Arquivo do mês: abril 2012

De Sansão a Neymar

Que os cabelos interferem na personalidade de uma pessoa não é novidade, mas, nos dias atuais estão cada vez mais presentes as intrusas madeixas. Quando Dalila retirou as forças de Sansão ao golpear seus cabelos fez apenas por vingança. Era, segundo os relatos, a luta de dois povos. Mulher bonita e faceira conseguiu ludibriar o heroi e acabar com suas forças e assim mudar o destino de um povo.

Quanta raiva do cabelo do Neymar. E olha que nem sou careca. Tenho fios os suficientes para garantir alguns anos de tranquilidade. Diferente dos de Sansão, os cabelos de Neymar causam euforia. Sua força está na imagem, jovialidade e irreverência que os fios causam.

Jovem, milionário, grande habilidade com as bolas nos pés e um penteado irreverente. Excelente personagem para esconder um futebol desorganizado, de extremos, com jogadores muito ricos ou muito pobres, com estádios defasados e com regiões do país esquecidas.

Os narradores de futebol adoram dizer que “não há mais bobo no futebol”. Sinto contrariá-los, mas milhares de torcedores se prestam ao papel de bobo. O futebol espetáculo acabou, ou tenta renascer nas madeixas de Neymar, e o torcedor continua a tomar chuva e sol na moleira, tendo apenas o estatuto do torcedor como amparo.

Os cabelos de Neymar, na pós-modernidade, gosto desse neologismo, são mais fortes que os cabelos de Sansão, pois carregam com eles legiões de fãs, milhares de reais e a tradição do futebol brasileiro.  Mas, assim como Sansão, sua força vai acabar e outro “heroi” dos gramados vai surgir. Resta saber se terá cabelos ou outros atributos para atender a sanha da Dalila moderna: chamada publicidade.

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Estertor

A vida dá voltas, uma hora, seja porque a gente ora mesmo quando ignora. Se um dia manda embora, no outro quase implora e prefere dos males o maior a ficar a deriva, sem leme e sem timão. Sorrisos falsifica e enterra em mentiras o pedaço de coração. Descrente, impaciente, ausente, clama por não ter mais um ídolo falso por quem chorar. Felicidade viscosa e asfixiante. Mas que acontece agora. Agora.

Marina Costa


Simples assim!

Foto: Fernanda Frias

Costumo achar que tudo é uma arte: parabenizar, andar de ônibus, lidar com família, escrever, cozinhar… E digo que tudo é uma arte porque fazê-las não se resume simplesmente a executá-las, assim como fazem as máquinas em filme de Charles Chaplin; não basta também ter início, meio e fim, como quem cumpre rotina de trabalho, bate-cartão-pra-entrar-bate-cartão-pra-sair. É mais que isso, é uma causa!

A sociedade comete uma falta grande quando toma a ação por ela mesma: falam simplesmente por falar, dançam por dançar, dirigem por dirigir e desenham por desenhar. É preciso que se perceba que determinadas ações necessitam de uma preparação, quase um ritual para que valham a pena.

É, e não há nada melhor do que o momento da preparação, em que a ansiedade quer dominar e entra em choque com o parco auto-controle dentro de nós. Céus, que luta incrível!, que sensação fodástica a de ver os dedos tremelicando contra a boca cerrada, as pálpebras que estancam contra os pés que gelam… Quando se faz algo pela mera ação de cumprir uma meta, tudo fica mais chato, vazio e o pior: desnecessário. E se tem uma coisa que é mesmo triste é ser desnecessário.

Por isso que opto pela qualificação de arte, pois implica automaticamente um caráter de especial, de importante e que não se apresenta a nós como custoso, e sim, prazeroso! Aí não só para quem o faz, mas também para todos aqueles que são atingidos por essa ação, a coisa flui, e vai, e deita, e rola e só não finge de morto pra poder curtir cada momento. Bonito de ver, até.

Gosto de quem trabalha sorrindo, de quem sonha enquanto dorme, que tem fé pra fazer um exame e quem respeita o outro, independente do que estiver fazendo. A vida é para ser vivida, isso é um fato! Mas muito mais interessante é quando é bem vivida e quando ela se transforma na mais pura e bela arte da vida.


Pequena descrença na humanidade

É de se duvidar da salvação da alma daqueles que recusam todo e qualquer panfleto que é oferecido nas ruas. Quase todo dia, um jovem me entrega a propaganda de uma auto-escola. Ele já me conhece de vista, e eu já sei exatamente do que se trata o papel. Não estou interessado na sua auto-escola. E, no entanto, todo dia, pego o panfleto. Pego porque sei que ele precisa que eu faça isso – não é por outro motivo que me agradece. Em sua jornada de trabalho, ele precisa se livrar dos papéis. Pode jogar todos numa lata de lixo ou pode oferecer um para cada pessoa que passa. Tendo eu braços perfeitos e saudáveis, não me parece grande esforço esticá-los por um momento – e, em seguida, esticá-los outra vez para jogar o papel na próxima lata de lixo.

Pessoas há, no entanto, que enxergam no panfleteiro o próprio anti-Cristo. Ao ver que um papel está sendo oferecido, sentem-se ultrajados como se fosse uma ofensa pessoal. E, por isso, não apenas se recusam a pegar como inclusive fazem cara feia – isso quando não resmungam algo. Existem outros que acreditam estar ajudando se apenas sorrirem e falarem “não, obrigado”. Ora, a simpatia é um bom pagamento, mas não resolve o problema do panfleteiro em se livrar dos panfletos. Quem consegue ser simpático ao negar, será mais ainda ao aceitar – e isso não causará nenhum grande esforço nesse mundo cristão.

Henrique Fendrich


Cócegas

Cócegas

 

Não faça cócegas na Liberdade,
essa felina explosiva, sem auge, sem fuga,
que se alimenta da cegueira dos presos,
que castiga com o tédio,
que apodrece um fruto irresistível,
que anula o homem sem prévio aviso,
que, com sangue, gera o raio da vida,
que ornamenta-se com pedras fartas,
que leva nos pés cem dúzias de espinhos,
que morde o calcanhar dos desorientados,
que reina à beira do abismo,
que resiste ao grito mais agudo,
que arrasta por séculos o suor do mundo.
Não faça cócegas na liberdade.

Heitor Bállis Lênihon 


As graças e as desgraças do futebol

Ser corintiano é um misto de vaidade com prova de fé. O histórico do time do Parque São Jorge está aí para tornar ainda mais complexa essa afirmação. O último fim de semana demonstrou todo o paradoxo corintiano. O time que francamente deve ser o mais odiado do Brasil – estudos empíricos apontam os torcedores do Corinthians como os mais chatos do futebol brasileiro – liderou a primeira fase do campeonato paulista para ser eliminado logo no primeiro jogo eliminatório, nas quartas-de-final da competição. Torna a análise ainda mais apetitosa, o fato de que o Corinthians, composto majoritariamente por jogadores reservas, havia vencido a mesma Ponte Preta, algoz no último fim de semana, na semana anterior com relativa tranquilidade. A partida, então, não valia muita coisa, ainda que sacramentasse o reencontro dos dois times uma semana mais tarde – pois valeu ao Corinthians o primeiro lugar na fase classificatória.
Esse Corinthians do Tite, muito limitado tecnicamente, mas aplicado taticamente, enfrentava duras críticas a respeito da pobreza de seu ataque, do ostracismo de seus atacantes – principalmente do outrora inspirado Liedson – e da falta de criatividade de seu meio de campo. Na quarta-feira passada, esse time pouco goleador fez seis no desacreditado Deportivo Táchira da Venezuela na Taça Libertadores. A moral corintiana saiu elevada de outro confronto que pouco valia. Tudo veio abaixo ante a determinação pontepretana no último domingo.
Esse romantismo torna o futebol muito mais apaixonante – que me perdoem os corintianos que mais uma vez servem de matéria prima para que sejam enumeradas as razões pelas quais o futebol tanto cativa.
Mas nem o Corinthians preserva os corintianos. Vide a campanha de marketing muito bem sucedida quando do rebaixamento do time no campeonato brasileiro em 2007. O time nunca faturou tanto! Camisas roxas floresceram junto a cânticos enlouquecidos que entoavam a “loucura de amor” que era torcer pelo Corinthians.
Fato é que o Corinthians nunca foi tanto do céu ao inferno quanto nesses últimos cinco anos. Da eliminação precoce na Libertadores ao pentacampeonato brasileiro, o Corinthians se tornou um perfeito amálgama das glórias inglórias do futebol.
O paradoxo corintiano é tamanho que o time é o mais odiado sem ser o que detém mais conquistas ou mais torcedores.
E o que seriam dos corintianos sem os palmeirenses? O time verde sofre de crise de identidade já há algum tempo e se viu eliminado do paulista em circunstâncias muito similares ao do arqui-rival. As quedas de Palmeiras e Corinthians reafirmam a idoneidade do futebol como poesia perversa das massas. Como filosofia obscura derivada da lógica, as duas derrotas aferiram um ar de imprevisibilidade a uma competição que caminhava para a monotonia.
Corintianos e palmeirenses sobreviverão às graças e desgraças do futebol, estas que renovam o masoquismo incauto de milhões de brasileiros.


Fome de rua

Era uma vez o tio do pastel. E o tio do dog. Os dois estavam instalados bem no começo da praça que ia dar na escola onde eu e meu irmão cursamos o ensino fundamental. O dinheiro que deveríamos gastar na passagem, investíamos no lanche depois da aula.  Era só passar por baixo da catraca. Quando tínhamos passe escolar, dois tickets eram a senha para o nosso lanche.

Em frente à escola de ensino médio, além da van do cachorro quente – esse mais caprichado com salada de cenoura e beterraba raladas, e uma prensa para fazer aquela monstruosidade caber na mordida – havia o moço do milho cozido.

Na faculdade, a coisa ganhou ares de festa gastronômica com a presença de um fazedor de tapioca e um china que fazia yakisoba a R$ 2. Mais adiante um pipoqueiro em frente ao ponto de ônibus. E a cocada! Tinha branquinha, de coco queimado, com maracujá… Comia-se muito bem. E se efeitos colaterais havia, e com certeza devia haver, muitos habitués como eu seguiram impávidos durante toda a vida escolar.

Agora é chegado o tempo em que comer na rua tornou-se tarefa para detetives do paladar. Onde esconderam-se as barraquinhas? Todas fugidas da vigilância sanitária, da polícia, da guarda municipal. Lembro o choque que senti, após dois anos morando fora de Sampa, ao não encontrar esse povo todo.  Sentia fome e tinha que me meter em algum shopping! Entrar numa padoca e comer um croissant envelhecido! Um verdadeiro acinte.

Cadê a atmosfera da rua? Os transeuntes apressados, o vapor os lembrando que saco vazio não para em pé? As amizades que nascem entre as turmas que sempre comem no mesmo bat-local? Os churros para compensar um dia puxado no trampo? Mal subsistem os pipoqueiros do Espaço Unibanco, com um pé na calçada e outro já no cinema.

Só que rola um café da manhã secreto. Mal o dia amanhece, em frente à estações de trem e metrô um grupos de autônomos vendem o desjejum a outros trabalhadores. Tem bolo (branco, mesclado, de chocolate), misto frio, pão com mortadela, chocolate quente, café, pingado e suco natural de laranja e goiaba. Tão logo, o rush da manhã acaba, eles vão sem deixar rastro.

Tantos são os carentes que um evento capitaneado por chefs de renome no último final de semana teve fila de espera de três a quatro horas, em plena madrugada chuvosa, de consumidores ávidos por comida de rua. De barraquinha. Tudo bem que barraquinha de grife, mas ainda barraquinha.

Na China, no Japão, na badalada Nova York, comer na rua é atividade intrínseca à metrópole. Se das ruas já houve grafiteiro que virou artista consagrado, podemos muito bem estar perdendo talentos de alta gastronomia ao vetarmos as ruas às barraquinhas.

A quem rebater que nada assegura que estejamos perdendo paneladas inesquecíveis por conta desse excesso de burocracia – só estão liberadas as barracas de dog de camelôs heróis que venceram todas as provações impostas pela prefeitura para e pela Vigilância Sanitária para registrar-se – respondo que a cidade assim, torna-se mais fria. Sabe, uma coisa bem amendoim japonês com chiclete sem açúcar? Prefiro não.