Arquivo do mês: setembro 2012

Duas pombas tem ideias

A juventude transviada, a promessa de uma liberdade libertina são formas quase extintas de viver a vida. O “se dar bem na vida” carrega uma maldição de responsabilidades inevitáveis para que a trindade adorada estudo-trabalho-relacionamento seja assim na prática tão maravilhosa como proclama a teoria. Considero uma utopia, discorde. Cedo, e hoje mais do que nunca, é colégio integral, escola de inglês, natação e tênis. Férias, cursinho de línguas, para aperfeiçoar. Intercâmbio, para divertir é que não dá. Há tanto museu e cultura para agregar. Faculdade, vestibular, agora começa a diversão prometida. Mas são listas e listas de exercícios para treinar nossa vã filosofia. Semana de provas, trabalho final, e os finais de semana floridos ficam protegidos pelo vidro da janela. Aqui dentro, estudo e silêncio. Nem moscas voam. Até elas se aborrecem com tanto teorema. Formatura, uma noite de diversão com os amigos em um baile de gala para comemorar quatro anos de privação. Em prol do conhecimento. E de um contra cheque gordo. Com ele, é possível fazer o tão sonhado casamento. Comprar o sítio de final de semana. Acumular garrafas de bebidas importadas, no bar que os amigos poucos visitam para fazer um happy hour entre uma semana e outra de mesmice. Agora sim, estabilidade para curtir a vida. Na hora em que o choro do filho parar de correr. Ou que o cachorro desistir de comer os sapatos e tentar te enlouquecer. Ou quando a preocupação com tantos gastos descer pelo ralo. E antes que se perceba, veio a aposentadoria. Como uma mulher sedutora, que abana um lenço branco, promessa de calmaria. E quando se está para tocar nessa pedra filosofal eis que toca a campainha, descem do carro os netos infantes e começa a barulheira, a trabalheira, as férias em família. A correria se dá casa a dentro e nos olhos dela há um reflexo melancólico de lembranças empoeiradas. Parece que pela sua cabeça passam alguns momentos que não foram vividos. Tenho quase certeza que ela se pergunta e se responde, num suspiro, que no final das contas, é a vida. Ficou tarde demais para ser irresponsável novamente. É melhor por o bolo para assar.


Associação Livre

Sempre que penso em sol, penso também em calor, em praia, mar, areia, mas aí já me pego pensando em deserto, vento, poço d’água, secura, e quando percebo meus pensamentos estão lá no Nordeste, com cactos, terra quebradiça, caatinga. Pronto, já voei pras minhas aulas de geografia, escola, recreio, amigos, pega-pega, então me vejo na balada, música, dança, pegação, gente bonita, caio na academia, malhação, spinning, suor, esteira, calorias. Aparecem então os doces, chocolate, coxinha, risoles, brigadeiro, cajuzinho, Caco Antibes!, seja bem-vindo aos meus devaneios, teatro, encenação, peças, Shakespeare, amor, ódio, Antígona, Édipo.E logo vou para junto de meu pai, pescaria, camarão, anzol, vara, molinete, tarrafa, peixe, o quê? Comida japonesa? Huuuuuuum!

E sempre que volto ao meu estado inicial, lembro que lá atrás, eu estava pensando em sol… Mas que raios então tem o sol a ver com comida japonesa, que fez com que meus pensamentos voassem até lá?

Já sei: oras, o Japão é a terra do Sol Nascente!


Uma fotografia do Brasil

Talvez o leitor nunca tenha ouvido falar em Hercule Florence. Esse camarada era francês. De vez em quando os franceses e outros tipos de europeus tinham a ideia exótica de vir ao Brasil. Em 1832, Florence estava morando na atual cidade de Campinas. E foi lá que um belo dia, enquanto passeava em sua varanda, lhe ocorreu a ideia de que talvez houvesse um meio de fixar as imagens da câmara escura. Foi uma ideia revolucionária. Mais alguns testes e, em alguns meses, Florence havia inventado a fotografia. A descoberta da fotografia, portanto, ocorreu em solo brasileiro.

E neste ano em que são comemorados os 180 anos da invenção de Florence, foram publicadas algumas matérias especiais a respeito. Além de algumas curiosidades a respeito da técnica utilizada por Florence, que incluía usar urina como fixador, as matérias destacavam a dificuldade do nosso fotógrafo em encontrar brasileiros com quem pudesse compartilhar as suas descobertas.

Numa anotação, Florence disse o seguinte: “Em um século que se recompensa o talento, a Providência me trouxe a um país onde isso não importa. Sofro os horrores da miséria, e minha cabeça está plena de descobertas. Nenhuma alma me escuta, nem me compreenderia. Aqui só se dá valor ao ouro, só se ocupam de política, comércio, açúcar, café e carne humana”.

Essa frase foi uma das melhores fotografias tiradas por Florence. Continua sendo um retrato atual do nosso país. Não tenho muitas razões para acreditar que o talento passou a ser recompensado por aqui. Hoje ele parece estar submetido à lógica de mercado. Se não houver mercado para o seu talento, você também sofrerá os horrores da miséria. Ou então vai esquecer tudo e procurar algo que dê dinheiro. De vez em quando até nasce um Niemeyer. Mas um número muito maior de pequenos gênios provavelmente foi abortado antes de nascer, porque precisava sobreviver e não tinha tempo para fazer aquilo para o qual tinha talento.

Tenho certeza que há milhões de pessoas com a cabeça plena de descobertas fantásticas tentando desesperadamente chamar a atenção na Internet. A maioria não vai conseguir. Valorizamos outras coisas. Não temos ouro, mas temos o futebol. Eu gosto, eu jogo e eu acompanho futebol, mas eu não acho o talento do Neymar superior ao de nenhum outro que faça outra coisa na vida. E convenhamos que existem coisas na vida mais importantes que futebol. No tempo de Florence, as pessoas só se ocupavam de política. Nada mudou, e no fundo é a mesma coisa: nos ocupamos de política porque achamos que ela é muito parecida com o futebol.

O “comércio” citado por Florence poderia hoje ser ampliado para dinheiro. Açúcar e café poderiam ser substituídos por outras coisas. Sei lá, baladas e música pop. Carne humana pode continuar sendo carne humana mesmo – não mais escravidão, mas sexo. Hoje em dia talvez Florence dissesse algo assim: aqui só se dá valor ao futebol, só se ocupam de política, dinheiro, baladas, música pop e sexo.

Deem uma olhada na lista completa dos concorrentes ao prêmio de Maior Brasileiro de Todos os Tempos e tirem as suas conclusões. Agora já está na fase final, e o mínimo que se pode esperar é que o Santos Dumont vença.


Hálito de nada

Noite fria, vento constante, chuva a se aproximar. Gemidos, uivos, assovios dissonantes, tudo enfeitando o silêncio. Luminárias amarelas como que envelheciam a escuridão. A madrugada quedava sonolenta. Na avenida vazia, o único semáforo alternava doidamente entre suas estúpidas cores. Nenhum individuo sobre o asfalto, somente um morno cheiro de vida, hálito de nada, um leve gosto de eternidade.

Mas havia algo estranho às trevas, coisa alheia ao asfalto, havia ali um perdido, um desorientado: havia, extenuado, um cavalo a sangrar. Que contorno ganhara a madrugada! Um pungente espetáculo, que falta lhe fez um espectador. Mas o que havia com o bicho? Oh, horrenda constatação. Arames pontiagudos penetravam sua luzente pele, o sangue percorria seu corpo, tingia o chão. O animal se contorcia, lentamente, se entregava, perdia força.

As horas avançavam, o animal gemia, seu sangue como que conquistava um território – o vermelho substituía o negro. Um pouco de vermelho na calçada, mais e mais vermelho no meio-fio. Alguém subitamente se aproxima, parece ser a aurora.

E chega o dia, e chegam os raios solares. Os veículos preenchem a outrora deserta avenida. Poucos reparam no vermelho espalhado pelo cruzamento. Há o que percebe, corre, compra um jornal: mas não há notícia de nenhum acidente. Coisa mais que inusitada: o animal fora engolido pela madrugada.


A crônica do leitor anônimo

Há algum tempo publiquei aqui no Vida a Sete Chaves um texto que aventava algumas reminiscências sobre o tesão por escrever (“Quando o tesão vai embora”). Mas principalmente a falta deste. A aleatoriedade com que o tesão por algo vem ou vai pode assustar ou mesmo surpreender. É muito humano se pegar surpreendido por determinados movimentos da vida que se revelam inesperados. Esse presente texto sob o bastante anacrônico título de “A crônica do leitor anônimo” pretende ser uma sequência de “Quando o tesão vai embora”. Mas uma sequência mais amarga.
Escritores precisam constantemente ser afagados. Recentemente, Paulo Coelho, em um gesto de masturbação intelectual, disse em entrevista a Rolling Stone brasileira que era o “intelectual mais importante do país”. Deixemos o mérito da afirmação de Paulo Coelho para cada leitor dessas linhas julgar. Fato é que, Coelho, seguramente um dos autores mais lidos do planeta, revela nessa frase uma insegurança crônica de todo escritor. A constante necessidade de reconhecimento é um fardo auto imposto no momento em que se decide por escrever. Por produzir sentido intercambiável com experiências de vida diversas. Por pesquisar o desconhecido. Por desbravar verdades ocultas no outro. Por ponderar com a imaginação.
Nesse embrenhamento contínuo no vácuo da existência intelectual, o leitor anônimo é uma figura corriqueira, desejada, temida, por vezes incompreendida. Estão no leitor anônimo tanto a motivação quanto as incertezas do escritor. Como a etimologia estabelece, o anônimo não provê reconhecimento e todo escritor carece dele. A própria existência de blogs indica isso. Caso o reconhecimento não fosse um objetivo perseguido, incensado, cada um que escrevesse guardaria seus escritos em uma gaveta ou em um pen drive. O blog é a janela para o reconhecimento que a internet abriu. Mas uma janela pela qual se avistam muitos leitores anônimos. Esses que cativam e aterrorizam o escritor tão suscetível a crises existenciais.
Mas o que o escritor não sabe, é que o leitor anônimo é seu melhor leitor. É aquele que o confronta e o provoca intelectualmente, ainda que em um campo meramente subjetivo, e que o acompanha gratuitamente. Os leitores declarados têm sempre outros motivos para acompanhar o escritor. É dessa consternada crise de prós e contras, dessa insegurança patrocinada, que o escritor tira seu sustento intelectual. E que o leitor vislumbra um processo criativo apaixonante, imprevisível e irreproduzível. Se escrever é uma arte, ler anonimamente é promover conflitos uterinos nela.


Conselho de amigo

 

Apenas para o meu bem fui proibida de ouvir minha canção preferida. A recomendação do amigo, cheio de boas intenções, era que assim deixaria de me lembrar do meu ex amor. Contrariada, obedeci – já havia passado do ponto de recusar ajuda. Imediatamente, a voz sabotadora de Luíza Possi começou a tocar em minha cabeça em um “repeat” infinito.

Se entendesse de medicina poderia cogitar que fosse meu organismo rejeitando aquela ideia estranha. Lembrei-me de uma tia que no período adolescência acreditava que todas as músicas de Roberto Carlos haviam sido compostas para ela.

Minha mente travou naquela música. Não que eu tenha algo contra. O meu humor reage imediatamente bem aqueles versos (“Você me faz bem/ quando chega perto/ com esse seu sorriso aberto…) .

Mas ele tinha razão. Há músicas que nos prendem. Ou que deixam um gosto na boca. De vodca, de beijo na testa, de sal de lágrima.

Foi numa dessas que enterrei minha melhor dose de Joss Stone.

Antes que eu tivesse uma recaída, tratei de instalar um antivírus. Toquinho. Sheryl Crow. Daniela Mercury. Green Day. Mombojó. Apocalyptica… E Diana Krall.

Loira, canadense, quarentona, cantora de jazz. Poderosa. Veio ao Brasil há pouco tempo… Guardem esse conselho pra vender depois: Diana Krall.

Os acordes de piano de “Just the way you are” são apenas meus. Sensuais, desconfio que já procuram alguém para que eu compartilhe a posse.

Aline Viana
Crônica originalmente publicada em: http://www.cronicasdas12.blogspot.com.br 

Na estação

A vida se renova há todo momento. Somos aprendizes de nós mesmos. Ontem eu não sabia que eu era assim e pouco sei como serei amanhã. Mas, a natureza dá provas de que podemos surpreender. Chegou a Primavera. Estação das cores em forma de flores. Poderia dizer da felicidade dos pássaros, que se agitam para alimentar os filhotes nascidos no inverno, mas o melhor mesmo é falar do renascimento das plantas. Elas se renovam em forma e beleza. Basta olhar. Basta sentir. Basta tocar. Basta surpreender-se. O ciclo de renovação da natureza nos ensina que é possível ser melhor. Vamos curtir as flores que significa a gestão da semente que fará germinar a vida.