Eu e a minha… barata?

Linha 746P-10, saindo do Terminal Santo Amaro com final em Paraisopolis. Viagem longa, sujeita a trânsitos, businas, e muitas outras sardinhas. A previsão era de uma hora e meia de viagem, tempo suficiente para resolver muitas pendências, das quais eu poderia escolher entre dormir, estudar, comer, ver o jogo pelo celular.

Resolvi que com o ônibus lotado não tinha muita escolha que não fosse dormir mesmo. Sempre depois que passa a Marginal Pinheiros a maioria dos passageiros desce e o lugar volta a ficar habitável. Então abandonei o livro, segurei a fome e guardei o celular pra cair num sono bem balanceado no gingado das ruas de São Paulo.

Acabei acordando com uma penca de gente gritando “vai desceeeeeeer” exatamente no ponto de desova. Tentei contar quantas pessoas desceram pra saber a capacidade do coletivo, mas me perdi depois da quadragésima terceira e desisti, saquei minha mochila e já comecei a salivar pelo lanchinho que me esperava ansioso.

Desembrulhei com todo o cuidado, pra garantir que todos os gramas de atum, todas as folhinhas de alface ali permaneceriam, mantendo apenas o trajeto básico gardanapo-minha boca. Cheirinho delicioso subiu e eu quase me senti em casa, não fosse o cobrador e seu radinho infernal tocando algo que optei por não reconhecer.

A preparação psicológica da primeira mordida precisa ser bem feita pra que todo o restante seja tão bom quanto e qua a última mordida venha como o grand finale! E se houvesse a chance de mostrar ao leitor, meu amigo, as imagens em câmera lenta, seria ideal para mostrar tamanho cuidado milimétrico para posicionar a boca na abertura correta, se aproximar do lanche, inalar o cheiro do pão fresco e…

Pára tudo.

Silêncio…

Acabo de perceber que estou sendo ameaçado, fortemente pressionado por um inimigo em potencial. Ele está me observando, parou de se mover no exato instante em que me viu. E ali declarou uma guerra, uma guerra de vida ou morte. Não havia escapatória, era eu ou ele, a minha honra, a vida dele. Não seria fácil, ainda haviam alguns civis inocentes no local e estourar a guerra não seria adequado para o momento.

Porra, uma barata!

Não é possível, eu tinha esperado tanto por aquele momento, tava com uma baita duma fome e justo na primeira mordida, a mais importante, aparece uma barata no banco da frente e fica olhando pra mim… primeiro que comer com barata por perto não é nem um pouco agradável; segundo que é péssimo comer com alguém te observando, você se sente obrigado a oferecer!

Gritar é que eu não poderia, pô, fica feio homem com medo de barata, né.

– Ou, galera! Alguém me ajuda a matar essa barata??

É, também não rola, dá quase na mesma de gritar por socorro. Não dava pra matar a bicha, o lanche estava encaixadinho na minha mão, não tinha posição melhor e se eu me mexesse pra tirar o sapato, desviar e sapatar-lhe as tabelas, meu lanche provavelmente iria juntinho dela.

Ninguém notou. Foi minha sorte e meu azar. Sorte porque fiquei catatônico perante a danada, eu olhava pra ela, ela pra mim, parecia cena de filme de bang-bang. E azar porque não teria a ajuda de ninguém sem ter que pedir. Dilema: pedir ajuda ou comer o lanche?

Eu deveria descer no ponto final para ainda andar mais três quadras e chegar no curso. Mas não tive dúvida: o ônibus parou na Cerqueira César para os últimos passageiros desembarcarem, aproveitei o momento e sorrateiramente passei pro banco do lado, esperei a última pessoa passar pelo meu banco, levantei às pressas e desci, com a maior naturalidade do mundo, todo desajeitado com mochila debaixo do braço, lanche numa mão e refrigerante na outra.

Desgraçada… Ela me fez comer o lanche andando e ainda ter que dar o último pedaço pro Zé Pedro, que encontrei no caminho pra facul.

Substantivo

Terça-feira, tardinha, retorno, trabalho, ônibus, trânsito, barulho, gente, carros, buzinas, chateação, stress, pressa, empurrões, multidão, solidão, melancolia, vazio, aparição, surpresa, passageira, encanto, beleza, mulher, óculos, blusa, tênis, sacola, celular, nariz,  sorriso, aparelho, interesse, olhar, discrição, contemplação, timidez, parada, descida, ônibus, chegada, casa, jantar, televisão, cama, pensamento, mulher, ônibus, vontade, lembranças, jeito, cabelo, risadas, bocejo, sono, sonhos, manhã, café, trabalho, repetição, pressa, relógio, vagareza, ansiedade, ônibus, volta, nervosismo, reencontro, distância, olhares, disfarces, reciprocidade, vergonha, ruborizamento, volta, casa, escrivaninha, poesia, versos, paixão, certeza, segunda, sexta, segunda, sexta, hábito, final, trabalho, ônibus, contemplação, mulher, óculos, desejo, coragem, conversa, aproximação, decisão, amanhã, confissão, sentimentos, amanhã, ansiedade, confiança, disfarces, aproximação, cumprimentos, constrangimento, conversa, banalidades, perguntas, risos, piadas, novidades, semelhanças, encantamento, sucesso, telefones, agenda, ligações, aproximação, amizade, risos, desejos, convite, passeio, parque, domingo, tardinha, sorvete, ansiedade, nervosismo, expectativa, realização, beijo, boca, língua, volúpia, delícia, pedido, namoro, aceitação, namorados, felicidade, cumplicidade, aproximação, famílias, sogro, sogra, cunhados, jantares, festa, companhia, passeios, cinema, encontros, apelidos, carinhos, sorrisos, planos, alegria, beijos, beijos, beijos, evolução, relação, sexo, carne, unidade, mulher, sábado, aniversário, festa, surpresa, presente, anel, sorrisos, pedido, noivado, choro, risada, brilho, brincadeiras, aceitação, noivos, beijos, juras, promessas, sonhos, casa, empregos, mudanças, independência, futuro, paz, sossego, filhos, sonhos, engano, frustração, surgimento, mulher, vizinha, amiga, proximidade, noivo, desejo, proibição, excitação, vontade, coragem, libido, pensamento, ação, traição, peso, remorso, costume, repetição, traição, mentiras, desculpas, horas-extras, viagens, desconfiança, dúvidas, cabeça, mulher, ontem, flagra, amassos, noivo, vizinha, safadeza, anel, lixo, lágrimas, amigas, consolo, choro, homens, hipocrisia, mentiras, adeus, sumiço, final, fim.

Febre

O salão estava cheio. Ele vestia um terno Armani que parecia alinhado sobre suas medidas, que sobressaltavam em masculinidade. O cabelo, penteado com devoção e inventividade, expressava vaidade que o olhar não negava. O olhar era convocativo. E ele tinha um alvo. Ela usava um vestido. Era preto, mas podia ser vermelho. O vestido a vestia. Os olhos eram felinos. Os seios dispensavam adjetivos tradicionais como “fartos” ou “perfeitos”. Os cabelos eram seda, a maquiagem, discreta e o corpo tangia sensualidade noturna.
Tocava “Fever”, um hino do blues composto por Eddie Cooley e Otis Blackwell. Não havia fumaça ou cores, mas não precisava.
Ela encostou-se suavemente ao balcão do bar e pediu algo para beber. Ele tirou do paletó um isqueiro cromado e ascendeu um cigarro em um movimento lento de aparente desinteresse.
Não era permitido fumar ali. Mas fumar era preciso.
Ele tirou o cigarro da boca quando avistou um homem aproximando-se dela. Ela sorriu. Não era possível intuir se para ele, da situação ou para o outro homem. Mulheres tendem a gostar de ser o centro das atenções. Mas ele também gostava de gravitar o centro das atenções dos outros.
O homem puxou conversa. Ela parecia desinteressada. Mexia carinhosamente com o indicador direito nos gelos de seu copo. Os saltos dos sapatos deslizavam um no outro em um movimento ritmado e fluido.
Ele aproximou-se de outro bar e pediu um drink. Um drink com frutas tropicais. Foi quando ela investigou novamente o salão com o olhar. Avistou-o bebendo e olhando fixamente para ela. O Armani estava sobre os ombros. As mangas da camisa branca, arregaçadas.
Levantou-se. Ele também.
“Fever” parou de tocar.

Partida

Imagem: Hans S.

Para onde ela havia partido, ele nunca fez questão de saber. Se estava viva ou morta também. Queria apenas descobrir que merda de nevoeiro era aquele que todo dia engolfava a cidade pela noite até a manhã quente. Parecia-lhe que o nevoeiro combina com o sumiço dela.

Os vizinhos faziam o mesmo cálculo. Só tinham mais acertada a conta: morta, ela vinha obscurecer os caminhos dele. A noite só seria limpa quando o levasse consigo.

E se ela, de repente, por vingança, engolisse também o dia? Ninguém mais conseguiria sair dali. Talvez ninguém conseguisse chegar também.

Naquele dia, ele não voltou. Mas o nevoeiro também não se foi, apenas clareou um pouco.

 

Aline Viana

Fui!

Afirma o ditado popular que “a pressa é inimiga da perfeição”. Dessa forma vou me valer das duas para nosso encontro de hoje. Ou melhor, vou me valer da pressa e de sua amiga, a imperfeição. Então, nobres colegas, leitores, leitoras, curiosos, curiosas e a quem vir ter acesso a esse texto, sinto em assumir, hoje vai ser na pressa mesmo. Posso justificar que foi uma semana muito corrida. Posso argumentar que o trânsito me causou problemas. Posso até dizer que por estar sem tema, tive que fazer às pressas.

Mas, mesmo às pressas, devo refletir sobre o ditado, que deve ser do tempo pré alguma coisa, para dizer que a pressa é sinônimo da perfeição. Oras, quem não tem pressa no trânsito é porque não sabe dirigir ou não tem nada para fazer!  Quem não está apressado com a velocidade da internet, é atrasado no tempo! Estamos sempre preocupados em fazer muitas coisas às pressas. Para que? Oras, o ser humano comparado aos milhões de anos da existência do Planeta, tem uma vida muito curta! Então, não dá e não temos tempo a perder. Tem que viver com pressa.

Somos concebidos na correria. Corre sangue em nossas veias. A vida moderna é corrida. Fazemos tudo na correria. Quem anda chega, mas quem corre chega mais cedo. Deu! Fui! A pressa e sua amiga me pegaram! Vivam a seman! Ops!! Semana….

Pingo

No finzinho, a gente aperta os olhos para enxergar longe o que está perto. Mão reta sobre as sobrancelhas e o que se busca lá espirra aqui. Vem um cheiro doce e frio e bem no meio da cabeça meio oca, cai  o pingo de epifania. Você esteve sempre aqui e era eu que te partia.

Hiperbolizadamente

Vocês não acham que é o fiiiiiiiiiim do mundo alguém que, pra tudo que fala, numa vírgula que seja, looooota de hipérboles seu discurso? Às vezes a conversa parece tão intensa, tão profunda, que já não sabemos se estamos apenas jogando conversa fora ou se estamos em uma aula de física quântica, descendo ao mais profuuuuundo dos mares nunca d’antes navegados.

E é até difícil de entender porque, algumas vezes, nuuuuuunca vamos saber se tudo aquilo aconteceu de fato ou se a pessoa está é chorando as pitangas pro nosso lado, fazendo tempestaaaaaade em copo d’água só para nos comover. Parece até que ou tudo está indo de mal a pior, ou de bom a melhor.

Eu convido vocês a prestarem atenção nesses momentos e tirarem suas próprias conclusõesIsso acontece tooooo-dos-os-di-as, não vai ser difícil de notar, tenham certeza maaaaaais que absoluta! No ônibus, na fila do banco, no almoço, o mundo inteeeeeeiro faz isso o tempo tooooodo! Dá pra fazer uma listinha com as expressões mais comuns, as mais intensificadas e as que causam mais comoção.

– Nossa, tô morreeeendo de fome!

– Putz, tá caindo o mundo aqui!

– Ei, você tá surdo ou pode me responder?

Viu só? Essas são algumas das milhaaaaaaares que o povo aplica por aí. Aí eu me pergunto: precisa de tudo isso? Será que não podemos dar a real intensidade das coisas, em vez de acabaaaar com a paciência dos outros? Será mesmo que ninguéeeeeeem nuuuuuuunca vai ter a míiiiiiinima noção da extreeeeeeeema chatisse a que elas se colocam seeeeeeempre?

Caramba… Bom, pelo menos do meu lado, o recado tá dado. Espero que alguém uuuuuuuuma pessoa só tenha entendido. Não quero estar sozinha, abandonaaaaaaada nessa. Minha parte eu juuuuuuuro que fiz!

Somos todos ricos!

Eu sei que nem sempre os jornais têm boas notícias para dar, então é com muita felicidade que anuncio uma ótima para o leitor: você está rico! Não é maravilhoso? Recentemente fui informado pelo Governo que faço parte de um seleto grupo de pessoas bem afortunadas. Bolas, pois se eu faço parte, imagine o leitor, que tem casa própria, um carro razoável, e que se dá ao luxo de comprar eletrodomésticos, ou mesmo roupas em shoppings centers – para si e para a família. Isso sem falar em eventuais viagens a passeio. Certamente é um milionário. Me dê aqui a sua mão, leitor. Meus cumprimentos. Crescemos, afinal. Mudamos de classe social.

Explico: segundo a Secretaria de Assuntos Estratégicos do Governo Federal, você agora já está na classe média se ganhar ao menos R$ 291 por mês. Quero crer que os meus leitores ganham isso. Eu, modéstia à parte, ganho até mais. Houve algumas profecias por aí decretando o fim da classe média, mas agora ela está mais viva do que nunca. Todos os que ganham entre R$ 291 e R$ 1019 fazem parte dela. Chegamos ao ponto em que não é preciso ganhar nem um salário mínimo para ser de classe média. Tomem essa, mundo desenvolvido. Europa, países do Norte: aprendam com a gente como acabar de vez com a miséria.

Eu faria ainda mais: equiparia o valor mínimo da classe média aos R$ 70 necessários para entrar no Bolsa Família. Que outro país é tão desenvolvido a ponto do Governo auxiliar a renda não dos pobres, mas da classe média? Pega essa, Obama. Bom. Em todo caso, classe média pra mim é coisa do passado. Com essa nova classificação, entrei para a classe alta – a baixa classe alta, que é baixa, mas ainda é alta. Mal eu descobri isso e no dia seguinte larguei minha marmita e fui comer comida de verdade. Camarões flambados com conhaque. É terrível, mas necessário: preciso me portar de acordo com a classe a que pertenço.

Um dia eu ainda chegarei à alta classe alta. Só preciso ganhar R$ 2.500. É o maior estágio que uma pessoa pode alcançar. Acima disso é bilionário e ponto. Não temos uma classe específica para enquadrar gente que ganha R$ 26 mil por mês, como os deputados federais. O português é uma língua bastante limitada que ainda não encontrou um adjetivo à altura (literalmente) dessa classe. Altíssima classe alta ainda seria pouco. Estratosférica classe alta e elevada parece mais adequado à nossa nova e feliz realidade.

Mas voltemos à classe média. Vamos imaginar o que é viver com R$ 291 por mês. E aqui em Brasília. Pra começar, eu teria que trocar de casa – casa é como eu chamo a despensa em que durmo na Asa Sul, um dos bairros mais caros do Brasil. Iria ter que morar longe do trabalho. Bem longe, já perto de Goiás. Provavelmente de favor. Iria trabalhar de ônibus. Quase R$ 10 de passagem todo dia pra Brasília. Só aí já dá 300 contos. Não. Ia ter que trabalhar perto de casa. E comer? Como eu ia comer, Santo Deus? Só o necessário pra não desmaiar de fome. Ia ter que aprender a lavar roupa. Depender do SUS. Emprestar tudo, absolutamente tudo. Pedir as coisas na cara-dura. Não casar e não ter filhos.

Bolas, desse jeito eu vou acabar chegando à conclusão de que hoje em dia é mais fácil ser classe média morando com os pais.

Um roteiro em desconstrução

Imagem: Agência Estado

Rio+20, arrastões e a união selada sob inúmeros flashes entre Lula e Maluf. O roteiro do fim do mundo está sendo escrito com notável satisfação por alguém que não se avexa de subverter dogmas narrativos no mesmo compasso que faz uso repetitivo de certos clichês. A Rio+20 não produzirá ganhos significativos, a não ser a proliferação das marchas ambientalistas, os arrastões continuarão a incomodar os ricos e a demonstrar a ineficácia de certas políticas de segurança do governo do Estado de São Paulo e Lula continuará a reinar pairando sobre o bem e o mal. Mas o Brasil, no momento, é palco para um alinhamento incomum. A hipocrisia respira seu ar mais puro nesse princípio de inverno. Reparem na imagem desconfortável de Lula ao “confraternizar” com Maluf. Essa imagem diz muito sobre o Brasil de hoje: um Brasil emergente, ávido por destaque internacional, mas que engatinha nos indicativos sociais e culturais – a despeito da pujança econômica alcançada na última década.
É um Brasil de aparências, de solavancos oportunistas e que não tem coragem de encarar seus problemas estruturalmente. Essa mensagem está implícita tanto na burocracia estilizada da Rio+20, quanto nos arrastões perpetrados por jovens com armas de baixo calibre nos bairros nobres de São Paulo. Mas está mais caracterizada no cristalino projeto de poder petista. Que o PT já havia se perdido de sua história, se divorciado de sua ideologia fundadora, já era sabido e, até certo ponto, difundido. O que a congratulação de Lula e Maluf em torno de Haddad comprova excede o campo político-ideológico. Comprova que o fim do mundo não é o crepúsculo das convicções. É existir durante o crepúsculo das convicções. É submergir ao império da fachada em que protestos ganham aura cool e são fins em si mesmos. É constatar que ensino superior não basta como predicado no mercado de trabalho. É ouvir que esquerda e direita já não existem mais e ter de concordar com isso. É se sentir culpado por dar esmola no sinal. É se sentir culpado por não dar esmola no sinal. É ser incorreto no reino do politicamente correto.
A história aconteceu e você não foi convidado. O mundo, no apagar das luzes, é um espetáculo que interage com a platéia em termos bem específicos e restritos. Aplausos não serão admitidos. Ou mesmo necessários.

Chico, seu lindo!

Hoje é aniversário do Chico Buarque, 68 anos. Ontem foi o do Paul McCartney que fez 70, outro dia foi o do John Lennon e o do Gilberto Gil já está chegando, também 70. Sabe como é, Chico, não deu pra te comprar um presente porque todo mundo comemora meio que junto, não tem bolso que aguente. Mas ao menos faço uma humilde crônica lhe escrevo, querido Chico.

Não acho que ser pega pelo Chico seja um evento cultural, como uma amiga já defendeu, mas gosto do cara. Sério. A culpa é toda minha que nasci no fim da festa e fiquei imune ao charme tímido temperado por aqueles olhos verdes. Foi a tempo, porém, de ter que cantar Mulheres de Atenas e O que será no colégio, a despeito de tentar emplacar uma dublagem discreta que só faria bem à obra dele.

Canções como CáliceApesar de você e Construção são clássicas porque conjugam política, poesia e música de uma maneira que poucos conseguiram. Driblaram a censura. Ganharam a meninada alienada e a galera engajada na base de “para bom entendedor, pingo é letra”.

Mas ele tem composições como Futuros Amantes (Não se afobe, não/ Que nada é pra já/ O amor não tem pressa/Ele pode esperar em silêncio), João e Maria (Agora eu era o herói/ E o meu cavalo só falava inglês/ A noiva do cowboy/ Era você além das outras três), Feijoada Completa (Mulher, você vai gostar:/ Tô levando uns amigos pra conversar./ Eles vão com uma fome/ Que nem me contem;/ Eles vão com uma sede de anteontem) e tantas outras que me ganham pela beleza e pelo bom humor, aspecto esse meio raro em seus contemporâneos.

Chico escritor foi incrível mesmo no teatro. A Ópera do Malandro é uma coisa fantástica e que se mantém muito atual, dado que no Rio a contravenção só muda de produto. Consegui uma edição muito antiga, com minha madrinha, e lembro que fiquei encantada pelos personagens. Duran, Vitória, Max Overseas e a pobre da Geni (Joga pedra na Geni!/ Joga pedra na Geni!/ Ela é feita pra apanhar!/ Ela é boa de cuspir!/ Ela dá pra qualquer um!/ Maldita Geni!).

Mas veja como o horóscopo pode ser uma coisa capciosa, hoje também é aniversário do Sidney Magal. Aquele do Sandra Rosa Madalena e de O meu sangue ferve por você.  Músicas que são hits em festas de casamento por todo o Brasil. Dois lados antagônicos da música brasileira frutos do mesmo 19 de junho, dia de sucesso na música e muita sensualidade.

Sentada no alpendre

Sentada no alpendre, olhava o quintal. O local permanecia da mesma forma de quando brincava quando criança. Tudo tinha crescido, envelhecido, mas, para ela, continuava o mesmo. Como a cadeira que estava sentada agora, o móvel estava naquele lugar desde quando se lembra. Para ela a única novidade era o sentimento de angústia que se misturava com saudade e frustração. Não sabia de onde vinha, mas os pensamentos, todos, vinham com a mesma carga pesada das três sensações.

As horas passam e os pensamentos não cessam. O olhar fita o quintal, mas ela não sabe se procura algo. Não sabe se há algo para procurar. O tempo da espera já passou, por isso também não espera nada. Ninguém passa pela estrada. Nem mesmo ao longe. O tempo de colheita já se foi. Não há nada por ser feito. Essa inquietação com o tempo aflora os três sentimentos que perpassam seus pensamentos. Mas, como não há nada por ser feito, volta a fitar o quintal sem buscar nada.

A noite cai. Não há mais nada para olhar. O Sol, que é sinônimo de presente, que permitia olhar o passado, agora deixa a sentimento de que não há futuro. Ela resolve sair da cadeira e caminhar pelo alpendre. Passos curtos. Cabeça erguida. Olhar perdido num horizonte que não pode ser visto. Lembrou-se que nunca medira aquela local com passos. O alpendre era muito grande quando criança e muito pequeno quando jovem. Não queria definir o tamanho de agora, era medo do que encontraria com certeza.

Deu a volta em toda extensão do espaço. Sem tropeçar em nada, mesmo com a cegueira da noite, teve a sensação de que os sentimentos confusos foram descarregados a cada passo. De repente voltou a sensação de que tudo aquilo era apenas um dia ruim. Teve uma vida cheia, mas, para que pensar nisso. Nada mudaria. Abriu a porta da cozinha, como havia feito centenas de vezes, apenas com o pé direito. Entrou. Viu as pessoas reunidas. Sentou à mesa para jantar e se emocionou por ter passado um dia maravilhoso. Algo que nunca tinha feito em toda a sua vida. À mesa, não disse uma palavra. Mas, ouviu todas. Dormiu para ver o presente de amanhã.

Prendinha

 Marina Costa

A menina foi cumprir sua obrigação de mau humor. Abriu a geladeira e já derrubou a caixa de leite que, quicando, inundou o chão da cozinha. Em seguida, ao pegar o pote de farinha não notou a tampa solta e logo subiu a nuvem de fumaça branca quando ele se espatifou no chão. Não aguentou e gritou. Com o rodo jogou toda a bagunça para debaixo do fogão e bufou ao retomar o trabalho. Tchaikovsky tocava alucinadamente no aparelho de som enquanto ela, tal qual um maestro ensandecido, misturava fermento com açúcar e ovos com manteiga. Espirra aqui, derrama mais um pouco ali e uma hora depois sai do forno um bolo murcho, rachado e cheirando a limão. Desconsolada, ela pensou que não poderia ter esperado outra coisa, visto que foi tentar cozinhar pensando nos tons de cinza com que pinta sua vida. Sentou-se no chão por fim e antes que a primeira lágrima caísse, Liszt sutilmente transbordou pela casa, o sol iluminou o pé de alecrim e o vento tocou seu sino com delicadeza. A menina olhou para aquela cozinha caótica e um tempo depois, quando espantou o diabinho do seu ombro, resolveu que dessa vez faria uma apetitosa torta de cerejas.

A meia da minha mulher

Eram quinze para sete e eu estava atrasado. Consegui me vestir, tomar café e escovar os dentes em sete minutos e meio. Penteei o cabelo e fiz o nó da gravata durante os semáforos vermelhos. Na recepção, foto do cadastro, RG, CPF. No décimo quarto andar estava meu destino, ainda que este fosse o gordo, careca e bigodudo senhor presidente do mais importante cliente da minha carteira.

Assim que entrei no elevador me dei conta de um deslize, talvez por conta do meu atraso: eu tinha vestido a meia da minha mulher… Isso não causaria, na verdade, nenhum problema, a não ser pelo fato de que era empresa concorrente do meu cliente. “Ok, calma”, pensei, “é só não cruzar a perna e sentar do outro lado da mesa”. Assim que a porta abriu dei de cara com o sujeito que mudaria tudo: o Joel. Um cara visionário, inteligente, sempre com ótimo planos, o ícone da empresa em todas as áreas.

Fomos juntos para a sala de reuniões onde ele mostrou ter uma cadeira reservada para mim e justo no lugar que eu menos queria: ao lado do tal gordo-careca-bigodudo. Não dava pra recusar. Sorri amarelo e puxei a cadeira pra frente e me ajeitei pra sentar, com as pernas bem esticadas. Mas dei um pulo da cadeira quando vi que o maldito tampo da mesa era de vidro. Fui obrigado a me debruçar até quase deitar na mesa, jogando meu pé para trás, embaixo da cadeira.

Não estava mais preocupado com meu desempenho. Fiquei com cara de conteúdo, mirabolando um jeito pra que a barra da calça não levantasse ao andar. A apresentação estava caminhando bem, até que ouvi o som do meu nome, gelei e com um rebolado meio torto me arrastei até a tela de projeção. A apresentação caminhava para o sucesso e o gordo bigodudo demonstrava estar satisfeito.

Até o infeliz momento em que Joel teve mais uma das suas idéias brilhantes e pulou na direção dos meus pés. De um sobressalto, corri para o lado, mas ele se arrastou atrás de mim, levantou e com o mesmo impulso me agarrou e derrubou os dois no chão, levando telefone da bancada de apoio, computador e a mala do senhor gordo-careca-bigodudo. Tentando me livrar da chave de braço, esperneei; perdi as esperanças quando meu sapato voou para um lado da sala e a mala do cliente para o outro.

Todos ficaram estáticos e a tal mala foi parar embaixo da mesa, escancarada, exibindo roupas, sapatos e, acreditem, vários pares de meias do concorrente. Meio sem-graça, tossiu duas vezes e perguntou se terminaríamos aquela fabulosa apresentação.

Havia sido firmado um acordo de cavalheiros e o gordo careca bigodudo  presidente do mais importante dos meus clientes tinha acabado de declarar que o contrato era nosso.

Eu consegui o meu maior negócio. Ainda por cima usando a meia da minha mulher.

Sábado, 8 horas da madrugada

Acordei e fui olhar pela janela, mas não reconheci onde estava. Parecia a casa da minha avó, mas havia alguma coisa de estranho na rua lá embaixo – eu estava no sótão. De repente, meu pai apareceu, e falou algo que já não lembro. Em seguida, fui para minha aula de natação. Ao final, puxei conversa com uma garota que estava cortejando. Voltei de carona com dois amigos.  O tempo havia passado e eles já sabiam dirigir. Um deles lembrou então de um episódio grotesco acontecido na sétima série, e nós demos risada da lembrança e do absurdo.

Mais tarde, fui jogar futebol de salão. Não gosto de jogar no gol, mas neste dia fui o goleiro – e que goleiro! Fui, sem sombra de dúvidas, o melhor goleiro que já havia passado por aquela quadra. Como se houvesse um imã na minha mão que me levasse diretamente até a bola e então eu a espalmasse e a afastasse. É bem verdade que houve um chute mais forte que tentei espalmar e a bola foi para trás, na direção do gol. Tirei em cima da linha, mas tive a impressão que entrou. Cínico, falei para quem havia chutado que precisaria do tira-teima.

Terminado esse jogo, os times foram substituídos e eu perguntei se eles não precisavam de um goleiro. Fui aceito e continuei barbarizando. Mas agora havia um problema com a trave, que não se firmava mais no lugar. Vivia saindo de dentro do buraco em que devia estar presa. Eu me desdobrava tentando evitar que caísse e ainda defendia as bolas que chutavam contra mim. Por fim, decidimos trocar a trave. Fui pegar outra, que não estava sendo usada, mas ela tampouco permaneceu firme. Nada disso impediu que, além de defender, eu fizesse também os meus golzinhos. Chutava lá de trás, a bola passava por todo mundo e entrava direito no gol adversário. Eu fazia uma grande partida.

Quando terminou, vi que um pouco atrás do gol estava uma garota, morena, com quem havia estudado. Ela estava distraída com alguma coisa, e eu me aproximei. Estava com os ombros nus e comecei a acariciá-los. Primeiro com as mãos e depois com a boca. Ela se entusiasmou, e ali mesmo tratou de erguer a sua blusa e oferecer os seios para mim. Aceitei.

Mas eu precisava então voltar para a sala, pois tinha aula de matemática. Caminhei acelerado para lá, quando de repente ouço alguém me chamando. Viro-me e avisto um colega de faculdade, bastante excitado com um papel na mão. Pelo que entendi, o papel tinha a média de todo mundo na aula de matemática. Não sei bem o porquê, mas sabia que havia algo de proibido nisso. E então cheguei à sala, mas não encontrei o professor de matemática. Em seu lugar, estava a minha líder na Igreja. Olhei para a turma e não havia ninguém fazendo exercícios. Ao contrário, havia muita conversa. Viro-me para a mesa da minha líder, rodeada de pessoas, incluindo uma minha irmã. Ela fala alguma coisa sobre o seu pai, e pergunta se por acaso com o meu não era assim também – e se corrige no meio da frase ao lembrar que meus pais eram separados. Não sei o que respondi, mas imagino que tenha negado.

E não sei em que medida toda essa história pode ser sido prejudicada ou estimulada pela dona do meu quarto, que às 8 horas da madrugada de sábado fazia um barulho tremendo com seus passos, com o alarme do carro, com a abertura do portão, e com tudo mais que me impedia de dormir e sonhar tranquilamente.