Arquivo do mês: agosto 2012

O livro de Andréia


Andréia tem cerca de 40 anos. É mais uma Silva nesse Brasil. Mora na Cidade Ocidental, no entorno do Distrito Federal. Demora uma hora de ônibus até Brasília. Tem sete filhos, de três maridos diferentes. O atual está na cadeia. Tentativa de estupro ou algo parecido – ela acredita na sua inocência. A mãe dela não gosta do marido, e foi inclusive uma das que se empenhou para que fosse preso. Toda quinta-feira Andréia vai visitá-lo na cadeia. E o homem só chora. De vez em quando, ele tem umas crises de ciúmes. Acha que Andréia tem outro. Ameaça terminar tudo. Mas depois se arrepende. De vez em quando, o homem se mete em confusões com outros presos. Andréia recebe ligações avisando para o marido não abrir o bico. Então é ela quem chora.

De segunda à sábado, Andréia cuida de uma idosa na Ocidental. Recentemente, a senhora esteve internada em Brasília. A idosa têm três filhas, mas nenhuma está muito interessada na mãe. Elas não tinham tempo de ficar no hospital com ela. Quem cuidou mesmo dela foi Andréia, que inclusive teve que assinar autorização para procedimentos na senhora. Ela pensa em sair do emprego. Sabe que devia receber mais pelo trabalho no hospital. E as filhas estão cada vez mais exigentes. Agora querem que ela escreva um relatório com tudo o que fez no dia.

Dos sete filhos, o mais velho já tem mais de 20 anos. Talvez seja homossexual. A filha mais velha faz Sistemas da Informação. Mas quer fazer Matemática. Não, Economia. Fazia tempo que Andréia queria que ela arrumasse um emprego, e agora finalmente  conseguiu um. Coisa simples, mas já ajuda com os gastos da faculdade. O filho mais problemático tem 15 anos. Ele estava frequentando a Igreja, mas de repente deu pra aprontar. Andréia encontrou cigarros na mochila. O filho mentia, dizia que estava guardando pra alguém. Ultimamente, está chegando bêbado em casa. Os jovens da Igreja fazem um encontro semanal na casa de Andréia, mas ela acha que estão perdendo tempo com o seu filho. Caso perdido.

Tem ainda dois filhos muito parecidos, com 7 e 8 anos. Filhos do pai que está na cadeia. Um deles teve há algum tempo um problema na boca, que ficou torta. Teve que fazer fisioterapia pra melhorar. Os dois praticam karatê. Esses dias teve troca de faixas. O outro filho, o da boca normal, perdeu uma luta e não se conformou. Falou que ia abandonar o karatê. O filho caçula de Andréia tem quase três anos. Ela chama de “nenê”. Ultimamente, ela tem ficado pouco tempo com o nenê. Muito trabalho. Ele fica na casa da avó, a mãe de Andréia – que há uns dois meses sofreu um infarte, e ainda se recupera.

Andréia precisa de uma geladeira, mas não tem muito dinheiro. Ela tem uma prima que é funcionária pública. Tem vontade de pedir de presente, mas tem vergonha. É uma vida difícil e Andréia chora enquanto conta. Diz que daria um livro. Toda semana tem drama pra contar. Mas é forte, e continua sua vida normalmente, até com bom astral. Falando alto e bastante, trabalhando com energia. Evangélica, mantém a confiança mesmo é na justiça de Deus – porque esta dos homens, mesmo quando você mora em Brasília, já mostrou não servir pra grande coisa.


Triste Metamorfose

Prostituição

Naquela manhã de domingo, enfeitada com nuvens cinzas um tanto mais baixas que de costume, o corpo esquálido da jovem prostituta, quase que totalmente desprotegido de qualquer intempérie, se encolhia ao mais leve contato com a chuva, tremia em meio às rajadas de vento. O dia se recusava a prosseguir, o domingo aparentava uma eterna madrugada, com seus uivos distantes, seus perigos iminentes, seus cochichos ao pé do ouvido. Era como se a noite ainda se despedisse, amarga. O dia como que saía de um poço lúgubre. Os pássaros substituíam os morcegos. Um solzinho tentava inutilmente conquistar o espaço perdido. Soava o sino, distante, preguiçoso: seis horas. A pobreza gemia próximo aos bueiros. A prostituta aparece à esquina, findo mais um turno, extirpada a pouca esperança.

Ela caminha com dificuldades. Os cães latem, assustados, famintos. Dissipam subitamente as nuvens, sob a luz do sol, a prostituta se transforma em mendiga. Triste metamorfose. Ela geme, ninguém percebe.

Cinco horas antes o mesmo corpo atendia às necessidades dos homens, a fina voz feminina se transformava no mais inconfundível grito de satisfação, mesmo que oriundo de uma alma cuja sorte fora lançada ao beco das falsidades. Foram cinco programas em cinco horas, o mal tempo a surpreendera à saída do prostíbulo.

Seguia pensativa com uma significante quantia em dinheiro, guardado no bolso da minúscula saia. A maquiagem como que desfigurava seu rosto após o indesejável banho de chuva. O cabelo louro, com uma destacada mecha azul, maltratado pelos suores da noite, lhe dava certo ar de simplicidade e, concomitantemente, acusava sua condição, o dever de satisfazer o desejo a custos mínimos.

Meia dúzia de moleques a avistaram no momento em que seguiam sorridentes para a escola, a pular entre as poças d’água, todos devidamente trajados, de uniformes azuis, calças jeans e horrendos sapatos marrons. Olharam-na em silêncio por longos segundos. Em seguida, lhe apontaram o dedo, a gritar impropérios. Ela, sem disfarçar a humilhação, baixou ainda mais o olhar, apressou os passos rumo ao quarto onde buscava encontrar uma equivocada felicidade – também denominada descanso.

Curvou-se um pouco para agarrar um galho seco, o introduziu por uma fenda na porta, com o fim de girar a tramela e entrar no seu lúgubre quarto.

Entrou, se lançou à cama. Chorou, e ninguém percebeu.


Balé dos apaixonados

As mãos se procuram com o fervor dos que não esperam a morte.
As pessoas passam com todas aquelas cores frenéticas; os excessos de pretos, os azuis acinzentados e os brancos desbotados.
Os ônibus se apresentam sempre lotados. As buzinas só perdem para as fumaças naquele painel urbano tão desajeitado.
Os beijos surgem como apoteose daquele Lago dos Cisnes do subúrbio. Ele toca o ombro dela e sente o frescor que dificilmente sentirá novamente ao tocar a pele de uma mulher. Mas ele ainda não sabe disso. Ela torce por isso. Ele então desconfia.
Ela abraça o torso dele como quem busca amparo e ele olha nos olhos dela em busca de algum tipo de orientação.
O cabelo dela cai sobre os olhos, no momento em que os lábios dele alcançam seu pescoço. Ela geme. Ele dá um passo para trás, mas não desgruda os lábios daquele pescoço levemente bronzeado, mas muito cheiroso.
Alguém começa a falar alguma coisa. Eles demoram a perceber. Entreolham-se. Riem. Os corpos se separam, as mãos continuam unidas.
O ônibus para. Ele a beija com gosto e urgência. Ela expira. Ele entra no ônibus. Ela também. E o espetáculo terá seu segundo ato.


Renascença

Apaixonada pelo professor da faculdade, Islânia tentava disfarçar. Sentava na fileira do meio. Assim ficava frente a frente com o mestre, ao mesmo tempo em que não despertava a sanha da concorrência. As amigas do fundão reclamavam sua ausência.

– É só na aula do André que você senta ali!

A resposta vinha pronta. A matéria era difícil, queria conseguir anotar tudo. Mesmo de óculos, lá do fundo, o reflexo da janela atrapalhava a cópia do conteúdo. Lá da sua terceira carteira, corredor central, entregava-se ao papel: enchia o caderno com todos os rabiscos e ilações que o professor escrevia na lousa.

Queria ser percebida pelo mestre não apenas como uma aluna esforçada. Deu um corte nos cabelos, colocou aparelho invisível nos dentes, trocou o jeans pelo visual hippie de facul e, para dar o toque final, lentes de contato.

O que Islânia não podia adivinhar era que as lentes novas iriam mudar sua visão de André. Sentada no seu lugar de costume, viu o professor chegar pontualmente, pousar os livros e o computador sobre a mesa e se espantou com o tanto de detalhes que percebeu. Unhas longas, o vinco impecável na calça e o pelo nas orelhas.

Por mais que quisesse e que anotasse, o olhar sempre se dirigia para os lóbulos das orelhas. Onde antes ela imaginava um chiaroscuro devido à má iluminação da sala, se revelava algo muito mais prosaico. A arte contemporânea que conhecia nunca se destacou pela beleza, lamentou a estudante.

Talvez pela cara absolutamente perplexa da moça, André reparou nela. Islânia nesse dia mal anotou, não perguntou nada. Parecia absorta. Se justo aquela aluna devaneava tão sem pudor, ele podia procurar outra coisa pra fazer da vida. Notou a boca rosada entreaberta, como quem desacredita de algo. Só podia ser o seu desempenho medíocre, lamentou.

Ao fim da aula, André esperou Islânia no corredor e a convidou para um café. Precisava reencontrar-se. A aluna titubeou, achou que ouvira errado. Ele insistiu e ela acabou aceitando. Por via das dúvidas, botou novamente os óculos. Era hora de voltar à visão seletiva.

Aline Viana


Falta de assunto

Há tempos que a TV brasileira tem sofrido com a baixa qualidade de seus programas. Basta iniciar uma roda de conversa que encontramos os saudosistas da boa qualidade da programação da TV Cultura, de São Paulo, de como os desenhos animados eram melhores e tinham menos violência, de como Os Trapalhões eram mais engraçados, até mesmo o Faustão era melhor em outro canal. Infelizmente, vivemos a baixa na qualidade da programação em todos os sentidos, mas como tudo pode ser piorado, tem momentos em que a coisa fica insuportável.

Como pega bem, chega a ser revolucionário, falar mal da maior rede de televisão do país, não fugirei à regra. Pois bem, na revista eletrônica da Globo aos domingos, o Fantástico, trouxe no último domingo uma matéria de abre que, no mínimo, seria dispensável. Era a história de um casal que realizou os votos de fidelidade submersos em um lago no estado do Mato Grosso. Não sou contra atividades radicais, pelo contrário, e muito menos totalmente a favor do tradicionalismo das cerimônias matrimoniais. Mas ocupar um tempo de TV para tratar de assuntos que interessam apenas aos envolvidos, e aos parentes mais próximos, é abusar da nossa paciência.

O referido casal já havia comemorado as bodas numa cerimônia no alto da Chapada dos Guimarães, para selar de vez a união realizaram o casamento no fundo do lago com direito a padrinhos, entrega de alianças, beijo e padre. Só faltou jogarem ração para peixe em substituição ao arroz. E eu ali, sentado frente ao aparelho de televisão me perguntando: pra quê?

Penso que quem não tem nada para dizer fala demais. Com a baixa qualidade do que se produz na mídia brasileira em função da audiência, e com ela o ganho na publicidade, tem reforçado em muito essa tese. Mesmo que a pessoa fale pouco tempo, mas não tem nada para dizer parece uma eternidade e a TV tem sofrido desse mal. Se não bastasse o casamento embaixo d’água, a sequência do programa também não elevou o nível. Passou por reportagens exclusivas que sevem apenas para julgamento público do personagem envolvido e mais futilidades sobre a vida alheia.

Para minha felicidade foi criado o controle remoto, mas como migrar para os canais fechados e fugir dessa mesmice se o que milhões de brasileiros estão sujeitos é apenas isso? Fico pensando em me fechar no “meu mundo TV a cabo” e fugir da baixa qualidade, de nada vai adiantar e população brasileira vivencia o pior. Sinto caro leitor, tudo pode ser piorado! Ainda não chegamos ao fundo do poço!


Antonín

Entediado com o trabalho rotineiro e interminável, ele lançou pelo basculante superior um olhar acuado e triste. Queria ver-se livre de mais um dia sempre igual. Ouvia gritos infantes e folhas balançando ao vento da tarde e sentia-se como uma estátua de chumbo, presa àquela cadeira pequena. Era todo goma. Goma e cortesias falsas. Mas sonhava-se em chinelos de dedo. Largas roupas coloridas, distribuindo abraços quentes.
Observando atentamente o virar das horas no relógio digital, afastou-se com ímpeto da máquina contadora e desceu correndo as escadas, rumo a liberdade da rua fresca de por do sol. Voltou o sorriso, o peito inchado e a elasticidade de menino. Estava de novo sem rédeas. E agradecia por isso, aos deuses dos a toa.
Veio outra mudança de relógio, ditando duramente uma nova semana, prometendo os mesmos compromissos e bons dias mecânicos. Mas ele não se levantou. Dessa vez a cama estivera vazia por todo o final de semana. O gato miava de fome e incerteza.
No quarda roupa o terno guardado. Na gaveta, o crachá engavetado. Foram-se da cômoda as meias e poucas bermudas velhas. O resto era caminho a ser deixado. Um cachecol para proteger do frio enquanto uma morena libertária não aparecesse em alguma esquina. E pelas ruas infaustas de uma segunda feira comum, parece-me que ouvi um feliz assoviar. Lembrava a sinfonia nº 9. Em mi menor.


Mas sou daqueles…

Eu sou daqueles que gosta de mar, de céu, de sol, de areia, do calor que faz suor escorrer do rosto, que molha camisa, arranca sapato, meia e joga longe, mas que trabalha, dá duro no batente, acorda cedo, ônibus, trem, pingado na padoca às oito, mas que também tem família, cas, natal e dia das crianças, que retoma dia dos namorados, pai, irmão, marido, amante à moda antiga, que nem sempre manda flores em dia de TPM, mas que bate uma bolinha, chuta, cruza, cabeceia, nem sempre sai grito de gol, que agradece àquele lá de cima pelo passe encaixado, a sainha, os dribles, que beija camisa suada, suja de grama, lama e areia, bolhas no pé, mas só porque sou daqueles que gosta de mar, de céu, sol, calor que faz suor escorrer.