Arquivo do mês: junho 2012

Eu e a minha… barata?

Linha 746P-10, saindo do Terminal Santo Amaro com final em Paraisopolis. Viagem longa, sujeita a trânsitos, businas, e muitas outras sardinhas. A previsão era de uma hora e meia de viagem, tempo suficiente para resolver muitas pendências, das quais eu poderia escolher entre dormir, estudar, comer, ver o jogo pelo celular.

Resolvi que com o ônibus lotado não tinha muita escolha que não fosse dormir mesmo. Sempre depois que passa a Marginal Pinheiros a maioria dos passageiros desce e o lugar volta a ficar habitável. Então abandonei o livro, segurei a fome e guardei o celular pra cair num sono bem balanceado no gingado das ruas de São Paulo.

Acabei acordando com uma penca de gente gritando “vai desceeeeeeer” exatamente no ponto de desova. Tentei contar quantas pessoas desceram pra saber a capacidade do coletivo, mas me perdi depois da quadragésima terceira e desisti, saquei minha mochila e já comecei a salivar pelo lanchinho que me esperava ansioso.

Desembrulhei com todo o cuidado, pra garantir que todos os gramas de atum, todas as folhinhas de alface ali permaneceriam, mantendo apenas o trajeto básico gardanapo-minha boca. Cheirinho delicioso subiu e eu quase me senti em casa, não fosse o cobrador e seu radinho infernal tocando algo que optei por não reconhecer.

A preparação psicológica da primeira mordida precisa ser bem feita pra que todo o restante seja tão bom quanto e qua a última mordida venha como o grand finale! E se houvesse a chance de mostrar ao leitor, meu amigo, as imagens em câmera lenta, seria ideal para mostrar tamanho cuidado milimétrico para posicionar a boca na abertura correta, se aproximar do lanche, inalar o cheiro do pão fresco e…

Pára tudo.

Silêncio…

Acabo de perceber que estou sendo ameaçado, fortemente pressionado por um inimigo em potencial. Ele está me observando, parou de se mover no exato instante em que me viu. E ali declarou uma guerra, uma guerra de vida ou morte. Não havia escapatória, era eu ou ele, a minha honra, a vida dele. Não seria fácil, ainda haviam alguns civis inocentes no local e estourar a guerra não seria adequado para o momento.

Porra, uma barata!

Não é possível, eu tinha esperado tanto por aquele momento, tava com uma baita duma fome e justo na primeira mordida, a mais importante, aparece uma barata no banco da frente e fica olhando pra mim… primeiro que comer com barata por perto não é nem um pouco agradável; segundo que é péssimo comer com alguém te observando, você se sente obrigado a oferecer!

Gritar é que eu não poderia, pô, fica feio homem com medo de barata, né.

– Ou, galera! Alguém me ajuda a matar essa barata??

É, também não rola, dá quase na mesma de gritar por socorro. Não dava pra matar a bicha, o lanche estava encaixadinho na minha mão, não tinha posição melhor e se eu me mexesse pra tirar o sapato, desviar e sapatar-lhe as tabelas, meu lanche provavelmente iria juntinho dela.

Ninguém notou. Foi minha sorte e meu azar. Sorte porque fiquei catatônico perante a danada, eu olhava pra ela, ela pra mim, parecia cena de filme de bang-bang. E azar porque não teria a ajuda de ninguém sem ter que pedir. Dilema: pedir ajuda ou comer o lanche?

Eu deveria descer no ponto final para ainda andar mais três quadras e chegar no curso. Mas não tive dúvida: o ônibus parou na Cerqueira César para os últimos passageiros desembarcarem, aproveitei o momento e sorrateiramente passei pro banco do lado, esperei a última pessoa passar pelo meu banco, levantei às pressas e desci, com a maior naturalidade do mundo, todo desajeitado com mochila debaixo do braço, lanche numa mão e refrigerante na outra.

Desgraçada… Ela me fez comer o lanche andando e ainda ter que dar o último pedaço pro Zé Pedro, que encontrei no caminho pra facul.


Substantivo

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Febre

O salão estava cheio. Ele vestia um terno Armani que parecia alinhado sobre suas medidas, que sobressaltavam em masculinidade. O cabelo, penteado com devoção e inventividade, expressava vaidade que o olhar não negava. O olhar era convocativo. E ele tinha um alvo. Ela usava um vestido. Era preto, mas podia ser vermelho. O vestido a vestia. Os olhos eram felinos. Os seios dispensavam adjetivos tradicionais como “fartos” ou “perfeitos”. Os cabelos eram seda, a maquiagem, discreta e o corpo tangia sensualidade noturna.
Tocava “Fever”, um hino do blues composto por Eddie Cooley e Otis Blackwell. Não havia fumaça ou cores, mas não precisava.
Ela encostou-se suavemente ao balcão do bar e pediu algo para beber. Ele tirou do paletó um isqueiro cromado e ascendeu um cigarro em um movimento lento de aparente desinteresse.
Não era permitido fumar ali. Mas fumar era preciso.
Ele tirou o cigarro da boca quando avistou um homem aproximando-se dela. Ela sorriu. Não era possível intuir se para ele, da situação ou para o outro homem. Mulheres tendem a gostar de ser o centro das atenções. Mas ele também gostava de gravitar o centro das atenções dos outros.
O homem puxou conversa. Ela parecia desinteressada. Mexia carinhosamente com o indicador direito nos gelos de seu copo. Os saltos dos sapatos deslizavam um no outro em um movimento ritmado e fluido.
Ele aproximou-se de outro bar e pediu um drink. Um drink com frutas tropicais. Foi quando ela investigou novamente o salão com o olhar. Avistou-o bebendo e olhando fixamente para ela. O Armani estava sobre os ombros. As mangas da camisa branca, arregaçadas.
Levantou-se. Ele também.
“Fever” parou de tocar.


Partida

Imagem: Hans S.

Para onde ela havia partido, ele nunca fez questão de saber. Se estava viva ou morta também. Queria apenas descobrir que merda de nevoeiro era aquele que todo dia engolfava a cidade pela noite até a manhã quente. Parecia-lhe que o nevoeiro combina com o sumiço dela.

Os vizinhos faziam o mesmo cálculo. Só tinham mais acertada a conta: morta, ela vinha obscurecer os caminhos dele. A noite só seria limpa quando o levasse consigo.

E se ela, de repente, por vingança, engolisse também o dia? Ninguém mais conseguiria sair dali. Talvez ninguém conseguisse chegar também.

Naquele dia, ele não voltou. Mas o nevoeiro também não se foi, apenas clareou um pouco.

 

Aline Viana


Fui!

Afirma o ditado popular que “a pressa é inimiga da perfeição”. Dessa forma vou me valer das duas para nosso encontro de hoje. Ou melhor, vou me valer da pressa e de sua amiga, a imperfeição. Então, nobres colegas, leitores, leitoras, curiosos, curiosas e a quem vir ter acesso a esse texto, sinto em assumir, hoje vai ser na pressa mesmo. Posso justificar que foi uma semana muito corrida. Posso argumentar que o trânsito me causou problemas. Posso até dizer que por estar sem tema, tive que fazer às pressas.

Mas, mesmo às pressas, devo refletir sobre o ditado, que deve ser do tempo pré alguma coisa, para dizer que a pressa é sinônimo da perfeição. Oras, quem não tem pressa no trânsito é porque não sabe dirigir ou não tem nada para fazer!  Quem não está apressado com a velocidade da internet, é atrasado no tempo! Estamos sempre preocupados em fazer muitas coisas às pressas. Para que? Oras, o ser humano comparado aos milhões de anos da existência do Planeta, tem uma vida muito curta! Então, não dá e não temos tempo a perder. Tem que viver com pressa.

Somos concebidos na correria. Corre sangue em nossas veias. A vida moderna é corrida. Fazemos tudo na correria. Quem anda chega, mas quem corre chega mais cedo. Deu! Fui! A pressa e sua amiga me pegaram! Vivam a seman! Ops!! Semana….


Pingo

No finzinho, a gente aperta os olhos para enxergar longe o que está perto. Mão reta sobre as sobrancelhas e o que se busca lá espirra aqui. Vem um cheiro doce e frio e bem no meio da cabeça meio oca, cai  o pingo de epifania. Você esteve sempre aqui e era eu que te partia.


Hiperbolizadamente

Vocês não acham que é o fiiiiiiiiiim do mundo alguém que, pra tudo que fala, numa vírgula que seja, looooota de hipérboles seu discurso? Às vezes a conversa parece tão intensa, tão profunda, que já não sabemos se estamos apenas jogando conversa fora ou se estamos em uma aula de física quântica, descendo ao mais profuuuuundo dos mares nunca d’antes navegados.

E é até difícil de entender porque, algumas vezes, nuuuuuunca vamos saber se tudo aquilo aconteceu de fato ou se a pessoa está é chorando as pitangas pro nosso lado, fazendo tempestaaaaaade em copo d’água só para nos comover. Parece até que ou tudo está indo de mal a pior, ou de bom a melhor.

Eu convido vocês a prestarem atenção nesses momentos e tirarem suas próprias conclusõesIsso acontece tooooo-dos-os-di-as, não vai ser difícil de notar, tenham certeza maaaaaais que absoluta! No ônibus, na fila do banco, no almoço, o mundo inteeeeeeiro faz isso o tempo tooooodo! Dá pra fazer uma listinha com as expressões mais comuns, as mais intensificadas e as que causam mais comoção.

– Nossa, tô morreeeendo de fome!

– Putz, tá caindo o mundo aqui!

– Ei, você tá surdo ou pode me responder?

Viu só? Essas são algumas das milhaaaaaaares que o povo aplica por aí. Aí eu me pergunto: precisa de tudo isso? Será que não podemos dar a real intensidade das coisas, em vez de acabaaaar com a paciência dos outros? Será mesmo que ninguéeeeeeem nuuuuuuunca vai ter a míiiiiiinima noção da extreeeeeeeema chatisse a que elas se colocam seeeeeeempre?

Caramba… Bom, pelo menos do meu lado, o recado tá dado. Espero que alguém uuuuuuuuma pessoa só tenha entendido. Não quero estar sozinha, abandonaaaaaaada nessa. Minha parte eu juuuuuuuro que fiz!