Arquivo do mês: julho 2012

Quer pagar quanto?

O ditado mais antigo sobre qualquer crise econômica não tem data certa, mas deve ser algo da Idade Média pra cá. Diz o dito que enquanto uns choram, outros vendem lenço. O pensamento vem a propósito do caso de uma norte-americana que colocou sua alma à venda por uma pequena ninharia, 2 mil dólares (R$ 4.183, na cotação desta terça), em um site de leilão virtual.

A coisa não ganhou as manchetes porque é o tipo de proposta que convém abafar. Quem já vendeu a alma pro diabo não quer sair por aí assinando recibo: “Eu me vendi mesmo, tudo isso aqui foi bem pago pelo capiroto”. E o próprio cão-miúdo não vai querer uma alma avaliada em meras duas pilas. Ainda que de verdinhas.

Lúcifer há de querer uma alma mais bem cotada. Não precisa ser uma Madre Teresa, mas algo assim melhorzinho, né? Alguém que se valorize mais, que julgue que por nenhum valor no mundo entraria nessa. Não é pelo dinheiro, que isso o tinhoso imprime em rotativas próprias e bem azeitadas, mas é pelo amor próprio mesmo. Tem que ter um mínimo de desafio para ele se animar a fazer o serviço.

Quem eu desconfio que comprará a alma de Lori N., que é como ela se identifica no tal site, será, provavelmente, um ex-cliente do tinhoso. Um ex-cliente advogado, quem sabe? Talvez mesmo um juiz de alguma elevada corte nacional. Pensará o cliente: “se eu vendi, posso muito bem comprar outra. Não há nada aqui nesse contrato que me impeça”. Ganhará uma alma feminina, mas isso será o menor dos problemas. Terá direito à vida eterna.

Cá comigo, espero que a negociação seja bem sucedida.  Até porque passar a perna no diabo é coisa que exige tino. Se ele deixou uma brecha dessas no contrato, deve ter pensado lá consigo que não há uma alma que ele não tenha tentado. O acesso ao paraíso, assim, mesmo para o cliente de alma nova terá seu quinhão a ser conquistado.

Aline Viana


Lenços

O tilintar das taças indicava como seria aquele encontro. Por anos fizeram questão de evitar qualquer tipo de encontro. Ambos sabiam exatamente quais foram as vezes que trocaram de calçada para que não houvesse a troca de olhares. Sabiam também quantas foram as festas que recusaram convite, ou deixaram de ir, para que não estivessem no mesmo ambiente. De nada valeu tudo isso.

Um objeto simples, com pequenas inscrições, com detalhes nas bordas e de pano fino unia-os sem qualquer chance de separação. Diferente dos outros casais, a aliança, o símbolo da união, a forma como amarram suas vidas estava num pedaço de pano. Os lenços brancos, com bordados discretos e perfume suave traziam todas as lembranças dos melhores momentos de suas vidas.

Agora, estavam de frente. Numa mesa de jantar. Cada um se perguntava com havia chegado ali. Ambos se convenciam de que já que estavam no local, não fugiriam do encontro. O silêncio das palavras naquela mesa era oposto ao conversar das demais pessoas pelo salão. Mas, o olhar de cumplicidade dizia mais do que qualquer conversa em tom alto entre os demais.

Ao final da refeição, ela tomou um pequeno gole do vinho, pegou o lenço na bolsa e limpou os lábios de forma muito demorada. Para ele foi um sinal de que tudo poderia voltar a ser como antes. Então ele abriu o paletó, do lado esquerdo, e pegou no bolso de dentro seu exemplar do laço eterno. Só nesse momento as palavras romperam os lábios. Dias e dias de distanciamento foram reduzidos a minutos de poucas palavras. Não havia necessidade de desculpas.

O último tilintar das taças rompeu como sinos que dobram por uma esperança. As cumplicidades foram reatadas com a troca dos lenços. Voltaram a caminhar nas mesmas calçadas e a furtar olhares de zelo.  Além dos lenços, uniram os lençóis.


Sublimação

Só, no meio da rua deserta,  ela pingava da raiz do cabelo aos pés, típico pinto molhado da nossa imaginação chuvosa. A noite desceu fria, pintando de azul profundo o céu antes alaranjadamente ensolarado. Não haviam estrelas dessa vez. A lua também se retirou, entristecida. Era ela, os pingos, e o escuro que chegou. O vento não susurruva e o barulho único e denso era o plic plic no asfalto. Imóvel, durante as longas horas em que não pode falar, ela aguardou o outro dia, que sabia, sempre nascia. E nasceu. O sol levantou, abrasadoramente intolerante. Já se ergueu majestoso e brilhante, queimando pés e plantas que não dispunham do aconchego de uma sombra. E a pegou, ali no meio da rua deserta, bem prevenida. Ela sorriu. E em poucos minutos, não passava de uma leve fumacinha branca, que subia nuvens acima. Diluída em seu novo estado, pensava em onde iria se condensar dessa vez. Ou se pararia de chover no molhado. Talvez seja uma boa vida, essa de voar com leveza sem se aprisionar em formas pobremente definidas.


Na levada do busão – Parte II

Andar de ônibus é uma arte! Posso dizer que tenho vasta experiência no assunto pelos tantos anos usufruindo desse meio de transporte. Que o leitor me perdoe o trocadilho, mas diga-se de passagem, ônibus é mais que uma forma de locomoção; é praticamente a extensão do lar para alguns, para outros, a extensão do trabalho e para a grande maioria é a extensão da própria cama.

E como em todos os lugares, existem regras e ai daqueles que não as respeitarem. Furar fila é mais que um pecado capital! O sujeito que se acha o espertinho é rechaçado publicamente e ainda por cima corre o risco de apanhar de algum grandalhão que está mais pro fim da fila.

Mas não pense que os que defenderam o seu direito concordarão com você em todos os momentos; experimente pagar a tarifa em dinheiro, precisar de troco e ter que esperar o cobrador que está na padaria tomando um pingado… Se você não grudar na catraca até que o infeliz do cobrador volte, será forçado a dar licença e o tempo que ficou na fila terá sido a toa, pois quando conseguir passar não haverá mais bancos vazios.

Assento reservado é sonífero, principalmente se um de seus beneficiados sobe no ônibus. Nesses casos, o cobrador é quem inicia a discussão, buscando instaurar a justiça. Algumas pessoas passam longe já se prevenindo de ter que levantar caso chegue um idoso, uma mulher grávida (ou com criança de colo) ou deficiente, ainda que o aviso seja claro quando diz que ausente pessoas nessas condições, o uso é livre.

No ônibus, todos os dias, temos lições de respeito, quando quem está de pé obedece o pedido do cobrador pelo famoso passinho para trás. Também é nítido o senso de companheirismo de algumas pessoas que se dispõem a ajudar a carregar os pertences dos outros. Mas como nada é perfeito, ainda temos quem queira compartilhar com os demais um sonzinho maneiro que,muitas vezes, é do gosto só do proprietário do aparelho sonoro.

E sei que o leitor que se utilizar desse meio de transporte concordará com cada palavra e sei que também terá muito a acrescentar. Portanto, fecho esse texto deixando-o em aberto, para que quem quiser possa colaborar…


O Homem da Bicicleta de Uma Roda Só

Sentei na última fileira do ônibus, exatamente no banco do meio. Não havia muitos lugares vagos. Eu mal havia sentado e na parada seguinte a porta de trás se abriu. Por ela entrou um homem negro, entre 25 e 30 anos, e quase careca – a exceção eram alguns fios, parecidos com os da Medusa, espalhados aqui e ali. Mas o homem não estava sozinho: trazia consigo um monociclo. Ou, em português, uma bicicleta de uma roda só, daquelas de circo. Era altíssima. Quase batia no teto.  Com cuidado, conseguiu se acomodar dois bancos à frente de mim, ao lado do corredor. A bicicleta ficou em pé. Com uma mão, ele segurava um dos ferros do ônibus e ao mesmo tempo prendia a bicicleta. Fiquei reparando melhor naquele veículo e me admirei que uma pessoa conseguisse se equilibrar nele.

Enquanto isso, o ônibus enchia. Eu já estava para descer quando parou na frente da porta um homem daqueles que acham possível ficar em pé dentro de um ônibus  com uma mochila nas costas. Eu já estava achando ruim ter que me desvincilhar desse homem, e então o homem da bicicleta deu uma cutucada nele e perguntou se iria descer na próxima. O mochileiro disse que não. Pois bem. E então cedeu espaço para que o homem e sua bicicleta passassem, e tratou de sentar no lugar em que ele estava. Pude então me levantar com certa tranquilidade e também me preparar para descer. Achei que o homem da bicicleta desceria no ponto seguinte, mas não. Deixou passar. Puxou a cordinha para descer no próximo, que era também o meu ponto. Descemos então, nós e a sua bicicleta.
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O ônibus ainda ficou parado por um tempo, carregando pessoas. Ao passar pela frente dele, o homem da bicicleta fez um sinal de positivo para o motorista e disse ainda “Deus te abençoe”. Só então me dei conta de que ele não havia pagado a passagem. Ultrapassei o homem e me dirigi para a faixa de pedestres, onde uma bonita moça já aguardava que o sinal fechasse. O homem chegou até lá e também deu mostras de que iria atravessar. E não ficou muito tempo esperando, foi logo atravessando. Achei que era um maluco inconsequente, e então percebi que o sinal já estava fechado, e tratei de atravessar também, com a mocinha bonita. Chegamos até a metade da rua, que tem duas pistas. O homem conseguiu atravessar a outra metade. Eu demorei um pouco, e a mocinha ficou.
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Continuamos então andando na mesma calçada, eu e o homem com sua bicicleta. Novamente comecei a reparar em seu veículo, e tive o desejo de pedir que subisse em cima daquele negócio e fizesse com ele tudo que costuma fazer. Estava curioso para ver em detalhes como ele faria. Naturalmente, não pedi coisa alguma, e observei então que ele estava se encaminhando para o mesmo mercado que eu iria. Dito e feito. Entramos no mercado. Por um instante me passou pela cabeça se ele levaria a bicicleta para o guarda volume. Nada. Entrou com ela, pegou uma cesta e logo em seguida, sem perceber, acertou uma verdadeira cestada na cabeça de uma pobre senhora que saía do mercado. Ela reclamou alguma coisa em voz baixa. Mas o homem nada viu, nada sentiu.
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Subitamente, senti meu corpo estremecer e veio então a revelação: estaria eu diante de um personagem? Aquilo pelo qual jornalistas e cronistas dão a vida: alguém que ilustre as suas matérias ou as suas histórias. Já certo de que sim, era um personagem que o destino tinha me colocado nas mãos, comecei o meu trabalho de investigação. Passei a observá-lo. Foi para a seção de frutas. Ficou olhando os kiwis e colocou um só dentro da cesta. Foi ver as bananas e pegou algumas – e inclusive comeu outra, sem a menor cerimônia. Em seguida ficou analisando as linguiças calabresas. Analisou, analisou e não comprou nada. Foi pro açougue do mercado. Fez uma pergunta que não ouvi. Tudo o que sei é que não comprou carne nenhuma – pude ver depois o conteúdo da sua cesta.
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A essa altura eu temi que já estava dando muito na vista a observação que eu fazia do meu personagem. Eu já havia passado por boa parte das prateleiras daquela seção, e olhado com muito interesse coisas que não me interessavam. Decidi então ir fazer as minhas compras e então voltar para a seção, pois o homem dava mostras que ainda iria passar um bom tempo lá – ele havia inclusive largado a bicicleta no chão, perto das calabresas. Fui então atrás das poucas compras que tinha em mente e logo voltei. O homem agora estava nos pães. E pelo que percebi não havia pão fresco ainda. Ouvi então ele comentar com um senhor, também interessado nos pães, que toda noite ele pegava pão fresquinho lá, e que inclusive não conseguia resistir e ia comendo no caminho para casa.
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Fiquei mais um tempo próximo a ele, a fim de ver se fazia ou falava alguma coisa extraordinária, dessas que um personagem geralmente faz. Mas tudo que vi o homem fazer depois disso foi ir com a sua bicicleta até a prateleira de bebidas, e algum tempo depois voltar para ver se por acaso já havia saído pão fresco. Logo em seguida eu perdi o homem de vista. Dei uma passada por todas as prateleiras e não o encontrei. Decidi então ir para o caixa e  pagar as minhas compras, na esperança de que ele em breve aparecesse por lá também. Pois não apareceu. Apenas quando saía do mercado é que vi de relance o homem e a sua bicicleta. Estava olhando um produto que não consegui identificar perto da prateleira de leite. Pensei em ficar na entrada e esperar ele sair, mas isso já era demais.
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Mas o que há afinal de extraordinário na história do homem da bicicleta de uma roda só? Nada. Não há rigorosamente nada. Diante disso, eu sugiro que não bisbilhotem a vida alheia.

Um homem bate à porta

              Um homem bate à porta, é atendido, entrega o documento de identidade, pede alguns trocados, agradece, sai. A porta é fechada para o mundo. O patriarca da família, que sustenta desde seus verdes anos um pomposo bigode, está a roncar, sua esposa, cansada de tanta submissão, o imita. Ruídos delatam a presença de agitados pombos e galinhas na vizinhança. Há um riso constante, vindo de muito próximo; as crianças, sob a influência do ridículo instante, esboçam um inocente sorriso. Moscas tentam sair da casa, alvoroçadas, quiçá atraídas por um detestável cheiro de fritura, comum nas redondezas. Dolores dorme, sentada na sua cadeira de balanço, na varanda dos fundos, entretida com suas galinhas pretas.

            A monótona garoa se apresenta, menos que fina. Os pombos continuam ensaiando seus cantos. Súbito ouve-se o que parece ser um tiro, distante e inofensivo – aparentemente. Aquela pomba cinza, com meia dúzia de penas brancas, há muito estática no alto de uma antena, cai em respeito à força da gravidade, morre em consideração às banalidades da vida. Depois, silêncio. O relógio, dependurado sobre a janela do compartimento principal, prende a atenção dos pequenos, distinguem-se o passar dos segundos. O guardião do tempo informa um horário incompreensível às feições infantis, que o encaram num misto de temor, curiosidade e surpresa.

            Agasalhos escondem os raquíticos corpos dos transeuntes. Há o que apressa os passos, intercepta uma senhora de meia idade, se apodera de seus pertences e avança rumo a um beco de remorsos. A chuva cai com maior intensidade, desliza sobre o desfile de guarda-chuvas. Ajudem-me, implora uma idosa de olhos miúdos e cabelos tingidos. Está caída nas proximidades. Após ser acudida, revela, exibindo sua dentadura horrendamente amarela, ter quebrado uma unha. A idosa não agradece o mendigo que a auxiliou, e segue seu caminho deixando no gasto asfalto um documento de identidade já consumido pelos anos. A ingrata é Dolores Aparecida e Silva, nascida em 15 de agosto de 1940, assevera o documento, que ainda revela: trata-se de uma analfabeta.

            Um homem bate à porta, é atendido, entrega o documento de identidade, pede alguns trocados, agradece, sai. A porta é fechada para o mundo. O patriarca da família, que sustenta desde seus verdes anos um pomposo bigode, está a roncar, sua esposa, cansada de tanta submissão, o imita. Ruídos delatam a presença de agitados pombos e galinhas na vizinhança. Há um riso constante, vindo de muito próximo; as crianças, sob a influência do ridículo instante, esboçam um inocente sorriso. Moscas tentam sair da casa, alvoroçadas, quiçá atraídas por um detestável cheiro de fritura, comum nas redondezas. Dolores dorme, sentada na sua cadeira de balanço, na varanda dos fundos, entretida com suas galinhas pretas.

 


Pâmela Lee

Imagem do quadro “A mulher sagrada”, da artista plástica Maria Alm

Uns enxergam ingenuidade, mas meu instinto pressente presença de espírito adornada por renovável generosidade e cativante bondade.
A fé rareia como princípio em tempos de ocaso social, mas segue como um norte para essa torcedora do colorado que se deixa apaixonar pelo ímpeto da torcida corintiana.

Uns enxergam pedantismo, vejo desprendimento. Ofertar um sorriso é algo que Pâmela sabe fazer como ninguém. Ela irradia harmonia. Não são muitas as pessoas que detêm esse dom. Não conheço outra além dela.
Uns enxergam superficialidade, vejo amor ao próximo. Interesse parece-me ser apenas um adjetivo empregado aqui e ali por gente muito interessada em si mesmo. Pâmela me passa a impressão de estar interessada em ferir de morte essa ideia. Ou ferir de vida. Ela sempre está legitimamente interessada em algo ou alguém, por mais desinteressante que esse algo ou alguém possam ser no julgamento de terceiros.

Uns enxergam problema em “parecer estar sempre de bem com a vida”, eu vejo solução. Certamente Pâmela sofre, se machuca, chora… mas valente contagia aqueles a sua volta de alegria. Esse otimismo incurável é uma arma valiosa que muitos não sabem manejar.

Não é fácil ser Pâmela Lee. Ombrear com inveja, descaso e condescendência sem se deixar abalar. Infelizmente não tenho como declinar a fonte da força dessa mulher tão real que surge perante meus olhos todos os dias úteis. Talvez seja a harmonia familiar, uma infância vitoriosa ou mesmo o amor que lhe visite com generosidade e ternura. Seja o que for, prefiro ter fé que Pâmela Lee não está sozinha neste mundo.