Melancolia

 

Melancolia 

 

Bem cedo, de manhã ainda, fui atacada por uma onda de tristeza, algo assim repentino, mas de causa aparente declarada. Tinha saído para colocar o lixo reciclável no portão, porque segunda feira é o dia que o caminhão deveria passar recolhendo em minha rua. Mal tinha colocado o saco branco pendurado na grade (era pouco lixo) e parei estática, atacada por uma tristeza súbita – seria isso a tal de melancolia? Fiquei ali, parada, encostada no pilar que separa as duas garages, os olhos fixos no chão. Uma, duas pessoas passaram por mim e me olharam de forma exclamativa e interrogativa – o que será que esta dona está fazendo encostada nessa parede com esse jeito assim esquisito !? Foram buscar a resposta seguindo meu olhar que se alternara deles para um ponto fixo no chão onde uma pomba estava parada, encolhidinha, sem a menor menção de sair dali, andando ou voando e certamente a ninguém a resposta agradou porque continuaram a subir a rua negaceando a cabeça, pra lá e prá cá e nem duvido, mas não afirmo porque não vi, fazendo o indicador girarrodopiar na própria têmpora. 

 

A pomba estava ali, parada, sozinha no mundo, sem saber o que fazer da própria vida. Era uma ave suja e feia, dava até para perceber que era bastante idosa e estava com medo. Com dificuldade eu me aproximei e seu corpo inteiro se contraiu. Eu não sabia o que fazer, não queria deixá-la ali a mercê dos moleques de rua que tiram sarro de tudo sem nem mesmo saber a razão, nem a disposição dos cachorros da rua esfomeados que a atacariam sem um pingo de piedade. Também não podia levá-la para casa, conheço bem meus dois pequenos, o Pongo e o Joca e, a menos que ficasse vigiando os três, certamente uma tragédia ocorreria. Mesmo assim peguei-a cuidadosamente e coloquei-a para dentro do portão de entrada, sabendo que ali, pelo menos, estaria protegida e a danadinha, talvez por tanto medo, logo me sujou o chão, como se estivesse de piriri. 

 

Droga, eu nem mesmo gosto de pomba, as que vivem por aqui só sabem fazer sujeira, nosso corredor anda sempre sujo, tivemos que colocar tela ao redor de todas as entradas do telhado para impedir que ali fizessem ninho e farreassem a noite inteira, então por que essa tristeza continua e eu continuo pensando na pomba lá fora? 

 

Fui até a cozinha para tomar o meu café e preparar uma comidinha para os pequenos, mas a tal pomba velha e solitária não saia de minha cabeça. Juntei miolo de pão em pedaços bem pequeninos e levei até lá, colocando no chão. Como ela não se interessou coloquei em minha mão e tentei colocar um pedacinho em seu bico. Nada. Eu precisava ir embora, cuidar da minha vida e fui, mas mesmo indo, levei comigo a tal tristeza aparentemente de causa declarada. 

 

Voltei trazendo comigo a tristeza e ela continuava lá, os farelinhos do miolo de pão também, intactos, e os cocozinhos duplicados, triplicados, sei lá. Danadinha pensei, não tem força nem para comer, mas não para de fazer sujeira. Fiz o que tinha que fazer e antes de voltar para o segundo turno do trabalho recomendei a Fran, que antes de ir embora a levasse dali, eu não queria mais vê-la no pressuposto de que o que os olhos não vêem o coração não sente. Que a levasse dali, mas a colocassem em um lugar seguro, em um canto protegido da pracinha da rua logo abaixo. 

 

Nem deu para pensar na pomba tão atribulado foi a minha tarde, mas chegando em casa ela não estava mais lá e a escada limpinha, limpinha.  Olhei o lixo ainda pendurado na grade da minha garagem, olhei os sacos de lixo de toda rua colocados junto a um muro em frente, afinal o lixeiro que deveria passar todas as segundas feiras mais uma vez falhou. Logo que entrei perguntei a Fran: Levou a pombinha e a colocou em lugar protegido? Bem que tentei, respondeu ela, mas assim que cheguei perto dela, saiu andando ligeirinha e foi para o outro lado da rua. Soube que ficara na pontinha da calçada, correndo o risco de ser atropelada pelos carros raspantes e resolvi dar uma olhada: não havia corpo nenhum ali, nem sinal de penas ou sangue. 

 

E se vocês que me lêem pensam que a tristeza acabou só porque a pomba sumiu? Estou aqui fazendo minha última tentativa para me esquecer dessa Paloma triste e seu destino .Escrever talvez seja a melhor forma de catarse.

 

 

 

 

 

2 comentários em “Melancolia

  1. Seus relatos, bastante confessionais, são sempre muito bonitos e costumam ter aquela dose de melancolia boa.

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