Laços de Família

 

 

         Minha irmã fala coisas que eu não entendo. Minha irmã trabalha com terapias alternativas e diz que eu tenho uma ligação especial com minha avó Olímpia. Eu reajo. Queria ter uma ligação especial com minha avó Maria, com quem convivi e a quem muito amei. Se eu nem conheci a minha avó Olímpia, como posso ter uma ligação especial com ela?  Quando morreu, eu tinha pouco mais de dois anos. Havia uma foto minúscula,ela no caixão, a família em torno,mas nem dava para ver seu rosto. O retrato sumiu e nenhuma lembrança restou e mesmo as histórias se perderam. Sei dela que fazia colchões. De capim. Antes, sinhazinha, herdeira de terras lá para os lados da Serra de Ibitipoca. Quando se casou, ganhou uma fazenda de presente. Meu pai, caçula entre inúmeros, quando nasceu já era um sem terra. O meu avô, o Capitão Lybnitz, maestro, professor de música e boêmio, conseguiu se desfazer de tudo. Das terras dela e das terras que ele também herdou. Conta a lenda que um dia minha avó, desconfiada que meu avô se metera em uma certa casa suspeita, em busca de pecados ocultos, foi atrás. Quando a viram chegando, para escondê-lo, o enrolaram em um colchão. Que talvez ela mesma tivesse feito. Tenho que lembrar que o colchão era de capim e portanto, enrolável. Mas…Mas meu avô, por conta das muitas artes que praticava, levara um belo tombo, caindo sei lá de onde. Ficara com  uma das pernas endurecidas. Bem, ele não pode encolher essa perna e então, com ela esticada, o seu pé ficou de fora do embrulho. Minha avó não teve dúvidas. Pegou uma vassoura e deu uma surra no colchão.  Minha avó Maria não faria isso. Era uma mulher submissa. Mas, eu faria. Acho que minha irmã tem razão…

 

            Aqui, enquanto escrevo, lembro de outros detalhes da vida de minha avó Olímpia. Cresci ouvindo a história de que éramos herdeiros de uma grande fortuna, a do Barão de Cocais. Depois de adulta descobri que essa suposta herança tinha a ver com a família dela, os Nogueira da Cunha, de alta linhagem. Escrevi um poema sobre o assunto, e esse poema retrata tudo o que penso a respeito dessa pseudo herança. Este é o nome do poema: Herança. É também o nome do meu  primeiro livro de poesias. Inédito, é claro. Mas talvez explique essa ligação que minha irmã diz que eu tenho e que vai além, muito além do tempo físico.

 

 

 

                                       HERANÇA

 Dizem que a família de minha avó paterna

 tinha uma mina de ouro

que lhe foi tomada um tanto quanto fraudulentamente.

Eu não sei bem como é a história

pois só a conheço de ouvir dizer,

e, nesse passar de um pra outro há tanto tempo

corro o risco de incorrer em falsidades.

Mas, como ela é boa de contar

pra se fazer de importante!

E eu vou contando e aumentando

conforme quem estiver escutando.

Se isso foi verdade,

deve ter sido há muitas gerações,

antes que o ouro sofresse degradações

e seu valor, graduações,

antes que o ouro fosse ouro

ou fosse apenas áureo.

Pois o que sobrou pra mim,

além deste caso pra contar,

foi um sapato de couro,

umas calças de brim,

umas blusas de malha

e um lenço de cetim.

Um cheiro de pêssego

e uma cor de carmim,

uma caixa de livros,

um espelho de prata

e uns brincos de marfim.

Se a família de minha avó paterna

de nobrezas discutíveis

me tivesse deixado ouro em penca

como um cacho de banana prata

-será que eu ia gostar mais

do que gosto desta história

que herdei para contar?.

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