Arquivo do mês: fevereiro 2012

Eles

Ela ostenta a experiência que dois divórcios precedem
Ele declara a falência da instituição matrimonial a cada sol poente
Ela quer filhos
Ele, talvez

Ela mora no centro
Ele não mora, se esconde
Ela gosta de sair à noite
Ele prefere o sol que tudo ilumina

Ela visita a família com frequência
Ele ignora as ligações dos parentes
Ela gosta de sua independência
Ele se ressente

Ela lembra das paixões antigas com nostalgia
Ele incendeia as memórias com música de metal
Ela sorri quando vê um filhote
Ele se afasta

Ela beija amigos no rosto
Ele evita contatos com os outros
Ela chora sempre que assiste Titanic
Ele também

Ela dança sensual
Ele dança engraçado
Ela boceja de boca aberta
Ele boceja refinado

Ela se joga aos sentimentos
Ele joga com os sentimentos
Ela seduz brincando
Ele brinca de seduzir

Ela não gosta de moto
Ele não gosta de voar
Ela não gosta de palavrões
Ele adora a palavra porra

Ela ouve Adele quando está triste
Ele não ouve Adele
Ela ouve Katy Perry quando está feliz
Ele não admite que ouve Katy Perry

Ela se despede com um piscar
Ele só pisca ao paquerar
Ela se despede sem olhar para trás
Ele não para de olhar


E funciona, viu!

Tenho um sapato que faz chover, uma blusa que garante pés na bunda e um bilhete que traz emprego. Estou aberta a negociações, mas apenas dos dois primeiros itens.

É um sapato azul, em estilo retrô, bem comportado. Mas é só entrar no meu pé que aciona os ventos de todos os cantos, uma frente fria vinda da Antártida ou dos Andes, não sei, mas se choca com os ares paulistanos, desafia os meteorologistas de peito aberto e deságua sob o meu minúsculo guarda-chuva.

Pense no que os índios americanos não teriam feito com esse meu sapato? Não íamos ter cenas de dança da chuva nos filmes, nem no desenho do Pica-Pau. Iam todas as índias desfilar com seus cabelos pretos como a asa da graúna e compridos pelas costas, com suas vergonhas tão altas e tão limpas das cabeleiras, de saltos azuis por aí até hoje.

Seriam elas mais poderosas do que as amazonas. Apenas calçando os sapatinhos azuis.

A blusa 100% pé na bunda não se fez de rogada e demonstrou todo seu potencial logo na estreia. Eu teria finalmente o encontro com um sujeito que vinha paquerando há semanas. Era meu aniversário, iríamos a um bar e depois a noite apresentaria seus caminhos.  Pois ele não foi. Tempos depois, em outro encontro dos mais importantes, me recusei firmemente a acreditar nessas histórias de energia e maldição,  vesti a blusa. Ela não se intimidou nem um pouco: chutou-me novamente a bunda. Decidi deixá-la no seu canto. Tem funcionado.

Essa peça também apresenta suas vantagens. Como no caso daquela pessoa que não larga do nosso pé. Ao vestir a minha blusa lilás a interessada poderá ter certeza que o fã insistente a verá com outros olhos. Notará aquelas olheiras que nenhum corretivo consegue apagar, a falta de brilho do cabelo, o pneuzinho escapando aqui e ali. Ou apenas que o motivo de sua obsessão não é assim aquela coca-cola toda.

Quanto ao bilhete, esse eu não negocio por razões sentimentais, mesmo. Juro. A taxa de sucesso é apenas um extra. Foi escrito por uma amiga, quando fiz uma entrevista de emprego há alguns anos. Tem uma passagem bíblica e votos de boa sorte. O fato é que consegui a vaga. E por anos ele habitou minha carteira. Tempos depois, fiz uma limpeza de papeis e o retirei de lá, achando que o recolocaria instantes depois. Esqueci e a carteira foi roubada.

Passado algum tempo, o reencontrei entre alguns papéis no guarda-roupa. Quase liguei à tal amiga para contar, mas achei que até ela me acharia boba, meio supersticiosa. O bilhete agora só uso em ocasiões especiais, como um anjo da guarda de celulose. É provável que não haja nenhum poder esotérico ali, mas quem sabe qual o prazo de validade de uma oração?

 

Aline Viana


Melancolia

 

Melancolia 

 

Bem cedo, de manhã ainda, fui atacada por uma onda de tristeza, algo assim repentino, mas de causa aparente declarada. Tinha saído para colocar o lixo reciclável no portão, porque segunda feira é o dia que o caminhão deveria passar recolhendo em minha rua. Mal tinha colocado o saco branco pendurado na grade (era pouco lixo) e parei estática, atacada por uma tristeza súbita – seria isso a tal de melancolia? Fiquei ali, parada, encostada no pilar que separa as duas garages, os olhos fixos no chão. Uma, duas pessoas passaram por mim e me olharam de forma exclamativa e interrogativa – o que será que esta dona está fazendo encostada nessa parede com esse jeito assim esquisito !? Foram buscar a resposta seguindo meu olhar que se alternara deles para um ponto fixo no chão onde uma pomba estava parada, encolhidinha, sem a menor menção de sair dali, andando ou voando e certamente a ninguém a resposta agradou porque continuaram a subir a rua negaceando a cabeça, pra lá e prá cá e nem duvido, mas não afirmo porque não vi, fazendo o indicador girarrodopiar na própria têmpora. 

 

A pomba estava ali, parada, sozinha no mundo, sem saber o que fazer da própria vida. Era uma ave suja e feia, dava até para perceber que era bastante idosa e estava com medo. Com dificuldade eu me aproximei e seu corpo inteiro se contraiu. Eu não sabia o que fazer, não queria deixá-la ali a mercê dos moleques de rua que tiram sarro de tudo sem nem mesmo saber a razão, nem a disposição dos cachorros da rua esfomeados que a atacariam sem um pingo de piedade. Também não podia levá-la para casa, conheço bem meus dois pequenos, o Pongo e o Joca e, a menos que ficasse vigiando os três, certamente uma tragédia ocorreria. Mesmo assim peguei-a cuidadosamente e coloquei-a para dentro do portão de entrada, sabendo que ali, pelo menos, estaria protegida e a danadinha, talvez por tanto medo, logo me sujou o chão, como se estivesse de piriri. 

 

Droga, eu nem mesmo gosto de pomba, as que vivem por aqui só sabem fazer sujeira, nosso corredor anda sempre sujo, tivemos que colocar tela ao redor de todas as entradas do telhado para impedir que ali fizessem ninho e farreassem a noite inteira, então por que essa tristeza continua e eu continuo pensando na pomba lá fora? 

 

Fui até a cozinha para tomar o meu café e preparar uma comidinha para os pequenos, mas a tal pomba velha e solitária não saia de minha cabeça. Juntei miolo de pão em pedaços bem pequeninos e levei até lá, colocando no chão. Como ela não se interessou coloquei em minha mão e tentei colocar um pedacinho em seu bico. Nada. Eu precisava ir embora, cuidar da minha vida e fui, mas mesmo indo, levei comigo a tal tristeza aparentemente de causa declarada. 

 

Voltei trazendo comigo a tristeza e ela continuava lá, os farelinhos do miolo de pão também, intactos, e os cocozinhos duplicados, triplicados, sei lá. Danadinha pensei, não tem força nem para comer, mas não para de fazer sujeira. Fiz o que tinha que fazer e antes de voltar para o segundo turno do trabalho recomendei a Fran, que antes de ir embora a levasse dali, eu não queria mais vê-la no pressuposto de que o que os olhos não vêem o coração não sente. Que a levasse dali, mas a colocassem em um lugar seguro, em um canto protegido da pracinha da rua logo abaixo. 

 

Nem deu para pensar na pomba tão atribulado foi a minha tarde, mas chegando em casa ela não estava mais lá e a escada limpinha, limpinha.  Olhei o lixo ainda pendurado na grade da minha garagem, olhei os sacos de lixo de toda rua colocados junto a um muro em frente, afinal o lixeiro que deveria passar todas as segundas feiras mais uma vez falhou. Logo que entrei perguntei a Fran: Levou a pombinha e a colocou em lugar protegido? Bem que tentei, respondeu ela, mas assim que cheguei perto dela, saiu andando ligeirinha e foi para o outro lado da rua. Soube que ficara na pontinha da calçada, correndo o risco de ser atropelada pelos carros raspantes e resolvi dar uma olhada: não havia corpo nenhum ali, nem sinal de penas ou sangue. 

 

E se vocês que me lêem pensam que a tristeza acabou só porque a pomba sumiu? Estou aqui fazendo minha última tentativa para me esquecer dessa Paloma triste e seu destino .Escrever talvez seja a melhor forma de catarse.

 

 

 

 

 


Refluxo

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16:31. Suas pálpebras pareciam de chumbo. Tirou os óculos. Coçou com força os olhos, até sentir lacrimejarem. Repôs os óculos. Apoiou o queixo na mão, que apoiou na mesa, sob o cotovelo. Escorreu e quase bateu a testa na tela. Assustado, olhou para os lados. Ninguém fez sinal de chacota. Se recompôs. Abriu novo arquivo. Nem o sistema colaborava, tudo lento, lento, leeeeento… zzz… zzz… Acordou com o próprio ronco. Coração disparado, limpou a baba na manga da camisa. Não poderia ficar ali. Levantou. Tomou um gole de café frio. E mais um. 16:38. Segunda interminável. Olhou pela janela. Imaginou-se pulando. Deitado, olhos fechados, ressonando, que delícia! Quando viu, a xícara já tinha caído. Despistado, conferiu se alguém tinha sido acidentalmente acertado. Parece que estava livre dessa. Voltou. Sentou. 16:41. Não aguentou. Escondeu-se no almoxarifado. E lá ficou, entre pilhas de papel e cartuchos de tinta, até às 8 horas do outro dia. Nunca dormiu tão bem.
 
Marina Costa

A arte de parabenizar

Foto: Fernanda Frias

Sempre que eu presenteava alguém, a tiracolo vinha um cartão. Linhas e linhas de mensagens bonitas, citações, desejos e esperanças de uma vida melhor. E costumava ser muito boa com as palavras nesse sentido, arrancando duas ou três lágrimas do presenteado. Não precisava ser necessariamente aniversário, até em festas juninas eu sabia caprichar nas frases de efeito.

Eu era capaz até mesmo de encontrar músicas e poesias perfeitas para cada momento, para cada pessoa e aí não tinha jeito, eu me via obrigada a deixar a imaginação de lado e me punha a transcrever parte ou ainda a letra toda. Isso, de forma alguma, me preocupava, porque por mais que as palavras não fossem de minha autoria, a carga sentimental que eu depositava nelas era.

Muitas das vezes, o conteúdo era tão intenso que queria ficar com o cartão para mim. Cheguei até a copiar algumas mensagens em uma agenda de tanto que eu havia gostado, mas me recusava a repeti-las nos anos seguintes. Com pai, mãe e irmãs, por exemplo, era covardia de mim para mim mesma!, pois tinha dificuldade para terminar a frase sem molhar o cartão com o choro…

Nunca soube exatamente de onde partira esse meu – vamos dizer – dom. Simplesmente as palavras saiam sozinhas da caneta, pulavam no papel e lá se deitavam sem nem mesmo passarem pela minha cabeça. Mas um dia descobri como eu era capaz de tudo isso, de atingir o coração de crianças, jovens e adultos apenas juntando letrinhas: foi um príncipe muito pequeno que me fez entender que cada pessoa é única a seu modo e que jamais existirão duas que sejam especiais da mesma forma.

E sem saber, eu já tomava isto para mim a cada vez que um cartão se punha aberto e em branco na minha frente. Bastava pensar em tudo o que vivi com aquela pessoa e para aquela pessoa que, aos poucos, o papel ia recebendo tinta, carga de amor, carinho, desejos sinceros e tcharan!, lá estava eu, sorrindo com a obra prima.

Aquele príncipe só fortaleceu ainda mais o que eu já pensava com os meus botões: que o que realmente importa, os olhos não são capazes de ver. Aí descobri porque eram tão especiais as mensagens que eu escrevia, porque elas eram escritas com o coração e o mais importante é que elas eram lidas com o coração também. A troca, enfim, havia sido concluída.

Hoje os cartões foram substituídos pelos e-mails, sites de rede social e programas de mensagens instantâneas. E as minhas expectativas de distanciamento nas relações por conta da internet foram fortemente superadas ontem, quando enviei uma mensagem a uma querida amiga de parabenização pelo seu aniversário. Desejei apenas que ela fosse feliz e que, mais que isso, que ela fosse capaz de enxergar a felicidade em cada passo que desse. Minha surpresa se deu na resposta dela, quando disse: você sempre acerta, você disse exatamente o que eu precisava ouvir…

Então penso que independente da frieza de cada toque das teclas de um computador, é possível, sim!, transmitir a alguém aquilo que, de fato, desejamos, com toda a verdade e sinceridade que nos é cabível. Porque não é a internet, por si só, que esfria os relacionamentos, mas somos nós que desviamos as atenções e os propósitos. Se soubermos deixar que o coração comande o teclado, as emoções não morrerão na rede.

Por isso guardo sempre comigo a lição maior que recebi daquele príncipe e procuro praticá-la com todas as pessoas que me são queridas: sou eternamente responsável por aquilo que cativei.


Loucura, loucura

Alguém já disse que a medicina está tão evoluída que, hoje em dia, ninguém mais pode ser considerado são. Assino embaixo, e diria mais: também a psiquiatria está tão evoluída que poucas pessoas não podem ser consideradas loucas. Diante disso, foi com grande alívio que visitei um hospício e, contra todas as expectativas, não fui barrado na saída.

Meu bisavô Antônio Correia Santos havia morrido num hospício. Eu estava louco para visitar um deles. Mas o pessoal que trabalha lá me alertou: os internos iam tentar me cumprimentar. Imaginei como são loucas as pessoas que tentam nos cumprimentar.  Aceitei o risco. O hospital recebe maníacos, depressivos, esquizofrênicos, psicóticos, suicidas em potencial e, vejam vocês, obesos. Fico sabendo que as melhores atividades por lá são as festas de aniversário. Nessas ocasiões, os loucos podem dançar à vontade, sem se preocupar com o que os outros irão pensar.

Também existem gincanas, filmes e atividades culturais. Há uma sala com uma televisão e uma placa alertando que não se deve assistir durante o almoço e após a novela das oito. Bem se vê que o hospital faz de tudo para manter a sanidade dos seus internos, pois sabemos que é justamente após a novela das oito que começam programas como, digamos, o Big Brother Brasil. E assim os pacientes tentam se entreter, em meio a uma ou outra visita familiar – provavelmente raras.

“Hoje à noite eu volto para casa”, diz um dos internos. Pensamos então que o hospital foi capaz de curar alguém, apesar de tudo. Mas a própria enfermeira nos avisa: “Na verdade, é o primeiro dia dele aqui”. E durante a visita, recebemos lisonjeiros convites dos pacientes para que visitássemos a casa de suas famílias, mas fomos obrigados a nos desculpar: “Hoje não dá, infelizmente”.

Um interno dormia um sono pesado no primeiro lugar em que se encostou. Outro puxava assunto, enquanto escorria sujeira de seu nariz – eis aí um sinal de loucura. Alguns murmuravam coisas que ninguém entendia, ou então reclamavam que já não havia tantas danças como antigamente no Hospital. E as enfermeiras sorriam com complacência. Para elas, basta que se diga um “okay” ou um “tá bom” e eles param de perturbar.

Os pacientes não passam de avestruzes, que mexem a boca para mostrar que estão falando, mas ninguém ouve som algum, ninguém sabe o que querem realmente, e ninguém quer realmente saber.

Mas nem só de loucos vive esse hospital. Há um espaço para viciados. Vejo agora um homem amarrado numa cama, de tão agitado. “O que é isso? O que é isso?”, ele diz. Se mexe de um lado para o outro, tenta se levantar e não consegue. Está em crise de abstinência, explicam. “Essa é uma ala pacata”, avisam. De fato, ninguém veio nos cumprimentar. Pela manhã, os viciados fazem a oração da serenidade, admitindo a impotência diante das drogas. Depois, Deus sabe por qual motivo, cantam o Hino Nacional.

Eles mesmo fazem suas atividades diárias mas, ao tomarem banho, suas roupas são revistadas –  isso porque é comum que a visita traga drogas para eles. E para relaxar, há uma área para consumo de tabaco – uma droga que não faz mal, pelo que deduzimos. Para muitos, o hospital é apenas um bom lugar para fugir dos traficantes. Ninguém irá matá-los lá dentro. E assim, o hospital acredita contribuir para livrar a sociedade de pessoas que julga inconvenientes.

É, Luciano Huck… loucura, loucura, loucura.

Henrique Fendrich


Índio na pista

 

Cena 1

 

            Não há movimento, nenhum carro transita pela Avenida. O dia segue sem problemas e o silêncio é o que mais incomoda. É sábado, são três da tarde, o Sol brilha ditando o ritmo. O céu está todo azul, não há nuvens. A cidade é mansa, corre vagarosa, avesso metropolitano. Três pessoas na rua, uma moça e dois rapazes; a moça está de salto alto, carrega uma sacola com logotipo, acaba de fazer compras e deve ter os pensamentos no jantar logo à noite; os rapazes conversam, riem muito, percebem a moça, os olhares procuram o de sempre: nádegas e seios.

 

Cena 2

 

            Aparece um índio. Ele dorme  no gramado do canteiro central. Seus trajes são horrendos, vestimentas rasgadas, ao seu lado, bebida alcoólica. Parece ter acordado, levanta-se vagarosamente, cai por cima da sua bicicleta, relíquia antiga, pintura fosca, vermelho desbotado. Esforça-se para manter-se ereto, apóia-se na bicicleta, consegue, enfim, se equilibrar. Vai deixar o canteiro, olha para cima, coloca as mãos no bolso, não encontra o que procura, certamente foi roubado. Mal abre os olhos, um carro se aproxima. Ele inicia a travessia. No meio da rua, o veículo atinge-o de leve.

 

 

Cena 3

 

            Era sua última entrega; a serviço de uma loja de móveis. Guia um saveiro, passa a trafegar pela Avenida, numa lentidão que impressiona. No meio da pista, o índio carrega – ou é carregado por- sua bicicleta. Ele o assusta, atingindo-o de leve. O índio sai cambaleando e acaba desabando a beira do meio-fio. Ele desvia, cospe pela janela, e segue viagem. O índio continua caído.

 

Cena 4

 

            Chega à sua casa, estaciona o saveiro na garagem. A mulher acabara de chegar do mercado, trazendo consigo os ingredientes para o preparo da sua já famosa lasanha. Ele agarra-a por trás, beija-a. Ela aceita as caricias, mas pede que ele se arrume logo, breve o jantar será servido; mas a tarde mal acabara. Seis horas.

 

Cena 5

 

            O pai telefona e pede para a família se arrumar: vão jantar na casa de amigos. A mulher e os três filhos tomam banho, rapidamente; estão prontos e a espera do homem da casa. Seis e meia, começa a escurecer, os grilos começam a cantar. O mais novo dos filhos, inquieto, pergunta a mãe a que horas o pai os levará. O pai joga baralho com os companheiros, o jogo acaba e ele lembra-se que tem que  buscar a mulher e os filhos.

 

Cena 6

 

            O índio, junto ao meio-fio, segue, carregando sua bicicleta, para a aldeia, aonde reside. Para chegar ao seu destino, deve percorrer cerca de três quilômetros pela rodovia que corta o município. Na rodovia, diferente da cidade, o tráfego é intenso, caminhões e carretas se deslocam em altas velocidades; motoristas alcoolizados e cansados dirigem suas máquinas.

 

Cena 7

            O caminhoneiro está cansado; quase não dormiu nas últimas três noites. O calor é intenso, a luminosidade diminui, é a noite que chega. Os faróis estão acesos. O caminhoneiro tira a camisa, segue viagem. Muitos buracos na pista, desviar deles é uma tarefa difícil. Ao longe, a cidade se mostra timidamente. Mais uma parte do longo caminho fica para trás. Não se respeita a sinalização, os veículos passam dos noventa quilômetros por hora. A Lua já aparece, são seis e quarenta e cinco.

 

Cena 8

            A família entra no carro. O caminho mais rápido até a casa dos amigos corta a rodovia. Os filhos brincam ou brigam – não se sabe ao certo – no banco traseiro. Na frente, a mãe e o pai discutem qualquer assunto. O pai reduz a velocidade porque avista um índio  trezentos metros adiante. O índio cai e se levanta. Os carros param; índio na pista.

 

Cena 9

 

            O pai desce do carro para ajudar o índio. O carro fica no acostamento. O índio é arrastado até a extremidade da rodovia. Tudo certo, o pai volta para o veículo, gira a chave e o carro reage. As crianças perguntam o que aconteceu. O pai não diz nada; a mãe pede silêncio. O índio apóia-se na bicicleta e olha para trás. A noite já não se esconde. Passou das sete. A família não chegará a tempo.

 

Cena 10

            O casal espera os amigos com certa ansiedade. São sempre pontuais e já são quase oito horas. Algo de ruim deve ter acontecido, ambos pensam na possibilidade, mas nenhum dos dois põe ela em discussão. Os telefones dos convidados estão desligados, cai sempre na caixa postal. O desespero é visível no rosto dela; ele, como marido, tenta dissuadi-la de qualquer ideia malévola. Pouco tempo depois, são informados do acidente.

 

Cena 11

            O circulo se fecha. O caminhoneiro acelera, o índio segue cambaleando. O caminhão se aproxima, o índio cai na pista. O pai vê, a família grita; já não havia mais tempo. O índio tem a cabeça esmagada pelo caminhão. O cérebro como que salta para o meio da pista. O caminhoneiro tenta fugir, acelera mais. O pai também acelera, desvia daquilo que parece ser o cérebro do índio, e consegue impedir a fuga. É tudo muito rápido. As crianças já não estão no carro. O caminhoneiro está com as duas mãos na cabeça e grita, e chora: “O que foi que eu fiz?” A cena é indescritível. Mas vamos a ela.

 

Cena 12

            Pequeno congestionamento se forma. Um tumulto surge em volta do índio; outro grupo espia o cérebro no meio da pista. A polícia chega; a ambulância chega. A noite vai acabar. A imagem que fica é a de um índio com a cabeça esmagada, feito bola de borracha. Um dos filhos pergunta se o índio ainda vive.