Arquivo do mês: março 2012

Na levada do busão

Foto: Blog do Busão

 

Andar de ônibus em São Paulo é realmente um momento sem igual. Lá é como o Mundo da Lua do Lucas Silva e Silva, onde tudo pode acontecer. E quem não tem o costume de fazê-lo, eu recomendo!, pois é um mundo à parte, no qual encontramos todos os tipos de pessoas e situações.

Por conta do intenso trânsito da cidade, muitas pessoas fazem do coletivo a extensão da própria casa: almoçam, jantam, resolvem problemas de bancos, de família e até discutem relações com seus pares. E dormem! Apesar do desconforto inerente ao banco do ônibus, blusas e bolsas fazem as vezes do travesseiro (isso quando uns e outros não preferem o ombro do vizinho).

Tem também os trabalhadores natos, que cismam de fazer hora-extra, sentam no cantinho e quebram a cabeça pra que o fluxo de caixa dê certo; isso sem falar dos que carregam metade do escritório consigo: pastas, relatórios, calculadoras e cadernos-ata, envelopes vai-e-vém…

Os mais comuns são os estudantes e principalmente aqueles que estão na faculdade ou ainda na fase pré-vestibular. Aí é uma verdadeira festa!, quer dizer, sala de aula: matemática, física, história, química dançam pelos ônibus, rabiscos frenéticos e ilegíveis (pela pressa e pelo chacoalho do busão) arranham cadernos; livros pulam de mochilas, bolsas sacolas… ufa! Haja fôlego e trajeto pra dar conta de tantas matérias!

É no ônibus também que vemos e vivenciamos todos os tipos de relações interpessoais: é gente que não fala nada e gente que fala demais; gente polida, gente mal-educada; barraqueiros e pacifistas, os manos do funk, do rock, do samba, da favela, da elite, da Assembléia e do terreiro de umbanda. Tem os solícitos, que sempre oferecem para carregar mochilas, os que fingem dormir no banco reservado, os que gritam vai desceeeer

Eu sou uma usuária assumida de transporte público e gosto quando me deparo com situações como essas que contei a vocês. Uma pena que ainda tenha gente nesse mundo que não consegue enxergar através do espelho e chegar até a beleza das exceções, até a graça do cotidiano.

Por que, por mais que a vida de quem se utiliza de ônibus, trens e metrô seja bem sofrida, algo de útil sempre dá pra tirar dessa história. Basta estar aberto a isso! Eu tirei uma crônica. E você?


O cronista levanta vôo

Outra vez, eu sonhei que era uma das poucas pessoas que sabia voar. Talvez seja uma questão de sensibilidade, não sei. Mas entendo que duvidem: tive inclusive que provar, quando falei que conseguia. Pode ser que existam pessoas que também consigam, mas que nunca se deram conta. Para essas, dou os passos que aprendi naturalmente: primeiro, basta que dê um pequeno salto, algo suficiente para tirar os seus pés do chão. Jogue então as suas pernas para trás – é preciso confiar que você não irá cair. Em seguida, simplesmente permaneça na horizontal, com os braços esticados. Você já estará voando. Então é só impulsionar o corpo na direção e na altura que desejar. Aprendi isso há uns dois ou três sonhos. Mas essa foi a primeira vez que percebi o mal causado pela fiação elétrica. Convém prestar atenção. Embora possa voar, eu geralmente não alcanço grandes alturas – provavelmente, ainda estou bastante ligado às coisas da terra. E reparem que, mesmo com essa habilidade, eu não deixo de caminhar, como qualquer outra pessoa. Há situações em que o melhor mesmo talvez seja manter os pés no chão. Mas outras há em que só se avança passando por cima de tudo que aparece pela frente. E não digo mais porque acho que ainda não aprendi tudo sobre voar. Apenas descobri – e não é pouco – que é bem possível.

Henrique Fendrich


O amor, por obséquio

 

Sim, o amor existe. É cachorro sem dono e sem rumo, sim, o amor é louco. É jogador e às vezes pegajoso, sim, o amor cola. Coisa míope e sem juízo, sim, o amor é jovem. Peça em cima da cama, perfume que quase acalma, sim, o amor é tímido. Deus muito distinto, com manha e fieis nus, sim, o amor é flora. Madrugada sem ruído, fome insaciável, sim, o amor é casto. Delicado selvagem, à margem do nada, sim, o amor é riso. Cliente exigente, papo furado, sim, o amor é impreciso. Faz que sim, diz que não, pensa e duvida, claro, o amor tece. Bordão incolor, sapato entre as pedras, sim, o amor prescreve. Aperitivo benéfico, curto ciúme, sim, o amor corrói. Fase da lua, massagem no abismo, sim, o amor esgota. Desmedido e imposto, sim, o amor ensaia. Asilo do acaso, jogo do esquecimento, sim, o amor crucifica. Menino excêntrico, dilema impressionista, sim, o amor pinta e borda. Ordem de despejo, café da manhã, sim, o amor é domingo. Recalcitrante, pasmo, sim, o amor rarefeito. Golpe engenhoso, prisão transitiva, sim, o amor habita. Patético e solteiro, distraído e sem medo, sim, o amor é segredo. Agita ali, na rua, na praça, sim, o amor é confusão. Viagem sem rota, porta sem chave, sim, o amor inunda. Sob o modesto telhado, goteira sobre o leito, sim, o amor incomoda. Essa pressa toda, esse chove não molha, sim, o amor pertence a quem ama, sim, quem ama, engana. O amor é um engano. Amor não conhece paisagem, pisca, mas não fisga, marca. Sim, o amor fornece pausas. Útil ou inútil, sim, amor é ponto de vista. Tudo e mais tarde, amor rima, sim, mas não é liberdade. Quem sabe não ama, o amor, sim, o amor é sangue, um olhar-o-crepúsculo. Susto também é amor, sim , o amor sempre assusta. Amor não é moda nem fantasia, amor é corrida, diário, bilhete atrás do armário. O amor se define, recusa definições. O amor é bobo demais pra ser verdade. Amor é prejuízo, sem exceção. Amor não é um mais um; é mais que dois. Amor é anti-horário. O amor não grita nem esperneia, quando triste, só boceja. Amor é quase liberdade, é vadio e ilimitado. Sim, poeta, amor é! Amor é tudo o que não foi dito.

E essa tal felicidade?

É um estado de espírito ou seria uma utopia? Para alguns pode ser uma realização, que para outros é sinônimo de conquista. Há quem pense que é cria da publicidade, essa sim a grande conquista do século XX. Século que já parece tão distante, tão envernizado pela nostalgia que nos faz sorrir de vez em quando…
Mas vende viu! E como vende! É um alento ao alcance do bolso. Pode ser experimentada fugazmente pelo gozo sexual, pelo status econômico, pela comunhão emocional com um outro alguém, pelo prestígio intelectual ou mesmo por muito menos… Tem muita gente que vende a receita da felicidade, mas chora no chuveiro, na cama, no carro pela estrada…
A filosofia, ela própria tão propensa ao todo e ao nada em movimentos tão alinhados, fracassa em si mesma. Seria a consciência plena o melhor termostato? Ou é a ignorância quem melhor centeia?
A adjetivação é o meio ou o fim? Antes de alienar completamente o leitor, convém chamá-lo à responsabilidade: você é feliz? O adepto da tangente responderá a provocação com “me sinto feliz”, ou ainda “é preciso ser feliz nas pequenas coisas” e outras ilações do gênero. Esse texto não dialoga com quem se recusa ao debate. Seja o pessimista inato ou o otimista generalizado. É preciso reconhecer a felicidade como algo tangível para crer nela? A espirituosidade pode ser a resposta. Estudos de naturezas distintas realizados nos últimos 20 anos com metodologias diversas parecem convergir para uma certeza que não poderia ser cercada de mais dúvidas, a não ser, é claro, que você seja uma pessoa de fé.
Aprender a trabalhar a fé e a exercitá-la pode ser algo intrínseco a qualquer religião, mas o conceito é mais amplo. Um torcedor tem fé em seu time. O marido tem fé em sua mulher. A empresa tem fé em seu empregado. A mãe tem fé que seus filhos lhe darão orgulho. O povo tem fé no presidente eleito. A dona de casa tem fé que o orçamento vingue ao final do mês. E por aí vai…
Ainda que o Brasil seja o país em que impera o principio da má fé; mas aí são outros quinhentos…
Se a felicidade depende da existência de fé o que há quando a fé inexiste? Essa depressão conceitual, que patenteia a felicidade como pressuposto da fé, permite intuir que, enquanto conceito, a felicidade é uma mentira. Talvez seja mesmo utopia publicitária. A sabedoria popular, geralmente conformista, diz que sempre desejaremos mais. “A grama do vizinho é sempre mais verde”. Ô verdade! Me dirá aquele que diz se sentir feliz, quase que sem perceber…
A felicidade é uma impossibilidade metafísica. Fechamos assim? Mas por favor, não fique triste…


Uma relação que não é de novela

Elaine já pode ir morar sozinha. Não precisa mais ter medo do apartamento cheio de silêncio espalhado pelos cômodos. É só comprar a tv dos japoneses. Ela entende gestos e fala, diz o jornal.

Saber se ela foi desenvolvida para atender alguma necessidade especial, ou se é fruto de algum maléfico projeto de marketing não lhe importa porque essa tv vai emitir afeto. Um simulacro de afeto, que seja, mas ela não está em posição de exigir muito. Pense numa sexta à noite, Elaine chega cansada do trabalho e poderá reclamar com a tv sobre os programas. “Como assim, a vilã escapou?”, “Que vestido horrível para alguém se casar!”, ou “Só em novela mesmo que duas mulheres na flor dos 20 anos sairiam nos tapas para ficar com o Fagundes (que não é O Fagundes e sim um personagem qualquer, bem classe média)!”

Não fará questão que a tv concorde com ela porque só de responder já estará de bom de tamanho. Quando Elaine mostrar o dedo médio diante do discurso de algum parlamentar menos afeito à verdade, talvez ela ouça alguma reprimenda ou quem sabe o aparelho se junte a ela na indignação.

Se brigarem, nossa telespectadora poderá ignorar totalmente a tv e trocar seus comentários com outras pessoas pela internet. Como bons japoneses, não devem ter dotado o aparelho com nenhum mecanismo para se rebelar.

Pensando bem, talvez esse venha a ser o relacionamento mais duradouro de Elaine em anos. Mas é possível que ela a troque futuramente se surgir um modelo com combine mais com decoração da casa. Não sei. Ou por um modelo com a voz do Chris Martin. Para quem não sabe, o Chris Martin é quase um Chico. Imagino que esse primeiro modelo tenha voz de mulher, sabe como é, feita por japoneses.

Vai deixá-la na sala. No quarto pensa em algo mais tradicional. Uma tv silenciosa mesmo, para ela poder dormir apenas com a voz longínqua do Jô ou a daquele jornalista galã do jornal da meia-noite a penetrar seus sonhos. Pelo menos enquanto a tv do Chris Martin não chega.

Aline Viana


A descoberta de Clarice

A descoberta de Clarice

 

Não fui leitora de Clarice Lispector. Clarice é e era um ícone já em vida. Alguns aspectos de sua literatura me afastaram – era endeusada por aquele pequeno grupo de literatas com as quais eu convivia. Sempre fui arredia e assim nunca tive o prazer de conhecer a profundidade de sua obra. Até hoje não li nenhum de seus romances. Herméticos, diziam. Fui deixando para lá. Eu tinha dois livros dela – uma seleção de contos e Clarice na cabeceira, que também é uma seleção de contos. Agora tenho quatro e desconfio que minha prateleira de autoras nacionais vá continuar crescendo.

Estou lendo A descoberta do mundo. Falta um tiquinho só para acabar. Reúne os textos que ela escreveu e publicou no Jornal do Brasil, aos sábados, de agosto de 1967 a dezembro de 1976. Não é um livro só de crônicas – seu filho, Paulo Gurgel Valente em nota explicativa garante que esses escritos não se enquadram facilmente como crônicas, contos, pensamentos ou anotações. O que é um pouco tranqüilizador – ela escrevia, não se sujeitava a regras. Nem a denominações genéricas.

Nas orelhas, Sylvia Perlingeiro Paixão, Doutora em Literatura Comparada pela UFRJ, apresenta o livro. Ela retransmite as palavras de Clarice: Na literatura de livros permaneço anônima. Nesta coluna, estou de algum modo me dando a conhecer. O enigma aos poucos vai se revelando. Pois é isso que a crônica faz – revela. Esse trecho está na pequena crônica (12 linhas)- Fernando Pessoa me ajudando Noto uma coisa extremamente desagradável. Estas coisas que ando escrevendo aqui não são, creio, propriamente crônicas (…) Sim, como todos nós, cronistas do RL, ela também tem dúvidas. Não sabe exatamente o que é uma crônica. Por que isso a desagrada? Porque ela sente que nas crônicas o escritor se revela tanto que se torna íntimo do leitor. Eu concordo, de certa forma acabamos todos sendo vizinhos uns dos outros. Ela também teme a popularidade, que devassa a intimidade. Desfaz o mistério. Mas como Pessoa a ajudou? Dizendo: Falar é o modo mais simples de nos tornarmos desconhecidos.

Estou lendo Clarice e gostando. Algumas vezes eu até deixo de gostar.  Desgosto. Alguns textos, para o meu gosto, são até bem ruinzinhos. Mas é a minoria. Pelo menos, do pouco que já li. Clarice passou muitas dificuldades financeiras em sua vida, principalmente depois do fim de seu casamento. Para complementar sua renda trabalhou como tradutora, jornalista e cronista. Muitas vezes usou pseudônimo – Teresa Quadros (Comicio), Helena Palmer (Senhor). Ghost Writer, escrevia a coluna da atriz Ilka Soares no Diário da Noite. Ajudou Alzira Vargas a escrever a biografia do pai, Getúlio. De origem judia, foi despedida do Jornal do Brasil quando Ernesto Geisel foi eleito.

Quanto mais se lê Clarice, mais se percebe o seu mistério e maior se torna o desejo de decifrá-lo. Mas os grandes mistérios nunca se revelam por completo. Ficam no lusco-fusco. No limiar de qualquer coisa. Da descoberta que tudo clareia, da sombra do obscurecimento. Nasceu na Ucrânia e veio para o Brasil com pouco mais de um ano. Chegando aqui, seu pai mudou os nomes de quase todos os membros da família – Clarice, tornou-se Haia, que em idiche significa Vida. Em seu túmulo está escrito – Chaia bat Pinkhas – Haia ou Chaia não consegui descobrir. Bat, filha de PinKhas, que no Brasil chamou-se Pedro. Que também é o nome de seu primeiro filho, esquizofrênico. Casou-se com o diplomata Maury Gurgel Valente e se apaixonou por dois outros homens, que influenciaram bastante sua escrita – O escritor Lucio Cardoso, homossexual assumido. O cronista mineiro, Paulo Mendes Campos, casado. Mas tudo indica que também fosse lésbica. Seu cão Ulisses, companheiro inseparável, mordeu-lhe o rosto. Fumante inveterada provocou um incêndio em seu próprio quarto, com queimadura séria no rosto.

Clarice era uma bruxa. Daquelas bruxas cuja magia nunca acaba. Mesmo depois de morta, continua encantando. E nós, os encantados, buscando com sofreguidão o entendimento que nos livrará desse feitiço.

 

 Maria Olimpia Alves de Melo


Por minha vida

Respiro, suspiro, inspiro e vou. Sem rumo, sem trégua, sem juízo, sem timo. Buscando, ouvindo, falando mais do que sentindo. E corro, e como, e amo mas acho que não vivo. Vivo? Ao vivo? Quando estamos juntos, será que não estamos perdidos? E se o dia chega e tudo clareia, penso que me encontro na cama sempre cheia. Mas a lua sobe e a noite me esvazia, nesse escuro que me anoitece reconheço minha sina. A buscar, contos de menina, uma estrela perdida. A sorrir, educada filha, criação que o mundo ensina. A pensar, para quê, se é dor que isso traz. A mentir, só quando mais mal não pode ser deixado para trás.

Vem a onda. Afogo. Tudo está longe enquanto me sufoco. E na réstia, no grito, no segundo infinito, venho a tona por mim e em meu colo encontro abrigo. Agora estou comigo. E tudo vai ficar bem.

Marina Costa