigatório. Já começamos errados. O sistema eleitoral e a organização política também despertam enfado e constrangimento no eleitor. São aspectos que enunciam uma revolta silenciosa que consentiu com a pulverização do poder político nos principais municípios do país. O PMDB diminuiu de tamanho, o DEM sobreviveu e Lula é um messias menos atraente. No geral, as coisas continuam como estavam, mas um pouco diferentes.

Maior que o mar

Vivian Maier – Undated, Canadá

Soraia não ia ficar naquela vida de amante pra sempre. Decidiu dar o golpe final. No próprio pescoço. Ergueu a faca. A mão sequer tremeu ao cravar a arma em si.

A queda, porém, traiu alguma hesitação. Primeiro dobraram as pernas, depois o peito tombou pra frente e os olhos fecharam antes de atingir a areia. Se estivesse pelada, alguém teria fotografado com um celular e chamado a polícia.

Nem a atenção do Eraldo ela chamou. A roupa nova, que lhe enchia o peito, não provocou reação alguma. O homem não a escutava. O amor deles era maior que a outra, que a família, que o mundo todo. Ele não via mais?

O fusca de Eraldo subindo a trilha de cascalho não despertava mais a curiosidade da vizinhança. Eram tantos que vinham admirar a vista ou simplesmente transar sossegado e de graça por aqueles lados, que não valia a pena se fixar neste ou naquele casal, comentou a moradora do 204 à equipe de tv que veio noticiar o aparecimento do corpo.

Soraia engasgou. De raiva, do próprio sangue e da areia, que se infiltrava em grãos e em grumos misturada aos dois primeiros para dentro do corpo semimorto.

Quando a sombra de Eraldo parou de protegê-la do sol, ela imaginou que ele fosse trazer ajuda. Porém, ele logo voltou com uma pá. E começou a cavar um pouco acima de onde ela estava, em um ponto meio oculto pelas rochas. Abriu os olhos, mas não conseguia enxergar, só captar o som seco da pá contra o chão e dos goles de ar que Eraldo tomava.

O céu exibia já um tom roxo-alaranjado quando o homem retornou. Soraia meio que dormia e acordava, nem ela percebia quando era um, quando era o outro. Eraldo ergueu o corpo da mulher e deu alguns passos em direção à cova recém-aberta. Ele olhou para os lados, mas ninguém mais estava ali para velar pela mulher. Mesmo assim, ajoelhou-se e com cuidado depositou Soraia ali. Sem lhe dedicar uma última palavra, começou a tapar o buraco pela ponta. Os fios escuros logo foram sugados pela montanha de grãos sem cor.

Soraia sonhou que lhe faltava algo. Corria procurando. Não estava nos bolsos do vestido. Nem dentro do sutiã. Nem no porta-luvas. Ou debaixo do banco do carro. Revistou Eraldo e também não encontrou. Talvez … Sim, talvez na areia.

A maré subiu dois dias depois e lavou quase toda a areia que a cobria. Os pescadores viram os pés de unhas negras e os braços. Depois a saia do vestido cor de vinho. Parecia que o corpo afundou e ficou preso pela cabeça, cochichavam de um para o outro. Quando o mar rejeitava alguém era porque nem ele podia com ela. E ninguém ali era maior que o mar. Era melhor chamar a polícia.

Aline Viana

Aquarela

Duas mulheres caminham pelo bosque, olhando para o chão. Uma vestida em logo vestido azul, com chapéu e bolsa na mesma cor. A outra, do seu lado esquerdo, tem vestido e chapéu em cor de rosa. A segunda não parece carregar bolsa. As senhoras, pois já não parecem tão jovens, são seguidas pelo um jovem senhor trajando uma capa preta e calça preta, que contrasta com os sapatos marrons. Ele está com as mãos postas nas costas e parece portar um cachecol branco ao redor do pescoço. O adorno combina com a pena branca presa ao chapéu preto e ressalta uma divisória no tom preto do cabelo. Ele segue de rosto erguido, um tanto altivo e seguro das passadas.

O bosque está verde. Tempo de primavera. Uma imagem serena. Uma imagem de aquarela.

Aloha

Noite quente, sinal fresco de chuva iminente e sorrisos disparam entre copos e luz de velas. São dois mundos diferentes, um muito claro e brilhante enquanto o outro escuro, cheio de belos mistérios noturnos. Se atraindo. Orbitando. Procurando um no outro um lugar comum, conhecido, que pareça acolhedor como um sonho novo. Andaram tanto, falaram tanto sem sentir o tempo esvair. Dando por si, perceberam a necessidade de um adeus aparecer. Certa tristeza de deixar ir o que foi tão bom rever ainda que sem conhecer. Mas do alto de sua experiência pouca olham uma vontade muita e sabem que vão, outra vez se buscar. Sem desejos maiores do que o de contemplar as ondas do mundo que vem e vão, trazendo tanto inesperado. Sentados na orla, sentindo a vida fluir e compreendendo que não são eles que podem controlar. Com uma piscadela, partilham esse segredo díficil de aceitar. E olham o sol dourado, que prepara mais um pôr!

2062: Pesquisas, Previsões e Prescrições

1.

Uma pesquisa feita na cidade de Onde Judas Perdeu As Botas apontou que pessoas que ficam mais de 11h23m57s expostas ao ar livre tendem a usar tênis sem meia e a causar mais desconforto nos transportes coletivos pela falta do uso de fone de ouvido. Os estudos comprovam que o fato tem origem genética e sofre influência direta da flexibilidade do rabo da lagartixa.

2.

Escorpião. Grandes chances de um desentendimento com pessoas próximas a você. Urânio se alinhou com Saturno. Possíveis irritações estão a caminho e podem ser cruciais para os seus relacionamentos. Sua Lua está em Áries. Probabilidade de vivenciar conversas duras, desgastantes e dolorosas. Seja cauteloso. Ursa Maior na linha recôncava entre Plutão e Mercúrio. Seja mais amável e paciente.

3.

O médico endócrinocardiogastrodermatologista Dr Fulano de Tal dá algumas dicas para se ter uma vida mais saudável:

– Não coma demais;

– Não durma de menos;

– Não se apaixone;

– Não sofra;

– Não trabalhe;

– Não se estresse.

É, o futuro nos espera…

Isso, é claro, se o mundo não acabar agora em 2012.

Pensa que é bonito ser feio?


Duas vezes por semana, pego o ônibus na mesma parada em que o índio pataxó Galdino Jesus dos Santos foi queimado vivo enquanto dormia, no ano de 1997. Não existe nada identificando isso, mas eu sou curioso o suficiente para descobrir. Vocês devem se lembrar do caso. E também devem se lembrar do argumento usado pelos cinco jovens acusados de praticar o crime: eles acharam que era um mendigo, e não um índio. De lá pra cá, o número de moradores de rua certamente aumentou na cidade. Falam em 2 mil, mas acho pouco. E vez ou outra alguém continua achando que eles merecem morrer queimados – em fevereiro, um comerciante mandou tacar fogo em dois mendigos na cidade-satélite de Santa Maria.

Na parada de ônibus da minha casa, mora um morador de rua. Nunca o vi pedir dinheiro, apesar disso. Ele tem um carrinho de supermercado que está sempre lotado de coisas. Imagino que pega no lixo e depois tenta vender. Um dia ele me perguntou sobre o funcionamento de algum aparelho eletrônico qualquer. O aparelho não funcionava, mas ele esperava que ainda tivesse algum valor. Normalmente o encontro sentado calmamente na parada. Inofensivo. Mas sei de crianças que têm medo dele. Provavelmente pela sua aparência. Não é nenhum exemplo de beleza e, admito, também está longe de ser um exemplo de limpeza. Em suma: não é nenhum mendigo galã de Curitiba.

Demorei para entender o sucesso do mendigo galã de Curitiba nas redes sociais, na semana passada. E demorei porque no fundo eu não queria aceitar que fosse isso mesmo: ele só fazia sucesso por ser bonito, coisa inesperada para um mendigo. Ora, morador de rua é o que não falta em nossas cidades. Escolha um deles aleatoriamente, tire uma foto e publique no Facebook, se possível acompanhado de uma historinha bonita sobre ele. Fará sucesso? Provavelmente não. A menos que o seu mendigo seja boa pinta.

Então todos ficarão tocados, e se perguntarão como foi que uma pessoa tão bonita – de olhos azuis! – chegou ao ponto de morar na rua. E todos os vícios, que em outras pessoas seriam motivo de culpa, nele serão apenas uma mostra do estrago que podem fazer com uma pessoa. Uma clínica de recuperação, que pode muito bem fazer o mesmo com qualquer viciado em crack que mora nas ruas, por um acaso decide se sensibilizar apenas com esse caso específico. E todos acham que ele merece ser ajudado, e aparentemente mais do que os outros, apenas porque supostamente é bonito.

O que concluo disso tudo? Que a rua é um lugar que serve de moradia preferencial para os feios. Posso falar dos feios com conhecimento de causa, e por isso afirmo: nenhum preconceito causa menos sensibilidade do que este. Você já deve ter ouvido bastante isso: um rapaz jovem, saudável, bem apessoado, comete um crime qualquer. Em meio ao choque, alguém diz: “Poxa, mas ele era tão bonito”.

Já ouvi uma mãe negar o suicídio da filha com o mesmo argumento: “Ela não tinha motivo pra se matar, era tão bonita”. Disso se observa que dos feios só se espera que morem nas ruas, cometam crimes e tirem a sua própria vida.

Esperamos que resolvam logo o caso do mendigo galã para voltarmos a acreditar que o mundo é perfeito.

Pestanejos

O dia havia terminado. E não era nem meio-dia. A demissão pegou Júlio de surpresa. Logo hoje, que ele havia experimentado uma sensação de bem estar incomum na ida para o trabalho. Que brincadeira de mau gosto era aquela da qual ele era vítima? – ponderou aos céus.
Não era brincadeira. Luciana, que tinha metade da idade de Júlio, foi quem se encarregou de deixar isso bem claro. Foram quatro anos na empresa. Mas para Júlio pareceram mais. Bem mais.
O que ele faria dali em diante? Como se recolocar no mercado de trabalho? Ele não sabia se seu desamparo era fruto do desânimo ou do desespero. Eles não se anunciavam e brigavam por atenção.
A primeira ligação foi para a esposa. Caixa postal. O sentimento de solidão espraiava com força total. Parou em um quiosque de sucos. Ficou uns dez minutos olhando para a atendente. Os frequentadores cochichavam entre si sobre o estado de catatonia do homem. Era bem claro que ele não estava enfeitiçado pela beleza da moça que, francamente, não era lá muito bonita. Passados os dez minutos, Júlio pediu água. Sentou-se e tornou a ligar para a esposa. Caixa postal. De novo! Soltou uns grunhidos, como se fosse um animal ferido e a moça que trazia a água retraiu o braço por um instante. Júlio sorriu e pediu desculpas com voz firme. Ela sorriu de volta e voltou para o quiosque.
Foi quando Júlio viu Luciana se aproximando. Ela passou direto por ele. Não o viu. Ele então levantou e ficou observando-a, de uma distância segura, durante toda a sua estadia no shopping. De loja em loja, pelos corredores, como um detetive desajeitado. Ele estava curioso. Não conseguia elaborar ao certo sobre o quê. Mas se descobriu espantado com a naturalidade com que Luciana andava pelo shopping. Ela tinha acabado de demiti-lo e era como se nada tivesse acontecido. Bem, para ela nada demais havia acontecido. Demitir Júlio era mais uma tarefa em seu dia.
A perseguição se estendeu. Em seu carro azul escuro que todos pensavam ser preto, Júlio seguiu Luciana até a casa dela. Parou o carro nas proximidades. Ele pensava que ela morava em um condomínio, mas não era o caso.
Quando se deu conta, já era manhã novamente. Havia adormecido naquela tocaia improvisada. Resolveu partir. Não havia mais razão para estar ali. Aliás, nunca houve. No caminho para casa, foi tomado por um sentimento muito ruim, um mal estar profundo.
Quando chegou, prostrou-se em sua cama e adormeceu novamente. Acordou com o telefone, lá pelas tantas da noite. Era a Paulinha do Recursos Humanos, provavelmente para prestar suas condolências, pensou. Mas não. Ele foi informado de que Luciana foi assassinada. E a polícia procurava pelo suspeito; que dirigia um carro preto.

Como a chuva de Marte

 

Escrevo em absoluto silêncio.

Fora toca o rádio. Pessoas tagarelam no café ao lado.

Dentro sinto falta do barulho das teclas. Do som que confirma a existência. Das palavras.

Incomoda esse teclado macio. Porque as palavras são molhadas.

Quentes.

Verdes.

Como a chuva de Marte.

Os dedos escapam entre os vãos. Inchados. Manchados.

Impressos.

 

Aline Viana

Tempo de confronto

A cada dia vivemos e sofremos mais com o tempo dos confrontos. Estamos em plena revolução tecnológica e, em alguns momentos, quanta saudade do passado. Sou defensor de que quanto mais avançamos os equipamentos tecnológicos mais nos aproximamos uns dos outros de forma virtual e mais nos distanciamos nas relações pessoas.

Não é preciso sair do local para marcar um encontro com alguém. Nem mesmo tem a preocupação em discar o telefone, tudo por ser feito por meio dos novos aparelhos que temos nas mãos. Mas, meu medo é de que com o distanciamento tenhamos cada vez mais medo uns dos outros. Se não encontro, não conheço. Se não conheço, não respeito. Se não respeito, posso eliminar. Nossos jovens estão cada vez mais envolvidos nesse dilema e estão se aniquilando por equipamentos banais.

O Brasil que vive o dilema em ser um país produtor e passar a ser uma nação desenvolvida. Sua pressa para alcançar outro status tem feito uma geração inteira, e ainda impacta outra geração, pular uma fase da formação. Nossos jovens não precisam mais de livros para sua formação e nem teriam concentração suficiente para ler, pois estão com as mãos e mentes ocupadas com os aplicativos virtuais. Na outra ponta, a geração mais velha tem que buscar livros, e na internet, a leitura para atingir o mesmo nível de velocidade da pouca comunicação que se faz nas rodas de conversas.

Estamos nos isolando em frente das televisões e equipamentos eletrônicos, em nome de uma segurança de nos mesmos. Ao nos encastelarmos buscamos uma vida de informações fast food e ficamos conectados com o mundo em redes virtuais. Fazemos das redes sociais locais de campanhas e acampamentos, mas esperamos que os outros façam por nós. Que executem a salvação do mundo, até que desenvolvam um programa de computador que faça isso por nós com um aplicativo que funcione em qualquer celular, assim estarei participativo.

Em tempos de confronto esperamos salvar o mundo, mesmo que ele seja o virtual. Quanto ao real verei que o caminhamos para salvação quando encontrar novos condomínios com varais repletos de fraldas. Aí sim, teremos pessoas que mudaram a compreensão sobre não consumir o mundo para não ter o seu mundo consumido. É isso!

Réstia

Quando o sol, mais uma vez, se levanta na janela branca do quarto dela, ela sorri porque sabe o que a espera.

Quando a lua sai triunfal, arrastando seu manto de ponta laranja pelo horizonte a dentro, ele sente uma certa dose de desalento, que não deixa de ser emoção.

Se a noite, que é retrato dela, se retira misteriosa, é para deixar vir o dia sereno, pleno, como o que ele mostra. Da treva, caldeirão do mundo, vem o pulsar da semente que ela carrega.

Da luz, fertilidade da vida, vem o jorro brilhante que move os céus.

E assim para sempre, no branco e no negro, estarão juntos a criar eras, seres, pensamentos e susurros. Nas folhas secas e nos galhos tortos de silêncio retumbante. Nas labaredas vermelhas e ondas transparentes de efervescente harmonia. Unidos por uma força invísivel mas inegável. Que gera tudo. Que compõem o nada.

Escondida na luz da noite.

Alardeada no escuro do dia.

Sem fronteiras

Enquanto eu buscava ontem espairecer a cabeça das obrigações corriqueiras, daquilo tudo que cansa a esperança, lendo uma revista de fofocas, fui arrebatada pela surpresa de uma reportagem diferente de cabo a cabo do propósito da tal revista.

A matéria falava do tal ex-morador de rua que, depois de muitos altos e baixo, conseguiu se reerguer e hoje tem uma biblioteca itinerante, a Bicicloteca, pela qual empresta livros sem um pingo de burocracia a quem estiver pelas redondezas do centro de São Paulo.

É uma história de vida simplesmente fantástica, incrível!, e serviria de lição a muitos mundo afora. Eu seria capaz de passar horas, páginas inteiras escrevendo sobre o quão forte ele foi, sobre como a iniciativa é belíssima e… Não o farei.

Apenas indico ao leitor que vá atrás de ler sobre ele, pesquisem, procurem, se dignem a um dia somente cruzar com este homem. Respirem o mesmo ar!, e garanto que um pouco de amor ao próximo, aquele que é de verdade, vai finalmente invadir os corações de vocês.

Liguei para o celular do deputado

Não é de hoje o meu relacionamento com a Câmara dos Deputados. Há alguns anos eu tive autorização para ligar no celular pessoal do então deputado Gustavo Fruet – hoje disputando o Segundo Turno da Prefeitura de Curitiba. E liguei. Gostei tanto que liguei duas vezes.

O que mais me interessava nele era o fato de ser filho do seu pai. Maurício Fruet, o pai dele. Também foi deputado, além de prefeito de Curitiba. Figura engraçadíssima, pelo que dizem. Cheio de histórias para contar. O Luiz Alfredo Malucelli, que coleciona histórias, tem várias dele. Algumas, impagáveis. Uma vez, Maurício Fruet estava na companhia de outro deputado quando alguém lhe pediu o favor de transportar um maluco até o hospício da cidade. Maurício aceitou e o doido embarcou, sem que o outro deputado soubesse da sua loucura. Inventou alguma história qualquer para explicar a presença do homem. E quando chegou ao hospício, Maurício desceu do carro e foi falar com o porteiro.

– Estou com dois loucos aí no carro.
– E eles são perigosos?
– Um deles é inofensivo. O outro vai dizer que é deputado e talvez reaja.

Bom. Mas eu não queria falar nada disso. O que eu dizia é que falei com o Gustavo Fruet por causa do seu pai. É que Maurício havia lutado pelo pagamento de royalties aos municípios alagados com a criação da Usina de Itaipu. A defesa dos royalties também havia sido uma das campanhas da Gazeta do Povo – esse era o jornal em que eu trabalhava. E como eu buscava personagens importantes na história do jornal, e o Maurício já havia falecido, falei então com o deputado Gustavo Fruet.

Fiz tudo direitinho: falei com sua assessora, ela falou com o deputado, o deputado me autorizou a ligar para ele, liguei, fui educado e fiz as perguntas que precisava fazer. O que eu não contava é que justamente na hora em que perguntei a ele sobre a história dos royalties o telefone dele ou o meu começasse a falhar e a história ficasse cortada. Quando terminei a conversa e fui ouvir a gravação, dei-me conta de que não conseguiria fazer a transcrição: faltavam partes importantes da história. Bolas, a minha fase não era nada boa com essas tecnologias. Alguns dias antes, eu já havia deletado, por distração, toda a conversa que tivera com o fotógrafo José Kalkbrenner Filho. Agora, havia conseguido entrevistar um parlamentar e perdido a parte mais importante da conversa.

Não havia outra saída: eu precisava ligar de novo. Considerei a inconveniência daquela nova ligação. Ora, um deputado provavelmente está sempre ocupado. Mal deve ter tempo para respirar. Deve estar concentrado com coisas mais ou menos importantes, como o futuro do Brasil. Pois ainda assim, liguei de novo. E consegui ouvir a história completa.

Hoje em dia, quando tenho a oportunidade de ir ao Congresso vez ou outra, percebo que eu não precisava ter tantos escrúpulos em ligar para um deputado em seu horário de serviço. Afinal, se tem uma coisa que eles fazem o tempo inteiro é justamente atender ao celular. A menos que estejam discursando, eles interromperão o que estiverem fazendo e atenderão. Principalmente durante uma audiência pública. O Fernando Gabeira vive atendendo um celular com toque da década de 20.

Mas enfim. Isso não é culpa do Gustavo Fruet – que, aliás, me parece um sujeito votável, especialmente quando concorre contra mamíferos roedores. E se eu nunca me animei a puxar assunto com um deputado no Congresso, também não é por culpa dele.

Eternamente grande coisa

Procurava qualquer coisa no chão, uma moeda, talvez. Caminhava devagar, mapeando o asfalto. A garoa caia fina, a moça aparentemente não se importava. Súbito seu olhar se fixou numa direção, algo identificou, parecia tão somente uma bola de papel, lixo sem importância. Ela se curvou, agarrando-a. A bolinha pesava pouco mais que o comum, embrulhava certo objeto. Desfeito o obstáculo, uma agradável surpresa: a folha escondia uma reluzente aliança dourada. A moça não pôde admirá-la mais que breves segundos, descuidada, deixou cair o simbolo de uma união –  que rolasse rumo ao bueiro! Triste, lembrou-se de analisar o embrulho, um tanto borrado, lia-se: mas o amor não é eternamente grande coisa.

As teorias de Paulo André

– O Brasil é um país de merda, mas muito querido por quem já saiu da merda.
– O surgimento da piriguete não é uma voz do feminismo, é mais uma outra do machismo
– Trepar com uma atriz pornô é transar com uma super-heroína do sexo
– Toda ereção quer ser uma ereção matinal
– São Paulo é uma cidade aborrecida
-Brasília é uma cidade do futuro paralisada pelo presente
– O Rio de Janeiro é lindo
– Família é uma merda, mas é importante
– Os juros são a melhor invenção da civilização
– A esquerda enviadou de vez
-A direita sempre foi meio “veada”
– Os bancos são foda
– A gastronomia é uma arte ainda subestimada.
– Depois da cura do câncer, a grande inovação científica será a descoberta da combinação química que permite comer e não engordar
– Brad Pitt é veado
-Cléo Pires foi feita pessoalmente por Deus. Só para sacanear o Fábio Júnior…
– Deus existe. E a Cléo Pires é a prova!
– Há vida em outros planetas. Mas o governo americano esconde as provas.
– Lula sabia (você sabe do quê)
– O judiciário brasileiro é uma bosta, mas perto dos outros dois poderes é uma dádiva.
– Os russos são o povo mais desenvolvido do mundo. É preciso respeitar quem sobrevive a invernos de mais de 40º negativos e bebem litros de vodka sem ficar trôpegos
– O politicamente correto é a prisão da livre circulação de ideias
– Damasco não é uma fruta de verdade
– Tony Blair é uma fruta na verdade
– O amor é lindo, mas é doído.
– Se levantar dói mais do que cair

Paulo André faleceu nesta manhã. Não deixa herdeiros. Apenas essas teorias.