As boas qualidades

As boas qualidades

 
 
Conheça-te a ti mesmo, já dizia Sócrates. Nunca antes essa máxima filosófica esteve tão em evidência como agora, nos tempos modernos. É à base da auto-ajuda. De que vale ter todos os conhecimentos do mundo se não conseguimos conhecer não só o nosso interior e por que não, também o nosso exterior?

 

 
 
As pessoas começam a pensar e pensar e aí encontram mil e um defeitos descobrindo a necessidade de combatê-los, transformá-los em boas qualidades. São tantos os defeitos que ela desiste. Larga pra lá. Reunem-se às vezes para falar dele e dizem eu sou isso e sou aquilo preciso parar com isso e com aquilo outro.

 

 
 
Certa vez fiz um desses cursos místicos para aprender a me conhecer e a melhorar. Entre as coisas das quais me lembro está a questão de preconceito. Pediram que listássemos nossos preconceitos, mas tão logo apresentávamos a nossa lista por escrito éramos instados a voltar e a pensar melhor. Todos recebemos esse convite desde quem alegava não ter preconceito nenhum aos bem assumidos. Tem mais, procura que acha. Como doença. Se você sai procurando acaba achando. Eu me lembro de ter ganhado a competição (porque no fundo era uma competição). Listei trezentos preconceitos conferidos para eliminar os repetidos. Achei uma bobagem sem tamanho, mas se era para fazer, fiz.

 

 
 
É algo que me deixa desconcertada – quando reunimos para enumerar nossas características só falamos das ruins. Por que será? Acho que temos vergonha de falar sobre nossas boas características. O que vão pensar de mim, deve ser o que pensamos. Onde está a modéstia, o recato? Quem quer saber das coisas boas que tenho em meu interior e que gostaria de compartilhar? Ninguém. Temos vergonha de dizer para nós mesmos quais as boas qualidades que temos e estamos sempre justificando o fato de sermos virtuosos. E é aí onde acho que mora o erro. Vou explicar.

 

 
 
Se eu quero realmente me conhecer por que não começar listando para mim mesma o que de bom eu tenho, que trago como característica de minha individualidade? Eu sei que tenho boas qualidades e uma amplidão de defeitos. Mas as qualidades é que deveriam ser valorizadas, não os defeitos. Não estou com isso querendo dizer que devemos ficar nos pavoneando por aí, mas devemos olhar bem o nosso eu interior e descobrir as coisas boas que temos, pois será a partir delas que poderemos combater as más inclinações. E quando tivermos conversando com amigos, ou fazendo work shops de autoconhecimento ou se tratando com um médico, falar de nossas boas qualidades.

 

 
 
Por que eu deveria realçar os meus defeitos, torná-los mais fortes ainda, transformá-los em cicatrizes de meu caráter que só sairão com uma cirurgia plástica espiritual e não realçar as minhas qualidades?

 

 
 
Eu tenho algumas qualidades das quais gosto. Minha tia/madrinha um dia me disse: Você é boa como seu pai. Seu pai era um homem muito bom e você herdou isso dele. Fiquei feliz. Por ver a bondade de meu pai reconhecida e por ter herdado isso dele. A partir daí passei a analisar as minhas atitudes sob a luz da bondade. Não fiquei muito convencida. Muitas vezes a minha bondade não passava de preguiça. Comodismo. Mas a partir de uma característica positiva tentei pelo menos eliminar os meus atos supostamente bons, mas que na verdade não passavam de comodismo, falta de pulso. Valeu mais do que se eu estivesse combatendo o meu comodismo.

 

Minha mãe me disse: você não se parece nada comigo, nem fisicamente nem na maneira de enfrentar a vida. Mas tem uma coisa que você herdou de mim. Você é confiável porque não mente e é honesta. Aí a coisa complicou. Ser honesta nunca foi difícil porque acredito piamente nessa afirmativa: o que é seu é seu, o que é meu é meu. Mas não mentir? Será que eu não minto mesmo, hora nenhuma? Pode ser que sim, pode ser que não. Mas realmente para mim é difícil mentir. Não consigo fazer isso na cara dura. Minhas amigas perguntam: por que não veio a reunião? Eu respondo: porque estava com sono e queria dormir. Por que não fez o exercício de Inglês (eu estudo, mas não saio da base)? Eu respondo: preguiça.
 
O motivo? Por que estou falando sobre isso aqui? Porque resolvi desafiar a cada um de meus leitores a listar pelo menos cinco boas qualidades que possuem e se concentrar nelas, conhecê-las bem para poder utilizá-las como arma no combate às próprias deficiências. Aqueles que forem modestos (eu não sou) podem ficar com elas dentro de si próprio, mas quem for um pouquinho mais ousado, que ponha para fora contando a todos nós.
 
 
 
 

 

 
 
 

 

 
 

3 comentários em “As boas qualidades

  1. Já passei por várias entrevistas de emprego em que as pessoas pedem para eu listar as minhas qualidades e, não é que eu ache que não tenha nenhuma, mas é que pra mim as “minhas qualidades” não tem nada de mais, poderia até dizer que são características, coisas que simplesmente fazem parte de mim como ter um nariz e duas orelhas, rsrsrs Estranho seria se eu não fosse daquele jeito. Mas enfim, é um bom exercício esse seu, vou tentar fazê-lo 😉

  2. Cinco qualidades? aiaiai, eu tenho sido o rei da autocrítica. Tentarei, mas acho que não serei ousado para contá-las (veja aí minha timidez, que nao é das boas qualidades).

  3. Interessante seu questionamento… e sempre que há uma entrevista de emprego ou um confronto pós depressão com o espelho tendemos a pensar sobre o que deveria estar fixo em nossa mente. Eu? Vou falar de qualidades, mas confesso que logo veio em minha cabeça os defeitos, mas vá lá! Simpática, otimista, divertida, inteligente e sincera. Um conjunto para atrair ou afastar! Mas eu gosto de mim assim!! Acho que peguei a moral da história, hein?

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