Ponderações esquizofrênicas

“A vida é para ser vivida”, me confidenciou uma ex-namorada em estado de quase catatonia. “Mas se eu não quiser viver, quem pode me obrigar?”, colocou democraticamente um suicida que, até então, não havia se revelado suicida. Freud, aquele cara que se autodenominou “o pai da psicanálise”, me aconselhou a ler uma de suas obras. Não me lembro qual. Mas a atendente da livraria na qual fui me informar divagou a respeito de minha inquietação: “Acho que as fantasias e demandas sexuais são mais responsáveis por nosso infortúnio do que nossa infância”. Dispensei os universitários. Não me parecia um tema a ser discutido em foro tão libertino. Voltei a minha ex-namorada. Que não sabia exatamente se estava fazendo sexo. Ela pensou que era isso que eu queria saber. Não era.
Estava preocupado com aquela informação de que a vida deveria ser vivida. Não havia digerido aquilo direito. Se a vida deveria ser vivida, porque os solavancos tão ruidosos? Ela não soube me responder. Só sabia chorar. Foi quando descobri que o suicida tinha efetivamente se tornado um suicida. Ela não chorava por ele, caso esteja se perguntando. Ela chorava por nós mesmos. É que na ausência de suas providenciais elaborações, quis saber do suicida o que ele tinha a dizer. De certa maneira ele disse mais do que ela.
Fui ler Saramago. Li Dostoiévski. Assisti de David Lynch a Almodóvar. Ouvi Chopin. Vi fitas antigas do Pelé. Tudo na expectativa de me encontrar com algum propósito. Será que faltou Einstein?
Outro dia navegava pela internet buscando artigos que negavam a existência divina simplesmente para confrontá-los com artigos que exaltavam a existência divina em uma brincadeira aparentemente desprovida de propósitos. Do câncer de Gianecchini ao hexa brasileiro tudo funcionava como justificativa para ambos os lados. Lembrei-me de Woody Allen que certa vez disse que a vida pode ser uma comédia ou um drama, variando a percepção conforme a distância do observador. Intriguei-me com a memória. Minha ex-namorada estava errada. A vida não era para ser vivida. Era para ser observada. Me senti uma espécie de Howard Hughes. De Ingmar Bergman… Um verdadeiro poço de genialidade incompreendida. Pensei ser um renascentista. A ideia me seduzia. Consultei Freud que disse que a sociedade não estava pronta para tal ruptura. Que eu não seria levado a sério e até mesmo minha ex-namorada não choraria por mim. Freud não me explicou, mas me convenceu.

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Sobre Reinaldo Glioche


4 respostas para “Ponderações esquizofrênicas

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